Arquivos por mês: setembro 2012

Uma visita às favelas sul-africanas (depois da Copa)

Alexandre Versiani (Diário do Centro do Mundo)

A poucos quilômetros das belas paisagens que transformam a Cidade do Cabo em um cartão-postal da África do Sul, ficam localizadas as “townships”, como são chamadas as favelas sul-africanas. Afastadas do centro, elas cresceram de maneira desproporcional após o início do Apartheid, em 1948, quando receberam milhares de negros, mulatos e indianos expulsos de suas residências.

São regiões remotas, sem acesso à luz, água, educação, sistema de saúde ou rede de esgoto. Nem mesmo o final do regime de segregação racial, em 1994, foi capaz de melhorar a situação para centenas de milhares de pessoas que vivem em townships atualmente na Cidade do Cabo.

Há diferentes tipos de townships. Algumas misturam raças e outras reúnem apenas tribos específicas. Em comum compartilham a miséria e a hostilidade aos sul-africanos brancos. Rusgas do passado que não se apagaram devido aos anos de opressão.

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FANTASMA DO APARTHEID

A Cidade do Cabo possui o maior símbolo do regime, a prisão de segurança máxima Robben Island. Lá Nelson Mandela e outras centenas de líderes políticos negros ficaram isolados da população por décadas em uma ilha. Hoje a prisão virou símbolo de liberdade e famoso ponto turístico da cidade, enquanto as townships caíram no esquecimento e ainda convivem com o fantasma do Apartheid.

Nossa primeira parada é em uma tradicional casa de cultura Xhosa, onde somos recebidos com uma tímida, porém animada, música local. O lugar parece importante, já recebeu a visita até de Bill Clinton. Por isso uma ilustração enorme do norte-americano na parede. Aprendemos, entre outras coisas, que Xhosa é a segunda língua mais falada na África do Sul, atrás apenas do Zulu. Artesanatos locais também são vendidos. Os preços chegam a ser salgados, mas é difícil sair de lá sem querer ajudar um pessoal ponta-firme, que preserva as tradições.

Logo na saída, um choque de realidade. Entre becos obscuros, Lelé nos leva a um minúsculo quarto, onde vivem cerca de três famílias. Durante o dia ninguém fica por lá, pois não há espaço para todos. À noite todos se espremem para dormir. “Cerca de trinta pessoas moram aqui”, Lelé traduz as palavras de uma senhora aparentemente triste e cansada, que estava gentilmente no local para nos receber.

Com os sentimentos um pouco confusos, vamos em direção ao próximo programa. Degustação de uma cerveja artesanal local. Lelé deve ter incluído isso na turnê “townshipica”, pois sabe que estudantes e turistas só querem saber de cerveja.

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PRATO TÍPICO

É praticamente no meio da rua que acontece o momento mais desafiador do nosso passeio às favelas. Em um fogão improvisado sobre latões de lixo, simpáticas cozinheiras começam a preparar o “Smiley”, prato típico da culinária de uma township. Ele consiste em comer tudo o que a cabeça de uma ovelha proporciona, desde cérebro, olhos e língua. Um pequeno pedaço da bochecha foi o suficiente e, para falar a verdade, até que ela possui um gosto razoável.

Já de volta à van e um pouco traumatizados com a cena das ovelhas mortas, somos levados à última parada, o bar Mzoli’s, na vizinha township de Gugulethu. É neste território Zulu, onde também funciona uma churrascaria, que a cultura de uma township pode ser mostrada para os quatro cantos do mundo. Brancos, negros, mulatos e “pessoas de todas as tribos”, misturam-se em uma grande festa com música ao vivo tradicional e cerveja barata.

O território é livre e o clima de paz prevalece. Talvez um dos poucos lugares na Cidade do Cabo onde brancos, negros e mulatos convivem em condições iguais. Por lá ninguém é melhor do que ninguém e todos compartilham histórias. Depois de muito churrasco de carneiro, cerveja e outros aperitivos locais, saímos com a certeza, já ao anoitecer, de que o sol também brilha em uma township.

Marta Suplicy é hoje apenas uma lembrança recauchutada

Carlos Newton

Ao tomar posse  como ministra da Cultura, a senadora Marta Suplicy (PT-SP) disse que pretende trabalhar para o fortalecimento da produção nacional e pela recuperação do patrimônio cultural do país. Bla-bla-bla. Parece um filme antigo.

