Arquivos por mês: agosto 2012

Fernando Henrique Cardoso não era considerado de confiança nem mesmo pela família.

Sergio Caldieri, diretor do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, nos envia esse impactante depoimento do seu amigo Fernando Santa Rosa, capitão de mar e guerra da Marinha, perseguido e cassado pelos militares em 1964.

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A FAMÍLIA CARDOSO

Conheci o tio de FHC o general Felicíssimo Cardoso. Fui preso no navio mercante Princesa Leopoldina, em 06/04/1964, com o primo carnal de FHC, coronel Joaquim Ignácio Cardoso. Pai e filho (Felicíssimo e Joaquim Ignácio), de esquerda e nacionalistas ardorosos, tal qual o general Leônidas Cardoso (pai de FHC).

Na campanha do “Petróleo é Nosso”, os irmão Felicíssimo Cardoso e Leônidas Cardoso (ambos generais) foram notáveis lutadores pela criação da Petrobrás. FHC traiu a todos e vendeu o Brasil.  Não foi sem razão a frase dita pelo general Felicíssimo Cardoso para os ínclitos Barbosa Lima Sobrinho, general Carlos Hesse de Melo, Orlando Valverde e Henrique Miranda, aos quais conheci e privei da amizade, ao responder a uma sugestão de enviar um manifesto relativo à Amazônia para FHC em São Paulo:

“Pode mandar, Miranda, mas este meu sobrinho não é de minha confiança.”

A estratégia dos EUA no Oriente Médio

Joseph Massad (Al-Jazeera, Qatar)

O aspecto mais importante de todas as estratégias dos EUA no Oriente Médio é abrir caminho e preços baixos para o petróleo, sempre, além de estimular o mais possível todas as rixas e atritos entre todos os países da região, para assim justificar que todos aqueles países consumam todos os lucros que auferem do petróleo para comprar armas que os EUA vendem a todos eles e as quais, para que continuem a comprá-las, os países têm, é claro, que usar e gastar (armas e munição), ao mesmo tempo em que mantêm viva a indústria bélica dos EUA.

No fundo, Washington pouca importância dá às rivalidades entre Omã e Emirados Árabes Unidos, ou entre Omã e Arábia Saudita – menos ainda, às brigas de Iêmen e Arábia Saudita, e praticamente dão importância-zero ao que o Qatar pense da ou faça à Arábia Saudita… desde que esses países não se envolvam em confronto militar real.

Em matéria de conflito real, os EUA só admitem um: guerra combinada de todos essas ditaduras, unidas e acrescidas de Kuwait e Bahrain, contra a República Islâmica do Irã.

Nessa arena, nada mudou. Embora a “instabilidade” interna no Bahrain, em Omã e na região leste da Arábia Saudita seja preocupante, funcionários do governo dos EUA (com os israelenses aplaudindo e, não raras vezes, tomando a dianteira) investem grandes esperanças e muito tempo numa pesada campanha de propaganda contra o Irã – o único, dentre os três produtores gigantes de petróleo da região (além de Iraque e Arábia Saudita), que se mantém fora da órbita na qual os EUA exercem pleno controle.

O fato de os regimes sectários do Golfo identificarem como xiitas as massas em revolta no Bahrain e na Arábia Saudita; e como ibadis, em Omã (mas o sultão de Omã é também crente ibadi; então, os sauditas puseram-se a falar mais sobre uma dita opressão que os sunitas sofreriam em Omã) facilitou a conexão que funcionários dos governos de EUA e estados do Golfo estão inventando entre a chamada “ameaça iraniana” e as revoltas locais. Assim, conseguem explicar compras cada vez mais gigantescas de armas, e preços mais em conta a pagar pelo petróleo… o que se chama “sucesso das metas políticas dos EUA”.

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IRAQUE SOB TUTELA

O petróleo e a estrutura de governo do Iraque continuam sob tutela dos EUA. Isso, aliado à transferência discreta do controle sobre os campos de petróleo líbio, para as potências europeias, tem conseguido manter a estabilidade por hora e para o futuro próximo.

