Arquivos por mês: setembro 2012

Secretário-geral da ONU defende direito de Palestina ser Estado autônomo

Renata Giraldi (Agência Brasil)

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) Ban Ki-moon, apelou para que a comunidade internacional apoie os esfoços feitos pela Autoridade Nacional Palestina (ANP) em busca de sua autonomia e da conquista de ser transformada em um Estado. Segundo ele, dessa forma a comunidade internacional vai colaborara para evitar um efeito desestabilizador no Oriente Médio.

Porém, o apelo dos palestinos esbarra em resistências por parte de Israel e seus aliados, como os Estados Unidos. As discussões sobre o tema geram polêmicas e críticas.

“Não fazer isso neste momento crítico pode ter consequências que podem se revelar como desestabilizadoras [no Oriente Médio]“, disse Ban Ki-moon, lembrando que a expansão dos assentamentos (israelenses) e da divisão do povo palestino são as principais ameaças para as negociações entre palestinos e isralenses.

Ban Ki-moon pediu ainda a colaboração financeira da comunidade internacional para o comitê de ajuda aos refugiados palestinos. Segundo ele, há um “déficit urgente” de US$ 400 milhões. O secretário-geral acrescentou que as agências da ONU continuarão a trabalhar para ajudar a Autoridade Nacional Palestina.

“A situação atual não é sustentável. O estabelecimento de um Estado viável, democrático e soberano da Palestina, vivendo lado a lado com Israel está muito atrasada “, lamentou Ban Ki-moon. “É hora de a comunidade internacional a trabalhar seriamente com as partes nos próximos meses para traçar um novo caminho político credível para alcançar essa visão.”

A presidente Dilma Rousseff pretende abordar a questão entre palestinos e israelenses em seu discurso amanhã na abertura da 67ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York. O governo brasileiro é favorável ao Estado autônomo palestino.

Cientista político diz que julgamento do mensalão pode criar ‘círculo virtuoso’

Fernando Mello (Folha de S. Paulo)

Após cinco anos na Universidade de São Paulo, o cientista político Matthew Taylor voltou para a American University, em Washington. Antes, publicou (com Timothy Power) o livro “Corrupção e Democracia no Brasil”, uma análise sobre a impunidade de autoridades brasileiras.

Para Taylor, dependendo do resultado, o julgamento do mensalão pode iniciar um “círculo virtuoso”, ao aumentar a confiança nos brasileiros de que políticos devem, sim, temer a Justiça e podem ir para a cadeia.

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Folha – Qual é a importância do julgamento do mensalão?

Matthew Taylor – Apenas o fato de o STF julgar publicamente é um avanço, pois são pessoas graúdas e importantes da política. Pelo tamanho, pelo número de réus e por impactar uma presidência que foi muito louvada em outros campos, a de Lula, é um caso histórico.

Quais podem ser as consequências de condenações?

Quando a corrupção é descoberta, investigada e punida, um círculo virtuoso se torna possível, com ganhos institucionais. Primeiro, acaba com práticas específicas e contribui com o saneamento do jogo político. Segundo, pode dar a demonstração de que existem custos e riscos para aqueles que se engajam em práticas corruptas. Terceiro, pode ajudar a restaurar a confiança nas instituições.

O efeito é imediato?

Não, são mudanças paulatinas. Se compararmos o Brasil de 1980 e o de hoje, não houve nenhum momento de mudança institucional radical no combate à corrupção. Mesmo assim, a melhora acumulada ao longo da última geração é significativa.

Que escândalos tiveram efeitos institucionais positivos?

Após os anões do Orçamento, iniciou-se uma iniciativa que só vingou uma década depois: a possibilidade de políticos serem julgados ou investigados pelo STF sem a necessidade de autorização do Congresso. Mas em cada momento histórico surgem gargalos a serem enfrentados. Não acredito que o problema da impunidade ou corrupção seja, prioritariamente, cultural, mas institucional. Atualmente, me parece claro que o Judiciário é esse gargalo.