“Não podemos aceitar a lógica devastadora do mercado e a pasteurização do mercado. Devemos incentivar nossa participação internacional e esse será um outro desafio”, discursou Marta. Mais bla-bla-bla.

De saída da pasta, a ex-ministra Ana de Hollanda foi educada. Ressaltou suas conquistas em quase dois anos de trabalho e disse que sua sucessora tem as condições de dar continuidade ao trabalho.

Segundo ela, o país precisa dar continuidade, principalmente, no fortalecimento das políticas de direito autoral. E mais bla-bla-bla.

‘Lei da mordaça’ na CVM encobre pressões do caso Aracruz

Carlos Newton

Pouco após ter dito ontem, em entrevista à repórter Gabriela Forlin, da Agência Estado, que o desfecho do caso Aracruz não deixou sentimento de impunidade para o mercado, o Blog da Tribuna mostrou, com base em fatos concretos, as pressões sofridas pelo presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), diretor Otávio Yazbek, para não terminar a investigação sobre a conduta dos ex-administradores da companhia no episódio das perdas em apostas cambiais com os chamados “derivativos tóxicos”, gerando um prejuízo de US$ 2,13 bilhões no ano de 2008 aos acionistas da empresa.

Imprensa.jpg CVM tenta calar a imprensa

O desmentido apontou a mudança de discurso da autarquia e lembrou que uma reportagem do Estadão em 9 de janeiro deste ano, publicada no caderno Economia&Negócios, divulgou que um time de advogados composto por dois ex-presidentes e dois ex-diretores da CVM fora contratado para contestar a possibilidade de aprofundar as investigações e estudar a inclusão de outros administradores na acusação, como Yazbek queria.

Mas o processo ficou parado sem investigações durante dois anos e nove meses, o que foi um fator primordial para a manobra jurídica que permitiu à Fibria (sucessora da Aracruz) simular a renúncia ao direito de receber indenização no acordo da semana passada.

O Blog da Tribuna teve acesso hoje aos documentos que confirmam as duas reportagens da Agência Estado e prosseguirá o seu trabalho de jornalismo investigativo. Não importa que a atual diretoria da CVM tenha imposto uma “lei da mordaça” entre os servidores e que a resposta da autarquia às nossas denúncias tenha sido a de retirar do clipping as matérias que publicamos, para impedir que seus funcionários leiam nosso Blog.

Sempre que executivos necessitam vir a público para prestar contas de suas decisões, desafiam a imprensa livre com a censura daquilo que pode ser desmentido pelos jornalistas, porque contra fatos concretos não há argumentos. Celebramos as conquistas da Lei de Acesso à Informação, que ainda não completou o seu primeiro ano, mas continuamos a nossa luta pelo fortalecimento da democracia e da liberdade de imprensa.

O parlamentarismo e a revisão constitucional

Pedro Ricardo Maximino

A revisão constitucional foi prevista no artigo 3º do ato das disposiçõe contitucionais transitórias, cinco anos após a promulgação, com uma forma estabelecida e sem limitação material. O artigo anterior marcou uma consulta ao eleitorado quanto à manutenção ou outorga da forma e sistema de governo, monarquia ou república, presidencialismo ou parlamentarismo.

Tancredo, primeiro-ministro

Coincidência ou não, o grande problema da Constituição de 1988 decorre do fato de que dos três anteprojetos que foram apresentados em 1986 ela corresponde ao pior, justamente mais abarcado ao parlamentarismo e o menos adaptado ao presidencialismo.

O senhor Ulisses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, possivelmente aspirava, à época, à posição de primeiro ministro.

Dado que o poder constituinte originário é ilimitado nesse sentido, porque não se adotou de imediato o parlamentarismo no Brasil? Os parlamentares que então exerciam a Assembléia Nacional Constituinte, membros do Congresso Nacional, com o intuito de não desagradar a maioria da sociedade e sua forte tradição republicana e presidencialista e não alimentar naquele momento a falsa imagem de que, depois de um longo período sem poder escolher o presidente, a população não poderia mais fazê-lo a partir da adoção do parlamentarismo.

O referido plebiscito terminou por ser ansiosamente antecipado com o claro intuito de, por meio da revisão constitucional, sem limites materiais, logo depois, adaptar o que ainda faltasse para consolidar o parlamentarismo no Brasil.

