Monthly Archives: julho 2012

Da série: Não leia jornalões nem assista à TV brasileira. Não há nem haverá estado alauita na Síria.

Joshua Landis (Syria Comment)

Muitos jornalistas e figuras da oposição síria têm insistido em que os alauitas estariam planejando voltar às Montanhas Alawitas, em tentativa para criar e estabelecer estado separado nas chamadas Montanhas Costeiras, na Síria. Absolutamente inverossímil. Aqui, as cinco principais razões pelas quais não há nem haverá estado alawita.

1. Os alawitas sempre tentaram deixar as montanhas e chegar às cidades. Depois que a França ocupou a Síria em 1920, os primeiros censos mostraram profunda segregação demográfica entre sunitas e alauitas. Em nenhuma cidade com mais de 200 habitantes sunitas e alauitas viviam juntos. As cidades costeiras de Latakia, Jeble, Tartus e Banyas eram cidades sunitas, com vizinhos cristãos; mas não havia alauitas nas vizinhanças. Só em Antióquia os alauitas vivem na cidade; e essa cidade foi capital de uma região separada, autônoma, Iskandarun, que foi cedida aos turcos em 1938. Em 1945, só se registraram 400 alauitas como habitantes de Damasco.

Desde o fim da era otomana, os alauitas fluem para fora da região das montanhas que acompanham o litoral, para viver nas cidades. O estabelecimento, pelos franceses, de um estado alauita autônomo junto à costa, e o alto recrutamento de alauitas para o exército aceleraram esse processo de urbanização e de mistura de religiões nas cidades sírias.

A Síria de Bashar Assad acelerou ainda mais a urbanização dos alauitas, depois que foram pela primeira vez admitidos nas universidades, às quais chegaram em grande número, e em postos de serviço público, em todos os ministérios e instituições nacionais.

2. O projeto dos Assads para resolver o problema da divisão sectária na Síria foi promover a integração dos alauitas como “muçulmanos”. Os Assads promoveram estado secular e tentaram fazer desaparecer as tradições sectárias e a ideia de uma “identidade alauita”.

Nunca se criaram instituições alauitas para fixar ou promover alguma identidade alauita cultural, religiosa ou qualquer outro particularismo. Os Assads jamais trabalharam para promover qualquer coisa que se possa chamar, ainda que só por analogia, “um estado alauita”.

Ao contrário, os Assads recorreram ao passado, para definir os alauitas como muçulmanos. Bashar Assad é casado com uma muçulmana sunita, o que se integrou ao projeto de construir uma nação sem diferenças religiosas que se apresentaria como exemplo de integração. Sempre disse que seu objetivo é promover uma visão “secular” da Síria.

3. Assad jamais tomou qualquer medida para lançar o que pudesse ser apresentado como bases de algum ‘estado alauita’. Não há infraestrutura nacional na região costeira que possa sustentar um estado: não há aeroporto, nem usinas de energia elétrica, nem indústrias importantes que gerem empregos locais ou qualquer instrumento para construir qualquer tipo de economia nacional.

4. Nenhum país reconheceria algum estado definido como “estado alauita”.

5. Talvez mais importante que tudo isso, um estado alauita não teria como defender-se. É possível que as shabbihas [gangues armadas] e as brigadas armadas de alauitas [que o governo sírio diz que estão sendo armadas por estrangeiros] tentem voltar às Montanhas Alawitas, no caso de serem expulsas da capital. Mas por quanto tempo poderiam permanecer lá?

Tão logo os grupos sunitas sírios se unam – o que provavelmente acontecerá, se tiver sucesso a estratégia ocidental de criar sectarismos na luta na Síria – eles próprios se encarregarão de por fim a qualquer resistência alauita que venha a constituir-se na Síria, ou a forças remanescentes das gangues armadas que estão lutando nas grandes cidades.

Seja qual for o grupo que venha a dominar em Damasco e no controle do Estado na Síria, esse grupo dominará sem dificuldade qualquer resistência alauita que se tenha já constituído ou venha a constituir-se. Terão o dinheiro e a legitimidade, e terão apoio internacional para pôr fim a quaisquer ‘separatismos’ que se inventem na Síria. E a Síria não sobreviveria sem a costa.

