Monthly Archives: julho 2012

A crise dos planos privados de previdência traz riscos aos segurados

O comentarista Paulo Peres, sempre atento, nos envia este artigo de Paulo César Régis de Souza, presidente da Associação dos Servidores da Previdência e da Seguridade Social, publicado pelo Jornal do Brasil Online, sobre os riscos dos investidores que optam pela previdência privada.

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A CRISE DA PREVIDÊNCIA ABERTA

Paulo César Régis de Souza

Em diversas oportunidades escrevi sobre a Previdência Aberta, dos planos de previdência, apontando para os seus riscos, de única responsabilidade dos investidores neste tipo de seguro. Mostrei que a Superintendência de Seguros Privados, a tal Susep, não fiscaliza nada. Acho que nem fiscais tem. Mostrei que nem o Banco Central sabe onde estão aplicados os recursos, estimados hoje em R$ 130 bilhões, captados de uma massa de investidores de 12 a 13 milhões de pessoas. Deixei claro que os “planos de previdência” são produtos de um mercado financeiro, de alta volatilidade, que depende do “humor” das bolsas de valores, daqui e do mundo, e que suas aplicações estão atreladas ao comportamento das taxas Selic.

A farsa é que tais títulos são apresentados aos investidores como “planos de previdência” em um país que detonou a Previdência Social pública, por ordem do FMI, reduzindo seus benefícios a um salário mínimo. Cumprindo esta determinação em detrimento de nossa soberania, direcionou milhões de brasileiros para a busca de uma aposentadoria acima do mínimo, especialmente aqueles assalariados que ganham mais de dois mínimos. A massa de um mínimo foi descartada. É este o cenário de um INSS que já paga 80% de benefícios de um salário mínimo a quase 24 milhões de seus 30 milhões de beneficiários.

Os “planos de previdência” ganharam espaço e competitividade. Dimensionaram o mercado em 40 milhões de clientes e atacaram cobrando altas taxas de administração e carregamento. Enquanto a Selic esteve acima de 10% ao ano, foi possível aos bancos e seguradoras engordar seus ativos, com o governo, de forma escabrosa, estimulando com isenção do Imposto de Renda. O mesmo governo que cobra previdência dos inativos púbicos que não podem e aposentar de novo. Uma iniquidade e uma vilania.

O mercado nadou de braçada, o que não me impediu, através da Anasps, de alertar para os riscos que pegariam na frente os contribuintes. Neste momento, quando a Selic vai descendo a ladeira e a presidente Dilma insiste que o Brasil vai ter juros “decentes”, bancos e seguradoras vão apresentar a conta dos “planos de previdência” ao governo e aos investidores. Enfim, tornaram-se um mau negócio para bancos e seguradoras que chafurdam na lama da especulação financeira.

Resultado prático é que, como o governo ainda não disse se vai “desonerar” IR, IOF, compulsório etc, como vem generosamente fazendo com outros setores, não para beneficiar o incauto investidor mas bancos e seguradoras. Se o governo cruzar os braços, restará aos investidores pagar a conta. Os contratos serão rasgados, e o investidor terá que assinar um ajuste e sujeitar-se a uma nova contribuição maior.

O que eu quero deixar claro é que esperteza tem perna curta e que inegavelmente é curto o horizonte dos brasileiros que um dia sonharam em ter uma aposentadoria digna. A do INSS, com teto hoje inferior a cinco salários mínimos, francamente um disparate para quem ganha hoje R$ 6.220 mensais, dez mínimos.

Magistrados querem blindar seus direitos e não aceitam nova forma de aposentadoria

Roberto Monteiro Pinho

Na esperança de que exista uma razão louvável para emudecer nossa opinião sobre a conduta antissocal da magistratura brasileira, fomos pesquisar e encontramos questões pontuais que fortalecem a critica.

Tomamos como foco da blindagem dos direitos (mais benesses que direitos), eis que a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) ajuizou Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN n° 4803) no Supremo Tribunal Federal  contra dispositivos das Emendas Constitucionais 20/98 e 41/03 sobre as aposentadorias de magistrados.

