Monthly Archives: setembro 2012

Uma visita às favelas sul-africanas (depois da Copa)

Alexandre Versiani (Diário do Centro do Mundo)

A poucos quilômetros das belas paisagens que transformam a Cidade do Cabo em um cartão-postal da África do Sul, ficam localizadas as “townships”, como são chamadas as favelas sul-africanas. Afastadas do centro, elas cresceram de maneira desproporcional após o início do Apartheid, em 1948, quando receberam milhares de negros, mulatos e indianos expulsos de suas residências.

São regiões remotas, sem acesso à luz, água, educação, sistema de saúde ou rede de esgoto. Nem mesmo o final do regime de segregação racial, em 1994, foi capaz de melhorar a situação para centenas de milhares de pessoas que vivem em townships atualmente na Cidade do Cabo.

Há diferentes tipos de townships. Algumas misturam raças e outras reúnem apenas tribos específicas. Em comum compartilham a miséria e a hostilidade aos sul-africanos brancos. Rusgas do passado que não se apagaram devido aos anos de opressão.

###
FANTASMA DO APARTHEID

A Cidade do Cabo possui o maior símbolo do regime, a prisão de segurança máxima Robben Island. Lá Nelson Mandela e outras centenas de líderes políticos negros ficaram isolados da população por décadas em uma ilha. Hoje a prisão virou símbolo de liberdade e famoso ponto turístico da cidade, enquanto as townships caíram no esquecimento e ainda convivem com o fantasma do Apartheid.

Nossa primeira parada é em uma tradicional casa de cultura Xhosa, onde somos recebidos com uma tímida, porém animada, música local. O lugar parece importante, já recebeu a visita até de Bill Clinton. Por isso uma ilustração enorme do norte-americano na parede. Aprendemos, entre outras coisas, que Xhosa é a segunda língua mais falada na África do Sul, atrás apenas do Zulu. Artesanatos locais também são vendidos. Os preços chegam a ser salgados, mas é difícil sair de lá sem querer ajudar um pessoal ponta-firme, que preserva as tradições.

Logo na saída, um choque de realidade. Entre becos obscuros, Lelé nos leva a um minúsculo quarto, onde vivem cerca de três famílias. Durante o dia ninguém fica por lá, pois não há espaço para todos. À noite todos se espremem para dormir. “Cerca de trinta pessoas moram aqui”, Lelé traduz as palavras de uma senhora aparentemente triste e cansada, que estava gentilmente no local para nos receber.

Com os sentimentos um pouco confusos, vamos em direção ao próximo programa. Degustação de uma cerveja artesanal local. Lelé deve ter incluído isso na turnê “townshipica”, pois sabe que estudantes e turistas só querem saber de cerveja.

###
PRATO TÍPICO

É praticamente no meio da rua que acontece o momento mais desafiador do nosso passeio às favelas. Em um fogão improvisado sobre latões de lixo, simpáticas cozinheiras começam a preparar o “Smiley”, prato típico da culinária de uma township. Ele consiste em comer tudo o que a cabeça de uma ovelha proporciona, desde cérebro, olhos e língua. Um pequeno pedaço da bochecha foi o suficiente e, para falar a verdade, até que ela possui um gosto razoável.

Já de volta à van e um pouco traumatizados com a cena das ovelhas mortas, somos levados à última parada, o bar Mzoli’s, na vizinha township de Gugulethu. É neste território Zulu, onde também funciona uma churrascaria, que a cultura de uma township pode ser mostrada para os quatro cantos do mundo. Brancos, negros, mulatos e “pessoas de todas as tribos”, misturam-se em uma grande festa com música ao vivo tradicional e cerveja barata.

O território é livre e o clima de paz prevalece. Talvez um dos poucos lugares na Cidade do Cabo onde brancos, negros e mulatos convivem em condições iguais. Por lá ninguém é melhor do que ninguém e todos compartilham histórias. Depois de muito churrasco de carneiro, cerveja e outros aperitivos locais, saímos com a certeza, já ao anoitecer, de que o sol também brilha em uma township.

