Arquivos por mês: agosto 2012

Veja o estado dos centros esportivos de Atenas, oito anos depois da Olimpíada

Carlos Newton

Circula na internet uma impressionante reportagem fotográfica, mostrando o que aconteceu com Atenas oito anos depois da Olimpíada. São imagens de diversos estádios totalmente sem uso e abandonados, invadidos pelo capim, com piscinas imundas e se deteriorando, uma situação de causar constrangimento e pesar, numa das cidades historicamente mais importantes do mundo.

Estamos reproduzindo apenas uma das fotos, que mostram o abandono de um dos centros esportivos. A reportagem completa da seção esportiva do Businesses Insider, que nos foi enviada pelo comentarista Mário Assim, pode ser conferida no seguinte site:

www.businessinsider.com/2004-athens-olympics-venues-abandoned-today-photos-2012-8?op=1

The softball stadium is among the most empty

Este é o estádio de softball, uma espécie de beisebol feminino

 

 

Revisor vota pela absolvição de João Paulo Cunha do crime de corrupção passiva

Débora Zampier (Agência Brasil)

O ministro Ricardo Lewandowski, revisor do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), votou hoje pela absolvição do réu João Paulo Cunha do crime de corrupção passiva. Essa é a primeira divergência entre o revisor e o relator Joaquim Barbosa, que votou pela condenação do parlamentar nesse quesito.

De acordo com a denúncia do Ministério Público, o então presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, recebeu R$ 50 mil para privilegiar a SMP&B Comunicação, de Marcos Valério, em contrato de licitação na Casa. O dinheiro foi sacado em espécie pela mulher de João Paulo Cunha, Márcia Regina, em uma agência do Banco Rural em Brasília.

A defesa de João Paulo Cunha alega que o parlamentar não tinha influência na comissão licitatória que escolheu a SMP&B entre outros seis concorrentes. Os advogados confirmam o saque de R$ 50 mil, mas informam que o valor foi liberado pelo PT e era destinado ao pagamento de pesquisas eleitorais na região de Osasco.

Para Lewandowski, não há corrupção se não ficar provado que houve ação ou omissão do funcionário publico como contraprestação da vantagem indevida. “Forçoso é concluir que o Ministério Público não logrou produzir uma prova sequer, nem mero indício, de que João Paulo Cunha trabalhou para favorecer ou dar tratamento privilegiado à SMP&B”, destacou.

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ACUSAÇÃO “ABSTRATA”

De acordo com o ministro, a acusação do Ministério Público foi “abstrata”, pois todas as provas colhidas no processo comprovam que a comissão licitatória atuou de forma independente na escolha da SMP&B. Ele ainda lembrou que a contratação foi considerada legal pelo Tribunal de Contas da União e que nenhum concorrente contestou o resultado.

Lewandowski também entendeu que ficou “largamente provado” que os R$ 50 mil sacados por João Paulo Cunha não eram propina e, sim, quantia disponibilizada pelo PT para pagar pesquisas eleitorais. Para o revisor, as provas indicam que o dinheiro foi solicitado ao ex-tesoureiro nacional do PT Delúbio Soares, pois a região de Osasco era considerada prioritária para a legenda.

O revisor ainda entendeu que os presentes dados por Marcos Valério a João Paulo Cunha – uma caneta Montblanc e passagens aéreas para a secretária do parlamentar – não provam que houve corrupção. “Há ausência do ato de ofício cometido em contrapartida, de resto não identificado pela acusação”, concluiu.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGJoão Paulo Cunha, na época, disse que a mulher foi à agência do Banco Rural para pagar a TV por assinatura. Mas o fato é que ela saiu de lá com R$ 50 mil na carteira. A impressão que fica é de que Lewandowski vai dar uma no cravo e uma na ferradura, como se dizia antigamente.