Arcebispo defende casamento de padre e diz que Papa não é infalível

Sérgio Fontenele (Folha)

Recém-nomeado arcebispo de Teresina (PI), dom Jacinto Furtado de Brito Sobrinho, 65, diz que o discurso do papa “não é infalível”. E, segundo o religioso, “o fato de que, para ser padre, precisa ser também celibatário, é uma disciplina da Igreja [Católica] que pode mudar”.

O recém-nomeado arcebispo de Teresina, dom Jacinto Furtado de Brito Sobrinho D. Jacinto quer mudanças

A opinião se choca com recentes declarações de Bento 16 a sacerdotes reformistas que desejam tanto a ordenação de mulheres como o fim da proibição do casamento de religiosos. O papa se refere ao celibato como “imprescindível” e, a essa ala contrária, como “desobediente”.

“O papa não é infalível quando fala tudo. A Igreja tem a convicção de que ele é infalível quando fala de fé e moral”, afirma dom Jacinto.

Para ele, a mudança de opinião em relação ao celibato é alimentada por vários segmentos da Igreja. “Isso é um desejo de muitos bispos.”

“O espírito vai soprar na Igreja, e o papa tomará uma decisão oficial, conjunta, de dar as duas alternativas para o Ocidente”, diz, sobre a opção de ser ou não celibatário.

O arcebispo lembra que há padres casados na Igreja. “No Oriente cristão católico há padres casados. Isso não é estranho. A Igreja sempre teve padres casados.”

O arcebispo de Teresina diz que “recentemente o papa Bento 16 acolheu padres que saíram da Igreja Anglicana, com suas famílias, e se tornaram católicos”. E afirma que existe espaço para que essa mudança seja aceita.

Ligado à Teologia da Libertação, linha que nos anos 80 ligava o catolicismo ao marxismo, dom Jacinto se considera um religioso que defende uma renovação de ideias.

Jornalista inglês sugere o técnico ideal para a seleção brasileira

Scott Moore (Diário do Centro do Mundo)

LONDRES – Vi o jogo entre Brasil e Argentina. Mais uma vez, fiquei decepcionado com a atuação do Brasil. Temos na cabeça um Brasil mágico, e a verdade é que faz tempo que essa magia não se manifesta.

Vocês têm um problema. Talvez eu tenha a solução. O técnico Mano Menezes voltou do fracasso olímpico ainda mais inseguro do que era. A medalha de ouro empurraria a ele e ao time para cima. A de prata jogou para baixo.

Faltam quase dois anos para a Copa do Brasil. Não existe sentido em permanecer com um treinador acuado, que transmitirá sua insegurança a um time que precisa de confiança. E existe tempo.

A solução se chama Tostão. Minha lembrança dele é de jogador. Jamais esquecei aquela tarde no México em que ele baixou a cabeça, rodopiou sem rumo por si mesmo e com a perna errada deu um chute ao acaso para a área. A bola foi parar – logo em quem – Pelé, e de Pelé alcançou Jairzinho. Perdemos a Copa ali. Éramos a única seleção capaz de bater os canarinhos.

Tostão, lembro bem, foi um jogador excepcional. O boss me conta que ele continua na ativa, próximo do futebol. É segundo o boss o melhor comentarista de futebol do Brasil. “Enxerga o jogo como se ainda estivesse dentro do campo”, ouço numa rodada de pints no pub da esquina.

Eis a saída: Tostão como técnico. Tostão tem o carisma de quem foi campeão mundial, de quem venceu tudo, de quem jogou como poucos.

A questão é como negociar sua ida. Sou pragmático tal como todo bom inglês. Não existe nada que o dinheiro não possa comprar. Mesmo minha mulher Chrissie, que discorda de mim em tudo, concorda nisso.

Ofereçam a ele um bom dinheiro. Assegurem condições ideais para ele trabalhar: com isso quero dizer, coloquem no contrato que ele não sofrerá nenhuma espécie de interferência – nem de cartolas, nem de patrocinadores, nem de ninguém. (A ausência de Ricardo Teixeira é, em si, um bônus para Tostão.)