Marta Suplicy é hoje apenas uma lembrança recauchutada

Carlos Newton

Ao tomar posse  como ministra da Cultura, a senadora Marta Suplicy (PT-SP) disse que pretende trabalhar para o fortalecimento da produção nacional e pela recuperação do patrimônio cultural do país. Bla-bla-bla. Parece um filme antigo.

“Não podemos aceitar a lógica devastadora do mercado e a pasteurização do mercado. Devemos incentivar nossa participação internacional e esse será um outro desafio”, discursou Marta. Mais bla-bla-bla.

De saída da pasta, a ex-ministra Ana de Hollanda foi educada. Ressaltou suas conquistas em quase dois anos de trabalho e disse que sua sucessora tem as condições de dar continuidade ao trabalho.

Segundo ela, o país precisa dar continuidade, principalmente, no fortalecimento das políticas de direito autoral. E mais bla-bla-bla.

‘Lei da mordaça’ na CVM encobre pressões do caso Aracruz

Carlos Newton

Pouco após ter dito ontem, em entrevista à repórter Gabriela Forlin, da Agência Estado, que o desfecho do caso Aracruz não deixou sentimento de impunidade para o mercado, o Blog da Tribuna mostrou, com base em fatos concretos, as pressões sofridas pelo presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), diretor Otávio Yazbek, para não terminar a investigação sobre a conduta dos ex-administradores da companhia no episódio das perdas em apostas cambiais com os chamados “derivativos tóxicos”, gerando um prejuízo de US$ 2,13 bilhões no ano de 2008 aos acionistas da empresa.

Imprensa.jpg CVM tenta calar a imprensa

O desmentido apontou a mudança de discurso da autarquia e lembrou que uma reportagem do Estadão em 9 de janeiro deste ano, publicada no caderno Economia&Negócios, divulgou que um time de advogados composto por dois ex-presidentes e dois ex-diretores da CVM fora contratado para contestar a possibilidade de aprofundar as investigações e estudar a inclusão de outros administradores na acusação, como Yazbek queria.

Mas o processo ficou parado sem investigações durante dois anos e nove meses, o que foi um fator primordial para a manobra jurídica que permitiu à Fibria (sucessora da Aracruz) simular a renúncia ao direito de receber indenização no acordo da semana passada.

O Blog da Tribuna teve acesso hoje aos documentos que confirmam as duas reportagens da Agência Estado e prosseguirá o seu trabalho de jornalismo investigativo. Não importa que a atual diretoria da CVM tenha imposto uma “lei da mordaça” entre os servidores e que a resposta da autarquia às nossas denúncias tenha sido a de retirar do clipping as matérias que publicamos, para impedir que seus funcionários leiam nosso Blog.

Sempre que executivos necessitam vir a público para prestar contas de suas decisões, desafiam a imprensa livre com a censura daquilo que pode ser desmentido pelos jornalistas, porque contra fatos concretos não há argumentos. Celebramos as conquistas da Lei de Acesso à Informação, que ainda não completou o seu primeiro ano, mas continuamos a nossa luta pelo fortalecimento da democracia e da liberdade de imprensa.

O parlamentarismo e a revisão constitucional

Pedro Ricardo Maximino

A revisão constitucional foi prevista no artigo 3º do ato das disposiçõe contitucionais transitórias, cinco anos após a promulgação, com uma forma estabelecida e sem limitação material. O artigo anterior marcou uma consulta ao eleitorado quanto à manutenção ou outorga da forma e sistema de governo, monarquia ou república, presidencialismo ou parlamentarismo.

Tancredo, primeiro-ministro

Coincidência ou não, o grande problema da Constituição de 1988 decorre do fato de que dos três anteprojetos que foram apresentados em 1986 ela corresponde ao pior, justamente mais abarcado ao parlamentarismo e o menos adaptado ao presidencialismo.