Circularam rumores de que os qataris teriam sugerido que alugariam o Canal de Suez. Os rumores foram desmentidos. Mas bastaram para tranquilizar ainda mais os funcionários do governo dos EUA: parece já não haver dúvidas de que a “Primavera Árabe”, boa parte da qual foi patrocinada pelo Qatar, não prejudica nem impõe grave ameaça aos interesses dos EUA. Como sempre, não percebem que o que poderia proteger os interesses dos EUA seria a estabilidade. E o que se vê na região é só instabilidade e revolta.

Os qataris aconselham paciência. Argumentam que a região voltará à estabilidade, tão logo se implantem ali novos governos islamistas amigos do ocidente e do Golfo; então o bolo econômico afinal crescerá e poderá incluir empresários e empresárias islamistas. E dali em diante será business como sempre para os EUA, eternamente.

Joseph Massad é professor de Política e História Intelectual Árabe Moderna
na Columbia University, em New York.

Petróleo grego em alta tensão

Ruben Eiras

A Grécia é o país da UE e do Euro com maior potencial prospetivo de exploração de petróleo, com cerca de 22 mil milhões de barris no Mar Jônico e 4 mil milhões de barris no Mar Egeu. Por comparação, o poço Lula no Brasil (uma das maiores descobertas da última década) tem cerca de 8 mil milhões de barris. Este facto é conhecido pela Troika do FMI, UE e BCE desde 2010.

Em vez de promover a produção petrolífera para reequilibrar as contas gregas e aumentar a autonomia energética europeia, a ordem é privatizar a única via que o Estado grego dispõe para pagar aos credores. Eis a razão pela qual russos e chineses digladiam-se para controlar os portos gregos: passam a controlar terminais de distribuição de petróleo e gás para os Balcãs e centro da Europa, e conquistam uma inédita presença estratégica no Mediterrâneo.

Ciente desta ameaça, os EUA não dormem e Hillary Clinton deslocou-se recentemente à Grécia para tentar acertar condições de E&P com a Turquia, com o envolvimento da empresa americana Noble Energy. O problema reside em que a Grécia não dispõe de umaZEE e por isso não tem garantido o direito soberano sobre os recursos no solo marinho.

Por isso, Clinton foi tentar um acordo de repartição entre Grécia, Turquia e a NobleEnergy. Na semana seguinte, os russos foram bater à porta dos gregos com propostasemelhante.Se considerarmos que Israel será um exportador líquido de gás ainda nesta década e queChipre também uma bacia rica em petróleo, concluem-se dois factos:

1) O Mediterrâneo será um foco de tensão geopolítica em torno dos recursos petrolíferos

2) A UE sofre de uma cegueira estratégica extrema ou a Alemanha já desistiu daEuropa

A importância estratégica de capacidades de exploração submarina para asustentabilidade dos países

Para saber mais:

http://www.infowars.com/rising-energy-tensions-in-the-aegean%E2%80%94greece-turkey-cyprus-syria/

A violência ronda nossas casas

Roberto Nascimento

Ao assistir, pela televisão, às imagens de novo ato de violência policial, estou dominado por violenta emoção diante dos carrascos de plantão, que movidos por instintos insanos cometem barbaridades contra presos indefesos, sem chance de escapar.

Esse tiro na perna do sequestrador remonta a Idade Média, a lei do olho por olho e dente por dente. O policial virou ao mesmo tempo juiz sentenciante e carrasco executor da sentença prolatada por ele mesmo no calor dos acontecimentos.

Essas ações acirram ainda mais a violência contra o cidadão, pois os outros bandidos tendem a usar violência ainda maior contra os cidadãos desarmados.

A volta da bárbarie ronda nossas casas, nossos quintais, arrasam nossos jardins e abatem nossos sonhos de uma vida melhor e mais segura.

Vemos o sangue quase jorrar dos lábios de policiais e bandidos, todos sedentos pelo cadáver vilipendiado e inerte no chão. O cidadão não tem mais a quem apelar, os bispos estão preocupados com as almas e não com a vida dos crentes e cristãos. Os empresários insensíveis se deslocam em aviões e helicópteros e colocam suas poupanças em contas numeradas na Suíça ou em investimentos prediais em Miami ou ainda em Paris, que ninguém é de ferro.

Vejo nuvens escuras no horizonte do Brasil e o pior é que não são indícios de chuva.