Embrulhem tudo isso numa causa nacional. Tostão há de entender que estão em jogo o orgulho, a honra, a alegria dos brasileiros. Tostão será capaz de executar as tarefas mais prementes do selecionado verde-amarelo, como, por exemplo, transformar Neymar de menino em adulto.

Feito isso, contratado Tostão, o caminho para o hexa estará plano, estupendamente agradável, para vocês, brasileiros.

Livre pensar é só pensar (Millôr Fernandes)

Dividimo-nos orgulhosamente em 60% de analfabetos, 40% de ignorantes e o resto de governantes.

Já que o Reino dos Céus é dos humildes, me digam aí, não podiam mandar minha parte em dinheiro?

Se eu fosse o Papa vendia tudo e ia embora.

Fique tranquilo: sempre se pode provar o contrário.

Em terra de cego abrir cinema é idiotice.

Era a cara escarrada do pai, sobretudo quando estava resfriado.

Que seria dos economistas se não fosse a extrema miséria do mundo?

Os grandes mistérios da telefonia: porque será que quando a gente liga um número enganado ele nunca está ocupado?

Em boca fechada não entra broca de dentista.

As pessoas são sempre problemáticas. E os problemas são todos pessoais.

Outubro amargo?

Percival Puggina

Lula tinha três projetos importantes para 2012. O primeiro era alcançar um crescimento robusto da Economia. Quando o ano começou, no melhor estilo lulista Dilma desfilava arrogância dando conselhos a chefes de Estado sobre como superar a crise. Mas eis que quando se aproxima o outubro amargo, depois de uma dúzia de pacotes para soprar as brasas da economia através do endividamento do povo, o PIB dá sinais de esgotamento e impotência. Parece não haver pílula azul que faça a economia adotar uma postura ascendente.

O segundo projeto lulista era eleger Haddad. Entendamos nosso ex-presidente. Ele estava nem aí para uma vitória do PT em São Paulo. Ele queria eleger o Haddad. Aliás, não era bem isso. Corrijo-me. Lula estava nem aí para o Haddad. Ele queria ser o cara que conseguiu fazer prefeito de São Paulo um desconhecido incompetente como o Haddad. Acontece que Marta Suplicy não apenas era candidata. Ela ponteava as primeiras pesquisas de opinião!

Em setembro de 2011, Marta tinha 29% das intenções de voto contra 18% de José Serra. Num segundo cenário, trocando Marta por Haddad, este aparecia com 2% das intenções de voto. Voilá! Lula tinha em Haddad uma versão masculina para reproduzir o prodígio que fizera com Dilma. Certo de sua onipotência, exercendo aquela autoridade absoluta, mista de cacique e pajé (que só não funcionou na época do Mensalão), exigiu que a senadora renunciasse à candidatura em favor do seu pupilo. À medida que se aproximava o amargo outubro, Lula entrou em desespero: foi beijar a mão de Maluf nos jardins da casa dele e mandou a doublé de presidente desbancar do ministério a irmã do Chico Buarque. Ato contínuo, ofereceu a poltrona da Cultura para Marta que aceitou, subiu no palanque e tirou retrato com Haddad. No momento em que escrevo este artigo parece não haver mais tempo para que o quadro político proporcione alguma alegria a Lula.

O terceiro projeto lulista para 2012 era acabar com o processo do Mensalão. Tal missão foi enfaticamente assumida ao deixar a presidência. “Xacomigo!”, terá dito Lula. Com efeito, mesmo no mais diluído senso moral, os fatos do Mensalão enodoavam sua biografia. Ora, Lula se vê como Deon, o semideus da mitologia grega que tinha o poder de submeter os demais aos seus comandos de voz.

Portanto, era só falar com um, falar com outro, dar algumas entrevistas e a maior parte dos ministros do STF, obedientes aos desígnios de quem os indicou, não se recusariam a lhe entregar a própria honra. Mas eis que quando o outubro amargo se aproxima, se evanesce a ilusão. Não há compadres em número suficiente no plenário do Supremo. Lula cruza as mãos sobre as próprias vergonhas e pede que o ano termine logo.

