Arquivos por mês: julho 2012

Da série: Não leia jornalões nem assista à TV brasileira. Não há nem haverá estado alauita na Síria.

Joshua Landis (Syria Comment)

Muitos jornalistas e figuras da oposição síria têm insistido em que os alauitas estariam planejando voltar às Montanhas Alawitas, em tentativa para criar e estabelecer estado separado nas chamadas Montanhas Costeiras, na Síria. Absolutamente inverossímil. Aqui, as cinco principais razões pelas quais não há nem haverá estado alawita.

1. Os alawitas sempre tentaram deixar as montanhas e chegar às cidades. Depois que a França ocupou a Síria em 1920, os primeiros censos mostraram profunda segregação demográfica entre sunitas e alauitas. Em nenhuma cidade com mais de 200 habitantes sunitas e alauitas viviam juntos. As cidades costeiras de Latakia, Jeble, Tartus e Banyas eram cidades sunitas, com vizinhos cristãos; mas não havia alauitas nas vizinhanças. Só em Antióquia os alauitas vivem na cidade; e essa cidade foi capital de uma região separada, autônoma, Iskandarun, que foi cedida aos turcos em 1938. Em 1945, só se registraram 400 alauitas como habitantes de Damasco.

Desde o fim da era otomana, os alauitas fluem para fora da região das montanhas que acompanham o litoral, para viver nas cidades. O estabelecimento, pelos franceses, de um estado alauita autônomo junto à costa, e o alto recrutamento de alauitas para o exército aceleraram esse processo de urbanização e de mistura de religiões nas cidades sírias.

A Síria de Bashar Assad acelerou ainda mais a urbanização dos alauitas, depois que foram pela primeira vez admitidos nas universidades, às quais chegaram em grande número, e em postos de serviço público, em todos os ministérios e instituições nacionais.

2. O projeto dos Assads para resolver o problema da divisão sectária na Síria foi promover a integração dos alauitas como “muçulmanos”. Os Assads promoveram estado secular e tentaram fazer desaparecer as tradições sectárias e a ideia de uma “identidade alauita”.

Nunca se criaram instituições alauitas para fixar ou promover alguma identidade alauita cultural, religiosa ou qualquer outro particularismo. Os Assads jamais trabalharam para promover qualquer coisa que se possa chamar, ainda que só por analogia, “um estado alauita”.

Ao contrário, os Assads recorreram ao passado, para definir os alauitas como muçulmanos. Bashar Assad é casado com uma muçulmana sunita, o que se integrou ao projeto de construir uma nação sem diferenças religiosas que se apresentaria como exemplo de integração. Sempre disse que seu objetivo é promover uma visão “secular” da Síria.

3. Assad jamais tomou qualquer medida para lançar o que pudesse ser apresentado como bases de algum ‘estado alauita’. Não há infraestrutura nacional na região costeira que possa sustentar um estado: não há aeroporto, nem usinas de energia elétrica, nem indústrias importantes que gerem empregos locais ou qualquer instrumento para construir qualquer tipo de economia nacional.

4. Nenhum país reconheceria algum estado definido como “estado alauita”.

5. Talvez mais importante que tudo isso, um estado alauita não teria como defender-se. É possível que as shabbihas [gangues armadas] e as brigadas armadas de alauitas [que o governo sírio diz que estão sendo armadas por estrangeiros] tentem voltar às Montanhas Alawitas, no caso de serem expulsas da capital. Mas por quanto tempo poderiam permanecer lá?

Tão logo os grupos sunitas sírios se unam – o que provavelmente acontecerá, se tiver sucesso a estratégia ocidental de criar sectarismos na luta na Síria – eles próprios se encarregarão de por fim a qualquer resistência alauita que venha a constituir-se na Síria, ou a forças remanescentes das gangues armadas que estão lutando nas grandes cidades.

Seja qual for o grupo que venha a dominar em Damasco e no controle do Estado na Síria, esse grupo dominará sem dificuldade qualquer resistência alauita que se tenha já constituído ou venha a constituir-se. Terão o dinheiro e a legitimidade, e terão apoio internacional para pôr fim a quaisquer ‘separatismos’ que se inventem na Síria. E a Síria não sobreviveria sem a costa.