O senhor Ulisses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, possivelmente aspirava, à época, à posição de primeiro ministro.

Dado que o poder constituinte originário é ilimitado nesse sentido, porque não se adotou de imediato o parlamentarismo no Brasil? Os parlamentares que então exerciam a Assembléia Nacional Constituinte, membros do Congresso Nacional, com o intuito de não desagradar a maioria da sociedade e sua forte tradição republicana e presidencialista e não alimentar naquele momento a falsa imagem de que, depois de um longo período sem poder escolher o presidente, a população não poderia mais fazê-lo a partir da adoção do parlamentarismo.

O referido plebiscito terminou por ser ansiosamente antecipado com o claro intuito de, por meio da revisão constitucional, sem limites materiais, logo depois, adaptar o que ainda faltasse para consolidar o parlamentarismo no Brasil.

A sociedade optou por manter o presidencialismo, em grande parte pela má campanha do parlamentarismo. Segundo o destaque recordado por alguns colegas que à época integravam o movimento monárquico, a cédula plebiscitária, curiosamente, não fazia a adequada separação entre forma e sistema de governo, abrindo espaço até mesmo para uma monarquia presidencialista (ou seria absolutista?).

Com a manutenção do presidencialismo, caiu por terra a necessidade de uma revisão constitucional sem limites materiais. Por essa razão, a revisão não aconteceu na forma como fora prevista, mas sim por meio de emendas, as já há muito memorizadas seis emendas constitucionais de revisão.

A prótese do PT no Supremo

Guilherme Fiuza

Os ministros do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli são a prova viva de que a revolução companheira triunfará. Dois advogados medíocres, cultivados à sombra do poder petista para chegar onde chegaram, eles ainda poderão render a Luiz Inácio da Silva o Nobel de Química: possivelmente seja o primeiro caso comprovado de juízes de laboratório. No julgamento do mensalão, a atuação das duas criaturas do PT vem provar, ao vivo, que o Brasil não precisa ter a menor inveja do chavismo.

 Batman e Robin?

Alguns inocentes chegaram a acreditar que Dias Toffoli se declararia impedido de votar no processo do mensalão, por ter advogado para o PT durante anos a fio. Participar do julgamento seria muita cara de pau, dizia-se nos bastidores. Ora, essa é justamente a especialidade da casa. Como um sujeito que só chegou à corte suprema para obedecer a um partido iria, na hora h, abandonar sua missão fisiológica?

A desinibição do companheiro não é pouca. Quando se deu o escândalo do mensalão, Dias Toffoli era nada menos do que subchefe da assessoria jurídica de José Dirceu na Casa Civil. Os empréstimos fictícios e contratos fantasmas pilotados por Marcos Valério, que segundo o processo eram coordenados exatamente da Casa Civil, estavam portanto sob as barbas bolivarianas de Dias Toffoli. O ministro está julgando um processo no qual poderia até ser réu.

A desenvoltura da dupla Lewandowski-Toffoli, com seus cochichos em plenário e votos certeiros, como na absolvição ao companheiro condenado João Paulo Cunha, deixariam Hugo Chávez babando de inveja. O ditador democrata da Venezuela nem precisa disso, mas quem não gostaria de ter em casa juízes de estimação? A cena dos dois ministros teleguiados conchavando na corte pela causa petista, como super-heróis partidários debaixo de suas capas pretas, não deixa dúvidas: é a dupla Batman e Robin do fisiologismo. Santa desfaçatez.

Já que o aparelhamento das instituições é inevitável, e que um dia seremos todos julgados por juízes de estrelinha na lapela, será que não dava para o estado-maior petista dar uma caprichada na escolha dos interventores? Seria coincidência, ou esses funcionários da revolução têm como pré-requisito a mediocridade?