Recordar é viver: ministros do Supremo já foram flagrados combinando voto no mensalão

Carolina Brígido (O Globo)

Em agosto de 2007, enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) julgava a denúncia do Ministério Público Federal contra os acusados de participar do mensalão, houve ministros que foram flagrados combinando como votariam. As imagens das telas foram fotografadas durante a sessão e divulgadas pelo Globo.

Sessão do STF que julgava o caso do mensalão, em agosto de 2007. A ministra Cármen Lúcia trocava mensagens via computador com colegas de plenário<br /><br /><br /><br /><br />
Foto: Roberto Stuckert Filho / Arquivo O Globo

Ministra Carmem Lúcia, flagrada trocando mensagens. (Foto Roberto Stuckert Filho, reprodução de O Globo na internet)

Desde então, o tribunal cercou-se de cuidados. Uma das providências foi impedir que fotógrafos e cinegrafistas transitassem livremente pelo plenário. Ontem, eles foram confinados em uma área restrita o fundo do recinto. Quando viram suas mensagens publicadas no jornal, alguns ministros acabaram mudando a linha do voto e réus admitiram mais tarde que a divulgação mudou o rumo da sessão.

Após o episódio, boa parte dos ministros se tornou adepta dos bilhetinhos escritos em papel. Na época, a presidente da Corte era a hoje aposentada ministra Ellen Gracie.

Com a posse de Gilmar Mendes, veio a restrição do espaço destinado aos profissionais de imagem. Foi quando os ministros voltaram a usar o sistema interno de troca de mensagens.

Hoje, a preocupação mudou: eles querem impedir que uma intervenção de manifestantes prejudique o andamento dos trabalhos.

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SEGURANÇA TOTAL

Segundo O Globo,  o aparato montado no Supremo denuncia a comoção em torno do tema. Dezenas de seguranças de terno preto e gravata da mesma cor ficam postados diante do prédio do STF, na porta de acesso ao plenário.

Após encarar a fileira de homens de preto, o visitante precisava passar por dois detectores de metal antes de entrar no plenário. Também é necessário fazer um cadastro, com documento de identidade, como de praxe. O julgamento afetou também a vida de quem não pensou em ir ao tribunal nesses dias: o ponto de ônibus na frente do STF foi desativado temporariamente.

Os vendilhões do templo, na visão genial de António Aleixo

Publicamos ontem um poema do genial poeta português António Aleixo (1899 / 1949), dizendo que ele deveria ser mais conhecido no Brasil. Por isso, não resistimos em postar hoje mais uma obra dele, que gostava de escrever sobre religião. E para completar, um intrigante minipoema de Paulo Peres, do site Poemas & Canções, também sobre religião.

António Aleixo

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OS VENDILHÕES DO TEMPO

Deus disse: faz todo o bem
Neste mundo, e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém
Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.

Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E à caridade o imploram,
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.

E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais pelos outros que por nós.

Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou.
São os vendilhões do templo
Que do templo ele expulsou.

E o povo nada conhece…
Obedece ao seu vigário,
Porque julga que obedece
A Cristo — o bom doutrinário.

António Aleixo, in “Este Livro que Vos Deixo…”

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POR QUÊ?

Paulo Peres

POR QUE existem
Várias crenças
E religiões
Se existe
Um só DEUS
Que é o POR QUE
Do PORQUÊ
De tudo?……..

 

Corrupção é o maior desafio da China

Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

LONDRES – Yang Dacai riu na hora errada e está em apuros. Ele é o responsável pela segurança do estado de Xianxim, na China. É um cargo relevante no poder em Xianxim. Alguns dias atrás, Yang foi acompanhar os trabalhos de resgate de corpos depois que um terrível acidente de ônibus matou, incinerados, 36 dos 39 passageiros. O ônibus se chocou contra um caminhão carregado de petróleo e pegou fogo.

O riso que indignou a China Olha o Yang rindo aí…

Uma câmara apanhou Yang rindo – e a imagem provocou indignação entre os internautas chineses. No Weibo, o equivalente chinês do Twitter, Yang foi duramente atacado.

Seus problemas não pararam aí.