A sociedade optou por manter o presidencialismo, em grande parte pela má campanha do parlamentarismo. Segundo o destaque recordado por alguns colegas que à época integravam o movimento monárquico, a cédula plebiscitária, curiosamente, não fazia a adequada separação entre forma e sistema de governo, abrindo espaço até mesmo para uma monarquia presidencialista (ou seria absolutista?).

Com a manutenção do presidencialismo, caiu por terra a necessidade de uma revisão constitucional sem limites materiais. Por essa razão, a revisão não aconteceu na forma como fora prevista, mas sim por meio de emendas, as já há muito memorizadas seis emendas constitucionais de revisão.

A prótese do PT no Supremo

Guilherme Fiuza

Os ministros do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli são a prova viva de que a revolução companheira triunfará. Dois advogados medíocres, cultivados à sombra do poder petista para chegar onde chegaram, eles ainda poderão render a Luiz Inácio da Silva o Nobel de Química: possivelmente seja o primeiro caso comprovado de juízes de laboratório. No julgamento do mensalão, a atuação das duas criaturas do PT vem provar, ao vivo, que o Brasil não precisa ter a menor inveja do chavismo.

 Batman e Robin?

Alguns inocentes chegaram a acreditar que Dias Toffoli se declararia impedido de votar no processo do mensalão, por ter advogado para o PT durante anos a fio. Participar do julgamento seria muita cara de pau, dizia-se nos bastidores. Ora, essa é justamente a especialidade da casa. Como um sujeito que só chegou à corte suprema para obedecer a um partido iria, na hora h, abandonar sua missão fisiológica?

A desinibição do companheiro não é pouca. Quando se deu o escândalo do mensalão, Dias Toffoli era nada menos do que subchefe da assessoria jurídica de José Dirceu na Casa Civil. Os empréstimos fictícios e contratos fantasmas pilotados por Marcos Valério, que segundo o processo eram coordenados exatamente da Casa Civil, estavam portanto sob as barbas bolivarianas de Dias Toffoli. O ministro está julgando um processo no qual poderia até ser réu.

A desenvoltura da dupla Lewandowski-Toffoli, com seus cochichos em plenário e votos certeiros, como na absolvição ao companheiro condenado João Paulo Cunha, deixariam Hugo Chávez babando de inveja. O ditador democrata da Venezuela nem precisa disso, mas quem não gostaria de ter em casa juízes de estimação? A cena dos dois ministros teleguiados conchavando na corte pela causa petista, como super-heróis partidários debaixo de suas capas pretas, não deixa dúvidas: é a dupla Batman e Robin do fisiologismo. Santa desfaçatez.

Já que o aparelhamento das instituições é inevitável, e que um dia seremos todos julgados por juízes de estrelinha na lapela, será que não dava para o estado-maior petista dar uma caprichada na escolha dos interventores? Seria coincidência, ou esses funcionários da revolução têm como pré-requisito a mediocridade?

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NADA DE CONCURSOS

Como se sabe, antes da varinha de condão de Dirceu, Dias Toffoli tentou ser juiz duas vezes em São Paulo e foi reprovado em ambas. Aí sua veia revolucionária foi descoberta e ele não precisou mais entrar em concursos – essa instituição pequeno-burguesa que só serve para atrasar os visionários. Graças ao petismo, Toffoli foi ser procurador no Amapá, e depois de advogar em campanhas eleitorais do partido alçou voo à Advocacia-Geral da União – porque lealdade não tem preço e o Estado são eles.

É claro que uma carreira brilhante dessas tinha que acabar no Supremo Tribunal Federal.
O advogado Lewandowski vivia de empregos na máquina municipal de São Bernardo do Campo. Aqui, um parêntese: está provado que as máquinas administrativas loteadas politicamente têm o poder de transformar militantes medíocres em grandes personalidades nacionais – como comprova a carreira igualmente impressionante de Dilma Rousseff. Lewandowski virou juiz com uma mãozinha do doutor Márcio Thomaz Bastos, ex-advogado de Carlinhos Cachoeira, que enxergou o potencial do amigo da família de Marisa Letícia, esposa do bacharel Luiz Inácio.

Desembargador obscuro, sem nenhum acórdão digno de citação em processos relevantes, Lewandowski reuniu portanto as credenciais exatas para ocupar uma cadeira na mais alta esfera da Justiça brasileira.

