Arquivos por mês: agosto 2012

Logo no primeiro dia, Lewandowski mostrou que a amizade a Lula fala mais alto do que a ética

Carlos Newton

Não dava para esperar nada diferente. O ministro Ricardo Lewandowski, que é o mais ligado a Lula, sendo amigo íntimo da família Silva, jogou na lata do lixo sua biografia, ao apresentar seu voto de ministro-revisor, no caso da questão de ordem urdida pelo ex-ministro Marcio Thomaz Bastos, que tencionava desmembrar o processo do mensalão, para que o Supremo só julgasse os três réus com direito a foro especial.

A questão de ordem foi apresentada pelo ex-ministro da Justiça e advogado de um dos réus Márcio Thomaz Bastos logo na abertura da sessão. Bastos defendeu que os réus que não têm foro privilegiado possam ser julgados pela primeira instância.

O ministro-relator Joaquim Barbosa respondeu duramente, chamando Ricardo Lewandowski de desleal, vejam só o vexame e a que ponto chegamos nesse Supremo Tribunal que mais parece um Ínfimo Tribunal.

“Dialogamos ao longo desse processo e me causa espécie Vossa Excelência se pronunciar pelo desmembramento agora quando poderia ter sido feito há sete meses. Poderia ter trazido em questão de ordem”, disse Barbosa, que completou: “É deslealdade”, referindo-se ao voto de Lewandowski.

Até por volta das 17h, outros cinco ministros acompanharam o voto de Barbosa, constituindo maioria entre os 11 ministros. Também votaram contra o desmembramento Rosa Weber, Luiz Fux, Dias Toffoli e Cezar Peluso. E ficou desmontado o golpe armado pela dupla Thomaz Bastos/Lewandowski, que deviam estar disputando o vôlei de praia na Olimpíada, pois um levanta e o outro corta.

Pela proposta, dos 38 réus, só os três réus que tem mandato de deputados – João Paulo Cunha (PT), Valdemar Costa Neto (PR) e Pedro Henry (PP) – seriam julgados pelo STF. Os demais seriam submetidos aos tribunais de origem, isso demoraria anos e todos os crimes acabariam prescrevendo.

As pernas da mentira

Percival Puggina

Como são longas as pernas da mentira insistentemente repetida por muitos! Uma delas atropelou-me outro dia. Centenas de informações sustentam, na internet, que a anistia de 1979 foi aprovada no Congresso pelo estreito placar de 206 votos a 201. Por essa vantagem mínima, a Arena empurrara a tal anistia goela abaixo da oposição. Diante de informação tão homogênea e coincidente, eu a comprei por boa e passei a repeti-la.

No entanto, algo não abotoava. Duzentos e um congressistas, adversários do regime militar, se teriam oposto à anistia? Seria paradoxal. Por que rejeitariam um projeto que beneficiou milhares de parceiros? Pesquisando, tropecei noutra das longas pernas em que essa história caminha através dos anos: o projeto teria sido rejeitado pela oposição porque se tratava de uma auto-anistia que só interessava aos militares.

Oh, verdade! Oh, história! O que fazem com vocês duas em nome da ideologia! Dia desses, soube que o JB disponibiliza um arquivo digitalizado de seus jornais desde os anos 30. A edição do dia 23 de agosto de 1979 quebra a perna dessas mentiras. Coisa feia. Fratura exposta.

A véspera, dia da votação da anistia, fora tumultuado no Congresso. Pressão nas galerias. Exaltados discursos. O projeto do governo Figueiredo não anistiava quem tivesse participado de “terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal”. Para estes, as duras penas da lei. Mas havia uma emenda do deputado Djalma Marinho que anistiava a todos, ampla, geral e irrestritamente.

Essa emenda, levada a votação, foi rejeitada por 206 votos a 201. Ah! Quer dizer que não houve 201 votos contra a anistia, mas 206 votos contra uma emenda que a ampliava? Os 201 votos que se diz terem sido contra o projeto de anistia, na verdade foram a favor de uma anistia muito mais ampla? Sim, foi isso mesmo. Aliás, a maioria parlamentar, a base do governo Figueiredo, entendia que os crimes contra a pessoa, crimes de sangue, não mereciam perdão. Para quem os cometera – a justiça. As penas da lei. Já o projeto em si – Lei nº 6683/79 – foi aprovado em acordo, por voto das lideranças.