(Do Blog de Puggina)

Prefeito do Rio não repassa verbas a instituição que atende crianças portadoras de necessidades especiais

Carlos Newton

O Prefeito do Rio Eduardo Paes vem empurrando com a barriga (vazia) a verba destinada a Merenda das Instituições Filantrópicas conveniadas com a Secretaria Municipal de Assistência Social.

Há 6 meses a tradicional e histórica Sociedade Pestalozzi do Brasil não recebe repasses. A cada contato que a instituição faz com a Prefeitura, é exigido um documento diferente para comprovar o trabalho desenvolvido, que é tratado com descaso pela administração pública.

A Sociedade Pestalozzi do Brasil atende crianças carentes há 67 anos. Seu trabalho é de suma importância para mais de 500 famílias com crianças portadoras de necessidades especiais.

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Pais, alunos e professores da Sociedade Pestalozzi organizaram um protesto

Sepulveda Pertence enfim renuncia à Comissão de Ética da Presidência da República

Carlos Newton

Demorou, mas aconteceu. O comentarista Darcy Leite, sempre atento, nos envia a notícia de que
o presidente da Comissão de Ética Pública da Presidência, Sepúlveda Pertence, renunciou ao cargo nesta segunda-feira, logo após dar posse aos três novos conselheiros, Marcello Alencar de Araújo, Mauro de Azevedo Menezes e Antônio Modesto da Silveira, indicados pela presidente Dilma Rousseff no último dia 3 de setembro.

Um  homem de bem

Sepúlveda deixou clara sua insatisfação com a não recondução dos conselheiros Marília Muricy e Fabio Coutinho, que poderiam ficar mais três anos na comissão.

Como se sabe, Marília Muricy sugeriu a demissão do ex-ministro do Trabalho Calos Lupi, em dezembro doa ano passado, por causa das denúncias de irregularidades em convênios da pasta com ONGs, que teriam beneficiado o PDT. E no início deste ano, Coutinho propôs uma advertência ao ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, devido às consultorias feitas por ele entre 2009 e 2010 para a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, que renderam R$ 2 milhões. O processo está parado na comissão.

“Eu vim aqui exclusivamente para empossar os três membros designados pela presidente da República e demonstrar-lhes a satisfação que tenho com os nomes e, ao mesmo tempo, que isso nada tem a ver com o fato que lhes comuniquei de que, neste momento, estou encaminhando à chefe do governo a minha renúncia às funções de membro e consequentemente presidente da Comissão de Ética” – afirmou Sepúlveda, que é um homem de bem, mas andava curvado nos últimos tempos, com sua espinha arqueada diante de um governo que decidamente não combate a corrupção.

No Brasil, quem demite ministro corrupto é a imprensa. Se depende do governo (leia-se Lula Rousseff) eles permanecem no poder até o final dos tempos.

Funcionalismo público nos EUA

Paul Krugman

Durante uma mesa redonda na rede ABC, Rand Paul pareceu chocado quando afirmei que o emprego estatal caiu no governo Obama. Claro que sim. Mas talvez ele esteja pensando no fato de que, como o número de funcionários públicos aumentou no governo Bush, estamos ainda em níveis absolutos mais altos do que uma década atrás.

No entanto, esta é uma estranha comparação: se não houve nenhuma alteração em relação ao passado, seria de esperar que o emprego público aumentasse com a população (lembre-se, o típico funcionário público é o professor de escola). E aqui está o que ocorreu com o emprego no funcionalismo público per capita:

Sei que os republicanos sabem, apenas sabem, que o governo inflou sob Obama. Mas não.

(Artigo transcrito do Estadão)

Revisor e relator divergem em temas centrais do mensalão, como o conceito de lavagem de dinheiro

Débora Zampier (Agência Brasil)

O Supremo Tribunal Federal (STF) entra hoje no vigésimo sétimo dia de julgamento da Ação Penal 470, conhecida como processo do mensalão, com a continuação do voto do revisor, Ricardo Lewandowski, sobre os pagamentos a parlamentares entre 2003 e 2004.