Reforma trabalhista é a maior prioridade, diz pesquisa

Roberto Monteiro Pinho

Uma pesquisa realizada na segunda quinzena de julho pelo Instituto Sensus, divulgada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), mostra uma nova realidade sobre o judiciário trabalhista. Para 36,4% dos entrevistados, a reforma trabalhista é a maior prioridade. A reforma política ficou como segunda prioridade para 19,3% dos entrevistados. A reforma da Previdência foi apontada como a prioridade número três para 12% dos entrevistados. Em seguida estão as reformas do judiciário (11%), tributária (10%) e agrária (6,8%).

A pesquisa ouviu 2 mil pessoas nas cinco regiões do país e em 20 unidades da Federação entre 18 e 26 de julho. A legislação brasileira, onde se inclui a trabalhista, principalmente em relação às regras processuais, não se modernizou na mesma velocidade em que a conscientização da população brasileira sobre seus direitos.

A Emenda Constitucional 45/2004 inseriu no artigo 5º, da Constituição Federal, a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Este instituto foi idealizado pelos legisladores para que o juiz reflita o que tem feito para dar uma resposta aos jurisdicionados, a blindagem do judiciário não é salutar para o processo do pacto Republicano, a falta de transparência e interação do juiz com a sociedade empobrece a todos, e os fazem suspeitos de forma genérica das tantas denuncias de ilícitos.

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JUÍZES INSOLENTES

O fato é que a magistratura num todo se tornou insolente, perniciosa e perturbadora, insolente ao extremo, data vênia, porque, bem lembrado no limiar de 2011, a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), acusou a presidente Dilma Rousseff de cometer “crime de responsabilidade”, ao fechar o ano de sem conceder reajuste salarial aos magistrados, e dizendo que o Poder Judiciário estaria agindo como se fosse um “superpoder ditatorial, que pudesse tolher a independência de outro”.

A Ajufe emitiu a nota porque reivindicava o reajuste de 22%, defendido pelos juízes, já que a presidente estaria descumprindo o artigo da Constituição Federal que determina o aumento anual do teto do funcionalismo público segundo a inflação. Contundente a nota acusou a presidente de praticar um “atentado ao estado de direito e ao regime republicano”, ao deixar de fora do orçamento da União à proposta orçamentária encaminhada pelo presidente do STF, ministro Cezar Peluso.

Perniciosa e perturbadora, ao posar de a justiceira dos tribunais em detrimento de decisões complexas e de difícil concretização do direito, vez que o seu principio que sustenta a linha dorsal do judiciário é a entrega do resultado da ação, fato este que demora anos, e que segundo pesquisa do CNJ, 63% dos processos não são passíveis de execução.

Ministro Gilberto Carvalho é do tipo Ofélia – só abre a boca para dizer bobagens

Carlos Newton

Vejam só o senso de oportunidade do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, que se acha um ministro da maior importância. Do alto de sua imponência, Carvalho afirma à imprensa que o governo tem R$ 14 bilhões para grevistas.

Uma declaração desse tipo, em meio a greve federais que se multiplicam, tem o mesmo efeito de colocar gasolina no fogo. Mas o boquirroto ministro foi mais longe, ao assinalar  que R$ 14 bilhões representam apenas o valor inicial com o qual o governo está trabalhando para conceder reajuste para os servidores públicos federais em greve.

Logo a seguir, parece que teve um surto de bom  senso e  evitou fazer maiores comentários sob o tema, alegando que o assunto está sendo conduzido pela ministra do Planejamento, Miriam Belchior, e pelo secretário das Relações de Trabalho do ministério do Planejamento, Sérgio Mendonça.

“Os R$ 14 bilhões são o número inicial, mas está mudando o tempo todo. As discussões continuam. O número vai depender das negociações. Este é um assunto do Ministério do Planejamento. Nestas questões temos de ter uma voz única”, declarou o ministro, ao chegar ao anexo do Planalto, para prestigiar o projeto “Cinema no Planalto”, que exibiu o filme nacional “Heleno”, com a presença do ator principal Rodrigo Santoro.

Questionado se o volume de recursos destinados ao aumento poderia chegar a R$ 22 bilhões, o ministro Gilberto Carvalho não quis responder. “Eu não sei. De fato, eu não sei. O Planejamento está cuidando disso e nós combinamos que nesse governo quem fala sobre este tema é a ministra Miriam Belchior ou Serginho. Na boa”, disse.