O país não se pacificou. Nos seis anos seguintes, continuou a campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita, finalmente aprovada, em 22/11/1985, por um Congresso com plena legitimidade democrática, no corpo da emenda que convocou a Constituinte. Apesar de as coisas terem transcorrido desse modo, a história, mal contada e muito repetida, sobre longas pernas, insiste, agora, em que a desejada, pleiteada e ansiada anistia ampla, geral e irrestrita foi uma injustiça.

Curiosamente, reproduz a posição da bancada linha dura de 1979 e clama pelas duras penas da lei. Anistia, não! Justiça! Justiça! Também acho injusto que terroristas, guerrilheiros, assassinos e assaltantes responsáveis por mais de uma centena de mortes andem soltos e recebendo gordas indenizações. Digo outro tanto de quem torturou e seviciou. Tais impunidades não são justas!

Mas sei que por esse caminho não chegaríamos à normalidade democrática. O país só foi pacificado, só recuperou saúde institucional quando a Política superou a Justiça através da anistia de 1985. A anistia é um instrumento jurídico a serviço da Política. Da boa Política! Há conflitos, na história, que não se resolvem com Justiça, mas com Política. O passado não tinha conserto. Consertou-se o futuro. Foi esse o bom rumo que o Brasil escolheu e que alguns pernalongas, arrebatados pela ideologia do ódio, querem desandar.

(Transcrito do Blog de Puggina)

Os jovens, a ilusão e a morte

Mauro Santayana

A notícia de que o Brasil é o quarto país da América Latina com maior número de homicídios de crianças e adolescentes, divulgada pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos,  é estarrecedora. Segundo o documento, nos últimos 30 anos, o assassinato de crianças e jovens entre um e 19 anos de idade, teria aumentado cerca de 345%.

A que se deve isso? Por um lado, à migração de milhões de brasileiros do campo para a periferia das grandes cidades, nesse período, tangidos pela seca, pela miséria, pelas doenças e atraídos muitas vezes, não só pela ilusão de ter acesso a melhores condições de vida, mas também, uma grande parcela, pelo espelho mágico e enganador dos “reality shows” e das novelas de televisão.

A transformação de lavradores em trabalhadores urbanos sem qualificação profissional e a busca, pelos seus filhos – a qualquer preço – da “ascensão” social, fragmentou milhares de famílias. Assim, destruídos os laços que as unia, muitos jovens, que só tinham a esperança como bagagem para enfrentar os desafios da cidade grande, foram jogados na prostituição e no tráfico, no vício, na cadeia e no cemitério.

Se a criminalidade decorria antes sobretudo das condições sociais, hoje ela está sendo disseminada, também na classe média, cada vez mais, e mais cedo, pelas drogas, como o crack e pela insistência do sistema em resolver um problema que é principalmente de saúde pública, com a repressão policial.

Os agentes de segurança do Estado se acostumaram a punir o usuário e o pequeno traficante, mas não alcançam os peixes grandes. Esses, envolvidos também com a lavagem de dinheiro, a prostituição e o jogo, corrompem parcelas da polícia para continuar atuando. Dessa forma se mantém o movimento perpétuo de uma imensa rede de exploração e corrupção, que sustenta advogados , e atinge até mesmo ao Legislativo – vide o caso Cachoeira – e o próprio Poder Judiciário.

Como a única forma de acesso à droga é o tráfico, o usuário parte para o roubo, o assalto, o assassinato. Mata-se, hoje, por dívidas de cinquenta reais. Todos os dias, corpos de adolescentes de ambos os sexos, cada vez mais jovens, são encontrados manietados, algemados, e crivados de balas em locais de “desova”. Filhos espancam pais – e chegam mesmo a matá-los – para roubar o que possa ser vendido ou trocado por algumas pedras de crack, que serão fumadas em alguns minutos, até que a “fissura” volte a tomar conta do usuário – em todo o país e em todos os estratos sociais.

Enquanto isso, continua o incentivo do “marketing” ao uso do álcool, geralmente a porta de entrada para drogas mais pesadas. É preciso coragem para tratar da dependência química como um problema de saúde pública, e para investir com ousadia na educação correta da infância e da juventude. Sem isso, continuaremos moendo as sementes do futuro.

(Transcrito do blog de Santayana)

Blogs e sites comparam a honradez dos presidentes militares com a honradez dos políticos civis hoje em dia.