Mais importante que isso, a Síria não aceitará nenhum tipo de divisão que implique perder as cidades portuárias de Tartus e Latakia. Nenhuma dessas cidades pode ser dita hoje ‘alauita’ e todas as cidades costeiras continuam a ter populações majoritariamente sunitas.

Joshua Landis é diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio
e professor associado da University of Oklahoma, EUA.

De reis inúteis e de seus vassalos

Mauro Santayana

Um dos mais ácidos panfletos da História, contra a monarquia, é o livro de Étienne de la Boétie, Discours de la Servitude Volontaire. É texto de um adolescente prodígio, que o redigiu antes dos 18 anos, conforme seu amigo maior, e a quem o autor confiou os originais, Michel de Montaigne. Étienne morreu aos 33 anos, e Montaigne não se atreveu a publicar o texto famoso, que ficou conhecido anos depois de sua própria morte. Redigido no século 16, só no século 17 o livro passou a ser editado e a ser lido, assim mesmo com muitas cautelas.

La Boétie, no fabuloso talento prematuro, em que se misturam, ao mesmo tempo, certa ousadia que só a boa fé juvenil autoriza, e fantástica erudição clássica, pergunta-se por que os homens se submetem à vontade de um só, sem que nada, nem na natureza, nem na razão, determine essa submissão.

A monarquia de hoje não é a mesma daqueles séculos, em que os reis, não todos, mas muitos deles, comandavam seus exércitos e corriam todos os riscos nas batalhas, como, entre outros soberanos franceses, fizeram Francisco I e Henrique IV. As famílias reais de nosso tempo estão mais para a comédia do que para a tragédia; mais para a farsa do que para o drama. Luis 16 foi o último dos reis a ter a sua cabeça decapitada. Antes dele, Carlos I da Inglaterra, também conheceu o cepo e a lâmina do carrasco. Os Romanov, dominados por um grande embusteiro, que foi Rapustin, eram de um terceiro tipo, o de retardados mentais, não obstante a crueldade com que reprimiam seu povo, e não foram decapitados, mas fuzilados.

Hoje, os poucos príncipes destronados são meros adornos de festas milionárias. Ninguém se preocupou, nem se preocupa mais, em cortar as cabeças coroadas, porque elas não valem muita coisa, a não ser a despesa que os povos pagam, para que encabecem a lista das celebridades inúteis.

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OS ESCÂNDALOS REAIS

Os escândalos da família real espanhola, que estão na ordem do dia, fermentam novamente a reivindicação republicana na península, oitenta e um anos depois da abdicação de Afonso XIII. O retorno da monarquia foi útil ao processo de normalização espanhola, depois da morte de Franco. Todas as forças políticas aceitaram a fórmula, a fim de evitar nova guerra civil. Cumprido esse papel positivo, a instituição começa a ser um estorvo. O rei, neto de Alfonso XIII, nunca aceitou, em sua alma, o regime democrático e, em fevereiro de 1981, segundo indícios fortes, esteve à frente da conspiração militar contra o governo democrático, que levou à invasão do parlamento pelo tenente-coronel Antonio Tejero Molina. O monarca só interveio, com visível contragosto, pela televisão, depois que a reação dos militares democráticos, no interior dos quartéis, e o pronunciamento dos governos vizinhos inviabilizaram o golpe.

Agora, os escândalos reais se sucedem. Enquanto o governo conservador de Mariano Rajoy corta o orçamento social e a Espanha se submete aos ditados da Alemanha, com o povo em desespero protestando nas ruas, revela-se que as despesas da Casa Real chegam a quase seiscentos milhões de euros, incluídos os gastos com as viagens, a manutenção dos numerosos palácios, a segurança da família do soberano pelas forças armadas e outras despesas indiretas.

A insensibilidade do Rei diante do sofrimento do povo que chega, até mesmo, ao escárnio, em certos momentos, como nas caçadas aos elefantes da África e aos ursos da Romênia, vem retirando a credibilidade de seus súditos. Tanto nos meios intelectuais, quanto entre os trabalhadores espanhóis, começa a adensar-se um movimento para o fim do sistema monárquico e a instauração de uma república democrática.

