Monthly Archives: junho 2012

O capitalismo é mesmo o sistema mais justo?

Almério Nunes

Nenhuma filosofia propôs o Socialismo como salvação. Sócrates, o Paladino da Filosofia, propôs que examinássemos as nossas vidas, para que ela fosse digna para ser vivida. Platão, seu discípulo maior, exaltava o Demiurgo (o artesão, o desenhista, o Criador Supremo do Universo).

Aristóteles criou a Ética, para vivermos em harmonia, o mais completo código jamais escrito por um ser humano. Baruch Spinoza, quase 2 mil anos depois, escreveu sua obra máxima “A Ética”, avançando ainda mais nesta matéria. A Filosofia serve para que façamos reflexões e nos indica caminhos.

Para ficarmos aqui mesmo, nos nossos tempos, empurraram para nós, goela abaixo, que o capitalismo é o sistema mais justo, mais humano, sistema este que dá oportunidades iguais a todos. A propaganda que divulga isso é fortíssima, uma autêntica lavagem cerebral de fazer inveja a Joseph Goebbels, o chefe da Propaganda nazista (“Uma mentira, repetida mil vezes, vira verdade”, era sua marca registrada).

E o que vemos hoje? O capitalismo trouxe, com sua ganância desmedida, as maiores desigualdades entre os povos, assemelhando-se em muito com o Feudalismo. Os “escolhidos” pelos reis da ocasião, recebem recursos e mais recursos, enquanto os “não escolhidos” … que passem muito bem obrigado.

Já li na Tribuna da Imprensa e no O Globo que o Sr Sílvio Santos salvou seu banco – PanAmericano – com 4 bilhões de reais da Caixa. Agora, a Míriam Leitão escreve que os recursos destinados (pela Caixa, novamente) para evitar a quebra do banco, já ultrapassam os 9 bilhões de reais.

E isto está acontecendo em todo o mundo: bancos oficiais salvando bancos particulares … com o dinheiro dos contribuintes!!! Karl Marx insurgiu-se tremendamente contra isso, contra o Feudalismo e … foi amaldiçoado pelos capitalistas. Faz todo o sentido.

No Rio de Janeiro, a esperança na vida pública com Marcelo Freixo

Sandra Starling (O Tempo, de BH)

Acompanhei pelos jornais, incrédula, o lançamento da candidatura de Marcelo Freixo, do PSOL, à Prefeitura do Rio de Janeiro. Diante de uma plateia composta de alguns dos melhores artistas do Brasil e de personalidades como Frei Betto e Leonardo Boff, esse jovem voltou a me dar esperança na vida pública. Ele promete fazer uma campanha como as que o PT fazia em sua origem, recusando-se a receber doações de empresas e buscando contato o mais direto possível com o eleitorado, mesmo que através de redes sociais.

Posso vir, outra vez, a quebrar a cara, como quebrei com Barack Obama. Esse agiu em sua primeira campanha de tal maneira que acabei me convencendo de que, afinal, nos Estados Unidos, um negro redimiria o espaço da política, engajando os cidadãos e não apenas querendo os votos deles. Comitês espontâneos brotaram país afora, e o então candidato ainda fazia gestos inesquecíveis para quem convive com a manipulação rasteira, eufemisticamente denominada entre nós de “realismo pragmático”.

Tenho escrito e repetido que, no Brasil, as palavras já não correspondem a seus conteúdos efetivos. Crime é tratado como malfeito, caixa 2, como recursos não-contabilizados e daí por diante.

Mas voltando à campanha de Obama: este não recebeu doações de empresas, só de contribuintes individuais, e chegava a telefonar para integrantes dos tais comitês espontâneos apenas para conversar com eles e agradecer o empenho que tinham em elegê-lo. Fiquei à época tão entusiasmada que até mandei comprar uma camisa de sua campanha, que eu ostentava orgulhosa por onde ia aqui, no Brasil.

Agora, quem quiser conhecer, de fato, o que se passou depois que ele chegou à Presidência dos EUA, tem de assistir ao documentário “Inside Job”, (em português, “Trabalho Interno”), de autoria de Charles Ferguson: protagonistas de escândalos financeiros, de corrupção e de chantagens no mundo dos negócios passaram a fazer parte de seu governo em postos-chave.
Aliás, para ser mais direta, alguns também pertenceram, em pessoa ou por interposto representante, aos governos anteriores, inclusive o de George W. Bush.

Agora mesmo, estava quebrando a cara outra vez: com Luiza Erundina, que sucumbia a quem, antes, a perseguiu no PT. Ia de vice de Fernando Haddad e de braços dados com Paulo Maluf, mas teve o bom sendo de desistir.