A AMB pede para excluir os membros da magistratura da reforma da previdência iniciada pela EC 20/98 e continuada pela EC 41/03. O pedido se sustenta em que (…) “submetem a magistratura ao regime geral de aposentadoria dos servidores públicos e, ainda, possibilita a extinção da paridade entre proventos e vencimentos, que é consequência inafastável da vitaliciedade conjugada com a irredutibilidade de vencimentos”.

Estamos vendo aqui, mais uma vez, que o juiz só pensa nele. Se o litigante está insatisfeito com os seus serviços, eis que nada fazem de fato para que isso se reverta, o quadro não muda. Na verdade, estamos diante de um dilema que nos faz lembrar o filósofo romano Sêneca: “Lutar com o igual é perigoso, com o mais forte é loucura; com o mais fraco é vergonhoso”.

Siomara Ponga fala sobre o Brasil e dá uma geral nos comentaristas

Siomara Ponga

Em primeiro lugar, eu não estou “defendendo Cuba”, apontei para alguns problemas que todos conhecem. Quem falou em prostitutas, como se aqui não tivesse, é um infantil. Quem me proclamou mais conhecedora de Cuba, errou, quem escreveu que “aqui tem umas pessoas, etc.”, eu não levo em consideração.

Não comparei o Brasil com lugar algum. O Brasil é lindo, vasto, amorável (como dizia meu avô – procurem no dicionário), que o povo apesar de ignorante porque vota sempre nos mesmos por ignorância ou ganância é bom. Que “em se plantando tudo dá” e outras coisas lindas, é verdade.

Vocês sabem o que está acontecendo no sertão, nesse exato momento em que estou escrevendo? Um seca devastadora. Vou recontar milhares de vezes, sem me cansar: um empresário, vendo o sofrimento dos nordestinos, se propôs a perfurar muitos, mas muitos poços – porque vocês, que conhecem tanto o Brasil, mais do que Cuba – sabem muito bem que o solo do nordeste possui um lençol vastíssimo da melhor água potável, logo abaixo da superfície.

Pois bem, quando o empresário ia começar as perfurações, foi avisado que seria assassinado. Sabem por quê, conhecedores do Brasil ? Porque com a água perto de casa, o curral eleitoral não precisaria mais de pipas d´água fornecidas pelos “coronéis” eleitoreiros.

Isso é só uma lambuja de exemplo do que se passa em nosso querido Brasil.Nosso sistema previdenciário está levando anos sem fim para chegar a uma conclusão sobre a idade da aposentadoria. Eu pergunto e eu mesma respondo: se uma pessoa começa a trabalhar aos 18 anos e aos 48 cumpriu 30 anos de trabalho, por que obrigá-la a cumprir mais 12 anos para receber aquela maravilhosa recompensa depois de deduzidos impostos sobre impostos? Tira-lhe a chance de vir a trabalhar em outra coisa ou apenas de deixá-la numa rede aproveitando o dinheirão que recebeu depois de uma vida.

O sistema de saúde é uma perfeição! Os planos de saúde são um primor, principalmente para os pobres. Recentemente, na televisão em horário nobre, vimos o desabafo de uma médica para atender todos os pacientes de um hospital do grande e belo Rio de Janeiro. Os hospitais vão caindo por falta de manutenção, como o do pioneiro em tratamento da AIDS, no Caju, que esta semana apareceu nos jornais e foi grilado por moradores de rua, enquanto em torno eram construídos barracos (manchete de no O Globo). E  Souza Aguiar, que foi assaltado com bandidinhos que levaram 24 mil e tiraram as armas dos seguranças. E dona Dilma veio verificar câmeras de segurança de outro hospital – façam-me o favor… um presidente sair do palácio para inspecionar trabalho de eletricistas e seguranças…

E tem muito mais, muito. Crianças que ainda são vendidas pelos pais por 10,00, até mesmo 1,00 ou um almoço para qualquer um que pagar, pais que levam seus filhos – meninos e meninas – até os navios que chegam, para oferecê-los ” como distração ” aos marinheiros que passaram meses no mar. Esses animais levam seus filhos de barco, vestidos apenas com calcinhas para serem presas devoradas.