Começaram a circular fotos dele, na internet, com variados relógios. Ele é maníaco por relógios. A não ser que sejam fajutos, são de marcas caras. A pergunta óbvia: como ele conseguiu comprá-los, com seu salário modesto de funcionário público?

Yang aceitou participar de uma sessão de perguntas no Weibo. Sobre a risada, disse que estava tentando transmitir alguma tranquilidade à sua equipe, num momento tão duro.

Sobre os relógios, disse que comprou com seu salário. Yang provavelmente vai ter que explicar melhor isso.

Num editorial, o jornal Global Times, que reflete o pensamento do governo chinês, elogiou a iniciativa de Yang de dar satisfações à opinião pública. Mas destacou que a questão dos relógios ficou malcontada.

O caso reflete uma preocupação central da China: combater a corrupção num momento em que o dinheiro jorra no país.

Numa de suas últimas edições, a revista americana Time notou que os chineses parecem não estar nada interessados nas eleições presidenciais nos Estados Unidos. O espaço dado ao duelo Obama-Romney mídia chinesa é insignificante.

Por quê, quando os chineses sabem que os Estados Unidos a qualquer momento podem encontrar pretextos para criar problemas para o país na luta pela hegemonia mundial?

A melhor resposta que vi foi num editorial de um jornal chinês. “Nosso maior desafio, em nosso desenvolvimento, não está nos Estados Unidos. Está em nós mesmos.”

A cultura chinesa – baseada nos ensinamentos de Confúcio, um filósofo venerado há séculos na China – é amplamente superior à americana. Modéstia versus ostentação, simplicidade versus arrogância, sentimento de comunidade versus individualismo.

Amparada no confucionismo, a China — que foi pilhada e retalhada pelas potências ocidentais no século 19 nas infames Guerras do Ópio – se reergueu dos destroços para se tornar o que é hoje.

Caso o dinheiro corroa a cultura que explica a força chinesa, os estragos serão ainda piores do que os causados pela rapinagem ocidental no chamado Século da Humilhação.

A reforma dos estádios de futebol faz muito sucesso na internet

O comentarista Celso Serra nos envia uma mensagem que faz sucesso na internet, sobre a grandiosidade da reforma dos principais estádios de futebol do país.

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O BRASIL DEPOIS DA COPA DE 2014

Estádio Vivaldo Lima, Manaus, com projeto: Gerkan Marg und Partner (GMP). Será a Nova Arena do Vivaldão. A cobertura imita cesto de palha com escamas de répteis da fauna amazônica. Valor: R$ 500 milhões.

Estádio Cícero Pompeu de Toledo, em São Paulo, com projeto do arquiteto Ruy Ohtake. Será reformado e construída cobertura nas cores branco e vermelho. Valor estimado: R$ 180 milhões.

Este será o novo Morumbi

Estádio Governador Plácido Castelo, Fortaleza, cujo projeto prevê uma nova área com shopping, cinemas, restaurantes e hotel. Valor: R$ 300 milhões.

Este será o novo estádio de Fortaleza

Estádio José Pinheiro Borda, Porto Alegre, com projeto de Fernando Balvedi, Gabriel Garcia e Maurício Santos, da Hype Studio. Reforma da arquibancada inferior, aumento de 56 mil para 60 mil lugares. Valor estimado da obra: R$ 150 milhões

Estádio Mané Garrincha, Brasília, com projeto de Castro Mello Arquitetos. Prevê uma cobertura de tensoestrutura. A capacidade: 60 mil lugares. Valor: R$ 522 milhões.

Este será o novo Maracanã

Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã), no Rio, com projeto de Castro Mello Arquitetos. Será construída uma nova cobertura no estádio, e o projeto inclui a requalificação da Quinta da Boa Vista, do Museu de São Cristóvão e dos bairros Maracanã e Tijuca. Valor: R$ 460 milhões

Estádio Governador José Fragelli, Cuiabá (MT), com projeto também da Castro Mello Arquitetos. Criação de um grande parque ao redor do estádio, capacidade para 48 mil torcedores. Valor: R$ 350 milhões

Estádio Governador Magalhães Pinto (Mineirão), Belo Horizonte, com projeto de Gerkan Marg & Partner (GMP). O estádio será transformado em um complexo cultural, esportivo e de lazer, prevê espaço para shoppings, eventos, hotéis e estacionamentos. Valor: não divulgado

Estádio: Arena das Dunas, Natal, com projeto de Coutinho, Diegues e Cordeiro, Prevê reurbanização, novo estádio e arena multiuso, hotéis, teatro, prédios comerciais e shopping, além do Centro Administrativo do Estado. Valor: R$ 300 milhões.