Mais importante que isso, a Síria não aceitará nenhum tipo de divisão que implique perder as cidades portuárias de Tartus e Latakia. Nenhuma dessas cidades pode ser dita hoje ‘alauita’ e todas as cidades costeiras continuam a ter populações majoritariamente sunitas.

Joshua Landis é diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio
e professor associado da University of Oklahoma, EUA.

De reis inúteis e de seus vassalos

Mauro Santayana

Um dos mais ácidos panfletos da História, contra a monarquia, é o livro de Étienne de la Boétie, Discours de la Servitude Volontaire. É texto de um adolescente prodígio, que o redigiu antes dos 18 anos, conforme seu amigo maior, e a quem o autor confiou os originais, Michel de Montaigne. Étienne morreu aos 33 anos, e Montaigne não se atreveu a publicar o texto famoso, que ficou conhecido anos depois de sua própria morte. Redigido no século 16, só no século 17 o livro passou a ser editado e a ser lido, assim mesmo com muitas cautelas.

La Boétie, no fabuloso talento prematuro, em que se misturam, ao mesmo tempo, certa ousadia que só a boa fé juvenil autoriza, e fantástica erudição clássica, pergunta-se por que os homens se submetem à vontade de um só, sem que nada, nem na natureza, nem na razão, determine essa submissão.

A monarquia de hoje não é a mesma daqueles séculos, em que os reis, não todos, mas muitos deles, comandavam seus exércitos e corriam todos os riscos nas batalhas, como, entre outros soberanos franceses, fizeram Francisco I e Henrique IV. As famílias reais de nosso tempo estão mais para a comédia do que para a tragédia; mais para a farsa do que para o drama. Luis 16 foi o último dos reis a ter a sua cabeça decapitada. Antes dele, Carlos I da Inglaterra, também conheceu o cepo e a lâmina do carrasco. Os Romanov, dominados por um grande embusteiro, que foi Rapustin, eram de um terceiro tipo, o de retardados mentais, não obstante a crueldade com que reprimiam seu povo, e não foram decapitados, mas fuzilados.

Hoje, os poucos príncipes destronados são meros adornos de festas milionárias. Ninguém se preocupou, nem se preocupa mais, em cortar as cabeças coroadas, porque elas não valem muita coisa, a não ser a despesa que os povos pagam, para que encabecem a lista das celebridades inúteis.

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OS ESCÂNDALOS REAIS

Os escândalos da família real espanhola, que estão na ordem do dia, fermentam novamente a reivindicação republicana na península, oitenta e um anos depois da abdicação de Afonso XIII. O retorno da monarquia foi útil ao processo de normalização espanhola, depois da morte de Franco. Todas as forças políticas aceitaram a fórmula, a fim de evitar nova guerra civil. Cumprido esse papel positivo, a instituição começa a ser um estorvo. O rei, neto de Alfonso XIII, nunca aceitou, em sua alma, o regime democrático e, em fevereiro de 1981, segundo indícios fortes, esteve à frente da conspiração militar contra o governo democrático, que levou à invasão do parlamento pelo tenente-coronel Antonio Tejero Molina. O monarca só interveio, com visível contragosto, pela televisão, depois que a reação dos militares democráticos, no interior dos quartéis, e o pronunciamento dos governos vizinhos inviabilizaram o golpe.

Agora, os escândalos reais se sucedem. Enquanto o governo conservador de Mariano Rajoy corta o orçamento social e a Espanha se submete aos ditados da Alemanha, com o povo em desespero protestando nas ruas, revela-se que as despesas da Casa Real chegam a quase seiscentos milhões de euros, incluídos os gastos com as viagens, a manutenção dos numerosos palácios, a segurança da família do soberano pelas forças armadas e outras despesas indiretas.