O comentarista Prentice Franco, inconformado com as críticas sobre corrupção nos governos militares, desafia que “alguém cite o nome de um militar que governou o país durante o regime iniciado em 1964, que se envolveu em corrupção e enriqueceu ilicitamente, com seus descendentes hoje vivendo em um mar de rosas”?

Prentice aproveita e envia dois textos que circulam nos blogs e sites que defendem o regime militar.

###
LEMBRANDO MÉDICI
Paulo Crisóstomo (diplomata)

Sou casado com a Isolda Médici Crisostomo, sobrinha e afilhada de batismo do Presidente Médici, tanto que ele 1970 (como Presidente) foi a Bagé para ser nosso padrinho de casamento.
Mas o que gostaria de repassar são duas histórias verídicas, para ressaltar o caráter deste Presidente Militar.

Em uma ocasião, durante seu governo, foi construída uma estrada moderna unindo as cidades de Bagé e Livramento. O Presidente Médici tem uma fazendola (digo isto porque realmente pequena) herança de seus avós. Acontece que esta fazendola, quando do projeto inicial, não estava no eixo desta estrada moderna. Médici foi consultado para saber se gostaria se com um pequeno ajuste esta viesse nela passar. A reação do Presidente foi imediata, proibiu que se fizesse alteração no projeto com este objetivo.

Em outra ocasião, sabedor que haveria um aumento no preço da carne, por repasses de vantagens do Governo, mandou que seu filho Sérgio vendesse uma ponta de gado, que já estava pronta, ANTES do aumento, para que não viessem a dizer que ele se beneficiou com ao aumento.

O Presidente Médici não morreu pobre, afinal veio da classe média e nela permaneceu, morreu com o mesmíssimo patrimônio que tinha ao chegar à Presidência, seus filhos, noras, netos e demais familiares jamais tiraram vantagens econômicas pelo cargo de seu parente ilustre.

Este e outros exemplos nos enchem de orgulho, de ter o Presidente Médici deixado este legado de honra, civismo e respeito ao Povo Brasileiro.

Pouco depois que cheguei a Berlim, o Presidente Geisel visitou a Alemanha. O Prefeito Stobbe subiu a escada do avião e recebeu Geisel no alto da escada e desceu com ele. Eu estava embaixo e havia dias antes feito a visita habitual ao Prefeito. Quando cumprimentei Geisel, o Prefeito disse mais ao menos isso em alemão: “Presidente, o seu Cônsul deve ser muito importante, pois acabou de chegar e já trouxe o Presidente a Berlim”. Geisel sorriu.

Uns meses depois a filha Lucy esteve em Berlim num programa cultural. Acompanhei-a durante o dia. Perguntei a ela se o pai falava alemão. Respondeu que não, talvez tivesse uma vaga noção. Explicou que sua mãe falava alemão, mas que o pai de Geisel era muito rigoroso e no tempo da guerra, como era proibido falar alemão, seu avô (o pai de Geisel) fazia questão que se falasse só Português em casa e não ensinou Alemão aos filhos.

###
ESSES “ESTRANHOS” “MILICOS”

E falava-se horrores do Andreazza… que estaria riquíssimo, que teria ganho de presente das empreiteiras um edifício na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, que não tinha mais onde guardar dinheiro.

Não sei se Amália Lucy Geisel ainda estará viva. Pouco mais velha do que eu, tinha alguns problemas de saúde. Pois bem: ela era Professora do Colégio Pedro II e, mesmo quando o pai era Presidente, ia de casa ao trabalho de ônibus. Cansei de encontrá-la neles, ela e eu a caminho do centro do Rio. Meu pai chamava isso de “os três dês do milico”: decência, decoro, discrição”.

Primeiro, morreu o Cel. Mário Andreazza. Quando Ministro dos Transportes, foi responsável pela construção da ponte Rio-Niterói, obra que teve empréstimo inglês de 2 bilhões de dólares (Sim! Dois bilhões! De dólares!). Por ocasião de sua morte, seus 37 colegas de turma tiveram de fazer uma vaquinha para que o corpo pudesse ser trasladado para o Rio Grande do Sul. Portanto, depois de gerenciar tanta verba pública, bem administrada, diga-se de passagem, morreu pobre.

Já em 2003, foi a vez de Dona Lucy Beckman Geisel. Seus últimos anos de vida, viveu de forma pobre e discreta. Morreu em acidente de carro na lagoa Rodrigo de Freitas. Ano passado, foi a vez de dona Dulce Figueiredo, que ficou viúva em1999, do último Presidente militar. Em 2001, devido a problemas financeiros, teve que organizar um leilão para vender objetos pessoais do marido. Foi a forma que encontrou para sobreviver dignamente.