Suas diversas manobras para tumultuar o julgamento do mensalão enchem de orgulho seus padrinhos. A estratégia de fuzilar o cachorro morto Marcos Valério, para depois parecer independente ao inocentar o mensaleiro João Paulo, certamente passará à antologia do Supremo – como um marco da nova Justiça com prótese partidária.

O julgamento prossegue, e os juízes do PT no STF sabem que o que está em jogo é a integridade (sic) do esquema de revezamento Lula-Dilma no Planalto. Dependendo da quantidade de cabeças cortadas, a platéia pode começar a sentir o cheiro dos subterrâneos da hegemonia petista.
Batman e Robin darão o melhor de si. Olho neles.

(Transcrito da revista Época)

A Ópera dos Malandros

Jacques Gruman

Minhas mais antigas memórias políticas vão completar meio século. Era a campanha pelo fim do parlamentarismo, imposto pelos golpistas civis e militares em 1962 para que Jango tomasse posse após a renúncia de Jânio. Houve intensa participação popular e o rádio teve papel destacado. O presidencialismo ganhou fácil e o estancieiro reformista governou, com plenos poderes presidenciais, durante pouco mais de um ano. Prelúdio em dor maior.

Uma segunda lembrança, na véspera do golpe militar, foi Jango no Automóvel Clube, centro do Rio, como convidado de honra numa festa promovida pela Associação de Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar. Num discurso inflamado, radicalizou a defesa das Reformas de Base, prometidas no grande comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, e denunciou as manobras golpistas. Entregou de vez o pescoço aos carrascos.

Direita e esquerda disputavam espaço, verbalizando as posições de classe de uma sociedade que exigia mudanças e era assediada pelo clima sombrio da Guerra Fria. Olhando para trás, vejo o desnível abissal entre os políticos de então e os de hoje. Começo com Carlos Lacerda, comunista na juventude e golpista profissional desde o início dos anos 50. Jornalista e orador brilhante, chegava a intimidar seus adversários políticos quando discursava, pela extraordinária capacidade que tinha para improvisar. O Corvo, como Lan o desenhou para ilustrar matéria de Samuel Wainer, não era fácil.

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MEDIOCRIDADE

Discordo de cada pedaço de sua trajetória de udenista antidemocrático, de suas articulações antipopulares, mas sou forçado a reconhecer que ele está a anos-luz da mediocridade dos políticos que andam pedindo nosso voto. A direita também tinha seu brilho. Uma historinha do Corvo. Viajou alegre a Paris para “explicar” o golpe de 1964. Numa entrevista coletiva, um jornalista francês ironizou: “Por que as revoluções sul-americanas são sempre sem sangue ?”. Lacerda nem pestanejou: “Porque são semelhantes às luas-de-mel francesas”.

Uma Câmara de Vereadores lotada para ouvir discursos de um político. Nem o mais delirante dos místicos, o mais descontrolado surrealista, imaginaria uma cena dessas. E, no entanto, meus caros, isso já aconteceu. Aparício Torelly, o Barão de Itararé, foi vereador no então Distrito Federal pelo PCB. Eleito em 1946, usou slogans inesquecíveis na campanha. Um deles: “Mais água e mais leite, mas menos água no leite !”. Muita gente ia à Câmara só para ouvi-lo. Quando forças reacionárias conseguiram, em 1947, a cassação do partido, ele se despediu com um discurso antológico, em que terminava dizendo: “Saio da vida pública e entro na privada”. Grande Barão !

Em outubro, elegeremos prefeitos e vereadores. A época dos grandes comícios ficou no passado. Hoje, as ferramentas mais usadas para convencer o eleitorado são os meios eletrônicos e a linguagem planejada/enganosa dos marqueteiros. A preços monumentais. A eleição do prefeito de São Paulo, por exemplo, pode custar RS 40 milhões ao vencedor. A cereja do bolo é o chamado horário eleitoral gratuito das televisões. O nível geral é deplorável.

Acompanhei, por duas semanas, a propaganda dos candidatos a vereador. É um choque brutal, mas reflete muito bem em que se transformou a atividade política. Valeu a pena e compartilho minhas reflexões. Com exceções moleculares, as siglas deixaram de ter qualquer significado. Projetos ideológicos deram lugar a uma gelatina indiferenciada, não raro demagógica e oportunista. Ao invés de educar politicamente os eleitores, os candidatos repetem, mecanicamente, frases vazias e propostas incompreensíveis. Eliminaram a fronteira entre esquerda e direita.