E vocês me vêm com essas ironias sobre Cuba. O que Fidel tentou foi não deixar que isso acontecesse dando-lhes educação, trazendo técnicos, os mais competentes da Rússia, para ensinar balé e esportes para os cubanos. Vocês, que reprovam o “ditador” costumam assistir aos jogos Pan Americanos, as Olimpíadas”? Já assistiram o desempenho dos atletas cubanos, mil vezes melhor do que o dos brasileiros? Pois é, foi o Dr.Fidel Castro quem proporcionou tudo isso para meninas e meninos que estariam nas mesmas condições dos nossos.

E sabem do que mais? Vou para a praia. Mas volto em outra seção dessa magnífica Tribuna para falar de outro escândalo brasileiro, ” Entradas e Bandeiras”, a grande invasão dos bárbaros portugueses sobre índios e territórios estrangeiros. Se eu amo o Brasil? Com todas as fibras do meu coração, mas isso não me cega.

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PS – O filme sobre o ” Ensaio da Cegueira ” de Saramago – que leio desde o lançamento de seu primeiro livro no Brasil e tive a honra de apertar a mão quando ele veio receber o título de Dr. Honoris Causa na UFF, aqui pertinho de casa, por escolha pessoal, já que esse título lhe foi oferecido por vários países – pois o filme é uma droga, uma porcaria. E não me venham com frases soltas e sim com comentários que sejam pertinentes, para que eu os leia com atenção e aprenda mais.

O malogro da Rio+20: quando não progredir significa regredir

Leonardo Boff

Não corresponde à realidade dizer que a Rio+20 foi um sucesso. Não se chegou a nenhuma medida vinculante nem se criaram fundos para a erradicação da pobreza nem mecanismos para o controle do aquecimento global. Não se tomaram decisões para a efetivação do propósito da conferência, que era criar as condições para o “futuro que queremos”. É da lógica dos governos não admitir fracassos. Mas nem por isso deixam de sê-lo. Dada a degradação geral de todos os serviços ecossistêmicos, não progredir significa regredir.

No fundo, afirma-se: se a crise se encontra no crescimento, então a solução se dá com mais crescimento. Isso, concretamente, significa mais uso dos bens e serviços da natureza, o que acelera sua exaustão, e mais pressão sobre os ecossistemas, já nos seus limites. Dados da ONU dão conta de que, desde a Rio-92, houve uma perda de 12% da biodiversidade, 3 milhões de metros quadrados de florestas foram desmatados, 40% mais gases de efeito estufa foram emitidos e metade das reservas mundiais de pesca foi exaurida.

O que espanta é que o documento final e o borrador não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por que chegamos à atual situação nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui, reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceptual desse e de outros documentos oficiais da ONU.

Os que decidem continuam dentro do velho software cultural e social, que coloca o ser
humano numa posição adâmica sobre a natureza, como seu dominador e explorador, razão fundamental da atual crise ecológica. Não entendem o ser humano como parte da natureza e responsável pelo destino comum. Não incorporaram a visão da nova cosmologia, que vê a Terra como viva e o ser humano como a porção consciente e inteligente do próprio Terra, com a missão de cuidar dela e garantir-lhe sustentabilidade. Ela é vista, tão somente, como um reservatório de recursos.

Acolheram a “grande transformação” ao anular a ética, marginalizar a política e instaurar como eixo estruturador da sociedade a economia. De uma economia de mercado, passou-se a uma sociedade de mercado, descolando a economia real da economia financeira, esta comandando aquela. Confundiram desenvolvimento com crescimento. Aquele, como o conjunto de condições que permitem o desabrochar da existência humana, e esse, como mera produção de bens a serem comercializados e consumidos.

Entendem a sustentabilidade como a maneira de garantir a continuidade do crescimento, sem mudar sua lógica interna e sem questionar os impactos que causa sobre todos os serviços ecossistêmicos. São reféns de uma concepção antropocêntrica, quer dizer: todos os demais seres somente ganham sentido à medida que se ordenam ao ser humano. Entretêm uma relação utilitarista com todos os seres, negando-lhes valor intrínseco e, por isso, como sujeitos de respeito e direitos.

