José de Alencar, o filho do padre

Sebastião Nery

Cearense de Sobral, gênio da raça, nosso professor de grego, latim, português e todas as sabedorias literárias, no seminário aqui da Bahia, o padre Correia não nos deixava ler seu conterrâneo José de Alencar:

- Tem mulher demais. É “Iracema”, “A Viuvinha”, “Lucíola”, “Diva”, “Senhora”, “A Pata da Gazela”. Esse filho de padre não fez só uma obra literária. Fez também um harém, impróprio para jovens seminaristas – dizia.

Quando saí do Seminário, tirei a diferença. E descobri o grande patrono do nacionalismo literário brasileiro, “chefe aclamado da literatura nacional” (Machado de Assis), na “busca ansiosa de uma intensidade e ressonância brasileira” (Augusto Meyer”), “preocupado em dar um conteúdo eminentemente nacional a seus livros” e atualíssimo em sua luta para escrever “em língua brasileira, com um sentir brasileiro”.

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O DEPUTADO ALENCAR

1. José de Alencar nasceu em Macejana, em 1829, e morreu no Rio, como deputado, em 1877, aos 48 anos. Foi quatro vezes deputado pelo Ceará, de 1861 a 1877, mas nunca foi senador porque, embora eleito na lista tríplice, o imperador, que não gostava do jornalismo crítico dele, o vetou.

2. – Dizem que José de Alencar teria “lutado pela maioridade de dom Pedro II”, que foi antecipada e reconhecida em 1840, mas naquela época ele tinha apenas 11 anos (já que nasceu em 1829)

3. – O pai de José de Alencar, padre José Martiniano de Alencar,  foi senador, aliás, “o primeiro senador a ser escolhido durante o período regencial, em 1832, e teve atuação destacada no movimento que antecipou a maioridade de dom Pedro II, em 1840”(Enciclopédia Britânica).

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O PADRE PAI

De certa forma ofuscado pelo sucesso do filho, o pai padre José de Alencar foi um grande sujeito, com uma bela vida pública, até mais valente e bonita do que a do filho, que ainda teve a honra de ser neto de Bárbara de Alencar, a heroína cearense da Revolução de 1817.

Ainda seminarista, o padre Alencar participou, com a mãe, da Revolução de 1817. Presos juntos, levados para Pernambuco, o padre ficou quatro anos na cadeia. Em 1821, saiu da prisão e foi eleito deputado às Cortes de Lisboa, que abandonou, “por não concordar com as medidas neocolonizadoras aprovadas contra o Brasil”.

“Deputado à Constituinte de 1823, dissolvida por d. Pedro I, figurou entre os principais chefes da Confederação do Equador. Preso em 1824 e remetido ao Rio, após um ano de reclusão foi absolvido”.

Eleito deputado em 1830 para a segunda legislatura do Império, em 1834, já senador, foi nomeado presidente do Ceará, até 1837, voltando à chefia do Estado em 1840. Morreu no Rio em 1860 (nasceu em 1794).

As ruas e praças do Ceará dedicadas ao “Senador Alencar” são dele, e não do filho escritor genial.

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MAGALHÃES E GLADSTONE

Sobre José de Alencar, o filho, há dois excelentes livros: “José de Alencar e Sua Época”(1917), de Raimundo Magalhães Júnior, incansável e fecundo jornalista e historiador, que escreveu sobre tudo.

E Gladstone Chaves de Melo, sábio lingüista, durante tantos anos da “Tribuna da Imprensa”: – “Alencar e a Língua Brasileira”(1972).

Alencar continua tualíssimo, como um dos patronos do nacionalismo brasileiro.

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