Faça suas comparações com os políticos de hoje e compare o estilo de vida do último presidente brasileiro, de sua mulher, que frequentam o mais caro cabeleireiro do Brasil, as mais caras butiques, os mais caros cirurgiões plásticos, gastou os mais altos valores do cartão de crédito, que não precisava prestar contas. Nunca fez um trabalho social pelo Brasil. Só o que fez foi viajar com o marido por todos os lugares do mundo, às expensas do suor dos brasileiros trabalhadores. Seus filhos enriqueceram da noite para o dia.

Isto é que são políticos “Populares e Trabalhadores”. Tirem suas conclusões.

Cesare Battisti interpela Políbio Braga em Porto Alegre: ‘O senhor é o jornalista de ética própria?!’

O jornalista gaúcho Políbio Braga tem feito muitas críticas ao governador gaúcho Tarso Genro. especialmente quanto à acolhida que ele garante ao refugiado italiano em Porto Alegre. De repente, Políbio e Battisti se encontram.

###
UMA QUESTÃO DE ÉTICA

Políbio Braga

O ex-terrorista e assassino italiano Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália e refugiado no Brasil por iniciativa do atual governador Tarso Genro (Tarso era ministro da Justiça quando concedeu abrigo a um dos homens mais procurados pela Interpol), passou por Porto Alegre neste sábado e dirigiu-se imediatamente para Caxias do Sul, onde manteve reunião com escasso grupo de ativistas e simpatizantes da esquerda gaúcha, a pretexto de autografar um dos seus livros.Cesare Battisti era dirigente do movimento Proletários Armados pelo Comunismo, o PAC. Ele assassinou quatro pessoas que nem militância política tinham.

. A Livraria Arco da Velha, onde sairia a sessão de autógrafos deste sábado, suspendeu o evento na sexta-feira, depois de ter recebido ameaças, mas os promotores da viagem buscaram outro local e não fizeram divulgação pública. Em Caxias, pouca gente sabe da visita.

. O editor saía do carro no bairro Santa Cecília, Porto Alegre, quando encontrou o carro Honda, prata, que conduzia Battisti, estacionado num supermercado, em companhia de dois homens e uma mulher, a motorista. Ele saiu do veículo, dirigiu-se ao editor e teve início uma áspera troca de palavras:

- Então, você é que é o jornalista que tem sua ética própria para tratar de política?

Achei surpreendente a decisão de Battisti de me interpelar e querer discutir ética comigo. E respondi:

- A minha ética não é a sua ética (a ética do bandido), conforme já ficou provado nas suas sentenças de condenação.

O italiano é frio, calculista e impassível. Ele não se alterou uma única vez e nem demonstrou nervosismo, não elevou a voz e nem fez gestos bruscos. Foi tudo na medida. A conversa foi muito curta, áspera, mas sem troca de insultos, tudo quanto permite um encontro inesperado deste tipo. Foi presenciada também pelo jornalista Olides Canton, que fotografou o encontro, e vigiada de perto por seguranças que protegiam o italiano.

Cesare Battisti, cujo benfeitor brasileiro é o governador do RS, Tarso Genro, tem feito viagens frequentes ao Estado, sempre mantendo atividades políticas, sob a falsa alegação de “atividade cultural”. Battisti é ex-terrorista e assassino, foi condenado à prisão perpétua na Itália e encontrou refúgio no Brasil. Se sair daqui, será preso e deportado para Roma.

O bom exemplo dos jovens: dia e noite, protestando contra o desgoverno de Sérgio Cabral

Mário Assis

Há alguns dias observo, na esquina da rua Aristides Espíndola – onde mora o governador Cabral – com a avenida Delfim Moreira, a presença de jovens que se revezam, empunhando cartazes com críticas ao Cabral. É um protesto legítimo, ordeiro e pacífico. Não há nos cartazes palavras ofensivas.

Hoje resolvi conversar com o jovem que lá estava. Disse-me ele que se trata de um grupo que vem organizando eventos e manifestações, pareceu-me nos moldes do Occupy Wall Street muito mais modesto, para denunciar desmandos e corrupção nas práticas políticas.