Embora seu voto ainda esteja no começo, Lewandowski, na sessão de quinta-feira, já mostrou discordar da versão apresentada pelo relator Joaquim Barbosa, que condenou 12 réus desta etapa, entre eles sete parlamentares. Um dos pontos de divergência é sobre o crime de lavagem de dinheiro, questão central por envolver os 13 réus cujas condutas são analisadas agora pelo STF.

Enquanto o relator defende que os parlamentares lavaram dinheiro ao receber em espécie ou ao mandar terceiros sacarem na boca do caixa, Lewandowski acredita que a dissimulação faz parte do próprio ato de corrupção. Para o revisor, se o parlamentar não sabia do caminho sujo do dinheiro até chegar a suas mãos, ele não pode ser condenado por lavagem.

Outro ponto de discordância é o motivo do recebimento da verba pelos parlamentares. Enquanto Joaquim Barbosa corrobora a tese do Ministério Público, afirmando que o pagamento era para compra de apoio político para o governo, Lewandowski disse, na última sessão, que o dinheiro se destinava ao pagamento de dívidas de campanha, aproximando-se da tese dos advogados.

“Houve um acordo entre partidos para financiamento de campanhas, os representantes dos diversos partidos telefonaram para o partido que financiava essas campanhas e disseram ‘Olha, vai e recebe dinheiro no banco tal’, e essas pessoas mandam um intermediário que assina um recibo e a pessoa, em princípio, não sabe se o dinheiro veio da SMP&B [empresa de Marcos Valério], do próprio banco ou de uma empresa qualquer”, disse Lewandowski.

Logo após a sessão, ao falar com jornalistas, o revisor deu uma nova versão sobre o destino dos recursos e disse que não vai detalhar em seu voto qual o objetivo do pagamento a parlamentares porque “não há necessidade de entrar nesse tipo de elocubração”. Para Lewandowski, a corrupção já fica configurada se o político aceitar receber vantagem, independentemente do motivo que levou o corruptor a oferecer dinheiro.

Até agora, Lewandowski absolveu o deputado federal Pedro Henry (PP-MT) de todos os crimes e o ex-deputado federal e ex-presidente do PP Pedro Corrêa, do crime de lavagem de dinheiro. Ele continuará seu voto nesta segunda analisando as acusações sobre o réu João Cláudio Genu, assessor do PP na época dos fatos, e os réus Breno Fischberg e Enivaldo Quadrado, da corretora Bônus Banval. Em seguida, falará sobre os réus do PL (atual PR), PTB e PMDB.

Ferreira Gullar, traduzindo a si mesmo

Ferreira Gullar, pseudônimo do maranhense José Ribamar Ferreira, jornalista, crítico de arte, teatrólogo,biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta e poeta é um dos fundadores do neoconcretismo, que entra para a história da literatura como um dos maiores expoentes e influenciadores de toda uma geração de artistas dos mais diversos segmentos das artes brasileiras.

Segundo alguns professores de literatura, o poema “Traduzir-se” reflete a profissão de fé de Gullar no exercício de uma poética em um discurso que só abrange a sociedade, porque investiga o mais fundo da subjetividade. O poeta se revela contido e grave durante o que vai expondo. Nas rimas que apresenta este poema, segue seu esquema peculiar de ajustar dois vocábulos fortes e de importância capital para o significado total: “mundo/fundo”, “multidão/solidão”, “pondera/delira”, e assim por diante.Até o sexto verso há a reiteração, quase que como um refrão, dos dois aspectos fundamentais abordados no texto: “Uma parte de mim/outra parte”. Em quase todos os poemas de Gullar é possível traçar dois paradigmas, que se resumem em antinomias existenciais, reveladoras da missão do poeta em seu desdobramento de sujeito poético e sujeito histórico. Pelo esquema de pontuação adotado, pode-se obter uma alegoria da relação entre o eu-indivíduo e o eu-coletivo. A primeira parte, denominada de “Uma parte”, seguida de uma identificação, introduz a parte seguinte, denominada de “outra parte”, através de dois pontos. Esse sinal é usado, em linguagem corrente, como indicativo de uma enumeração, citação ou aposto. O que, numa leitura alegórica, denuncia a indicação de que a “outra parte”, na verdade, está contida na primeira, ou talvez lhe é predicativa; ou seja, uma não exclui a outra, melhor, definem-se pela complementaridade.