A insensibilidade do Rei diante do sofrimento do povo que chega, até mesmo, ao escárnio, em certos momentos, como nas caçadas aos elefantes da África e aos ursos da Romênia, vem retirando a credibilidade de seus súditos. Tanto nos meios intelectuais, quanto entre os trabalhadores espanhóis, começa a adensar-se um movimento para o fim do sistema monárquico e a instauração de uma república democrática.

Ontem, a Espanha foi às ruas, em oitenta cidades, para protestar contra a aprovação de medidas de arrocho contra os trabalhadores, entre elas o fim do 13º salário. Em Madri, os bombeiros e os policiais civis, chegaram a solidalizar-se com os manifestantes, e se opuseram a participar da repressão. Um grupo, com seus capacetes postos, desnudou-se. Um cartaz explicava que o governo os deixara “en pelotas”. O clima era o da véspera de grandes acontecimentos.
As nossas relações com a Espanha monárquica devem ser reavaliadas. Com todas as suas dificuldades atuais, as elites espanholas continuam a tratar-nos como se fôssemos colônia de Madri – o que só fomos, e por acidente histórico, entre 1580 e 1640. Em 1580, depois da morte de D. Sebastião, no norte da África, e de seu sucessor, o Cardeal D. Henrique, o trono de Portugal foi ocupado por Felipe II, tio de D. Sebastião. A coroa só foi recuperada para os portugueses, em 1640, pelo Duque de Bragança.

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SUPERIORIDADE DAS ELITES

As grandes virtudes do povo espanhol sempre foram, e continuam a ser, insultadas pela sua anacrônica, cara e ociosa nobreza, por nascimento ou pelo êxito nos negócios. E, ao longo de sua história, talvez a Espanha não tenha tido família real tão insignificante, e tão corrompida como a de agora.

As dificuldades econômicas da Espanha de hoje são o resultado desse espírito de presunçosa superioridade de suas elites. Ao entrar para a Comunidade Econômica Européia, e obter vultosos recursos do grupo, os espanhóis, em lugar de investi-los no interior do país, usaram-nos para adquirir empresas na América Latina, principalmente no Brasil. Era uma nova forma de colonialismo que, apesar do saqueio, manso e “legal” de nossos recursos, principalmente depois da embasbacada regência de Fernando Henrique Cardoso, não serviu ao povo espanhol, embora tenha enriquecido muitos banqueiros.

Agora, o próprio genro do Rei é acusado de agir como criminoso, ao lavar dinheiro mal havido e transferir, só para Luxemburgo, mais de 700 mil euros. Suspeita-se de que muito mais dinheiro não honrado foi remetido para o Exterior. Esse genro, Iñaki Undagarin, recebe mais de um milhão de euros por ano, como conselheiro da Telefónica de Espanha para a América Latina. E na América Latina, quem contribui com mais lucros para a empresa espanhola é exatamente o Brasil.

A nossa postura é de solidariedade para com o povo espanhol. Esse grande povo nada tem a ver com esses señoritos que ainda se imaginam no tempo de Carlos V e de Felipe II. Estar com o povo espanhol é não favorecer aqueles que o oprimem.

Comissão de Valores Mobiliários: uma autarquia federal ou estadual?

Carlos Newton

Alguns acontecimentos recentes da história da autarquia que fiscaliza o mercado financeiro, e que confere ao seu presidente a alcunha de “Xerife” do mercado de capitais brasileiro, justificam a pergunta-título deste modesto artigo, pois como dizia Aristóteles, nada melhor do que a observação dos fatos naturais para se chegar ao conhecimento científico.

Pois bem, a notícia que segue abaixo, veiculada pelo jornalista Lauro Jardim, na Revista Veja desta semana, deixa muito claro que o Ministério da Fazenda e a Presidente Dilma Rousseff ficaram “descontentes”, para dizer-se o mínimo, com a absolvição de Fernando Cavendish, dono da empresa Delta, pelo colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), absolvição esta capitaneada pelo voto do então diretor-relator Otávio Yazbek.

Vai então, aqui, a primeira observação: se a absolvição não agradou ao Ministério da Fazenda, a quem compete nomear os diretores e o Presidente da CVM, a quem agradou? E a resposta vem a cavalo: a Sergio Cabral, compadre e ex-concunhado de Cavendish. A ele, certamente agradou.