Ontem, a Espanha foi às ruas, em oitenta cidades, para protestar contra a aprovação de medidas de arrocho contra os trabalhadores, entre elas o fim do 13º salário. Em Madri, os bombeiros e os policiais civis, chegaram a solidalizar-se com os manifestantes, e se opuseram a participar da repressão. Um grupo, com seus capacetes postos, desnudou-se. Um cartaz explicava que o governo os deixara “en pelotas”. O clima era o da véspera de grandes acontecimentos.
As nossas relações com a Espanha monárquica devem ser reavaliadas. Com todas as suas dificuldades atuais, as elites espanholas continuam a tratar-nos como se fôssemos colônia de Madri – o que só fomos, e por acidente histórico, entre 1580 e 1640. Em 1580, depois da morte de D. Sebastião, no norte da África, e de seu sucessor, o Cardeal D. Henrique, o trono de Portugal foi ocupado por Felipe II, tio de D. Sebastião. A coroa só foi recuperada para os portugueses, em 1640, pelo Duque de Bragança.

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SUPERIORIDADE DAS ELITES

As grandes virtudes do povo espanhol sempre foram, e continuam a ser, insultadas pela sua anacrônica, cara e ociosa nobreza, por nascimento ou pelo êxito nos negócios. E, ao longo de sua história, talvez a Espanha não tenha tido família real tão insignificante, e tão corrompida como a de agora.

As dificuldades econômicas da Espanha de hoje são o resultado desse espírito de presunçosa superioridade de suas elites. Ao entrar para a Comunidade Econômica Européia, e obter vultosos recursos do grupo, os espanhóis, em lugar de investi-los no interior do país, usaram-nos para adquirir empresas na América Latina, principalmente no Brasil. Era uma nova forma de colonialismo que, apesar do saqueio, manso e “legal” de nossos recursos, principalmente depois da embasbacada regência de Fernando Henrique Cardoso, não serviu ao povo espanhol, embora tenha enriquecido muitos banqueiros.

Agora, o próprio genro do Rei é acusado de agir como criminoso, ao lavar dinheiro mal havido e transferir, só para Luxemburgo, mais de 700 mil euros. Suspeita-se de que muito mais dinheiro não honrado foi remetido para o Exterior. Esse genro, Iñaki Undagarin, recebe mais de um milhão de euros por ano, como conselheiro da Telefónica de Espanha para a América Latina. E na América Latina, quem contribui com mais lucros para a empresa espanhola é exatamente o Brasil.

A nossa postura é de solidariedade para com o povo espanhol. Esse grande povo nada tem a ver com esses señoritos que ainda se imaginam no tempo de Carlos V e de Felipe II. Estar com o povo espanhol é não favorecer aqueles que o oprimem.

Comissão de Valores Mobiliários: uma autarquia federal ou estadual?

Carlos Newton

Alguns acontecimentos recentes da história da autarquia que fiscaliza o mercado financeiro, e que confere ao seu presidente a alcunha de “Xerife” do mercado de capitais brasileiro, justificam a pergunta-título deste modesto artigo, pois como dizia Aristóteles, nada melhor do que a observação dos fatos naturais para se chegar ao conhecimento científico.

Pois bem, a notícia que segue abaixo, veiculada pelo jornalista Lauro Jardim, na Revista Veja desta semana, deixa muito claro que o Ministério da Fazenda e a Presidente Dilma Rousseff ficaram “descontentes”, para dizer-se o mínimo, com a absolvição de Fernando Cavendish, dono da empresa Delta, pelo colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), absolvição esta capitaneada pelo voto do então diretor-relator Otávio Yazbek.

Vai então, aqui, a primeira observação: se a absolvição não agradou ao Ministério da Fazenda, a quem compete nomear os diretores e o Presidente da CVM, a quem agradou? E a resposta vem a cavalo: a Sergio Cabral, compadre e ex-concunhado de Cavendish. A ele, certamente agradou.

Some-se a isso a seguinte situação: depois da pressão feita pelo governador Sergio Cabral junto ao Tribunal Regional Federal, no julgamento de uma multa milionária de 504 milhões de reais, anulada pela sua 7ª Turma Especializada, ficou muito claro que a CVM também deve ter sofrido uma enorme pressão do governador, para caracterizar como “operação fraudulenta” uma operação de mercado onde a própria CVM aplicou mais de meio bilhão de reais em multa sem provar a existência de prejuízo – ou pelo menos quantificá-lo.

Outra pergunta, se faz ainda mais pertinente: a CVM é uma autarquia federal ou estadual, a serviço do governador?