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TRADUZIR-SE

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

(Colaboração enviada pelo poeta Paulo Peres – site Poemas & Canções)

TV Globo tem 10 sócios, sem contar os 673 que tiveram suas ações usurpadas por Roberto Marinho a custo zero

Carlos Newton

Causaram boa repercussão e até admiração a forma e os critérios usados pelos herdeiros do empresário-jornalista Roberto Marinho para anunciar a nova governança do vitorioso conglomerado de comunicação. Carlos Henrique Schroder responderá pela Direção Geral da TV Globo, a partir de 1º. de janeiro de 2013, no lugar de Octávio Florisbal; Ali Kamel já assumiu a Central Globo de Jornalismo e Willy Haas responderá pela Direção Geral de Negócios e Comercialização da Rede Globo de Televisão também no início do próximo ano.

Marinho lesou 673 acionistas

As muitas pessoas que temeram pelo êxito da organização, após Walter Clark, Boni e companhia e o falecimento do jornalista Roberto Marinho, devem estar se perguntando como os três filhos-herdeiros, Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto conseguiram manter a empresa, modernizá-la e garantir-lhe a incontestável liderança financeira e técnica, com produção e criatividade incomparáveis no cenário televisivo mundial.

No documento subscrito por Roberto Irineu Marinho, sob o título “O melhor modelo de gestão, transparência e responsabilidade” chama atenção a preocupação dos três irmãos com o futuro da organização e de seus administradores-herdeiros, dos quais vai se exigir requintada formação profissional.

De acordo com Roberto Irineu, as mudanças foram necessárias porque o número de sócios, atualmente apenas 10, deve se ampliar rapidamente nos próximos anos, quando novas gerações da família Marinho vão chegar aos seus 21 anos.

Ora, essa justa e plausível preocupação seria centenas de vezes maior se, com visão aguçada e falta de escrúpulo, não tivesse o jornalista Roberto Marinho, por meio de decisão em falsa assembleia geral extraordinária, em 30 de junho de 1976, transferido para o seu nome,  a custo zero, todas as ações dos 673 acionistas fundadores da Rádio Televisão Paulista S/A, depois TV Globo de São Paulo S/A.

Essa arrojada iniciativa, que feriu os estatutos da própria sociedade e violou a lei, contudo, já está prescrita. As irregularidades cometidas já se dissiparam juridicamente pelo passar do tempo, não podendo mais haver condenação e nem há mais risco ao patrimônio e ao controle da Rede Globo, competentemente dirigida pelos seus poucos e atuais comandantes.

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MODO DE EXCLUSÃO

A propósito, em julgamento no Superior Tribunal de Justiça, no distante 1994, o eminente ministro Sálvio Figueiredo assim se posicionou sobre a aquisição feita pelo jornalista Roberto Marinho: “ O modo de exclusão escolhido pela unanimidade dos acionistas (explica-se o jornalista Roberto Marinho) que compareceram à assembleia é que foi sui generis, SEM PREVISÃO LEGAL OU ESTATUTÁRIA… O erro está em não ter sido adotada a providência prevista na lei PARA A ALIENAÇÃO DAS AÇÕES DOS FALTOSOS (673 ACIONISTAS QUE NÃO SOUBERAM DA A.G.E. E PORTANTO NEM COMPARECERAM A ELA): enquanto a lei autorizava APENAS A VENDA DAS AÇÕES EM BOLSA DE VALORES, a Assembléia de junho de 1976, permitiu sua aquisição pelos sócios remanescentes”, ou melhor, só pelo jornalista Roberto Marinho, daí a explicação para esse império de comunicações, sociedade anônima, ter apenas 10 sócios da própria família MARINHO.