Gilberto Carvalho admitiu que incomodou a avaliação de que o governo não estava aberto a negociação. Isso porque, segundo ele, o governo estava “tentando formular números com responsabilidade” e foi acusado de romper acordo.

Como diz o próprio ministro, só há um comentário a fazer: “Na boa…”.

O cardápio do estadista

Percival Puggina

Vamos ver se consigo. É muito difícil que uma dissertação sobre política não seja lida sem que os leitores se instalem, provisoriamente ao menos, nas respectivas trincheiras. O que hoje trago para este espaço, no entanto, é uma reflexão sobre modos de ver a política que independem de devoções governistas ou oposicionistas e de alinhamentos ideológicos por tal ou qual banda. Estou fazendo uma aposta em que conseguirei ser entendido na perspectiva que proponho.

Vamos lá. Todo governante, sentado na cadeira das decisões, se defronta com esta questão: onde gastar os escassos recursos de que dispõe? Abrem-se, de hábito, dois caminhos. Num deles, os recursos podem ser gastos na conservação do estoque de bens públicos disponível, no aumento da oferta de serviços com ampliação dos empregos do setor, nas despesas de custeio e na distribuição de favores. No outro, priorizam-se os investimentos como forma de ampliar, através deles, as perspectivas do futuro.

O tema é relevante e se expressa na opção entre a possibilidade de governar mais para o presente e menos para o futuro ou de governar mais para o futuro e menos para o presente. Numa analogia bem singela, seria escolher entre comer feijão com arroz hoje ou preparar uma feijoada para amanhã. A experiência política mostra que o feijão com arroz é eleitoralmente mais bem sucedido que a feijoada, embora a feijoada fique na memória e entre para a história.

Há muitos anos, muitos anos mesmo, a feijoada foi parar num canto remoto do cardápio nacional – e no Rio Grande do Sul não é diferente – graças a uma taxa de investimento incapaz de providenciar os mais modestos ingredientes de uma feijoada que mereça essa designação. As propagandas oficiais podem sobrevalorizar o que é investido, mas não passam disso mesmo: propaganda oficial. Aponto para a falência da educação no país e não preciso dizer mais nada para provar o que digo.

É na bandeja do dilema aqui exposto que o prato da oposição é servido. Se o governante optar pela feijoada, a oposição reclamará da falta do feijão com arroz; se ele escolher o feijão com arroz, a oposição cobrará a feijoada. E não há como escapar desse conflito, a menos que – numa situação absolutamente ilusória e imprudente – se proceda como se existissem recursos para fazer bem as duas coisas. É a usina do endividamento, da insegurança e do descrédito.

Não é por outra razão que a política deve ser confiada aos estadistas. Quem vota em qualquer um por razões menores deve, mesmo, ser governado por pigmeus. Para cuidar apenas do custeio, um gerente serve; para decidir sobre investimentos, precisa-se de um planejador; para escolher entre o bem e o mal basta ter uma consciência bem formada. Mas para priorizar despesas, escolher o mal menor (porque o bem nem sempre está disponível ou acessível), fazer na hora certa a opção correta entre custeio e despesa, se requer um estadista.

E nós só os teremos quando os partidos compreenderem que eleição é um episódio do processo democrático. A eleição passa mas a política permanece. E a política só corresponderá às expectativas sociais quando os partidos se preocuparem com formar (e os eleitores com eleger) estadistas. Eles existem e estão por aí, cuidando de outras coisas, porque a política não lhes dá espaço. Enquanto isso, ora falta feijão, ora falta arroz e a feijoada virou um sonho.

(Do Blog do Puggina)

O amigo de Assange: um perfil de Rafael Correa, presidente do Equador

Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

E eis que o pequeno Equador e seu presidente, Rafael Correa, estão subitamente sob holofotes mundiais. O motivo é a saga de Julian Assange, o combativo e combatido fundador do Wikileaks, o site que revolucionou o jornalismo investigativo com vazamentos de repercussão planetária que deram a jornais tradicionais como o NY Times e o Washington Post ares de obsolescência em estado avançado.