Estádio Otávio Mangabeira (Fonte Nova), Salvador, com projeto de Marc Duwe e Claas Schulitz. Mantém a forma de ferradura, com abertura para o lado sul, Tororó. Tudo reformado: arquibancadas, cobertura e espaços de áreas vip. Valor: R$ 231 milhões

Estádio Arena da Baixada, Curitiba, com projeto de Vigliecca Associados. Considerado o estádio mais moderno do Brasil. Modificações Copa de 2014: aumenta a capacidade de 21 mil para 41 mil torcedores, melhoria da iluminação, e abertura de novas saídas. Valor: R$ 140 milhões

Estádio Cidade da Copa, Recife, com construção de estádio para 46.154 lugares, conjunto habitacional, centro comercial e hotel. Valor: R$ 1,6 bilhão

E como ficarão as escolas??? E como ficarão os hospitais??? Mas lembre-se: seu voto só lhe deu direito a uma entrada no Estádio de Futebol E não à um ingresso em uma boa Escola e atendimento num bom Hospital.

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NOTA DE REDAÇÃO DO BLOG

Detalhe final: os preços estimados não valeram. Estavam em impedimento e foram anulados pelos árbitros. Seus valores foram multiplicados – alguns, várias vezes. E la nave va, ninguém é preso, não acontece nada, nada.

Toffolli fez promessa mentirosa ao Senado e insiste em julgar o mensalão.

Carlos Newton

O julgamento do mensalão já começou e ninguém sabe se o ministro Antonio Dias Toffoli vai se declarar suspeito ou não. Na forma da lei, ele nem deveria ter participado das sessões preliminares em que o mensalão foi abordado, mas quem quer saber de lei numa hora dessas?

Recorde-se que, ao ser sabatinado no Senado, Toffoli se comprometeu a consultar os demais ministros do Supremo, sempre que estivesse em debate algum processo de interesse do PT ou de dirigentes partidários com os quais tem relações de amizade.

Ora, como ex-advogado do próprio PT, Toffoli se tornou amigo de todos os dirigentes, especialmente Lula e José Dirceu, com os quais trabalhava diariamente, ao tempo em que ocupava a função de advogado-geral da União, no terceiro andar do Palácio do Planalto, onde também ficavam Lula e Dirceu. Além disso, sua mulher defendeu no processo do Supremo um dos réus, o ex-deputado professor Luizinho.

Diante desses fatos concretos e irrefutáveis, Toffoli nem precisaria consultar os demais ministros do Supremo, deveria ir logo se declarando suspeito, na forma da lei. Aliás, foi assim que procedeu o também ministro Marco Aurélio Mello, na época do julgamento de Fernando Collor de Mello, em 1994, quando ele se declarou impedido por ser primo de quarto grau do ex-presidente. A lei só o impediria caso se tratasse de parentesco de primeiro, segundo ou terceiro graus.

Mas Toffoli não tem essa grandeza. Pressionado por Lula e Dirceu, pretende ir até o fim no julgamento, porque  já foi descartada a primeira denúncia formal ao Supremo, arguindo sua suspeição. Mas a Procuradoria-Geral da República ainda pode fazê-lo, e então os demais ministros é que teriam de decidir se Toffoli continuará participando do julgamento.

Em entrevista ao “Jornal Nacional”, Marco Aurélio considerou delicada a situação de seu colega Dias Toffoli e disse que é triste para o STF ter que deliberar sobre o impedimento de um ministro, o que pode ser um constrangimento para Toffoli.

Indagado se o constrangimento é para o Supremo ou para Toffoli, Mello foi taxativo:

— Não será constrangedor se tivermos que nos pronunciar, já que nosso dever maior é para com a toga. Não gostaria de enfrentar a matéria, mas se tiver que enfrentar, vou atuar, e atuar segundo o convencimento formado – disse ele à reportagem da TV Globo, acrescentando:

— Para o Supremo é um pouco triste ter que deliberar se um colega que insiste em participar do julgamento, já que pode haver, como ocorreu no meu caso, o afastamento espontâneo, se está ou não impedido. E constrangimento para ele próprio, se a decisão for positiva, ou seja, de que ele não pode participar.

