Dependendo da inflação, rentabilidade da poupança pode ser igual a zero

Pedro do Coutto

Com o novo recuo da taxa Selic, entraram em vigor as novas regras para reajustar os depósitos das cadernetas de poupança a partir de hoje. O governo anunciou os índices prováveis em função das oscilações da TR, mas não incluiu no cálculo a inflação estimada pelo IBGE para este ano. Se ela repetir a de 2011 (6,3%) a rentabilidade será igual a zero. No último exercício, foi de apenas 0,8%, uma vez que os saldos giraram com 7,1 pontos.

Necessário fazer-se o confronto para esclarecer bem a questão. Vamos colocar cores nos números. Pior ocorreu com o FGTS: registrou perda de 2,7%. A correção anual ficou em 3,6, resultado portanto negativo. A diferença ficou com a Caixa Econômica Federal. Agora, maio de 2012, o panorama tornou-se mais crítico: os saldos do Fundo de Garantia receberam atualização de somente 0,26%. Em vez de irem para a frente, encolheram.

Reportagens de Gustavo Patu e Marli Prado (Folha de São Paulo). Gabriela Valente e Roberta Scrivano (O Globo) e de Iolanda Pordelone (O Estado de São Paulo) focalizaram claramente as decisões do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional. Lembraram que o sistema (para a poupança espontânea) parte de 0,5 mensais acrescidos da TR. Sabem os leitores quanto deu a Taxa de Referência fixada pelo Bacen nos primeiros cinco meses de 2012? A FSP publicou mês a mês. Somente 0,16%. A projeção para doze meses, assim, não chega a meio ponto. Enquanto isso, de abril de 2011 a abril de 2012, o índice inflacionário alcança 5,1 pontos.

A margem de resultado real, de pequena, transformou-se em ínfima. Sujeita a chuvas. Porque não se sabe se a espiral monetária vai se manter neste patamar ou subir mais um ou dois andares.

Segundo projetou a reportagem de O Estado de São Paulo, assinada por Iolanda Pordelone, pelo cálculo antigo, as 100 milhões de cadernetas existentes (saldo total de 470 milhões de reais) renderiam nominalmente 6,7%. Porém, pelo novo cálculo devem descer meio ponto estacionando na escala de 6,2%. Isso já incluindo a perspectiva provável da Taxa de Referência para 2012.

O quadro é sinuoso, há muitas curvas no percurso. Não será fácil vencê-las e segurar as rédeas inflacionárias. Diversos fatores políticos e psicológicos, além dos econômicos, influem sempre. Tanto assim que se contem pelos dedos as previsões que se confirmaram ao longo do tempo e da história.

São raras, pois os imprevistos, em múltiplas circunstâncias, tornam-se essenciais. O Plano Cruzado Um, governo Sarney, fevereiro de 86, representa algo emblemático. De uma previsão de inflação zero – vejam só – aquele ano eleitoral fechou com um índice de 70%.

Decreto elaborado pelo ministro Saulo Ramos, na passagem para 87, que o presidente da República referendou, corrigiu os preços das empreitadas e dos fornecimentos exatamente em também 70%. O decreto, surpreendentemente, não incluiu os salários. Desnecessário frisar que os valores do trabalho humano desabaram. As consequências até hoje são visíveis no processo de favelização dos centros urbanos. Na falta de saneamento e na limpeza urbana. E que dizer do meio rural?

As grandes empresas não perderam nada. Os trabalhadores e servidores públicos sim. Uma rotina brasileira. Que agora ameaça continuar e girar a partir dos saldos das cadernetas de poupança. Só lembrando Vinicius de Moraes e Tom Jobim: tristeza não tem fim. Felicidade sim.

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