Correa, esquerdista moderado

Para quem acompanhava minimamente o esquecido Equador, não foi surpresa o apoio a Assange, expresso numa concessão de asilo que ninguém sabe quando se materializará. Assange, por enquanto, está na embaixada do Equador em Londres. Ele se refugiou lá depois que a justiça inglesa decidiu aceitar o pedido de extradição da Suécia, onde duas mulheres fazem acusações sexuais a Assange que em qualquer outro país do mundo não dariam, rigorosamente, em nada. O receio – fundamentado – de Assange é que, da Suécia, ele acabe nos Estados Unidos. Sua vida se transformaria num inferno em solo americano.

Assange conheceu seu amigo providencial, Correa, ao entrevistá-lo por Skype para um programa que ele tinha numa emissora russa. “Bem-vindo ao clube dos perseguidos”, disse Correa a seu entrevistador.

Correa é um daqueles presidentes de que os Estados Unidos definitivamente não gostam. Aos 49 anos, loquaz e enérgico, é um esquerdista moderado, um socialista cristão para quem os interesses de seu país não coincidem, necessariamente, com os dos Estados Unidos. Há algum tempo, ele recusou renovar um contrato pelo qual os americanos mantinham uma base militar no Equador. “Só aceito renovar se eles toparem que o Equador monte também uma base militar nos Estados Unidos”, disse ele, sorrindo.

O foco de Correa é a diminuição da desigualdade social entre os equatorianos. Nisso, ele não é diferente, por exemplo, da presidenta Dilma, ou de Lula. O que separa Correa de ambos é a forma com que ele coloca suas prioridades: enquanto Dilma parece sussurrar e Lula parecia falar, Correa parece gritar. Suas opiniões são expressas de maneira franca e, com frequência, contundente, a despeito do humor e do sorriso aberto quase sempre presentes.

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INJUSTO COM SATÃ

Seu colega Hugo Chávez, da Venezuela, uma vez comparou o ex-presidente americano George W. Bush ao “Satã”. Correa disse que Chávez fora injusto com Satã.

Casado com uma belga com quem tem três filhos, Correa é oriundo de uma família simples de Guaiaquil, a maior e mais importante cidade do Equador, embora a capital seja Quito. Seu pai se matou aos 50 anos, depois de se meter com o tráfico de drogas. Correa teve uma vida escolar vitoriosa, e acabou se formando em economia na melhor universidade equatoriana. Mais tarde, complementou seus estudos com quatro anos numa faculdade dos Estados Unidos.

Ao voltar ao Equador, retomou a vida acadêmica. Seu ingresso na vida pública se deu como ministro da Economia. Os equatorianos gostaram dele, e em 2006 Correa se elegeu presidente.

Seu índice de popularidade é alto, acima de 70%, graças aos programas sociais, mas a mídia local o detesta, e é correspondida. Não é uma relação tão destrutiva quanto a que existe entre Chávez e a mídia venezuelana, mas é mais complicada do que aquilo que se vê no Brasil ou mesmo na Argentina. De uma maneira geral, as grandes empresas de mídia da América do Sul mantêm um elevado grau de desconfiança de governos de esquerda – provavelmente por imaginar que se esconde neles uma vontade enorme de sovietizar os países em que estão no poder.

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EXEMPLO DA FRANÇA

É uma coisa típica de sociedades imaturas. Na França, nenhuma família dona de empresas de mídia imagina que o socialista François Hollande vá transformar o país numa república comunista. A agenda socialista, ou social-democrata, está hoje concentrada em reduzir a concentração descomunal de riqueza que se verificou nas últimas três décadas.

O caminho mais eficaz para isso, e é o que Hollande está fazendo, é impedir que as grandes corporações e os muito ricos encontrem tantas facilidades para reduzir ao mínimo os impostos que deveriam pagar. Adicionalmente, no caso da América do Sul, dada a miséria de tantos milhões de pessoas, o esforço fiscal tem sido acompanhado, pelas administrações de esquerda, de programas sociais como o Bolsa Família, no Brasil, e tantos outros.