Some-se a isso a seguinte situação: depois da pressão feita pelo governador Sergio Cabral junto ao Tribunal Regional Federal, no julgamento de uma multa milionária de 504 milhões de reais, anulada pela sua 7ª Turma Especializada, ficou muito claro que a CVM também deve ter sofrido uma enorme pressão do governador, para caracterizar como “operação fraudulenta” uma operação de mercado onde a própria CVM aplicou mais de meio bilhão de reais em multa sem provar a existência de prejuízo – ou pelo menos quantificá-lo.

Outra pergunta, se faz ainda mais pertinente: a CVM é uma autarquia federal ou estadual, a serviço do governador?

Com a palavra, Aristóteles…

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DEU NA VEJA: “SOB SUSPEITA”

Cavendish: Dilma no pé

Descrição: http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/files/2012/07/cavensish21-300x168.jpg
Cavendish: Dilma está no pé do empresário

Lauro Jardim

Nos últimos tempos, Fernando Cavendish não tem tido sossego com Dilma Rousseff. Depois de declarar a Delta inidônea para novas obras públicas, agora o governo vai tentar anular o resultado de um julgamento da CVM que absolveu Cavendish, acusado de fraude na BM&F, em 2003.

O Ministério da Fazenda vai alegar que Otávio Yazbeck, relator do caso, teria que se declarar impedido de participar do julgamento por já ter assessorado corretoras envolvidas no processo.

 

Redes sociais começam a realmente influir decisivamente na campanha eleitoral

Carlos Newton

Desde o último dia 5 os candidatos estão autorizados pelo Tribunal Superior Eleitoral a fazer campanha na internet. Pela resolução do próprio TSE, podem ser usados sites dos candidatos, do partido ou da coligação com o endereço eletrônico registrado no tribunal. Também está aberta a propaganda nas ferramentas das redes sociais desde que geridas pelo candidato, partido ou coligação. A resolução do TSE impede apenas a veiculação de qualquer propaganda paga nesses portais.

O fato é que os políticos já estão conscientes de que o uso da internet e das redes sociais começa a influir decisivamente nas campanhas eleitorais. O uso de ferramentas da internet, em especial as redes sociais, tem feito parte da rotina dos parlamentares e vai ser um poderoso trunfo nas eleições municipais de outubro.

O senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), membro da Executiva Nacional, recomenda que os candidatos do seu partido usem a internet como um importante instrumento eleitoral. O parlamentar, mesmo sem estar envolvido atualmente na campanha, mantém uma equipe só para divulgar sua atividade política e o manter informado das demandas de seu eleitorado.

“Somando as minhas redes sociais, já tenho mais de 60 mil seguidores. No meu estado, o jornal de maior circulação tem tiragem diária de 18 mil exemplares”, compara Eunício Oliveira, em entrevista à Agência Brasil.

O líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (PT-BA), diz que os candidatos ao cargo de prefeito devem estar atentos às manifestações dos cidadãos na rede. “Ao contrário da TV e do rádio, a internet é uma qualificadora do caminho de volta. Nela, há interatividade imediata entre o eleitor e o candidato”, salienta

O presidente do DEM, José Agripino Maia (RN), também destaca o poder instantâneo da rede mundial de computadores. Para ele, o custo praticamente zero nas campanhas eleitorais na rede é outro ponto positivo. Veterano no uso das mídias sociais, ele ressalta a importância que os comitês das campanhas devem dar à internet, assim como a TV e o rádio, na formação da opinião do eleitorado.

“É uma ferramenta que deve ser usada como um instrumento de comunicação e debate de ideias”, diz Agripino.

Traduzindo: os cabos-eleitorais precisam mostrar serviço, para não perderem os empregos. O avanço da tecnologia é perverso e não perdoa ninguém.

Eu não gosto de política!