###
NADA DE CONCURSOS

Como se sabe, antes da varinha de condão de Dirceu, Dias Toffoli tentou ser juiz duas vezes em São Paulo e foi reprovado em ambas. Aí sua veia revolucionária foi descoberta e ele não precisou mais entrar em concursos – essa instituição pequeno-burguesa que só serve para atrasar os visionários. Graças ao petismo, Toffoli foi ser procurador no Amapá, e depois de advogar em campanhas eleitorais do partido alçou voo à Advocacia-Geral da União – porque lealdade não tem preço e o Estado são eles.

É claro que uma carreira brilhante dessas tinha que acabar no Supremo Tribunal Federal.
O advogado Lewandowski vivia de empregos na máquina municipal de São Bernardo do Campo. Aqui, um parêntese: está provado que as máquinas administrativas loteadas politicamente têm o poder de transformar militantes medíocres em grandes personalidades nacionais – como comprova a carreira igualmente impressionante de Dilma Rousseff. Lewandowski virou juiz com uma mãozinha do doutor Márcio Thomaz Bastos, ex-advogado de Carlinhos Cachoeira, que enxergou o potencial do amigo da família de Marisa Letícia, esposa do bacharel Luiz Inácio.

Desembargador obscuro, sem nenhum acórdão digno de citação em processos relevantes, Lewandowski reuniu portanto as credenciais exatas para ocupar uma cadeira na mais alta esfera da Justiça brasileira.

Suas diversas manobras para tumultuar o julgamento do mensalão enchem de orgulho seus padrinhos. A estratégia de fuzilar o cachorro morto Marcos Valério, para depois parecer independente ao inocentar o mensaleiro João Paulo, certamente passará à antologia do Supremo – como um marco da nova Justiça com prótese partidária.

O julgamento prossegue, e os juízes do PT no STF sabem que o que está em jogo é a integridade (sic) do esquema de revezamento Lula-Dilma no Planalto. Dependendo da quantidade de cabeças cortadas, a platéia pode começar a sentir o cheiro dos subterrâneos da hegemonia petista.
Batman e Robin darão o melhor de si. Olho neles.

(Transcrito da revista Época)

A Ópera dos Malandros

Jacques Gruman

Minhas mais antigas memórias políticas vão completar meio século. Era a campanha pelo fim do parlamentarismo, imposto pelos golpistas civis e militares em 1962 para que Jango tomasse posse após a renúncia de Jânio. Houve intensa participação popular e o rádio teve papel destacado. O presidencialismo ganhou fácil e o estancieiro reformista governou, com plenos poderes presidenciais, durante pouco mais de um ano. Prelúdio em dor maior.

Uma segunda lembrança, na véspera do golpe militar, foi Jango no Automóvel Clube, centro do Rio, como convidado de honra numa festa promovida pela Associação de Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar. Num discurso inflamado, radicalizou a defesa das Reformas de Base, prometidas no grande comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, e denunciou as manobras golpistas. Entregou de vez o pescoço aos carrascos.

Direita e esquerda disputavam espaço, verbalizando as posições de classe de uma sociedade que exigia mudanças e era assediada pelo clima sombrio da Guerra Fria. Olhando para trás, vejo o desnível abissal entre os políticos de então e os de hoje. Começo com Carlos Lacerda, comunista na juventude e golpista profissional desde o início dos anos 50. Jornalista e orador brilhante, chegava a intimidar seus adversários políticos quando discursava, pela extraordinária capacidade que tinha para improvisar. O Corvo, como Lan o desenhou para ilustrar matéria de Samuel Wainer, não era fácil.

###
MEDIOCRIDADE

Discordo de cada pedaço de sua trajetória de udenista antidemocrático, de suas articulações antipopulares, mas sou forçado a reconhecer que ele está a anos-luz da mediocridade dos políticos que andam pedindo nosso voto. A direita também tinha seu brilho. Uma historinha do Corvo. Viajou alegre a Paris para “explicar” o golpe de 1964. Numa entrevista coletiva, um jornalista francês ironizou: “Por que as revoluções sul-americanas são sempre sem sangue ?”. Lacerda nem pestanejou: “Porque são semelhantes às luas-de-mel francesas”.