Há uma enxurrada de religiosos candidatos e apoiadores de candidatos. Nada tenho contra quem tem fé, mas o lugar para o exercício dela não seriam os templos ? Será que estão nos oferecendo um Estado clerical ?  Oportunismo barato, mas que ganha votos em grotões e currais, numa população habituada a desconfiar dos polítcos “profissionais”.

Estão querendo reeditar as capitanias hereditárias. Há pais e mães reivindicando votos para seus filhos queridos. É o voto DNA. O Neguinho da Beija-Flor está pedindo votos para sua esposa, que concorre pelo PT. O neto do Brizola apela para o ectoplasma do avô. Que radicalizem e defendam de uma vez a volta da monarquia. Serviço completo.

Nomes e apelidos, digamos, exóticos, enfeitam (ridicularizam ?) o quadro. Dudu Bodinho, Chapisco, Cabeção, Palhaço Seboso, Carlinhos Míssil, Chico Mé, Renata do Bole-Bole (epa!), Panela, Hélio do Alho. A lista não tem fim. Seria charmoso, pitoresco, mas apenas serve para ofuscar o principal: nenhum deles parece ter a menor ideia do que é ser legislador público.

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FARSA GROTESCA

Participam de uma farsa grotesca, reedição maquiada da Lei Falcão da ditadura. Têm alguns segundos para balbuciar meia dúzia de palavras. Os menos afortunados apenas sorriem, levantam o polegar. Nada que se assemelhe a um debate sério. É o MERDA – Método Enéas de Rajadas Discursivas Apopléticas em ação.

No mais, há doutores paramentados com seus jalecos e estetoscópios (ah, nossa velha e renitente tradição bacharelesca), mentirosos (como o cidadão que disse ter acabado com os sequestros no Rio), artistas decadentes, diretores do Flamengo (que não se envergonham de usar a popularidade do time de futebol para enganar os eleitores; afinal de contas, trata-se de campanha para a Câmara de Vereadores, não para gerente de clube ou de estádio de futebol), tios e tias (recreadores de festas infantis).

Nas ruas, apenas gente alugada para fazer propaganda. Militância orgânica ? Onde ? As esquerdas que não desistiram da proposta socialista têm, infelizmente, baixa capilaridade social e poucos recursos para usar com eficiência os meios de comunicação de massa. Resultado: poucos votos. Se a revolução não passa pela televisão, bem, aí a conversa é outra.

A esse teatro burlesco chamam democracia.

Obama mostra-se amigável ao empreendorismo, antes que a próxima labareda venha lamber tudo

Sandra Starling

Acompanhei pela TV, nos EUA, a recente convenção do Partido Democrata, realizada em Charlotte, Carolina do Norte. O entusiasmo já não era o mesmo da convenção anterior, ocorrida em Denver, há quatro anos. Os jornalistas informaram a presença de 25 mil delegados no centro de convenções; em 2008, eram mais de 100 mil militantes num estádio de futebol. Não houve surpresas. O nome de Barack Obama como candidato à presidência foi confirmado unanimamente. Agora, o slogan “Forward” (em frente) substitui o batido “Yes, we can” (sim, nós podemos).

Obama aposta na classe média

O que realmente surpreende é uma candidatura moderada ser acusada pelos oponentes republicanos de “socialista”. Obama não permitiu sequer que a palavra “Deus” deixasse de constar da plataforma do partido. Da mesma forma, exigiu que fosse escrito no programa, como sempre aconteceu, que Jerusalém deve ser considerada a capital do Estado de Israel. É bom esclarecer que nenhum governo norte-americano, até hoje, deu passos concretos para retirar a embaixada de Tel Aviv.

A estrategista da campanha republicana, Mary Matalin, registrou que Obama tem procurado, o tempo todo, mostrar-se amigável ao empreendedorismo. Em suas referências à criação de novos empregos (mais de 4 milhões, mas com salários mais baixos do que os concedidos antes da crise de 2008), sempre destaca que são postos no setor privado. Tudo para desfazer a imagem de esquerdista, o que, efetivamente, ele não é.

No ideário democrata, todos os discursos giram em torno de uma expressão mágica: “classe média”.