Procurado por jornalistas em Brasília, Toffoli não quis comentar a entrevista de Marco Aurélio.

Um gato no meio dos pombos, ou desmanchado o golpe da pizza

Carlos Chagas

O ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, armaram uma bomba-relógio para melar o julgamento do mensalão. Melhor dizendo, uma imensa pizza explosiva, que se tivesse tido sucesso, desmoralizaria por completo nossas instituições democráticas.

Durante dois anos, Lewandowki foi o ministro-revisor do processo. Leu as mais de 50 mil peças, posicionou-se e preparou um voto que, absolvendo ou condenando os 38 réus, aceitava a decisão três vezes adotada por seus pares, de que todos os acusados deveriam ser julgados pela mais alta corte nacional de justiça.

No entanto, depois da questão de ordem do ex-ministro Márcio Thomas Bastos, Lewandowski mudou de lado. Apresentou magistral mas discutível voto pelo desmembramento do processo, quer dizer, dos 38 réus, 35 não poderiam ser julgados pelo Supremo. Deveriam ser desmembrados e remetidos à justiça de primeira instância, ou seja, começaria tudo de novo para os acusados que não detém mandato parlamentar. Resultado: nem nos próximos vinte anos sairiam as sentenças, tendo em vista o alto número de recursos capazes de beneficiar os réus.

A pergunta que se faz é quanto tempo deveria o ministro ter despendido para elaborar voto tão brilhante e completo? No mínimo dois meses, isto é, estava preparado para dar o dito pelo não dito quando todos acreditavam em sua convicção de aceitar o julgamento pelas regras já estabelecidas. Com todo o respeito, fez o papel de gato no meio dos pombos.

Seria uma decepção nacional, daquelas tão amplas capazes de gerar o descrédito da sociedade em nossas instituições. Felizmente, a maioria dos ministros do Supremo ficou com o ministro-relator, Joaquim Barbosa, que acusou Lewandowski de desleal. Optaram pela ética e pela lógica até aqueles nomeados pelo Lula e por Dilma, ex-presidente e presidente que sairiam vitoriosos do desmembramento do processo.

Houve atraso no julgamento, já que ontem foi dia dedicado exclusivamente à questão de ordem levantada pelo ex-ministro da Justiça. Mesmo assim, foi positiva a decisão final, porque o processo continua onde se encontrava desde 2007. Absolvidos ou condenados os mensaleiros, demonstra o Poder Judiciário estar acorde com a voz rouca das ruas, aquela que há tempos se insurge contra a impunidade.

Ontem, era para ter sido lida a acusação do Procurador-Geral da República, que teria cinco horas para exigir a condenação dos mensaleiros. É possível que a intervenção de Roberto Gurgel se efetive hoje. Ficam para a semana que vem, assim, as defesas dos advogados dos 38 réus, caso não surjam novas questões de ordem.

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MUDARÁ ALGUMA COISA?

Alguns julgamentos do Supremo Tribunal Federal entraram na História, como quando, na República Velha, seus ministros recusaram habeas-corpus impetrado por Rui Barbosa para libertar deputados presos irregularmente pelo presidente Floriano Peixoto. Vale citar, também, o mandado de segurança impetrado pelo presidente Café Filho para reassumir a chefia do governo, recurso igualmente rejeitado.

Durante a ditadura militar o Supremo curvou-se aos atos institucionais que proibiam serem as iniciativas dos generais-presidentes apreciadas pelo Poder Judiciário.

Episódio como o que se iniciou ontem, porém, nunca houve. Pela primeira vez estão sendo julgados 38 réus acusados de viabilizar a compra de votos de deputados através do pagamento de mensalidades. Uns mais, outros menos, todos foram denunciados por essa prática. A palavra, agora, está com o Supremo Tribunal Federal.