Uma Câmara de Vereadores lotada para ouvir discursos de um político. Nem o mais delirante dos místicos, o mais descontrolado surrealista, imaginaria uma cena dessas. E, no entanto, meus caros, isso já aconteceu. Aparício Torelly, o Barão de Itararé, foi vereador no então Distrito Federal pelo PCB. Eleito em 1946, usou slogans inesquecíveis na campanha. Um deles: “Mais água e mais leite, mas menos água no leite !”. Muita gente ia à Câmara só para ouvi-lo. Quando forças reacionárias conseguiram, em 1947, a cassação do partido, ele se despediu com um discurso antológico, em que terminava dizendo: “Saio da vida pública e entro na privada”. Grande Barão !

Em outubro, elegeremos prefeitos e vereadores. A época dos grandes comícios ficou no passado. Hoje, as ferramentas mais usadas para convencer o eleitorado são os meios eletrônicos e a linguagem planejada/enganosa dos marqueteiros. A preços monumentais. A eleição do prefeito de São Paulo, por exemplo, pode custar RS 40 milhões ao vencedor. A cereja do bolo é o chamado horário eleitoral gratuito das televisões. O nível geral é deplorável.

Acompanhei, por duas semanas, a propaganda dos candidatos a vereador. É um choque brutal, mas reflete muito bem em que se transformou a atividade política. Valeu a pena e compartilho minhas reflexões. Com exceções moleculares, as siglas deixaram de ter qualquer significado. Projetos ideológicos deram lugar a uma gelatina indiferenciada, não raro demagógica e oportunista. Ao invés de educar politicamente os eleitores, os candidatos repetem, mecanicamente, frases vazias e propostas incompreensíveis. Eliminaram a fronteira entre esquerda e direita.

Há uma enxurrada de religiosos candidatos e apoiadores de candidatos. Nada tenho contra quem tem fé, mas o lugar para o exercício dela não seriam os templos ? Será que estão nos oferecendo um Estado clerical ?  Oportunismo barato, mas que ganha votos em grotões e currais, numa população habituada a desconfiar dos polítcos “profissionais”.

Estão querendo reeditar as capitanias hereditárias. Há pais e mães reivindicando votos para seus filhos queridos. É o voto DNA. O Neguinho da Beija-Flor está pedindo votos para sua esposa, que concorre pelo PT. O neto do Brizola apela para o ectoplasma do avô. Que radicalizem e defendam de uma vez a volta da monarquia. Serviço completo.

Nomes e apelidos, digamos, exóticos, enfeitam (ridicularizam ?) o quadro. Dudu Bodinho, Chapisco, Cabeção, Palhaço Seboso, Carlinhos Míssil, Chico Mé, Renata do Bole-Bole (epa!), Panela, Hélio do Alho. A lista não tem fim. Seria charmoso, pitoresco, mas apenas serve para ofuscar o principal: nenhum deles parece ter a menor ideia do que é ser legislador público.

###
FARSA GROTESCA

Participam de uma farsa grotesca, reedição maquiada da Lei Falcão da ditadura. Têm alguns segundos para balbuciar meia dúzia de palavras. Os menos afortunados apenas sorriem, levantam o polegar. Nada que se assemelhe a um debate sério. É o MERDA – Método Enéas de Rajadas Discursivas Apopléticas em ação.

No mais, há doutores paramentados com seus jalecos e estetoscópios (ah, nossa velha e renitente tradição bacharelesca), mentirosos (como o cidadão que disse ter acabado com os sequestros no Rio), artistas decadentes, diretores do Flamengo (que não se envergonham de usar a popularidade do time de futebol para enganar os eleitores; afinal de contas, trata-se de campanha para a Câmara de Vereadores, não para gerente de clube ou de estádio de futebol), tios e tias (recreadores de festas infantis).