Por considerar tudo pela ótica do econômico, que se rege pela competição e não pela cooperação, aboliram a ética, e a dimensão espiritual na reflexão sobre o estilo de vida, de produção e de consumo das sociedades. Fizemo-nos bárbaros, insensíveis a milhões de famintos e miseráveis.

Por isso, impera radical individualismo, com cada país buscando seu bem particular em cima do bem comum global, o que impede, nas conferências da ONU, consensos e convergências. E assim, alienados, rumamos ao encontro de um abismo, cavado por nossa falta de razão sensível, de sabedoria e de sentido transcendente da existência.

A verdadeira história da ‘mudança de regime’ na Síria

François-Alexandre Roy (Asia Times Online)

Quem assista às televisões e leia os jornais da mídia ocidental só conhecerá a narrativa, repetida diariamente, segundo a qual a Síria estaria envolvida num levante democrático que seria extensão da Primavera Árabe. A verdadeira história é absolutamente outra.

Os sírios que exigem reformas ditas democráticas não são maioria significativa no país, como eram na Tunísia ou no Egito. Além disso, nem todos os ‘combatentes da liberdade’, entre os quais o Exército Sírio Livre, são sírios.

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EUA E AL-QAEDA

Houve muitas notícias segundo as quais as forças da ‘oposição síria’ seriam um cadinho de diferentes ideologias, de curdos separatistas a membros da Al-Qaeda. Sabe-se que há soldados da Al-Qaeda entre as forças de oposição na Síria, como há também mercenários vindos diretamente da “Revolução Líbia” – outro bom exemplo de golpe de estado tratado como se fosse parte de alguma Primavera Árabe, pela imprensa-empresa ocidental.

No início no levante na Síria, Ayman Al-Zawahiri, líder máximo da Al-Qaeda, convocou diretamente combatentes da Al-Qaeda e mercenários sunitas, para juntar-se às forças de oposição na Síria. Assim sendo, é bem evidentemente claro que EUA, Al-Qaeda, países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) estão hoje todos do mesmo lado, aliados, no conflito sírio – tentando um golpe de estado na Síria, sem qualquer preocupação com o futuro da Síria, depois de derrubado o governo de Bashar al-Assad.

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O JOGO DA TURQUIA

O Conselho Nacional Sírio e o Exército Sírio Livre tampouco estão integrados, e nem sempre lutam do mesmo lado. Contudo, além de derrubar o estado policial de Assad, lhes caberia traçar algum plano coerente para o futuro da Síria pós-revolucionária. Mas o Conselho Nacional Sírio e o Exército Sírio Livre têm um importante traço comum: ambos são pesadamente apoiados pela Turquia, que conta com vir a ocupar lugar de mais destaque na região.

Abdulbaset Sieda, o presidente sírio-curdo do Conselho Nacional Sírio, foi acusado por outros grupos curdos de só representar a agenda do governo turco – inimigos de muito tempo das populações curdas na região. O quartel-general e os campos de treinamento do Exército Sírio Livre são localizados na província de Hatay, sul da Turquia; foram ali instalados por forças especiais do Qatar. Através da Turquia, o Exército Sírio Livre também recebe armas (que foram usadas na Líbia); e, da OTAN, recebe equipamento de tecnologia avançada, para comunicações.

Já há algum tempo, a Turquia trabalha para ampliar seu espaço de ação e influência no Oriente Médio. Com uma ‘revolução democrática’ acontecendo junto à sua fronteira leste, os turcos logo procuraram estimular a revolta, na esperança de vir a construir laços fortes com quem vier a governar a Síria, seja governo democrático ou ditador novo. Bom meio pelo qual a Turquia pode começar a construir laços com o futuro governo na Síria é apoiar a causa da ‘mudança de regime’ desde o início, inscrevendo-se entre as forças que tenham ajudado a derrubar Assad.

Dia 22/6, a força aérea síria abateu um jato de combate F-4 turco, que, como diz a Síria, invadiu águas territoriais sírias. Além de reforço na presença militar turca na fronteira leste com a Síria, nada mais resultará desse incidente, porque a Turquia errou ao invadir águas territoriais sírias.