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É A CLASSE MÉDIA, ESTÚPIDO

Afinal, o novo mantra de James Carville, estrategista democrata (e ainda marido da mencionada Mary Matalin), é: “It´s the middle class, stupid!”. Em sua carismática fala, o ex-presidente Bill Clinton reforçou o clichê da doutrina neokeynesiana. Por sua vez, Joe Biden, o vice de Obama, tentou definir, em seu pronunciamento, o que é ser da classe média. De suas redondilhas e seus circunlóquios, pode-se deduzir o que seja isso: dê-me algum emprego, um seguro-saúde e um financiamento subsidiado para a universidade de meu filho, e pronto! Nada mais me importa.

Isso se parece com as palavras de Lula, ao dizer que o pobre se contenta com pouco. Pensar que as sociedades possam ser organizadas de uma forma diferente é algo complicado, que não cabe a qualquer um.

As pesquisas vêm indicando a aprovação do governo Obama (53%), e, se não houver nenhum acidente de percurso, o democrata deverá ser reeleito.

Curiosamente, leio, ao mesmo tempo, a tão citada matéria da “Forbes” sobre a presidente Dilma Rousseff. Carville volta à cena como autor do próximo livro a ser lido pela chefe de governo brasileira, definida, agora, como uma “ex-marxista que estimula o empreendedorismo”. Resta saber até quando essa história de “classe média” dará certo nos EUA e no Brasil.

O mais bizarro é que até alguns oráculos do capitalismo têm revisitado os livros de Marx em busca de uma resposta consistente, antes que a labareda da próxima crise, como diria Jards Macalé, venha lamber tudo!

Julgamento do mensalão vai muito além de condenar ou absolver os envolvidos

Francisco Bendl

Na verdade, o mensalão foi o marco que definiu a extinção dos Três Poderes como independentes, porque assim nos foi ensinado ao longo do tempo, que eram separados, absolutamente independentes, repito. Ledo engano.

Manobras eficazes do Executivo arrebanharam o Legislativo e o transformaram em base aliada, mediante compra ou aluguel de siglas partidárias e mantidas posteriormente através da distribuição de ministérios, secretarias, estatais, diretorias, cargos no serviço público sem concurso, enfim, um leque de ofertas tentadoras para se manter a “união” entre esses partidos que dão sustentação “política” ao governo.

A oposição, enfraquecida, não tem como fiscalizar o Executivo, perde o seu papel até mesmo constitucional e, o País passou a ser comandado por um grupo de pessoas que aos poucos destruía uma estrutura com bases na oposição e situação, salutar ao controle de administrações que tentassem subverter a ordem estabelecida pela Carta Magna e sequência à própria democracia!

Não satisfeito com esta maneira imoral e antiética de neutralizar qualquer impedimento às suas intenções de dominar o País, o governo voltou suas atenções ao poder que poderia, em tese, causar futuros aborrecimentos, o Judiciário.

Haja vista o modo de nomear os ministros do Supremo, decisão do Presidente da República, a escolha evidentemente recairia sobre alguém comprometido com o sistema, simpático à “causa”, aliado em questões judiciais no passado. Ora, quanto mais “juízes” na Corte Suprema favoráveis ao governo, qualquer denúncia ou comportamento lesivo por parte deste, haveria a certeza que as sentenças prolatadas jamais seriam condenatórias, mas abrandadas em razão deste vínculo anterior e pelo compromisso do reconhecimento à função desempenhada pelo ministro alvo da escolha.

Cerco fechado, e muito bem articulado. Fim da independência dos poderes constitucionais, todos estariam interligados e trabalhando em favor do Executivo e, este, em prol de um novo modelo de comando, de legítima chefia, dos novos donos do Brasil.

No entanto, eis que surgem dissidentes deste modelo no setor mais importante: o Judiciário. Barbosa, Fux, Weber, Britto e outros consideraram que a honra e a dignidade de suas togas eram mais importantes que os arranjos políticos para conquistar o país através de mutretas, de alianças espúrias, e estão exercendo as suas funções como se espera que homens honestos e decentes assim ajam em benefício do Brasil e de seu povo, alheios aos golpes e estratégias pela manutenção do poder.

Deu zebra. Ainda existem brasileiros patriotas e, justamente, em cargos os mais importantes do País: como juízes!