Marcelo Freixo está tendo o apoio daqueles que Lula qualificou como inúteis em nossa modernidade: os chamados “formadores de opinião”, isto é, pessoas que, por suas contribuições culturais, fazem a cabeça (no bom sentido) das multidões. Ou os elos imprescindíveis, no dizer de Hannah Arendt, entre os cidadãos e os que se colocam como seus representantes (porque eleitos para tal) na arena pública.

É claro que não vai ser nada fácil a campanha desse moço. Basta lembrar que, contra ele, estarão as milícias e os tentáculos já capturados pelos Cachoeiras da vida. E não faltarão canetas poderosas para ser acionadas em seu desfavor.

Mas vai valer a pena acompanhar sua trajetória.

O ilimitado poder das telecomunicações ameaçando a soberania das nações

Welinton Naveira e Silva

As páginas impressas em papel estão chegando ao fim. Estão sendo substituídas pelas páginas digitais, via telecomunicações, instantaneamente enviadas aos mais remotos lugares do Planeta, a exemplo de diversos jornais já disponíveis na internet, inclusive, revistas, livros, TVs, etc. Em breve todo e qualquer documentação e artigos serão do tipo digital, via internet. Para ter acesso, basta possuir um receptor portátil adequado (senha, quando exigida), dentre tantos já conhecidos, e outros mais a caminho do mercado consumidor.

Já se escuta dizer que em futuro próximo, todos os arquivos e programas de computador, passarão a ser digitais, via internet. Os arquivos de hoje, particulares, públicos e privados, inclusive os das forças armadas, contendo sigilos militares, científicos, tecnológicos, bancários, mercadológicos, financeiros e outros mais, serão arquivados na forma virtual, inteiramente aos cuidados de empresas estrangeiras.

Será o fim dos programas e arquivos pessoais, armazenados no disco rígido do nosso computador (HD), em pen drive, cd, dvd, etc. Tudo passará a ser virtual, via telecomunicações, sob a guarda privada e estrangeira, de segurança bastante suspeita. Isso, para não falar dos valores a serem cobrados, inclusive, os que atualmente ainda são gratuitos. Será a dependência total de todo o povo, de toda sua economia e meios de produção, de toda a nação que impensadamente entregou sua telecomunicação à iniciativa privada e estrangeira.

Imaginem um jornal que venha questionar escusos interesses estrangeiros em detrimento de maiores interesses estratégicos de seu país. Por certo que estará sujeito a não ter o artigo publicado. Ainda nesse sentido, de há muito que já tomamos conhecimentos práticos da existência de censuras nas correspondências eletrônicas, via email. Dependendo do servidor, do emitente e do artigo, fazem exigências adicionais e/ou, não efetuam a entrega. Isso já existe. Não é fantasia.

O poder que essas empresas de telecomunicações estão reunindo se tornou gigantesco e perigoso, coisa jamais pensada, sequer imaginada. Constituem sérios riscos para a soberania do Brasil e de qualquer nação dependente da telecomunicação estrangeira e privada. Possuem meios de tomar conhecimento de tudo que se conversa, de tudo que é escrito, noticiado, planejado, pesquisado e arquivado. Possuem acesso às invenções, arquivos públicos, militares, bancários e privados, etc. Sem limites. Sabe-se que há telefone celular que, apesar de desligado, pode estar transmitindo toda a conversa do entorno.

Dizem que na Líbia e na Síria, os EUA já estariam fazendo largo uso da tecnologia da desinformação com interferência direta nas redes de rádio e de TVs, transmitindo notícias falsas de fantasiosas cenas de vitórias dos invasores, de aberta colaboração e adesão popular com as tropas invasoras, objetivando quebrar o moral das forças nacionalistas de resistência. Aterrador.

Indiscutivelmente, o poder que a tecnologia outorga às empresas de telecomunicações vai tornando-se cada dia maior, gigantescos, perigosos e sem limites algum. As telecomunicações, jamais poderiam pertencer à iniciativa privada. Foram indevidamente privatizadas por FHC/PSDB. Agora ficou evidente tratar-se de uma questão crucial para a segurança do Brasil e de qualquer nação soberana. Ainda há tempo para reverter tamanho absurdo e traição. Basta muita coragem e nacionalismo. Acorda Brasil.

Substituto de Erundina também rejeita ser vice de Haddad. Por que não indicar Maluf?

Carlos Newton

O repórter Bernardo Mello Franco, da Folha, revela que o advogado Pedro Dallari, filiado ao PSB, recusou convite para substituir a deputada Luiza Erundina (PSB) como candidato a vice-prefeito na chapa do petista Fernando Haddad em São Paulo.

Professor da Universidade de São Paulo, Pedro é filho do jurista Dalmo Dallari, que sempre apoiou o PT. Pedro era o preferido de Haddad para assumir o posto após a desistência de Erundina.