Mas, ao derrubar o Phantom turco, o exército sírio mostrou que suas capacidades de defesa antiaérea estão instaladas e operantes. É o que basta para tornar impraticável qualquer coisa semelhante à tal “zona aérea de exclusão” que abriu caminho para o golpe contra a Líbia. É possível que muitos ainda insistam em outras explicações para o “incidente” com o F-4 turco; nenhum jornal ou noticiário de televisão ocidental noticiará o fato: os turcos foram apanhados em operação de espionagem, tentando recolher informação sobre as defesas antiaéreas sírias; é sinal claro de que há planos para outros tipos de agressão à Síria.

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A EMPRESA-IMPRENSA

O modo como a empresa-imprensa ocidental apresenta os eventos que se desenrolam na Síria é o melhor indicador de que há um golpe em curso contra a Síria, chamado sempre “mudança de regime”. O ‘analista’, o ‘comentarista’ ou o ‘jornalista’ sempre só vê metade do fato, e sempre a metade que mais ajude a justificar e promover a agenda de ‘mudança de regime’ da grotesca coalizão de forças que, hoje, estão atacando a Síria: EUA e Turquia (dentro da OTAN), aliados da al-Qaeda e do Conselho de Cooperação do Golfo.

Basta analisar o modo como a empresa-imprensa ocidental está cobrindo os desenvolvimentos do conflito na Síria, para ter certeza de que o que está em andamento na Síria nada tem a ver com Primavera Árabe e já é guerra civil provocada e ‘arrastada’ para dentro do território sírio.

Absolutamente nenhum jornal, jornalista, especialista ou autoridade entrevistada nos veículos de mídia faz qualquer referência ao povo sírio ou a demandas dos próprios sírios. Todas as ‘matérias’ e ‘noticiários’ são carregados de imagens de bombardeios e matanças, sempre imediatamente declaradas ações criminosas do regime Assad. Mas sem qualquer tipo de prova.

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FOTO ERA FALSA

O mais recente massacre, acontecido em Houla, é bom exemplo do tipo de ação de guerra operado por jornais e jornalistas, contra a Síria: sem qualquer tipo de confirmação ou prova, as imagens que chegaram ao ocidente foram imediatamente identificadas como efeito da ação das forças de Assad. A BBC chegou a exibir imagem de centenas de cadáveres envolvidos em mortalhas brancas, identificados como vítimas do massacre em Houla. Não. Era foto feita no Iraque, em 2003, pelo fotógrafo Marco di Lauro…

À guisa de legenda, em letras convenientemente microscópicas, a BBC notificava que “Essa imagem – que não pôde ser verificada – parece mostrar cadáveres de crianças mortas no massacre de Houla, à espera de serem enterrados.” A história espalhou-se pelo mundo, como argumento que comprovaria a crueldade do regime sírio, induzindo a opinião pública a aprovar alguma espécie de intervenção militar, para finalidades ‘humanitárias’, contra a Síria.

Pouco depois, o autor da fotografia manifestou-se, o ‘jornalismo’ foi denunciado como fraude, e afinal noticiou-se que os reais autores do massacre haviam sido membros do Exército Sírio Livre fantasiados de shabiha (grupos de mercenários); e os mortos eram manifestantes sírios pró-Assad, cujas manifestações não recebem qualquer atenção dos ‘jornalistas’, jornais, comentaristas de televisão e colunistas e receberam tratamento diferente: a correção não foi tão amplamente divulgada quanto a notícia errada (ou propositalmente falsificada).

E onde se veem, no ‘jornalismo’ das empresas de imprensa ocidental, imagens dos protestos pacíficos? Não há notícias, porque não há qualquer tipo de levante democrático ou Primavera Árabe na Síria, como dizem as empresas de imprensa no ocidente. O que há na Síria é guerra civil, na qual os ‘rebeldes’ são ‘importados’, não representam qualquer tipo de maioria da população e não estão absolutamente unidos sob qualquer tipo de plataforma política; absolutamente não se sabe por que, afinal, tanto lutam para derrubar o regime de Assad.