Correa, o amigo de Assange, se enquadra dentro deste figurino.

Uma lira de Tomás Antonio Gonzaga

Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810) nasceu na cidade do Porto, entretanto houve um esforço dos homens de letras em criar discursos que o naturalizassem brasileiro. O
ouvidor acabou tornando-se inconfidente das Minas Gerais e autor de uma das mais conhecidas histórias de amor das alterosas, quando utilizando o pseudônimo Dirceu, escrevia belos e famosos poemas para sua musa inspiradora Marília.

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LIRA I

Tomás Antônio Gonzaga

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
e mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos inda não está cortado;
os Pastores que habitam este monte
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste
nem canto letra, que não seja minha.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil Pastora,
depois que o teu afeto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte e prado;
porém, gentil Pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!
(…)

(Colaboração enviada pelo poeta Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Lewandowski mudou seu voto à última hora.

Marcelo Mafra

É importante destacar que Lewandowski mudou o seu voto somente na noite anterior, segundo o que ele próprio disse. Ele teve tanto tempo para estudar, analisar, avaliar e, mesmo assim, preparou seu voto considerando que não havia ilegalidade no repasse de dinheiro à agência DNA Propaganda, de Marcos Valério.

Lewandowski iria se desmoralizar

Porém, a argumentação lógica apresentada pelo relator, ministro Joaquim Barbosa, confirmando a denúncia do Procurador-geral da República, no sentido de comprovar as ilegalidades praticadas, foi tão consistente que, se Lewandowski mantivesse o voto conforme já havia preparado, ele ficaria tão desmoralizado pela inconsistência em sua argumentação que preferiu mudar na última hora.

Reparem: quem disse que “deu uma guinada de 180 graus”, reexaminando seu voto, na “noite anterior”, foi o próprio Lewandowski.

Esperemos que Lula não dê uma bronca nele por causa disso. Vamos aguardar os próximos capítulos e ver como serão as manifestações dele (incluindo guinadas de última hora) e dos outros ministros em relação aos demais réus.

No desespero, Haddad apela para Lula participar dos eventos de campanha

Carlos Newton

Com apenas 8% das intenções de voto para a Prefeitura de São Paulo, o candidato petista Fernando Haddad pediu que o ex-presidente Lula comece a participar de sua agenda de campanha. Haddad esteve no Instituto Lula, na zona sul de São Paulo, na última segunda-feira, para discutir os principais problemas de sua campanha.

A questão dos recursos financeiros está equacionada, mas a candidatura segue com muitas dificuldades para crescer nas pesquisas. Por isso, Haddad quer a presença de Lula nos eventos, mas acontece que o ex-presidente ainda não está totalmente recuperado do violento tratamento contra câncer a que foi submetido, tem dificuldades para caminhar e não pode encarar uma campanha eleitoral para valer. Além disso, a presença dele é cobrada em outras grandes cidades do país, onde o PT disputa eleições com maiores chances de vitória do que em São Paulo.

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HORÁRIO GRATUITO

Na verdade, a maior esperança de Haddad é a reação dos eleitores ao horário eleitoral gratuito no rádio de na TV, que começou terça-feira. O programa permitirá ao eleitor conhecer as propostas petistas e Lula aparece a todo momento pedindo votos para Haddad. Com isso, o candidato acha que a campanha enfim poderá deslanchar.

“Minha convicção é de que o paulistano está em busca de soluções para os seus problemas e vai votar naquele que apresentar as melhores ideias”, disse Haddad ao jornal Estadão.

Segundo o petista, o ex-presidente Lula gravou sua participação em alguns programas do horário eleitoral, assistiu ao conteúdo e “gostou muito”. Haddad também destacou que algumas pesquisas apontam para tendência de crescimento de intenções de voto.