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OS ONZE VÃO VIRAR DEZ

Apesar de ter sido advogado do PT e funcionário de José Dirceu na Casa Civil, o ministro Dias Toffoli não se deu por impedido no julgamento do mensalão, que começou com os 11 ministros de seu quadro.

Quando o julgamento terminar, em meados de setembro, os ministros serão dez, porque Cezar Peluso completará 70 anos no dia 3 de setembro, caindo na compulsória, isto é, obrigado a afastar-se. É improvável que a presidente Dilma indique o novo ministro enquanto o mensalão estiver sendo julgado, abrindo-se então, na teoria, a possibilidade do empate de cinco votos a cinco. Existe o precedente de o presidente do Supremo, já tendo votado como ministro, possa votar outra vez, para desempatar. Como não se sabe se haverá empate em alguma votação, melhor aguardar.

 

Ayres Britto: uma atuação perfeita no caso de Dias Toffoli

Pedro do Coutto

O ministro Ayres Brito, sem dúvida, teve uma atuação perfeita, inspirada na sensibilidade política, deixando a pleno critério pessoal do ministro Antonio Dias Tofoli participar ou não do julgamento dos acusados do Mensalão. Deixou assim aquele que já advogou para o ex-ministro José Dirceu plenamente à vontade diante de sua consciência. Realmente não caberia ao presidente do STF arguir a incompatibilidade. Isso de um lado. De outro abriria brecha para um sem número de questionamentos que poderiam atrasar as sessões e assim as decisões da Corte. Reportagem de Carolina Brígido, O Globo de terça-feira 31, expôs nitidamente a questão. A foto foi de Givaldo Barbosa.

Levantar a hipótese de impedimento seria manifestar desconfiança quanto à imparcialidade e ao senso de justiça do ex-advogado Geral da União. Tanto assim que Britto também rejeitou de plano petição do advogado Paulo Magalhães Araujo que, mesmo sem atuar no processo, tomou a iniciativa de agir contra Toffoli. Só poderia fazê-lo o advogado que representasse um dos réus ou então o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel. Mas como os advogados de defesa não levantaram dúvida, evidentemente a acusação não vai levantar. Isso seria manifestar, não só desconfiança, mas sobretudo insegurança quanto aos resultados dos julgamentos. Sim, julgamentos. Porque são vários num só bloco.

Em caso de condenações, claro, elas não poderão ser todas iguais e a hipótese de absolvição não pode, se em algum caso ocorrer, referir-se a todos os acusados.

A definição de Ayres Britto é totalmente coerente com seu pensamento liberal. Autêntico. E se tornou oportuna sobretudo porque, também na terça-feira O Estado de São Paulo publicou reportagem de Vera Rosa, Felipe Recondo e Mariângela Galucci, sustentando que o ex-presidente Lula apoia a presença de Dias Tofoli no julgamento. A foto que acompanha a matéria é de André Dusek. Ficou nítida assim uma polarização ou pelo menos tentativa dela, no corredor que leva os ministros ao plenário.

Uma espécie de eco ao longo dos meus passos, famosa coluna de Aldovar Goulart no Correio da Manhã, encarregado pelo jornal de cobrir, quando funcionava no Rio, o Supremo Tribunal Federal. O eco, agora, 2012, terá o mesmo volume que a decisão da Corte, em 1955, mantendo o impeachment de Café Filho e garantindo a posse de Juscelino. Passado e presente encontram-se assim 57 anos depois.

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SERVIDORES, APENAS 9% DO ORÇAMENTO

Um outro assunto. O subsecretário do Tesouro Nacional, Gilvan da Silva Dantas, publicou no Diário Oficial de 30 de julho, a partir da página 63, as demonstrações contábeis da União, incluindo portanto receita e despesa. E, mais uma vez, cai o mito erguido pela tecnocracia de que as despesas com os servidores públicos, civis e militares, pesam demais nos gastos públicos.

Nada disso. Para um orçamento de 2 trilhões e 150 bilhões de reaias, as despesas com funcionalismo, abrangendo aposentados e reformados, são de 187,2 bilhões. Portanto em torno de 9%. Enquanto isso, o desembolso, só com os juros (8% ao ano) da dívida interna mobiliária, encontra-se projetado na escala de 140,5 bilhões. O montante do endividamento, este sim um problema, eleva-se assim a 1 trilhão e 700 bilhões de reais. Um país não pode funcionar sem servidores. Mas não possuir dívida seria o ideal. Haveria recursos para saúde, educação, saneamento, segutança.

