Quem está dentro não sai, quem está fora não entra?

Carlos Chagas 
                                              
Seis meses depois, para quantos  dedicam-se a analisar a mudança de guarda no governo, do Lula para Dilma, não apenas sobressai a diferença de estilo entre os dois. Salta aos olhos, também, fenômeno antropofágico jamais registrado nos governos de continuidade militar.  Porque naqueles idos, a turma do marechal Costa e Silva não se dava com a  turma do marechal Castello Branco, assim como a ala de Garrastazu Médici foi passada para trás pela ala de Ernesto Geisel, caracterizando-se João Figueiredo como o único preocupado em aproveitar o conjunto inteiro. Mas em nenhum momento registrou-se a frenética disputa por cargos entre os generais e os coronéis de um lado e de outros.  Acomodavam-se todos, aguardando  sua vez em posição de sentido.   
                                              
Nessa nova experiência de continuidade de governos, porém,  nota-se  canibalismo puro, em especial no PT. Nem se pode dizer que existe uma  tropa de Dilma, ainda em formação, oposta  ao exército do Lula. A verdade, porém,  é que  companheiros menos aquinhoados com cargos públicos na administração passada  avidamente lançam-se sobre lugares ocupados por companheiros certos de  permanecer onde se encontram.  O embate no partido oficial chega a superar o confronto entre PT e PMDB, em busca de nomeações.
                                              
O  Lula preencheu até demais sua quota de continuidade no primeiro escalão, ao sugerir ou até  impor o aproveitamento de Antônio Palocci, na Casa Civil, Gilberto Carvalho,  na Secretaria Geral, Guido Mantega, na Fazenda, Fernando Haddad, na Educação, Nelson Jobim, na Defesa, Luis Inácio Adans, na AGU, Paulo Bernardo, nas Comunicações, e outros. 

O problema é que o ex-presidente não aguenta mais a dupla  pressão, uma de petistas querendo entrar, outra  de petistas  querendo ficar.  A mesma coisa acontece com Dilma Rousseff, até aconselhada a fazer como se fazia em bailes de gafieira quando o clima esquentava: quem está dentro não sai, quem está fora não entra.
                                                  
No fundo, quem sofre é o governo atual,  porque do que menos se cuida, nessa briga de foice em quarto escuro, é da capacidade e do valor dos que lutam para ficar ou para entrar. Poucas vezes se tem visto tão pouco despreparo por parte dos candidatos ao segundo e ao terceiro escalões. Registre-se que até os terceirizados nos diversos ministérios chegam sem conhecer o mínimo das funções que vão exercer. São indicações políticas enfraquecendo as  estruturas,  muitas delas  já fracas,  do governo anterior e, pior ainda, não raro substituindo  técnicos de competência comprovada. O problema assume proporções preocupantes e deveria estar sendo monitorado pela Casa Civil, mas nesses dias de aflição para o ministro Antônio Palocci,  mais se avolumam as pressões, ironicamente estimuladas por companheiros que deveriam estar tentando respaldá-lo. 
 
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CRIME SEM CASTIGO 
 
Horroriza-se quem passa pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília.  O gramado que separa as diversas unidades do Executivo transformou-se num mafuá, verdadeiro pátio dos milagres. Ainda semana passada centenas de caminhões invadiram o amplo jardim,  descarregando toneladas de lama e   erigindo montículos e montões  de terra e de detritos. Para  que? Para que lá, com o palácio do Planalto, o Congresso e  a sede do Supremo Tribunal Federal bem perto, fosse  disputada uma corrida  de motocross. Sábado e domingo foi lama para todo lado, superando  até a política. Meses passarão para  a grama voltar  a florescer naturalmente. 
      
Mas não é só isso. Arenas para disputa de vôlei de praia e campeonatos de tênis tem sido implantadas a poucos metros  da Praça dos Três Poderes, com direito a arquibancadas e toda a parafernália de barraquinhas de cachorro-quente, sorvete, bebidas variadas e uma sujeira sem par. Sem falar em  palcos de todos os  tamanhos, para apresentação de shows de música popular, celebrações de dias festivos, miniparques de diversões, circos e instalações para abrigar grevistas e movimentos de protesto. Sem esquecer tribos de índios que lá acampam por semanas a fio, desprezado até os banheiros-químicos postos para atendê-los, com varais de roupa, fogueiras para esquentar comida e banhos de cuia ao natural.   Em suma, a deterioração completa do que seria um dos maiores  cartões postais de Brasília.
                                                    
O último defensor da paisagem foi o então presidente do Senado, Antônio Carlos  Magalhães, que pelo menos no gramado próximo do Congresso botou os múltiplos lambões para correr, sem se importar com autorizações dadas pelo  governo do Distrito Federal, que a lei encarrega de zelar pelos jardins.
                                                  
Com todo o respeito e lamentos por sua louvável carreira política,  há um responsável maior por essa verdadeira Casa da Mãe Joana em que se transformou o centro  nevrálgico do poder nacional: é  o governador Agnelo Queiroz, a quem caberia cuidar da cidade que o elegeu. Claro que também antigos governadores, desde Rogério Rosso, tampão, José Roberto Arruda, preso, Joaquim Roriz, da ficha suja,  e outros. Não começou agora esse emporcalhamento do Distrito Federal, que dispõe de um monte de áreas e parques apropriados para tantas atividades.

Pelo jeito, cada governante parece querer superar o anterior em matéria de lambança.  E quem se aventurar a  descer ao fundo da latrina, verificará   que tem gente ganhando dinheiro com tudo isso: são empresas especializadas na promoção de eventos cujos contratos, espera-se, aumentem a conta bancária apenas de seus proprietários…  
 
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CHANTAGEM
 
Sempre que teve poder, o Congresso fez valer a sua força. Muitas vezes defendendo a democracia, outras, nem tanto. Vive-se agora um desses episódios em que o Legislativo  extrapola  diante das aflições do  Executivo. Posto em xeque o ministro Antônio Palocci, é o governo inteiro que sofre, a começar pela presidente Dilma Rousseff. As bancadas evangélicas, os ruralistas, os ambientalistas e daqui a pouco os corintianos e os flamenguistas  estarão cobrando interesses, favores e benesses  sob pena de instaurarem investigações e CPIs sobre o súbito enriquecimento do chefe da Casa Civil. Até obrigaram a presidente a oferecer almoço para senadores e a receber líderes partidários para tratar da chantagem. A hora  do murro na  mesa está passando.  

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O REVERSO DA MEDALHA
 
Por conta do compromisso de realizarmos uma Copa do Mundo no mínimo apresentável, a presidente Dilma Rousseff decidiu privatizar os aeroportos de Cumbica, Viracopos e Brasília. Trata-se de uma necessidade, mas também, de um risco. Porque a iniciativa privada não vai querer entrar no prejuízo. Ninguém se espante se nesses aeroportos vier a ser  cobrada entrada para quantos forem esperar ou levar  parentes e amigos em viagem. Ou se implantarem em cada salão ou corredor centenas de quiosques  e barraquinhas para atormentar o comércio naturalmente estabelecido nos locais.  Acresce que a moda pode pegar: mais  do que o transporte aéreo, a segurança pública preocupa os organizadores do certame futebolístico. Irá o governo privatizar as delegacias de polícia e os batalhões das polícias militares?

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