O certo é que, se a campanha de Haddad não tiver decolado até o final da próxima semana, quando sairem novas pesquisas já influenciadas com o horário eleitoral do rádio e televisão, só lhe restará cantar um tango argentino, como recomendava Manuel Bandeira em seu genial poema “Pneumotorax”.

A oração dos aflitos

Carlos Chagas

Deixando de lado as baixarias que apenas começaram nos horários de propaganda eleitoral obrigatória, importa indagar se tem razão aqueles que imaginam excepcionais viradas para seus débeis candidatos, apenas pela simples exposição nas telinhas e microfones. É bom ir com calma, pois a propaganda eleitoral obrigatória nada tem a ver com a finada “pomada maravilha” do tempo de nossos avós, que comprada nas farmácias servia para curar fraturas, dores de cabeça, pedra nos rins e desencanto com a vida.

Trata-se, para aqueles que até agora não decolaram nas pesquisas, de uma simples taboa dita de salvação em meio ao mar encapelado. É a oração dos aflitos, que jogam todas as suas esperanças na alteração de tendências do eleitorado. Pode até ser que muita gente mude de candidato, ou encontre o seu, assistindo e ouvindo a propaganda, mas jamais se poderá supor a inevitabilidade das mudanças. Pelo contrário, demonstra a observação de pleitos anteriores serem pouco freqüentes as meteóricas ascensões de quem começa por baixo. Acontecem, é claro, ainda que sem regras fixas.

Exposta a teoria, vamos à prática: conseguirão Fernando Haddad, Gabriel Chalita, Paulinho da Força e penduricalhos superar a obvia liderança de José Serra e Celso Russomano? É possível, nunca provável. A imagem do Lula nas telinhas e sua voz rouca nas rádios, pedindo votos para o companheiro, será a varinha de condão responsável pela transformação do sapo em príncipe? Ou fotografias do dr. Ulysses, de Tancredo e de Teotônio, junto com apelos de Michel Temer, bastarão para tirar o candidato do PMDB do pelotão dos derrotados? Que influência terá o finado Leonel Brizola na escolha de seu correligionário?

A propaganda eleitoral obrigatória serve para definir as eleições que se encontram empatadas, quer dizer, quando geralmente dois candidatos ocupam ou alternam-se na liderança das pesquisas e um deles consegue sobrepujar o outro através de melhor performance nesse período. No caso, Serra e Russomano poderão valer-se da exposição ao eleitorado. Mesmo assim, será apenas um dos diversos fatores responsáveis pela vitória de um deles. Se este sobe e aquele cai, fácil não será inverter o processo.

De acordo com o tempo de que dispõem, os candidatos a prefeito de São Paulo começam a abordar problemas e soluções para a cidade. Quase sempre fantasiosas, as promessas conseguirão sensibilizar o eleitor cuja paciência o faz permanecer prestando atenção nas mensagens? Ou a reação mais natural de quem ouve ou vê será aquela tradicional, de descrédito e até de indignação? Quantas vezes o cidadão já se decepcionou?

Em suma, os horários de propaganda eleitoral obrigatória começaram e se estenderão até 4 de outubro. Servirão para alimentar sonhos que as urnas irão desfazer ou farão o milagre da multiplicação de votos?

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EXAGEROS

Podem até ter razão os grevistas do serviço público, pressionados pelos vencimentos que vão perdendo poder aquisitivo e pela ausência de planos de carreira. O problema é que não para aceitar a paralisação de certas categorias, como a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal. Sem falar nas Polícias Civis de diversos estados.

Tome-se o que se passa na fronteira do Brasil com o Paraguai, em Foz do Iguaçu. Normalmente já se torna difícil evitar o contrabando e o tráfico de drogas. Parados os servidores encarregados da fiscalização, a fronteira tornou-se o paraíso dos criminosos. Passa tudo, de lá para cá. Se quisessem contrabandear um elefante, os bandidos conseguiriam.

Ninguém é obrigado a entrar para as polícias. Mas se entra, deve subordinar-se aos regulamentos da lógica, o maior dos quais é de preservar a ordem, não a desordem.

