Vale o escrito

Sebastião Nery

14 de dezembro de 1968. O Brasil acordou com o AI-5 na cabeça e o ministro da Justiça Gama e Silva com a ressaca na boca. Iracema Silveira, mulher de Joel Silveira, telefonou para Rubem Braga:

- Prenderam Joel. Cuide-se.

- Vou tomar uma providência.

E fugiu. Foi para a casa de Fernando Sabino. À tarde, Rubem liga para a casa dele, a empregada tinha notícias:

- Doutor Rubem, chegaram aqui dois homens de cabelinho cortado, com um jipe lá embaixo, procurando o senhor.

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BRAGA

Fernando e Rubem telefonam para Adonias Filho, amigo do general Sizeno Sarmento, rei da Vila Militar. Daí a pouco, Adonias, eficiente, chama:

- Falei com o Sizeno, ele disse para o Rubem ficar onde está e aguardar instruções.

Rubem ficou três dias onde estava: no uísque de Fernando Sabino. Adonias ligou de novo:

- Rubem, você vai ser ouvido, mas não vai ser preso. Será ouvido por um ex-colega seu da FEB (Força Expedicionária Brasileira), o coronel Andrade Serpa. Amanhã, às 8 da manhã.

- Não pode ser às 10? É muito cedo.

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“CONSTANTINO”

No dia seguinte, chega ao quartel, o coronel Serpa o espera:

- Dr. Rubem, bom-dia.

- Serpa, se quer me tratar com cerimônia, me chame embaixador e eu o chamo de coronel. Sem cerimônia, continuo Rubem e você Serpa.

Rubem depôs até às 9 da noite. Suas crônicas, pilhas delas, estavam todas sobre a mesa do coronel, marcadas, grifadas em lápis vermelho forte:

- O que é que você quis dizer com estas frases aqui, Rubem?

- Serpa, você conhece o “Constantino”, aquele jogo do bicho de Niterói? A pule diz assim: “Vale o que está escrito.” Minhas crônicas, Serpa, são como o “Constantino”. Valem o que está escrito.

E voltou para o uísque mineiro e generoso de Fernando Sabino.

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MENSALÃO

Bastou um dia de julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal para as máscaras de Lula, do PT e da maioria dos 38 réus se espatifarem no chão. É um festival de mau-caratismo, cada um se escondendo embaixo da cama e denunciando o companheiro mais próximo.

Se Lula tivesse o tamanho de um líder político e não fosse o pigmeu que é, teria feito o que Fidel Castro fez em Cuba, depois do frustrado assalto ao quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953: assumiu todas as responsabilidades de líder e deixou que um dia a Historia o julgasse.

O PT inteiro e o pais sabem hoje, como contei aqui na semana passada, que o Mensalão nasceu da decisão de Lula, logo depois da eleição de 2002, comunicada e logo aceita por José Dirceu e pela direção nacional do PT, de comprar o apoio dos pequenos partidos para garantir maioria no Senado e na Câmara, em vez de negociar politicamente ministérios com os partidos cuja maioria o havia apoiado no segundo turno : PMDB, PDT.

Depois Lula disse que “o Mensalão nunca houve”, “foi uma farsa”, foi “apunhalado pelas costas”, aquelas baboseiras todas que repete até hoje.

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DIRCEU

Todos se escondem dentro das próprias cuecas. O valente “guerrilheiro” José Dirceu, que, segundo o Procurador Geral da Republica, “chefiava a quadrilha”, tem o desplante de dizer que também não sabia de nada, era “apenas um burocrata” da Casa Civil e quem mandava no partido e no balcão de negócios do governo era Marcos Valério, Genoino, Delúbio.

Dirceu chega ao extremo ridículo de dizer que “não tinha conhecimento dos assuntos financeiros do PT”, conhecia Valério apenas de vista e nega até que tenha pedido a ele, e conseguido, no Banco Rural, um empréstimo e um emprego para sua ex-mulher Angela Zaragoza. Todo o PT fez operação plástica. Ninguém conhece mais ninguém.

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