A oração dos aflitos

Carlos Chagas

Deixando de lado as baixarias que apenas começaram nos horários de propaganda eleitoral obrigatória, importa indagar se tem razão aqueles que imaginam excepcionais viradas para seus débeis candidatos, apenas pela simples exposição nas telinhas e microfones. É bom ir com calma, pois a propaganda eleitoral obrigatória nada tem a ver com a finada “pomada maravilha” do tempo de nossos avós, que comprada nas farmácias servia para curar fraturas, dores de cabeça, pedra nos rins e desencanto com a vida.

Trata-se, para aqueles que até agora não decolaram nas pesquisas, de uma simples taboa dita de salvação em meio ao mar encapelado. É a oração dos aflitos, que jogam todas as suas esperanças na alteração de tendências do eleitorado. Pode até ser que muita gente mude de candidato, ou encontre o seu, assistindo e ouvindo a propaganda, mas jamais se poderá supor a inevitabilidade das mudanças. Pelo contrário, demonstra a observação de pleitos anteriores serem pouco freqüentes as meteóricas ascensões de quem começa por baixo. Acontecem, é claro, ainda que sem regras fixas.

Exposta a teoria, vamos à prática: conseguirão Fernando Haddad, Gabriel Chalita, Paulinho da Força e penduricalhos superar a obvia liderança de José Serra e Celso Russomano? É possível, nunca provável. A imagem do Lula nas telinhas e sua voz rouca nas rádios, pedindo votos para o companheiro, será a varinha de condão responsável pela transformação do sapo em príncipe? Ou fotografias do dr. Ulysses, de Tancredo e de Teotônio, junto com apelos de Michel Temer, bastarão para tirar o candidato do PMDB do pelotão dos derrotados? Que influência terá o finado Leonel Brizola na escolha de seu correligionário?

A propaganda eleitoral obrigatória serve para definir as eleições que se encontram empatadas, quer dizer, quando geralmente dois candidatos ocupam ou alternam-se na liderança das pesquisas e um deles consegue sobrepujar o outro através de melhor performance nesse período. No caso, Serra e Russomano poderão valer-se da exposição ao eleitorado. Mesmo assim, será apenas um dos diversos fatores responsáveis pela vitória de um deles. Se este sobe e aquele cai, fácil não será inverter o processo.

De acordo com o tempo de que dispõem, os candidatos a prefeito de São Paulo começam a abordar problemas e soluções para a cidade. Quase sempre fantasiosas, as promessas conseguirão sensibilizar o eleitor cuja paciência o faz permanecer prestando atenção nas mensagens? Ou a reação mais natural de quem ouve ou vê será aquela tradicional, de descrédito e até de indignação? Quantas vezes o cidadão já se decepcionou?

Em suma, os horários de propaganda eleitoral obrigatória começaram e se estenderão até 4 de outubro. Servirão para alimentar sonhos que as urnas irão desfazer ou farão o milagre da multiplicação de votos?

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EXAGEROS

Podem até ter razão os grevistas do serviço público, pressionados pelos vencimentos que vão perdendo poder aquisitivo e pela ausência de planos de carreira. O problema é que não para aceitar a paralisação de certas categorias, como a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal. Sem falar nas Polícias Civis de diversos estados.

Tome-se o que se passa na fronteira do Brasil com o Paraguai, em Foz do Iguaçu. Normalmente já se torna difícil evitar o contrabando e o tráfico de drogas. Parados os servidores encarregados da fiscalização, a fronteira tornou-se o paraíso dos criminosos. Passa tudo, de lá para cá. Se quisessem contrabandear um elefante, os bandidos conseguiriam.

Ninguém é obrigado a entrar para as polícias. Mas se entra, deve subordinar-se aos regulamentos da lógica, o maior dos quais é de preservar a ordem, não a desordem.

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