As antíteses do genial Caetano Veloso

O cantor, músico, produtor, escritor, poeta e compositor baiano Caetano Veloso, líder do movimento do Tropicalismo, sempre traz inovações em suas composições. A música “O Quereres” gravada por Caetano, no Cd Vel, em 1984, pela Polygran, tem sua letra formada de antíteses, visto que usar figuras de linguagem nas artes, inclusive na música, é uma forma de dar outros significados ao que já está explicíto na letra.

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O QUERERES

Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro
Onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
Onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

(Colaboração enviada pelo poeta Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Audiência no Supremo sobre racismo na obra de Monteiro Lobato não chega a consenso

Heloisa Cristaldo (Agência Brasil)

A polêmica sobre racismo em obra do autor Monteiro Lobato ainda não foi encerrada. Terminou sem consenso a audiência de conciliação realizada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Representantes do Ministério da Educação (MEC), da Advocacia-Geral da União e da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) discutiram, com a mediação do ministro  Luiz Fux, o mandado de segurança do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara) e do pesquisador de gestão educacional Antônio Gomes da Costa Neto contra o parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) que liberou a adoção do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, no Programa Nacional Biblioteca na Escola.

Para sanar os pontos críticos do debate foi marcada outra reunião para o dia 25 deste mês, no Ministério da Educação. O ponto central de discordância é a nulidade do parecer do CNE, que determina que “Caçadas de Pedrinho” seja distribuído às escolas acompanhado de nota técnica instruindo o professor a contextualizar a obra ao momento histórico em que ela foi escrita.

De acordo com o secretário de Educação Básica do MEC, Cesar Callegari, o próximo passo é aprofundar o debate. “Primeiro na formação de professores, segundo nas orientações que chegam às escolas por meio das diretrizes do CNE e do próprio Ministério da Educação. E quando forem compradas novas obras, que tenham essas explicações acerca dos contextos históricos, contextos regionais”, explicou.

Callegari considera que a medida não é censura, pois não permitirá que a obra de Lobato seja banida das escolas públicas e privadas do país “e sim de uma explicação clara do contexto em que foi produzida e a sua época”, argumentou.

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BUSCA DE ACORDO

O ministro Luiz Fux explicou que se o MEC e o instituto não entrarem em acordo, a questão será julgada pelo plenário da Suprema Corte. Caso haja acordo, Fux irá apenas homologar a decisão.

Publicado em 1933, “Caçadas de Pedrinho” relata uma aventura da turma do Sítio do Picapau Amarelo à procura de uma onça-pintada. Entre os trechos que justificariam a conclusão de racismo estão alguns em que Tia Nastácia é chamada de negra. Outra parte diz: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão”.

Em relação aos animais, um exemplo mencionado é: “Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens”. Outro é: “Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta”.

Economista que inventou uma nova classe média (que não existe) ganha de recompensa a presidência do Ipea.

Carlos Newton

Em matéria de prestação de serviços, Marcelo Neri é uma espécie de Dias Toffoli em assuntos econômicos. Como chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele ganhou notoriedade com a criação do estranho e contestado conceito de “nova classe média”, para denominar a população que teria milagrosamente saído da pobreza no governo Lula.

Neri, um bajulador recompensado

Indicado pelo ministro Moreira Franco (Secretaria de Assuntos Estratégicos), Neri teve o aval do ministro Guido Mantega (Fazenda) para comandar o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o mais importante órgão de doutrina econômica ligado ao governo.

Colunista da Folha, Neri atua na FGV do Rio de Janeiro e tem formação na escola liberal – fez graduação e mestrado na PUC-RJ. Como a nomeação dele, o Ipea anda para trás e sofre um retrocesso em sua orientação política. Neri é um bajulador do governo petista. Seu servilismo chegou ao ponto de considerar como integrante da classe média qualquer família que tenha renda mensal de R$ 1.064,00, o que na época de sua genial constatação, significava cerca de dois salários mínimos (hoje, R$ 1.244,00).

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FALSA CLASSE MÉDIA

Repetindo: na visão complacente de Neri, uma família de seis pessoas que ganhe R$ 1,2 mensais seria classe média. É uma piada de mau gosto, um escárnio para essa gigantesca massa de brasileiros (cerca de 34 milhões de pessoas) que na realidade vivem numa miséria atroz, mas para Neri já conquistaram espaço na classe média, vejam até onde vai a postura servil desse tipo de “intelectual”.