Ao recusar o convite, Dallari alegou ser próximo a Erundina, que anunciou ontem sua saída da chapa em protesto à aliança do PT com o PP de Paulo Maluf.

Segundo a Folha, agora quem está cotada para ser vice é a deputada federal Keiko Ota (PSB). E o PCdoB, que deve anunciar adesão a Haddad no próximos dias, está indicando Nádia Campeão, que é da Executiva do partido.

Mas por que Haddad não escolhe logo Paulo Maluf, que é muito mais conhecido do que as duas outras pretendentes?

 

Demóstenes e Cachoeira viajaram juntos aos EUA, mas foi só coincidência

Carlos Newton

A Folha de S. Paulo revela que a CPI descobriu que o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) viajou para os Estados Unidos no mesmo voo que o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

A informação sobre as viagens consta de documento enviado à CPI do Cachoeira pelo Ministério da Justiça. A comissão solicitou todos os voos internacionais de 2001 a 2012 feitos por Cachoeira, Demóstenes e a mulher do senador, Flávia Torres. Em 26 de janeiro do ano passado, os três embarcaram no voo JJ 8042 com destino aos Estados Unidos.

O documento revela que o senador passou a viajar para o exterior com mais frequência em 2011, quando se casou com Flávia. De casamento, o senador ganhou de presente de Cachoeira um fogão e uma geladeira.

Segundo a Folha, entre 2004 e 2007, o senador fez apenas um voo em cada ano para o exterior. Em 2008, foram 8 viagens; em 2009, 7 viagens; em 2010, 6 viagens; e em 2011, foram 14 viagens. Os destinos, na maioria das vezes, eram a Europa e os Estados Unidos.

O advogado de Demóstenes, Antonio Carlos de Almeida Castro, não foi localizado pela Folha. Se tivesse sido entrevistado, diria que tudo é mera coincidência. O advogado de Cachoeira, Marcio Thomaz Bastos, diria a mesmíssima coisa.

E assim caminha a humanidade, na versão política brasileira.

Desafios à Rio+20

Frei Betto

Iniciada há poucos dias, Rio+20 abriga chefes de Estado, e ambientalistas e movimentos sociais na Cúpula dos Povos. O evento corre o risco de frustrar expectativas caso não tenha, como ponto de partida, compromissos assumidos na Agenda 21 e acordos firmados na Eco-92 e reiterados na Conferência de Johanesburgo, em 2010.

Há verdadeira conspiração de bastidores para, na Rio+20, escantear os princípios do desenvolvimento sustentável e os Objetivos do Milênio, e impor as novas teses da “economia verde”, sofisma para encobrir a privatização dos recursos naturais, como a água, e a mercantilização da natureza.

O enfoque dos trabalhos deverá estar centrado não nos direitos do capital, e sim na urgência de definir instrumentos normativos internacionais que assegurem a defesa dos direitos universais de 7 bilhões de habitantes do planeta e a preservação ambiental.

Cabe aos governos reunidos no Rio priorizar os direitos de sustentabilidade, bem-estar e progresso da sociedade, entendidos como dever de garantir a todos os cidadãos serviços essenciais à melhor qualidade de vida. Faz-se necessário modificar os indicadores de desenvolvimento, de modo a levarem em conta os custos ambientais, a equidade social e o desenvolvimento humano (IDH).

A humanidade não terá futuro sem que se mudem os padrões de produção, consumo e distribuição de renda. O atual paradigma capitalista, de acumulação crescente da riqueza e produção em função do mercado, e não das necessidades sociais, jamais haverá de erradicar a miséria, a desigualdade, a destruição do meio ambiente. Migrar para tecnologias não poluentes e fontes energéticas alternativas à fóssil e à nuclear é imperativo prioritário.

Nada mais cínico que as propostas “limpas” dos países ricos do hemisfério Norte. Empenham-se em culpar os países do hemisfério Sul quanto à degradação ambiental, no esforço de ocultar sua responsabilidade histórica nas atividades de suas transnacionais em países emergentes e pobres. Há que desconfiar de todas as patentes e marcas qualificadas de “verdes”. Eis aí um novo mecanismo de reafirmar a dominação globocolonialista.

O momento requer uma convenção mundial para controle das novas tecnologias, baseada nos princípios da precaução e da avaliação participativa. Urge denunciar a obsolescência programada, de modo a dispormos de tecnologias que assegurem o máximo de vida útil aos produtos e beneficiem a reciclagem, tendo em vista a satisfação das necessidades humanas com o menor custo ambiental.

À Rio+20 se impõe também o desafio de condenar o controle do comércio mundial pelas empresas transnacionais e o papel da OMC (Organização Mundial do Comércio) na imposição de acordos que legitimam a desigualdade e a exclusão sociais, impedindo o exercício de políticas soberanas. Temos direito a um comércio internacional mais justo e em consonância com a preservação ambiental.