Entregou-me um papel, xerocopiado e simples, que eles distribuem, denunciando “Aumentos abusivos de tarifas de transporte, descaso com a educação, sucateamento da saúde pública, isençao de impostos para conhecidos e bordeis, um bilhão e meio em contratos fraudulentos de obras públicas…E, ainda dizem que o vagabundo sou eu por dizer que não saio daqui sem que este monstro seja preso”. Tem a foto do Cabral ao lado do texto.

No pouco tempo em que conversei com o rapaz, muitos carros que passavam buzinavam e os motoristas faziam acenos positivos com as mãos.

Não identifiquei ligações político-partidárias ideológicas no movimento.

Disse-me também o jovem que nesta madrugada – eles ficam lá dia e noite – uns “seguranças” do Cabral os ameaçou, perguntando se ele não tinha medo de morrer. Nesta esquina há, permanentemente, uma viatura da PM.

Considero um bom exemplo de exercício da cidadania.

Espalhe!

António Aleixo não acreditava nesse Deus…

Em sequência à recomendação de Rubem Braga de que a poesia é necessária, vamos publicar hoje uma obra do genial poeta português António Fernandes Aleixo (1899 / 1949), que deveria ser mais conhecido no Brasil.

António Aleixo

###
NÃO CREIO NESSE DEUS!

Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao desfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II

Não vês que o teu bem-estar faz d’outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p’ra ti o céu e a terra..
— Não te achas egoísta ou exigente?

III

Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P’ra o homem conseguir o que deseja.

IV

Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?…
P’ra esses é o céu; porque o inferno
É p’ra quem vive a vida à custa alheia!

António Aleixo, in “Este Livro que Vos Deixo…”

Em Minas, 350 marajás têm supersalários

Aline Labbate (Jornal O Tempo)

O governo de Minas divulgou, terça-feira, os salários dos servidores da administração direta, incluindo policiais militares e bombeiros. Segundo as informações publicadas no Portal da Transparência, 350 funcionários públicos do Estado têm rendimento bruto acima do teto constitucional, de R$ 24,2 mil, que corresponde a 90% do salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Os números são relativos ao salário de junho. Todos os servidores que receberam acima do teto são lotados na Secretaria de Fazenda. O maior vencimento pertence a um auditor fiscal, que, pelos dados divulgados, tem remuneração bruta de R$ 43.655,75.

Segundo a assessoria de imprensa do governo, os salários brutos acima do teto sofrem dedução automática para atender à legislação. Contudo, alguns servidores conseguem liminares na Justiça para receber os proventos integrais, que incluem, por exemplo, incorporação de adicionais por tempo de serviço.

###
PAGAMENTO LÍQUIDO

Quando descontados os impostos, abatimentos e deduções obrigatórias, nove servidores do governo de Minas continuam recebendo acima do teto constitucional. Uma auditora fiscal, por exemplo, é a que apresenta o maior salário líquido: R$ 34.964,39. Deste total, R$ 16.113,86 correspondem à remuneração eventual.

De acordo com a assessoria de imprensa, o valor refere-se a algum processo, por exemplo, por perdas anteriores de salário, que culminou com o pagamento em parcela única no mês de junho. Sem contar este valor, a funcionária pública receberia R$ 18.850,53.

O mesmo motivo fez o salário de uma servidora da Secretaria de Saúde aumentar de R$ 3.075 (bruto) para R$ 53.042 (líquido) em junho. Na rubrica remuneração eventual, ela recebeu R$ 51.086.

###
TRANSPARÊNCIA

A divulgação dos dados é prevista pela Lei de Acesso à Informação. Ontem, a Secretaria de Planejamento e Gestão e a Controladoria Geral do Estado publicaram uma resolução conjunta que disciplina a divulgação dos salários no Portal da Transparência do governo.

Segundo a norma, as remunerações de servidores de autarquias e empresas públicas serão publicadas por etapa, nos dias 30 de setembro e 31 de outubro.

Nem tudo está perdido: TCU suspende decisão que beneficiava os réus do mensalão.

Carlos Newton

A decisão anterior do Tribunal de Contas da União estava podre e fedia a léguas de distância, como se diz no Nordeste. Da lavra da ministra estreante Ana Arraes, mãe do governador pernambucano Eduardo Campos, que é um dos chefões da chamada base aliada, o acórdão anterior do TCU isentava um ex-diretor do BB (Henrique Pizzolato) de desvio de recursos para agência de Marcos Valério, a DNA Propaganda, que era uma das operadoras do mensalão.