Percival Puggina

Inúmeras vezes, incontáveis vezes, tenho ouvido de amigos essa frase, proferida como suma expressão de bom gosto e de elevada sensibilidade moral e estética. É como se estivessem acrescentando: “Prefiro Thomas Morus, prefiro Chopin, prefiro os pintores impressionistas…”

Sistematicamente respondo tal observação com um comentário: “E quem te pediu para gostar?” Gostar ou não gostar de política é absolutamente irrelevante, como irrelevante é gostar ou não gostar de inúmeras coisas indispensáveis à vida cotidiana no mundo em que vivemos. E note-se, muitas delas são tão decisivas para nossa existência que, apreciando ou não, nos empenhamos em fazer bem feito o que nos corresponde.

A política é uma dessas coisas decisivas, realidade irremovível da vida de quem se recuse a viver no mato. E é uma realidade com fortíssimo poder de determinação sobre a qualidade da vida social e econômica, sobre os valores, sobre a dignidade da pessoa humana e sua concretude, sobre o progresso e a civilização.

Boa parte do que podemos relacionar como especificamente individual, e praticamente tudo o que se abriga com o agasalho social, depende da política. Portanto, repito: gostar ou não é uma questão apenas sensorial. Já o desinteressar-se é atitude moralmente irresponsável.

Ninguém dirá que, por não gostar, se afasta, desdenhoso, do trabalho que faz, dos filhos cujas fraldas precisam trocar e dos pais enfermos que precisam ser cuidados. Da mesma forma, estamos irrevogavelmente condicionados por preceitos e realidades determinados pela política. A política é uma das várias dimensões naturais da pessoa humana. Entramos nela pela concepção e não saímos dela nem depois do enterro porque, é pela via política, que nossas disposições testamentárias encontram base legal e vigência.

Formulo então para os leitores uma confidência: eu também não gosto da nossa política. Aliás, estou convencido de que para gostar da política nacional, com a temos hoje, se requer uma absoluta ausência de bom gosto. Quase tudo, nela, causa engulhos aos estômagos mais sensíveis. E é exatamente por isso que ela me interessa, que procuro estudar e conhecer as causas determinantes de seus incontáveis descaminhos e que me dedico a apontar novos rumos institucionais capazes de fazê-la servir como deveria ao bem comum.

Cidadão que me lê. Saiba que você é cidadão porque vive numa sociedade política. Queira ou não queira. Pode fazê-lo de modo mais abrangente, inclusive como participante do jogo eleitoral na condição de dirigente partidário, candidato, detentor de mandato ou cargo político. Mas não escapa de participar, ainda que em forma de inserção menos proativa (para usar uma expressão da moda), como eleitor.

No entanto, ainda que apenas como eleitor, você tem imensa responsabilidade moral em relação ao seu voto e ao interesse que aloca na formação de seu discernimento e de seus critérios de decisão. Se você, como tantos, vota em qualquer um (e qualquer um costuma ser o tipo do sujeito que faz qualquer coisa) ou vota em alguém pensando no seu próprio interesse, não se surpreenda quando aquele em quem votou passar a cuidar do interesse dele mesmo. Tal conduta estará apenas reproduzindo a sua. Ou não?

(Transcrito do blog de Puggina)

Da servidão moderna ao Deus Dinheiro

Eliani Gracez (Zero Hora)

Segundo o documentário “Da servidão moderna”, de Jean-François Brient, que está na internet com um apelo marxista, a escravidão não terminou, apenas mudou sua ideologia. A escravidão moderna é voluntária. O novo escravo escolhe o amo que ele quer servir, e com isso se julga livre.

Estranha modernidade, diz o documentário, uma classe que não quer enxergar a sua servidão, não conhece a rebelião. Não luta mais pela sobrevivência ou por um lugar ao sol, luta por um objeto que lhes dê status social. A aglomeração em que vive e mora o escravo moderno é reflexo da servidão. Semelhante a jaulas e prisões.

O escravo moderno paga por sua jaula, e nela acumula mercadoria, sonhando em ser feliz. A ideologia de massa despoja cada ser de si mesmo. Não é mais a demanda que determina a oferta, mas sim a oferta que determina a demanda. E assim o escravo compra o que lhe é imposto – o modelo novo de celular, o carro com alta tecnologia. O velho computador não serve mais, o escravo moderno precisa de um computador de última geração, mesmo que seja só para acessar o Facebook.