Com a palavra, Aristóteles…

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DEU NA VEJA: “SOB SUSPEITA”

Cavendish: Dilma no pé

Descrição: http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/files/2012/07/cavensish21-300x168.jpg
Cavendish: Dilma está no pé do empresário

Lauro Jardim

Nos últimos tempos, Fernando Cavendish não tem tido sossego com Dilma Rousseff. Depois de declarar a Delta inidônea para novas obras públicas, agora o governo vai tentar anular o resultado de um julgamento da CVM que absolveu Cavendish, acusado de fraude na BM&F, em 2003.

O Ministério da Fazenda vai alegar que Otávio Yazbeck, relator do caso, teria que se declarar impedido de participar do julgamento por já ter assessorado corretoras envolvidas no processo.

 

Redes sociais começam a realmente influir decisivamente na campanha eleitoral

Carlos Newton

Desde o último dia 5 os candidatos estão autorizados pelo Tribunal Superior Eleitoral a fazer campanha na internet. Pela resolução do próprio TSE, podem ser usados sites dos candidatos, do partido ou da coligação com o endereço eletrônico registrado no tribunal. Também está aberta a propaganda nas ferramentas das redes sociais desde que geridas pelo candidato, partido ou coligação. A resolução do TSE impede apenas a veiculação de qualquer propaganda paga nesses portais.

O fato é que os políticos já estão conscientes de que o uso da internet e das redes sociais começa a influir decisivamente nas campanhas eleitorais. O uso de ferramentas da internet, em especial as redes sociais, tem feito parte da rotina dos parlamentares e vai ser um poderoso trunfo nas eleições municipais de outubro.

O senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), membro da Executiva Nacional, recomenda que os candidatos do seu partido usem a internet como um importante instrumento eleitoral. O parlamentar, mesmo sem estar envolvido atualmente na campanha, mantém uma equipe só para divulgar sua atividade política e o manter informado das demandas de seu eleitorado.

“Somando as minhas redes sociais, já tenho mais de 60 mil seguidores. No meu estado, o jornal de maior circulação tem tiragem diária de 18 mil exemplares”, compara Eunício Oliveira, em entrevista à Agência Brasil.

O líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (PT-BA), diz que os candidatos ao cargo de prefeito devem estar atentos às manifestações dos cidadãos na rede. “Ao contrário da TV e do rádio, a internet é uma qualificadora do caminho de volta. Nela, há interatividade imediata entre o eleitor e o candidato”, salienta

O presidente do DEM, José Agripino Maia (RN), também destaca o poder instantâneo da rede mundial de computadores. Para ele, o custo praticamente zero nas campanhas eleitorais na rede é outro ponto positivo. Veterano no uso das mídias sociais, ele ressalta a importância que os comitês das campanhas devem dar à internet, assim como a TV e o rádio, na formação da opinião do eleitorado.

“É uma ferramenta que deve ser usada como um instrumento de comunicação e debate de ideias”, diz Agripino.

Traduzindo: os cabos-eleitorais precisam mostrar serviço, para não perderem os empregos. O avanço da tecnologia é perverso e não perdoa ninguém.

Eu não gosto de política!

Percival Puggina

Inúmeras vezes, incontáveis vezes, tenho ouvido de amigos essa frase, proferida como suma expressão de bom gosto e de elevada sensibilidade moral e estética. É como se estivessem acrescentando: “Prefiro Thomas Morus, prefiro Chopin, prefiro os pintores impressionistas…”

Sistematicamente respondo tal observação com um comentário: “E quem te pediu para gostar?” Gostar ou não gostar de política é absolutamente irrelevante, como irrelevante é gostar ou não gostar de inúmeras coisas indispensáveis à vida cotidiana no mundo em que vivemos. E note-se, muitas delas são tão decisivas para nossa existência que, apreciando ou não, nos empenhamos em fazer bem feito o que nos corresponde.

A política é uma dessas coisas decisivas, realidade irremovível da vida de quem se recuse a viver no mato. E é uma realidade com fortíssimo poder de determinação sobre a qualidade da vida social e econômica, sobre os valores, sobre a dignidade da pessoa humana e sua concretude, sobre o progresso e a civilização.

Boa parte do que podemos relacionar como especificamente individual, e praticamente tudo o que se abriga com o agasalho social, depende da política. Portanto, repito: gostar ou não é uma questão apenas sensorial. Já o desinteressar-se é atitude moralmente irresponsável.