Vale o escrito

Sebastião Nery

14 de dezembro de 1968. O Brasil acordou com o AI-5 na cabeça e o ministro da Justiça Gama e Silva com a ressaca na boca. Iracema Silveira, mulher de Joel Silveira, telefonou para Rubem Braga:

- Prenderam Joel. Cuide-se.

- Vou tomar uma providência.

E fugiu. Foi para a casa de Fernando Sabino. À tarde, Rubem liga para a casa dele, a empregada tinha notícias:

- Doutor Rubem, chegaram aqui dois homens de cabelinho cortado, com um jipe lá embaixo, procurando o senhor.

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BRAGA

Fernando e Rubem telefonam para Adonias Filho, amigo do general Sizeno Sarmento, rei da Vila Militar. Daí a pouco, Adonias, eficiente, chama:

- Falei com o Sizeno, ele disse para o Rubem ficar onde está e aguardar instruções.

Rubem ficou três dias onde estava: no uísque de Fernando Sabino. Adonias ligou de novo:

- Rubem, você vai ser ouvido, mas não vai ser preso. Será ouvido por um ex-colega seu da FEB (Força Expedicionária Brasileira), o coronel Andrade Serpa. Amanhã, às 8 da manhã.

- Não pode ser às 10? É muito cedo.

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“CONSTANTINO”

No dia seguinte, chega ao quartel, o coronel Serpa o espera:

- Dr. Rubem, bom-dia.

- Serpa, se quer me tratar com cerimônia, me chame embaixador e eu o chamo de coronel. Sem cerimônia, continuo Rubem e você Serpa.

Rubem depôs até às 9 da noite. Suas crônicas, pilhas delas, estavam todas sobre a mesa do coronel, marcadas, grifadas em lápis vermelho forte:

- O que é que você quis dizer com estas frases aqui, Rubem?

- Serpa, você conhece o “Constantino”, aquele jogo do bicho de Niterói? A pule diz assim: “Vale o que está escrito.” Minhas crônicas, Serpa, são como o “Constantino”. Valem o que está escrito.

E voltou para o uísque mineiro e generoso de Fernando Sabino.

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MENSALÃO

Bastou um dia de julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal para as máscaras de Lula, do PT e da maioria dos 38 réus se espatifarem no chão. É um festival de mau-caratismo, cada um se escondendo embaixo da cama e denunciando o companheiro mais próximo.

Se Lula tivesse o tamanho de um líder político e não fosse o pigmeu que é, teria feito o que Fidel Castro fez em Cuba, depois do frustrado assalto ao quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953: assumiu todas as responsabilidades de líder e deixou que um dia a Historia o julgasse.

O PT inteiro e o pais sabem hoje, como contei aqui na semana passada, que o Mensalão nasceu da decisão de Lula, logo depois da eleição de 2002, comunicada e logo aceita por José Dirceu e pela direção nacional do PT, de comprar o apoio dos pequenos partidos para garantir maioria no Senado e na Câmara, em vez de negociar politicamente ministérios com os partidos cuja maioria o havia apoiado no segundo turno : PMDB, PDT.

Depois Lula disse que “o Mensalão nunca houve”, “foi uma farsa”, foi “apunhalado pelas costas”, aquelas baboseiras todas que repete até hoje.

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DIRCEU

Todos se escondem dentro das próprias cuecas. O valente “guerrilheiro” José Dirceu, que, segundo o Procurador Geral da Republica, “chefiava a quadrilha”, tem o desplante de dizer que também não sabia de nada, era “apenas um burocrata” da Casa Civil e quem mandava no partido e no balcão de negócios do governo era Marcos Valério, Genoino, Delúbio.

Dirceu chega ao extremo ridículo de dizer que “não tinha conhecimento dos assuntos financeiros do PT”, conhecia Valério apenas de vista e nega até que tenha pedido a ele, e conseguido, no Banco Rural, um empréstimo e um emprego para sua ex-mulher Angela Zaragoza. Todo o PT fez operação plástica. Ninguém conhece mais ninguém.