O Tribunal de Justiça de São Paulo, ao julgar esse mesmo processo, não foi tão compreensivo e tolerante: “ Não pode ter subsistência um negócio jurídico cujo proprietário da coisa objeto sequer participou da cogitada alienação. A entender-se de outra forma estar-se-ia proclamando a legalidade do enriquecimento ilícito, o que não é possível sancionar-se, irrefutavelmente”.

Não fosse a visão e artifícios usados pelo jornalista Roberto Marinho e hoje os seus três herdeiros estariam se havendo com 673 outros acionistas, excluídos da empresa de comunicação sem pagamento algum, em nome de uma suposta “regularização societária”, cobrada pelo governo federal desde 1965 e nunca concretizada.

Essa incrível e nebulosa história estará logo retratada em livro intitulado “Irregularidades e trapalhadas na transferência do controle da TV Globo de São Paulo S/A”. Aguardem o lançamento nas livrarias e nas bancas de jornais.

Nada a conversar

Carlos Chagas

Dá o tom de como andam delicadas as relações entre o Brasil e os Estados Unidos o cancelamento de uma visita que não estava marcada, de Dilma Rousseff a Washington, para encontrar-se com Barack Obama. A presidente brasileira voou para Nova York, onde discursará na sessão de abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas. Quando estiver deixando a tribuna poderá esbarrar no presidente americano, o segundo orador a se pronunciar. É claro que em vinte minutos tudo muda, como acontecem as coisas em diplomacia, mas ontem o quadro era esse.

Traduzindo: Dilma e Obama nada tem a conversar depois da grosseira carta do Departamento de Estado ao Itamaraty, semana passada, quando os Estados Unidos ameaçaram retaliar se o Brasil não atenuar barreiras aos produtos americanos de exportação. Nossa resposta foi igualmente dura, porque, afinal, eles taxam muito mais aquilo que mandamos para lá.

Concentram-se as atenções no pronunciamento de Dilma. As nossas e as de alguns países em desenvolvimento, porque os gringos não estão nem aí para as opiniões brasileiras. Em plena campanha para as eleições presidenciais de novembro, Obama quer saber de votos para reeleger-se, seguindo-se outras prioridades que não nos dizem respeito.

Mas Dilma parece disposta a rejeitar alinhamentos automáticos e a não poupar, como vem fazendo desde que empossada, a estratégia dos países ricos para enfrentar a crise econômica. Insistirá na tese de que só o crescimento econômico livrará o planeta de suas dificuldades. Repetirá, imagina-se, críticas às fórmulas aplicadas na Europa, de demissões em massa, aumento de impostos e cortes em investimentos sociais.

Por que, então, a agressiva carta que veio de lá, tratando de relações comerciais? Apenas porque Obama precisou agradar setores da indústria de seu país, daqueles que contribuem com milhões de dólares para a campanha eleitoral e que ainda oscilam entre a reeleição ou o apoio ao adversário republicano.

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FALTA DE ASSUNTO

Certos fins de semana ficam vazios em termos de notícias quentes e levam muitos veículos a montar no cavalo branco da imaginação. Domingo foi um desses. Levantou-se, na mídia, a expectativa de advogados dos mensaleiros de que, apesar de condenados, seus clientes possam beneficiar-se do indulto de Natal, recebendo da presidente Dilma a benesse de cumprir em casa as penas a que tiverem sido condenados. Trata-se, à primeira vista, de uma impossibilidade teórica, pois o indulto só favorece condenados que tenham cumprido um terço de suas penas. Acresce que, na prática, se tal acontecesse, o governo estaria dando um tiro no próprio pé. Ou a opinião pública, mais do que a opinião publicada, não se encontra ávida pela punição dos envolvidos no escândalo do mensalão?