Mais provas disso se veem nos confrontos sectários que irromperam no norte do Líbano. Toda e qualquer prova da guerra civil na Síria é censurada pelas empresas de imprensa ocidentais, porque não ajudariam a promover a causa do golpe contra Assad (‘mudança de regime’). A opinião pública tem de ser convencida de que o golpe não é golpe; que há “boas razões” para uma ‘mudança de regime’.

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IRÃ SOB AMEAÇA

Se o regime de Assad for afinal derrubado, será má notícia para o Irã e para o Hezbollah. O Irã estará cercado por “postos avançados” dos EUA em estados hospedeiros, a partir dos quais os EUA poderão, afinal, começar a atacar o regime iraniano: é o sonho, há vários anos, do complexo militar-midiático-industrial representado no Congresso dos EUA pelos neoconservadores dos dois principais partidos.

Mas, se houver ataque militar pelos exércitos dos EUA/OTAN para ‘libertar’ o povo sírio, como ‘libertaram’ o povo líbio ao preço de destruir a Líbia, acontecerá na Síria o que não aconteceu nem na Líbia, pelo menos até agora: guerra civil sem prazo para acabar, mais sangrenta do que se viu até agora. E que permanecerá absolutamente ocultada pelos jornais, ‘jornalistas’ e empresas de mídia do ocidente.

Fraude e falsificação, a receita dos bancos norte-americanos

Argemiro Ferreira

Já se teme até um novo choque imobiliário. Nos diferentes estados dos EUA, cada vez mais famílias norte-americanos enfrentam o risco de retomada de suas casas pelos bancos (entre eles, os gigantes Bank of America, Citibank, HSBC, Wells Fargo, Deutsche Bank, US Bank) por falta de pagamento de hipotecas. O jornalista Scott Pelley (foto abaixo, à direita) expôs no “60 Minutes” da rede CBS a questão crucial que passou a retardar a onda de retomadas em massa de casas.

Para comprá-las, as pessoas tinham sido obrigadas pelos bancos a apresentar papelada rigorosamente em dia. Os bancos, no entanto, não cuidaram de sua própria papelada. Por causa do descuido, são agora dezenas de milhares os casos de bancos e financeiras incapazes de localizar os documentos que provem estarem legalmente habilatados a retomar imóveis dos inadimplentes.

Ficou difícil saber quem é de fato dono de cada casa. A culpa pelo pesadelo, segundo Pelley, é a invenção em Wall Street, ainda sob a fúria desregulamentadora, dos investimentos garantidos por hipotecas – ou, na língua deles, mortgage-backed securities. Os mesmos “investimentos exóticos” que desencadearam o colapso financeiro nos EUA e continuam a criar problemas.

Também ouvida no final de “60 Minutes”, a própria presidente da reguladora bancária FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), Sheila Bair, foi enfática. Chamou a situação atual de “pervasive” – expressão que qualifica a influência nociva e perversa disseminada largamente pelos bancos.

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DETALHES ESCABROSOS

Já atolados na lambança de fraudes e ilegalidade, os bancos ainda tropeçaram nos detalhes escabrosos devassados na reportagem da CBS. As revelações devem-se a uma personagem singular, Lynn E. Szymoniak. Enquanto tentava salvar a própria casa, ela fez descobertas. Wall Street usava computadores modernos para produzir a desastrosa securitização garantida por hipotecas, segundo Szymoniac, mas esqueceu de preservar documentos em papel, talvez temendo que retardassem o ritmo frenético de seus lucros.

Ao levar Szymoniac ao tribunal como inadimplente, o banco credor dela teve de alegar perda dos papéis. Mais de um ano depois, misteriosamente, disse tê-los reencontrado. Não sabia que a moça, além de advogada, era investigadora de fraudes e especialista em documentos forjados (até treinara agentes do FBI). No exame dos papéis afinal apresentados pelo banco, Szymoniak achou primeiro uma discrepância de data: a compra da hipoteca pelo banco (17/10/2008) era posterior ao início do processo de retomada pelo banco (julho de 2008). Ou seja, quando o banco começou a ação de retomada não era dono da hipoteca.