Uma história de amor e ódio

Sebastião Nery

Na varanda, cercada de plantas e cheia de artesanato popular, da casa discreta na Rua Enéas de Lucena, em Rosarinho, Recife, Miguel Arraes e Jarbas Vasconcelos conversaram pela última vez, em 1992.

Depois de longa conversa, Arraes foi embora sem dizer o que queria, mas Jarbas sabia. Na semana seguinte, o neto de Arraes, Eduardo Campos (hoje ministro de Ciência e Tecnologia), voltou à casa de Jarbas. Queria ser o vice de Jarbas na eleição para a Prefeitura do Recife.

Jarbas já tinha outro lado, outra aliança e outro candidato: Silvio Pessoa, do PSDB. Eduardo Campos saiu candidato a prefeito, pelo PSB. Foi o quinto. Jarbas ganhou no primeiro turno, derrotando também André de Paula, do PFL, Roberto Freire, do PPS e Augusto Lucena, do PTB.

Era uma história de amor, que tinha virado uma história de ódio.

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ARRAES

Em 16 de setembro de 1979, trazido nos braços da anistia, Arraes voltara de 15 anos de exílio na Argélia e Paris, recebido por uma multidão, em um comício a que fui no carro de um jovem alto, testa larga, cabelos ainda pretos, Jarbas Vasconcelos.

Quem preparou o comício foi o diretório do MDB de Pernambuco, comandado pela competência de Jarbas. Era o primeiro grande comício do MDB depois da anistia. Para subir no palanque, a escadinha estreita não dava jeito. Ao lado, um rapaz forte de cabelo encaracolado, barba preta, camisa branca e calça jeans, dava a mão e nos puxava para cima. Era Lula.

Em 1978, Jarbas tinha sido o candidato do MDB a senador. Teve 700 mil votos. Pela Arena, Nilo Coelho fez 350 mil, Cid Sampaio 300 mil. A sublegenda elegeu Nilo. Em 82, Jarbas e Arraes apoiaram para governador Marcos Freire, derrotado por Roberto Magalhães, do PDS, e se elegeram deputados federais, Arraes com 191 mil votos, a maior da história do Estado.

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JARBAS

Em 85, Arraes apoiou Jarbas para prefeito. Em 86, Jarbas apoiou Arraes para governador. Juntos, ganharam as duas. Em 90, a chapa com Jarbas para governador e Arraes para senador era imbatível. Mas Arraes passou o governo para o vice Carlos Wilson, saiu do PMDB, foi para o PSB, não disputou o Senado, fez uma chapa para federal, teve 300 mil votos, elegeu mais quatro.

E conseguiu o que queria: derrotou Jarbas, que perdeu para Joaquim Francisco, do PFL, e todo o MDB histórico da resistência à ditadura, que o sustentou politicamente no exílio: Oswaldo Lima Filho, Fernando Lyra, Cristina Tavares, Fernando Coelho, outros. Ninguém se reelegeu.

Por isso, em 92, Jarbas vetou o neto de Arraes. Era o troco de 90. Em 94, Arraes se elegeu governador com Jarbas apoiando Gustavo Krause, do PFL. Em 96, Jarbas apoiou Roberto Magalhães, também do PFL, e derrotou Roberto Freire, do PPS, candidato de Arraes, e João Paulo, do PT.

Em 98, Jarbas e Arraes, que queria ser governador pela quarta vez, emendaram os bigodes, acertaram as contas. Disputaram afinal o governo do Estado. Jarbas teve uma vitória devastadora: 64,39%. Ganhou em Recife e em todas as regiões de Pernambuco. O ódio estava consolidado.

Após esse rompimento, Jarbas  e Campos no último dia 3 apareceram em público pela primeira vez para fazer campanha e discursar lado a lado. O encontro foi na inauguração do comitê de Jarbas Filho, o Jarbinhas, filho do senador candidato a vereador em Recife.

Jarbas confidenciou que as conversações já vinham ocorrendo desde o fim das eleições passadas, mas que eram destinadas a costurar uma aliança só para 2014, mas o acordo acabou sendo antecipado. O ódio  não existe mais.