Mas houve um surto de bom senso no Tribunal de Contas da União. Os ministros perceberam que a mutreta estava pegando muito mal, o Ministério Público Federal entrou no circuito, e o TCU decidiu suspender os efeitos da decisão baseada no voto da relatora Ana Arraes.

no preview

Ana Arraes, a ministra

De acordo com nota divulgada à imprensa, como o Ministério Público Federal entrou com recurso contra essa decisão, o assunto terá de ser novamente apreciado pelo plenário do Tribunal. Assim, qualquer efeito jurídico da decisão anterior fica suspenso até o julgamento do recurso pelo TCU.

E a ministra Ana Arraes ficou alijada. O recurso teve tramitação própria, com sorteio de novo relator, que será o ministro Aroldo Cedraz, em procedimento previsto para o caso de recurso. Cedraz já  suspendeu os efeitos do acórdão anterior, mas não há data prevista para novo julgamento em plenário.

Como se sabe, no último dia 20 o TCU estarreceu a opinião pública ao divulgar o acórdão que inocentava Pizzolato, em parecer publicado no início de julho, a um mês do início do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal. A decisão, que teve como base voto da ministra Ana Arraes, contrariava parecer da área técnica e do Ministério Público do TCU, que determinava que Pizzolato e outros dois ex-colegas de diretoria — Cláudio de Castro Vasconcelos e Renato Luiz Belineti — deveriam ser multados e obrigados a devolver R$ 5 milhões aos cofres do Banco do Brasil.

Porém, a ministra Ana Arraes teve um entendimento oposto (digamos assim…) e usou uma lei aprovada em 2010 para rejeitar as acusações sobre o suposto envolvimento de Pizzolato em irregularidades ocorridas entre 2003 e 2005.

Os ex-dirigentes do Banco do Brasil foram acusados de omissão em desvios sistemáticos de dinheiro da publicidade do banco para a DNA. Pela análise dos técnicos do TCU, a agência de Marcos Valério se apropriou de mais de R$ 4,4 milhões na venda de anúncios do Banco do Brasil.
A agência recebia descontos das empresas de comunicação devido ao grande volume da propaganda, mas não devolvia o dinheiro ao banco, embora a devolução do dinheiro do chamado “bônus de volume” estivesse prevista em contrato do BB com a agência.

Os advogados dos 38 réus tencionavam usar a decisão de Ana Arraes na defesa dos mensaleiros, mas agora tudo mudou.

A baderna substituindo o bom direito?

Carlos Chagas

Amanhecemos, hoje, com uma dúvida: estarão os servidores de Judiciário em greve ou apenas sinalizaram ontem poder cruzar os braços dentro de alguns dias? Não se discute a justa indignação da categoria, fora os marajás, porque trabalham muito e ganham pouco. Tem todo o direito de protestar, mesmo apelando para o último recurso do trabalhador, que é a greve.

O problema está na coincidência, impossível de ser aceita. Por que o início da paralisação no dia do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal? Mesmo prevendo-se que a mais alta corte nacional de justiça tenha tomado providências e o presidente Ayres Britto blindado o tribunal com funcionários fiéis e com policiamento bastante para garantir os trabalhos, sempre fica o receio do inusitado. E se piquetes forem formados na porta do STF, tentando impedir a entrada de advogados e de ministros? A conseqüência será o adiamento.

“Pau neles!” – recomenda a voz rouca das ruas, em nome da lógica, mas fica difícil, numa democracia, o apelo à truculência. Um evento de magna repercussão nacional como é o julgamento jamais poderia ser obstruído por um rotineiro confronto trabalhista que teve o ano inteiro para desabrochar, mas, por desígnios do destino, eclode precisamente para turvar a hipótese de as instituições legítimas golpearem a impunidade.

Desígnios do destino? Nem pensar. Trata-se de trama pueril, nem por isso menos abjeta. Seria o caso de perguntar a quem interessa a obstrução. A que partido ou movimento pertencem os líderes empenhados em botar a categoria na rua precisamente no dia do julgamento? Ainda mais sob a falsa impressão de que os trabalhadores da Justiça estarão saindo em defesa dos “injustiçados” mensaleiros…

Ganha uma passagem de ida à Síria, sem volta, quem deixar de responder que interessa ao PT e à sua subsidiária, a CUT. É a forma de tumultuar a exposição explícita dos responsáveis pelo maior dos escândalos políticos das últimas décadas. Quem sabe dá certo? Não pretendia, o alto comando do PT, pelo menos adiar o julgamento até depois das eleições? Ou até nunca, conforme o próprio Lula andou tramando? Nada melhor do que um conflito trabalhista, em meio a tantos outros registrados nas últimas semanas. Se os caminhoneiros interrompem as rodovias do país, por que os servidores do Judiciário não poderiam obstruir a Praça dos Três Poderes? Como as mãos do gato, servirão para tirar as castanhas do fogo.