Sem medidas concretas para frear a volatilidade dos preços dos alimentos e a especulação nos mercados de produtos básicos, não haverá erradicação da fome e da pobreza, como preveem, até 2015, os Objetivos do Milênio.

Devido à crise financeira, parcela considerável do capital especulativo se dirige, agora, à compra de terras em países do Sul, fomentando projetos de exploração de recursos naturais prejudiciais ao meio ambiente e ao equilíbrio dos ecossistemas.

A Rio+20 terá dado um passo importante se admitir que, hoje, as maiores ameaças à preservação da espécie humana e da natureza são as guerras, a corrida armamentista, as políticas neocolonialistas. O uso da energia nuclear para fins pacíficos ou bélicos deveria ser considerado crime de lesa-humanidade.

Participarei da Cúpula dos Povos para reforçar a proposta de maior controle da publicidade comercial, da incitação ao consumismo desmedido, da criação de falsas necessidades, em especial quando dirigidas a crianças e jovens.

Educação e ciência precisam estar a serviço do desenvolvimento humano e não do mercado. Uma nova ética do consumo deve rejeitar produtos decorrentes de práticas ecologicamente agressivas, trabalho escravo e outras formas de exploração.

Enfim, que se faça uma reavaliação completa do sistema atual de governança ambiental, hoje incapaz de frear a catástrofe ecológica. Um novo sistema, democrático e participativo, deve atacar as causas profundas da crise e ser capaz de apresentar soluções reais que façam da Terra um lar promissor para as futuras gerações.

(Artigo enviado pelo jornalista Sergio Caldieri)

A guerra civil na Síria e o drama do Egito

Roberto Nascimento

É uma vergonha a participação das potências européias na insurgência dos países árabes. A Inglaterra dividiu e enfraqueceu os povos muçulmanos impedindo a unidade árabe. Depois os americanos, a nova potência que emergiu após a segunda guerra, também trilharam esse caminho da divisão.

Para impedir o retorno da unidade viabilizada pelo presidente Nasser do Egito, foram estimulados golpes de Estado em série nos países árabes. E agora, depois de décadas de controle dos militares golpistas (Mubarack, Kadafi, Assad e Hussein) no Egito, Líbia, Síria e Iraque, chegou a hora de mudar para que tudo fique na mesma.

O enredo está traçado: cria-se um vácuo de poder, que desestabiliza a sociedade através da guerra civil e depois advém novo golpe de Estado para a continuidade do colonialismo.

Esse roteiro começa a dar sinais claros com a tomada do parlamento pelos militares egípcios, com apoio da Suprema Corte do país. Primeiro, o Parlamento cai nas mãos dos autoritários do antigo regime, que não o entregarão à Irmandade Muçulmana tão facilmente. Logo depois tomam conta de tudo em nome da estabilidade e da ordem interna.

Só não vê quem não quer ou quem acredita em milagres na política. Nações não têm amigos; somente – e tão somente – interesses. Desde os tempos imemoriais.

Erros meus a que chamarei virtude

Como dizia Rubem Braga, a poesia é necessária. Vamos hoje a dois sonetos do poeta português Afonso Duarte (1884-1958).

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ERROS MEUS A QUE CHAMAREI VIRTUDE

Erros meus a que chamarei virtude,
Por bem vos quero, e morro despedido
Sem amor, sem saúde, o chão perdido,
Erros meus a que chamarei virtude.

A terra cultivei, amargo e rude,
No sonho de melhor a ter servido;
Para ilusão de um palmo de comprido,
A terra cultivei, amargo e rude.

E o amor? A saúde? Eis os dois Lagos
Onde os olhos me ficam debruçados
— Azul e roxo, rasos de água os Lagos.

Mas direis, erros meus, ainda amores?
— São bonitos os dias acabados
Quando ao poente o Sol desfolha flores.

Afonso Duarte, in “Sibila”

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CABELOS BRANCOS

Cobrem-me as fontes já cabelos brancos,
Não vou a festas. E não vou, não vou.
Vou para a aldeia, com os meus tamancos,
Cuidar das hortas. E não vou, não vou.

Cabelos brancos, vá, sejamos francos,
Minha inocência quando os encontrou
Era um mistério vê-los: Tive espantos
Quando os achei, menino, em meu avô.

Nem caiu neve, nem vieram gelos:
Com a estranheza ingênua da mudança,
Castanhos remirava os meus cabelos;

E, atento à cor, sem ter outra lembrança,
Ruços cabelos me doía vê-los …
E fiquei sempre triste de criança.

Afonso Duarte, in “Ossadas”

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