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ORGIA DE FRAUDES

Parecia sem sentido, mas o que veio depois foi ainda mais estranho. Numa pesquisa online em 10 mil hipotecas, Szymoniak passou a devassar a orgia de fraudes bancárias. Havia milhares de documentos forjados. Grande número deles levava a assinatura de uma certa Linda Green como vice-presidente do banco. Green, que nunca na vida trabalhara em banco, assinava ao mesmo tempo como vice-presidente de 20 bancos.

Para Szymoniak as fraudes só podiam ser intencionais: na prática, ao encurtar caminhos e empacotar hipotecas em securities, Wall Street recorria a atalhos. Securities eram negociados e passavam de mão em mão, de investidor a investidor. E com a inadimplência de compradores, os bancos precisavam, para retomar os imóveis, exibir documentos que provassem a propriedade. “Mostre a prova de que é dono” passou a ser a resposta automática ao ataque dos bancos.

A dificuldade tornou-se então impossibilidade. Incapazes de provar a condição de donos das hipotecas, o que passaram a fazer bancos e financeiras? Optaram pela fraude múltipla e explícita. Um conjunto de procedimentos ilegais destinados a “fabricar” provas foi criado em seguida para, com elas, fundamentar-se a retomada de casas.

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ASSINATURAS FAlSAS

A pesquisa de Szymoniak aprofundou-se num caso específico – o da singular Linda Green, que assinava como vice-presidente sem saber coisa alguma de banco. Localizada pela equipe da CBS, ela reconheceu: assinara milhares daqueles papéis. Admitiu ainda que muitas outras pessoas também contratadas assinavam o nome dela. E que qualidades especiais tinha para ter sido escolhida? Morava na Georgia e tinha um nome curto, fácil e rápido para soletrar e escrever.

O empregador dela era a companhia DOCX, da Georgia, subsidiária da LPS, de US$2 bilhões, especializada em prestar serviços jurídicos a bancos provedores de hipoteca. Somente em 2009, devido à enxurrada de processos, a LPS resolveria fechar a DOCX, na esperança de assim por fim ao problema. Mas o estrago estava feito. Os bancos acharam ter se livrado do problema, transferindo-o para pessoas singelas e ingênuas como Green, sem consciência do que fizera a serviço deles.

A investigação de Szymoniak comprovou ainda que mais pessoas também assinavam, mesmo com letras bem diferentes, o nome de Green. A CBS chegou a elas. Muitas eram, na época em que tiveram o emprego, meras estudantes de escola secundária. Recebiam para passar horas no escritório forjando a assinatura “Linda Green”.

Um poeta desbocado, mas com muita sinceridade no versejar

Mário Assis

Oliveira de Panelas, poeta e repentista Pernambucano, certa vez se deparou com um desafio no mínimo inusitado: Após consertar seu carro na oficina de um amigo e perguntar quanto havia custado o conserto, ouviu do Dono da Oficina, que o conserto ficaria de graça, caso ele fizesse um verso, falando sobre o seu “órgão sexual”. Surpreso e ao mesmo tempo indignado, Oliveira resolveu brincar com o seu amigo dono da oficina e descreveu assim o “dito cujo”:

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UMA RÔLA VELHA

Oliveira de Panelas

Essa rôla antigamente
Vivia caçando briga
Furando pé de barriga
Doidinha pra fazer gente
Mas hoje tá diferente
No mais profundo abandono
Dormindo um eterno sono
Não quer mais saber de nada
Com a cabeça encostada
Na porta do cú do dono

Já fez muita estripulia
Firme que só bambu
Mais parecia um tatu
Fuçava depois cuspia
Reinava na putaria
A “priquita” era seu trono
Trepava sem sentir sono
E sem precisar de escada
Mas hoje vive enfadada
Na porta do cú do dono

Nunca mais desvirginou
Uma mata vaginosa
Há muito tempo não goza
A noite de gala passou
Vive cheia de pudor
Sonolenta e sem abono
Faz da ceroula um quimono
E da cueca uma estufa
Vive hoje à cheirar bufa
Na porta do cú do dono

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