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RUSSOMANNO DESDE CRIANCINHAS

Caso José Serra passe para o segundo turno, em quem votação os companheiros do PT, do PMDB e das legendas de outros candidatos? Na proporção de 8 a 2, em Celso Russomanno.

Mas se a equação for invertida e Fernando Haddad passe para o turno final, para onde voarão os tucanos e penduricalhos derrotados? Claro que para Celso Russomanno…

Sendo assim, e salvo inusitados daqueles monumentais, o favorito pode considerar-se mais favorito ainda para a chamada segunda volta. Os que perderem no primeiro turno serão Russomanno desde criancinhas. Ou não?

Nos tempos de Juca Quaresma

Sebastião Nery

Dona Amélia é quem mandava em Bonito de Santa Fé, lá nos perdidos sertões da Paraíba. Chamou Manuel Sabugo, mandou matar Zeca do Riachão. De noite, se arrependeu. De manhã, não encontrou mais Manuel Sabugo. Despachou um portador para avisar a Zeca do Riachão. E ainda fez um bilhete para Zeca mostrar a Manuel Sabugo: “Manuel Sabugo, não puxe o gatilho contra Zeca do Riachão”.

Sabugo encontrou Zeca. Zeca lhe mostrou o bilhete:

– Sabugo, leia este bilhete de dona Amélia.

Manuel Sabugo leu e guardou:

– Tudo bem, Zeca. Está cumprida a ordem de dona Amélia. Não vou atirar em você. Mas eu já rezei pela sua alma. Então, você vai morrer na faca.

E Manuel Sabugo matou Zeca do Riachão na faca.

Esta é uma história de um século atrás. Do começo do século passado. De um tempo que hoje só existe nos livros. E de uma terra que há muito deixou de ser um perdido sertão da Paraíba. História de horror de uma morte gratuita, vista só por uma pessoa e sabida só por um punhado de gente.

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CANDIDATO DO HOSPÍCIO

George Pires Chaves, comunista, advogado e cônsul do Piauí no Rio, voltou a Teresina para visitar um cliente. Encontrou-o louco, internado no Sanatório Meduna, fundado e dirigido pelo inesquecível Clidenor de Freitas.

O cliente, lúcido na sua chestertoneana loucura, não queria saber de processos nem de negócios. Só de política:

– Dr. George, nós estamos cansados de eleger governadores sãos. Nenhum deles prestou. Agora, queremos um doido para o governo do Estado.

– E quem é o candidato?

– É aqui nosso colega, o doutor Clidenor.

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VOTE NO SOBRINHO

Juca Quaresma, PSD, amigo de Juscelino, era coronel de vastas terras e líder político em Águas Formosas, acima de Teófilo Otoni, lá para as bandas do Jequitinhonha, no norte de Minas. Eleição para ele não tinha mistério. Quando Kennedy derrotou Nixon, em 1960, o resultado saiu logo:

– Não vejo vantagem. Eles dizem que são desenvolvidos por isso. Quero ver é saber o resultado adiantado. Sei quem vai ganhar aqui daqui a dez anos.

Numa eleição para prefeito, o sobrinho dele, Líbio, saiu candidato contra ele. Juca Quaresma ficou uma fera. Mandou seu aliado Zé de Luca fazer uma pesquisa no município todo. Veio o resultado, e ele disse ao agrônomo José Maria Pimenta, cearense que trabalhava naqueles mundos, hoje deputado estadual (bom deputado) do Ceará e candidato a federal pelo PL:

– Doutor, não tem jeito. O povo quer. É o caso de dizer: é o meu candidato.

Apoiou e elegeu o sobrinho. O advogado Olinto Medrado, amigo dele, propôs uma campanha para Águas Formosas virar comarca. Juca não aceitou:

– Doutor, vamos trazer juiz para cá, para ser mais importante do que nós e prender nossa gente? Vamos ficar nós aqui com nós mesmos.

Dizem que hoje a política é mais transparente. Mas é tudo na base do dinheiro, do compra-compra, do governo que pode tudo porque compra tudo.