Os votos são para que nada disso se configure. Para que o julgamento comece hoje, sem empecilhos, mesmo com o sacrifício do adiamento, por algumas semanas, da luta mais do que justa das reivindicações dos funcionários dos tribunais e juízos de primeira instância. Como no Brasil estamos acostumados a esperar sempre o pior, vale aguardar algumas horas. Mas tendo presente que certa casta de detentores do poder jamais se deteve diante de escrúpulos éticos, se é para mante-lo.

Ontem, instalados num hotel de Brasília, os principais advogados dos 38 réus do mensalão cruzavam os dedos em figa, esperando que uma simples escaramuça de rua, uma passeata de grevistas ou um piquete de servidores da Justiça pudessem favorecê-los com argumentos que não encontraram no Bom Direito para absolver seus constituintes. Estariam pronto ofícios à direção do tribunal alegando a impossibilidade de exercerem suas obrigações para com os clientes…

###
TEM AZEITONA NA EMPADA

Por falar em greves, com a ressalva de que são a última trincheira do trabalhador, instrumento mais do que justo para garantir a justiça social, vale a indagação de por que essa onda de paralisações sucessivas nas diversas atividade sociais. Nos oito anos do governo Lula foi uma placidez invejável, com todas as atividades funcionando, mesmo muitas delas submetidas à virulência patronal.

Tolerava-se, de parte a parte, em nome de uma administração operária, ainda que nem tanto justa para com o trabalhador. Poderia ter sido um bom começo, a pacificação com concessões de parte a parte. Houve até quem notasse a covardia das entidades sindicais, da noite para o dia submetidas ao poder de um governo dito dos humildes, mas nem tanto. Poder econômico, ideológico e publicitário, diga-se.

O problema é que com a ascensão de Dilma, mudou o eixo. Com Lula, submetiam-se todos, mas com uma mulher sem tradição eleitoral ou liderança específica, apenas criatura do Criador, seria diferente. Aquelas forças que se curvaram à onipotência do primeiro-companheiro vislumbraram a oportunidade de enquadrar e domesticar a sucessora, estabelecendo um governo em condomínio. Quebraram a cara, porque a vetusta senhora demonstrou personalidade e independência.

Resultado: retomaram as armas e os instrumentos com que combatiam as forças conservadoras e reacionárias dos neoliberalismo então no poder. A começar pelas greves, muitas justas, mas outras, nem tanto. O resultado é que a metade do país está parada e que a presidente resiste. Indaga-se, até quando?

CUT não encontrou clima para defender acusados do mensalão

Pedro do Coutto

No início de julho, o novo presidente da CUT, Wagner Freitas, em entrevista à Folha de São Paulo, primeira página da edição do dia 9, anunciou mobilização popular dos trabalhadores, incluindo concentração pública, para defender os réus do processo do Mensalão. O julgamento começa agora no STF. A UNE seria também convocada a mobilizar estudantes. Este era o projeto também do presidente do PT, deputado Rui Falcão, e do ex-ministro José Dirceu.

Não houve clima para a defesa dos acusados, muito menos para qualquer movimento visando a pressionar o Supremo Tribunal. Clima houve, isso sim, para passeatas em favor do julgamento e de repúdio aos réus, como o do Leblon, domingo, objeto de reportagem de Renato Onofre, O Globo de segunda-feira, foto de Eduardo Nader.

Isso prova, mais uma vez, que para se desencadear manifestações nas ruas é indispensável a presença de forte motivação. Caso contrário, as tentativas de mobilização popular esvaziam-se. Houve entusiasmo nas campanhas pelas diretas já, um milhão de pessoas nas ruas do Rio, em 84. Entusiasmo arrebatou também o povo na campanha presidencial de Tancredo Neves, apesar de as eleições de 85 terem sido indiretas. Muitos anos atrás, em 45, o comício dos lenços brancos, Largo da Carioca, pela redemocratização do país fez história.

A passeata do luto contra o Presidente Fernando Collor tornou-se decisiva para, em etapa seguinte, a aprovação do seu impedimento e queda do Palácio do Planalto. Todos esses movimentos contaram com forte impulso da imprensa e a demonstração maciça da vontade popular.