Nas ruas, apenas gente alugada para fazer propaganda. Militância orgânica ? Onde ? As esquerdas que não desistiram da proposta socialista têm, infelizmente, baixa capilaridade social e poucos recursos para usar com eficiência os meios de comunicação de massa. Resultado: poucos votos. Se a revolução não passa pela televisão, bem, aí a conversa é outra.

A esse teatro burlesco chamam democracia.

Obama mostra-se amigável ao empreendorismo, antes que a próxima labareda venha lamber tudo

Sandra Starling

Acompanhei pela TV, nos EUA, a recente convenção do Partido Democrata, realizada em Charlotte, Carolina do Norte. O entusiasmo já não era o mesmo da convenção anterior, ocorrida em Denver, há quatro anos. Os jornalistas informaram a presença de 25 mil delegados no centro de convenções; em 2008, eram mais de 100 mil militantes num estádio de futebol. Não houve surpresas. O nome de Barack Obama como candidato à presidência foi confirmado unanimamente. Agora, o slogan “Forward” (em frente) substitui o batido “Yes, we can” (sim, nós podemos).

Obama aposta na classe média

O que realmente surpreende é uma candidatura moderada ser acusada pelos oponentes republicanos de “socialista”. Obama não permitiu sequer que a palavra “Deus” deixasse de constar da plataforma do partido. Da mesma forma, exigiu que fosse escrito no programa, como sempre aconteceu, que Jerusalém deve ser considerada a capital do Estado de Israel. É bom esclarecer que nenhum governo norte-americano, até hoje, deu passos concretos para retirar a embaixada de Tel Aviv.

A estrategista da campanha republicana, Mary Matalin, registrou que Obama tem procurado, o tempo todo, mostrar-se amigável ao empreendedorismo. Em suas referências à criação de novos empregos (mais de 4 milhões, mas com salários mais baixos do que os concedidos antes da crise de 2008), sempre destaca que são postos no setor privado. Tudo para desfazer a imagem de esquerdista, o que, efetivamente, ele não é.

No ideário democrata, todos os discursos giram em torno de uma expressão mágica: “classe média”.

###
É A CLASSE MÉDIA, ESTÚPIDO

Afinal, o novo mantra de James Carville, estrategista democrata (e ainda marido da mencionada Mary Matalin), é: “It´s the middle class, stupid!”. Em sua carismática fala, o ex-presidente Bill Clinton reforçou o clichê da doutrina neokeynesiana. Por sua vez, Joe Biden, o vice de Obama, tentou definir, em seu pronunciamento, o que é ser da classe média. De suas redondilhas e seus circunlóquios, pode-se deduzir o que seja isso: dê-me algum emprego, um seguro-saúde e um financiamento subsidiado para a universidade de meu filho, e pronto! Nada mais me importa.

Isso se parece com as palavras de Lula, ao dizer que o pobre se contenta com pouco. Pensar que as sociedades possam ser organizadas de uma forma diferente é algo complicado, que não cabe a qualquer um.

As pesquisas vêm indicando a aprovação do governo Obama (53%), e, se não houver nenhum acidente de percurso, o democrata deverá ser reeleito.

Curiosamente, leio, ao mesmo tempo, a tão citada matéria da “Forbes” sobre a presidente Dilma Rousseff. Carville volta à cena como autor do próximo livro a ser lido pela chefe de governo brasileira, definida, agora, como uma “ex-marxista que estimula o empreendedorismo”. Resta saber até quando essa história de “classe média” dará certo nos EUA e no Brasil.

O mais bizarro é que até alguns oráculos do capitalismo têm revisitado os livros de Marx em busca de uma resposta consistente, antes que a labareda da próxima crise, como diria Jards Macalé, venha lamber tudo!

« Older Entries