O escravo moderno não está no comando da situação, a situação comanda o escravo. A cada instante surgem novas necessidades para o escravo moderno, e é mais fácil aceitar a demanda imposta pelo mercantilismo do que lutar contra ela. E o que dizer da alimentação do escravo moderno? É quando ele se alimenta que demonstra melhor o estado de sua decadência. Sem tempo para se alimentar melhor, o escravo moderno se obriga a engolir rápido o que a indústria agropecuária produz. Consome o que a indústria da falsa abundância lhe permite consumir.

A falsa ilusão da abundância de escolha pelos alimentos disfarça a degradação dos conservantes e corantes, dos pesticidas e hormônios. Irmãos menores, parafraseando São Francisco, são mortos cruelmente para servir de alimento. Mas o escravo moderno não se importa com isso. A regra do consumo é o prazer imediato. Como resultado deste prazer, o escravo está se tornando obeso.

A produção de energia, de alimento e de lixo está acabando com o planeta. As mudanças em termos de cuidados para com a natureza planetária são superficiais. E tudo continua como era antes. Para o escravo moderno não se rebelar contra o sistema consumista, houve uma inversão de valor.

No passado, o trabalho era para quem não tivesse nobreza. Hoje, o trabalho enobrece o homem. Com esse pensamento o escravo alienou-se mais ainda. Com tanto trabalho, passam a vida a produzir aquilo que somente alguns terão direito de usufruir. Triste servidão! Obedecer, produzir e consumir, eis a regra. O escravo moderno obedece aos pais, obedece aos professores, obedece ao patrão. “De tanto obedecer, adquire reflexos de submissão”.

Da obediência surge o medo de aventurar-se, medo de arriscar-se. O escravo moderno não sabe viver sem o poder que o criou, por isso ele continua a obedecer. O poder que governa o mundo tem o consentimento do escravo moderno, ele está disposto a pagar o preço por todo esse consumismo.

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O DEUS DINHEIRO

O escravo moderno também precisa de um Deus, por isso entrega sua alma ao deus do dinheiro. Em nome desse novo deus, o escravo moderno estuda, trabalha, luta e serve fielmente. Em nenhum outro tempo alguém serviu tanto a um Deus como nos dias de hoje. O escravo moderno entende que o novo deus o libertará. Como se o dinheiro andasse de mãos dadas com a liberdade.

O novo deus ninguém ousa recriminar. E assim a forma de poder forma escravos para o novo deus desde a infância. Crianças aprendem pela televisão que é possível usar daquilo que é mais baixo para vender qualquer coisa. Vender é tudo o que importa ao sistema consumista. O consumismo está acabando com o planeta.

Como dizia Rubem Braga, a poesia é necessária

Hoje, vamos publicar mais uma poesia da prata da casa. Os emocionantes versos são de Batista Filho, um dos comentaristas mais assíduos do Blog da Tribuna.

LAÇOS

Batista Filho

quando, por vezes
esqueço do próprio nome
tomas minha mão delicadamente
e dizes de segredos que são meus, que são nossos

nessas horas nem sei se creio
mas há tanta ternura e solicitude na tua voz
que não quero te magoar com a minha descrença
e por esse querer-bem a nós, mesmo sem lembrar quem sou
ou quem és, deixo que me conduzas por caminhos, que dizes, um dia te conduzi

e assim, (re)descubro o êxtase de ver o claro/escuro do dia e da noite
(re)descubro nos recantos da tua/minha memória, pedaços d’uma história
que vem das brumas d’outro tempo/lugar, que determinar não sei, mas pressinto
e se não há total entendimento do que (não) vejo e sinto
antes e mais que qualquer coisa, percebo

te percebo, desde quando?!…

… não sei, mas sinto tanta
ternura e solicitude na tua voz
quando tomas minha mão, delicadamente
e dizes de segredos que são meus, que são nossos
que deixo que me conduzas por caminhos
segundo dizes
um dia te conduzi

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