Do lado contrário, há o exemplo da conclamação de Collor para que as pessoas fossem às ruas vestidas de verde e amarelo. Não pegou. A população só é movida por impulsos espontâneos. Não funciona orquestrá-los. A força da comunicação, aliás, está nesse ponto. É comum ouvir-se que tudo o que acontece é produto da mídia. Engano. A mídia não é uma fábrica de fatos. Nada disso. É um espelho. A imprensa fotografa e reproduz os acontecimentos usando – isso sim – seus títulos como lentes para destacar os que julga mais importantes. Mas não tem força alguma para criá-los.

Tome-se o exemplo das ondas do mar. A mídia pode lançá-las além dos limites da orla. Não possui, porém, condições de fazê-las retornar ao oceano. Forte quando vai no sentido da maré, ao encontro da opinião pública. Fraca nos episódios em que alguns tentam desviar as atenções sobre esse ou aquele aspecto.

Graças a Deus é assim. Caso contrário, seríamos, todos nós, escravos das empresas de comunicação e dos jornalistas. Outro exemplo: os apresentadores de televisão que alcançam níveis de audiência. A força publicitária de que se revestem é intensa. Mas sob o prisma comercial. É só. Não influem no pensamento coletivo, nos planos políticos e econômicos. Ilusão pensar o contrário.

É natural essa realidade. Porque para influir no pensamento é indispensável conteúdo lógico nas colocações. Não havia a menor lógica num movimento popular em defesa dos acusados do mensalão de 2005. Exatamente por isso a tentativa de mobilização não produziu efeito. O reflexo que se viu nas ruas, pelo menos nas ruas do Rio, foi exatamente a vontade popular em sentido contrário. As coisas acontecem assim. É necessário emoção para que partidos ou entidades de classe possam colocar o povo nas praças, ruas, passeatas. Não é tarefa fácil. Ótimo que seja dessa maneira.

Claro que existem as concentrações organizadas. Sem dúvida. Mas não apresentam o mesmo calor, a mesma disposição, o mesmo entusiasmo. O calor humano possui uma força de irradiação e confirmação de justiça muito intensa. Sem o senso de justiça, nenhuma iniciativa humana consegue legitimar-se.

Não me comprometa

Sebastião Nery

Orosimbo Nonato, historiador, professor de Direito, desembargador em Minas e consultor-geral da República, era presidente do Supremo Tribunal. Gumercindo Couto, médico, tão feio que o chamavam de “Gilda” (“Nunca houve uma mulher como Gilda”), era prefeito de Belo Horizonte. Raimundo Silva era presidente do Tribunal de Justiça de Minas.

Os sobrenomes, tão diferentes, não diziam nada. Mas, como os três irmãos Andrada, de Minas Gerais e do Império, e os três irmãos Calheiros, de Alagoas e do Congresso, que relembrei aqui, também eles eram irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, Raimundo Nonato da Silva e Lídia Couto Silva.

O pai, lúcido mineiro, registrou os três com sobrenomes diversos, Nonato e Silva dele, e Couto da mãe, com uma sábia justificativa:

- Não quero que um comprometa o outro. Nem no sobrenome. Se algum cometer algum erro ou se houver alguma falência, que cada um pague, quebre e assuma sua falência com o próprio nome, sem envolver os outros.

###
NA PONTA DA FACA

Dona Amélia era quem mandava em Bonito de Santa Fé, no sertão da Paraíba. Chamou Manuel Sabugo,  mandou matar Zeca do Riachão. Manuel Sabugo saiu para fazer o serviço. De noite, dona Amélia se arrependeu.

Mas não encontrou mais Manuel Sabugo. Despachou um portador para avisar a Zeca do Riachão. E ainda fez um bilhete para Manuel Sabugo:

“Manuel Sabugo, não puxe o gatilho contra Zeca do Riachão”.

Sabugo saiu atrás de Zeca, encontrou, Zeca mostrou o bilhete:

- Sabugo, leia este recado de dona Amélia.

Manuel Sabugo leu e guardou:

- Zeca, está cumprida a ordem de dona Amélia. Vim para matar você no tiro de meu revólver, não vou mais atirar em você. Mas eu já rezei pela sua alma. Então, você vai morrer de faca, na ponta da faca.

E Manuel Sabugo matou Zeca do Riachão de faca. Não quis se comprometer com o bilhete.