Neri sucede ao ex-presidente do Ipea Marcio Pochmann, afastado para concorrer à Prefeitura de Campinas pelo PT. Ao contrário de Neri, Pochmann sempre se comportou como um economista independente, jamais fez concessões ao governo, em sua gestão o Ipea publicou diversos estudos mostrando os pontos fracos da economia brasileira.

Neri é um falso intelectual, que usa a estatística da pior maneira possível, torturando os números até que eles confessem o que ele pretende provar. É desalentador ver um alquimista como ele ganhando de presente o principal laboratório do governo, para manipulá-lo exclusivamente em benefício dos detentores do poder, ao invés de fazê-lo em defesa do real interesse público.

A vantagem oculta para Marta Suplicy

Carlos Chagas

Parece bem mais profundo o acordo da presidente Dilma com a senadora Marta, ou seja, não se trata apenas da troca do apoio da ex-prefeita à candidatura Haddad pelo ministério da Cultura, aliás, inexpressiva. No fundo da barganha está a eleição para governador de São Paulo, em 2014. Ao assumir o lugar de Ana de Holanda, hoje, Marta transforma-se em candidata ao palácio dos Bandeirantes, daqui a dois anos. Claro que o ministro da Educação, Aloísio Mercadante, não gostou.

A influência de Marta na atual sucessão paulistana vale pelo seu afastamento. No governo, ela deixa de ser aquele ferrinho de dentista que vinha sendo na campanha de Haddad. Votos, mesmo, para o candidato do Lula, não trará muitos. Apenas, afasta-se da constrangedora situação de pretendente garfada por obra e graça do primeiro companheiro. Claro que poderá comparecer a um palanque ou a duas carreatas, mas não haverá um único eleitor da capital capaz de acreditar na sinceridade desse apoio. Apenas, escanteada para um ministério difícil, terá motivos e pretextos para saltar de banda da campanha.

Agora, só por esse resultado a senadora não se animaria a aceitar o convite para tornar-se ministra. É vice-presidente do Senado e no caso de um improvável bate-cabeça entre o PMDB e o PT, seria candidata ao lugar de José Sarney, mesmo com poucas chances de bater Renan Calheiros. Torna-se necessário prospectar o algo mais que a fez integrar o ministério. Trata-se da futura disputa pelo governo de São Paulo. Essa a vantagem oculta na operação concluída esta semana.

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A MAIOR PRIORIDADE DE TODAS

Nada haverá a opor às múltiplas iniciativas adotadas pela presidente Dilma nos diversos setores de atuação governamental. Redução das tarifas de energia elétrica e de impostos, definição de obras públicas essenciais, programas de assistência social, resistência a aumento no preço da gasolina, negociação da dívida dos estados e quanta coisa a mais?

Falta, no entanto, a pedra de toque, o tijolo de sustentação de toda a obra do atual governo, sem a qual tudo o mais corre o risco de virar fumaça. Trata-se da segurança pública. Jamais o país viveu igual período de insegurança individual. Chacinas acontecem todos os dias, como a última, agora, no subúrbio de Mesquita, no Rio. Mas quantas outras em São Paulo, Recife e Porto Alegre, sem falar no interior? Assassinatos, assaltos, seqüestros, execuções, violações, estupros e similares ocupam a maior parte do noticiário dos telejornais e inundam a imprensa escrita.

O cidadão comum teme sair às ruas, ainda que também sofra ficando em casa, por conta da audácia da bandidagem. Importa menos lembrar que a segurança pública é questão da alçada estadual e municipal, porque não é. O poder federal tem tanta ou maior obrigação de atentar para esse festival de violência que assola a sociedade. De agir imediatamente, mobilizando todas as forças de que puder dispor. Até as armadas.

Adianta muito pouco o diagnóstico de que apenas com a educação, ou mesmo com a imediata criação de novos empregos, o Brasil conseguirá livrar-se dessa epidemia. O tempo de enfrentá-la é agora, e o lugar, aqui. Cabe aos poderes da União conscientizar-se de que sem uma ação imediata o risco será da desagregação de nossas instituições. Estamos a um passo do retorno aos tempos em que cada um fazia justiça pelas próprias mãos. “Armai-vos uns aos outros” é conselho que volta a circular pelo território nacional.

Torna-se necessário um programa amplo de combate à criminalidade, sem contemplação. A democracia precisa ser forte a ponto de evitar que seja desmontada.