Ninguém dirá que, por não gostar, se afasta, desdenhoso, do trabalho que faz, dos filhos cujas fraldas precisam trocar e dos pais enfermos que precisam ser cuidados. Da mesma forma, estamos irrevogavelmente condicionados por preceitos e realidades determinados pela política. A política é uma das várias dimensões naturais da pessoa humana. Entramos nela pela concepção e não saímos dela nem depois do enterro porque, é pela via política, que nossas disposições testamentárias encontram base legal e vigência.

Formulo então para os leitores uma confidência: eu também não gosto da nossa política. Aliás, estou convencido de que para gostar da política nacional, com a temos hoje, se requer uma absoluta ausência de bom gosto. Quase tudo, nela, causa engulhos aos estômagos mais sensíveis. E é exatamente por isso que ela me interessa, que procuro estudar e conhecer as causas determinantes de seus incontáveis descaminhos e que me dedico a apontar novos rumos institucionais capazes de fazê-la servir como deveria ao bem comum.

Cidadão que me lê. Saiba que você é cidadão porque vive numa sociedade política. Queira ou não queira. Pode fazê-lo de modo mais abrangente, inclusive como participante do jogo eleitoral na condição de dirigente partidário, candidato, detentor de mandato ou cargo político. Mas não escapa de participar, ainda que em forma de inserção menos proativa (para usar uma expressão da moda), como eleitor.

No entanto, ainda que apenas como eleitor, você tem imensa responsabilidade moral em relação ao seu voto e ao interesse que aloca na formação de seu discernimento e de seus critérios de decisão. Se você, como tantos, vota em qualquer um (e qualquer um costuma ser o tipo do sujeito que faz qualquer coisa) ou vota em alguém pensando no seu próprio interesse, não se surpreenda quando aquele em quem votou passar a cuidar do interesse dele mesmo. Tal conduta estará apenas reproduzindo a sua. Ou não?

(Transcrito do blog de Puggina)

Da servidão moderna ao Deus Dinheiro

Eliani Gracez (Zero Hora)

Segundo o documentário “Da servidão moderna”, de Jean-François Brient, que está na internet com um apelo marxista, a escravidão não terminou, apenas mudou sua ideologia. A escravidão moderna é voluntária. O novo escravo escolhe o amo que ele quer servir, e com isso se julga livre.

Estranha modernidade, diz o documentário, uma classe que não quer enxergar a sua servidão, não conhece a rebelião. Não luta mais pela sobrevivência ou por um lugar ao sol, luta por um objeto que lhes dê status social. A aglomeração em que vive e mora o escravo moderno é reflexo da servidão. Semelhante a jaulas e prisões.

O escravo moderno paga por sua jaula, e nela acumula mercadoria, sonhando em ser feliz. A ideologia de massa despoja cada ser de si mesmo. Não é mais a demanda que determina a oferta, mas sim a oferta que determina a demanda. E assim o escravo compra o que lhe é imposto – o modelo novo de celular, o carro com alta tecnologia. O velho computador não serve mais, o escravo moderno precisa de um computador de última geração, mesmo que seja só para acessar o Facebook.

O escravo moderno não está no comando da situação, a situação comanda o escravo. A cada instante surgem novas necessidades para o escravo moderno, e é mais fácil aceitar a demanda imposta pelo mercantilismo do que lutar contra ela. E o que dizer da alimentação do escravo moderno? É quando ele se alimenta que demonstra melhor o estado de sua decadência. Sem tempo para se alimentar melhor, o escravo moderno se obriga a engolir rápido o que a indústria agropecuária produz. Consome o que a indústria da falsa abundância lhe permite consumir.

A falsa ilusão da abundância de escolha pelos alimentos disfarça a degradação dos conservantes e corantes, dos pesticidas e hormônios. Irmãos menores, parafraseando São Francisco, são mortos cruelmente para servir de alimento. Mas o escravo moderno não se importa com isso. A regra do consumo é o prazer imediato. Como resultado deste prazer, o escravo está se tornando obeso.

A produção de energia, de alimento e de lixo está acabando com o planeta. As mudanças em termos de cuidados para com a natureza planetária são superficiais. E tudo continua como era antes. Para o escravo moderno não se rebelar contra o sistema consumista, houve uma inversão de valor.

No passado, o trabalho era para quem não tivesse nobreza. Hoje, o trabalho enobrece o homem. Com esse pensamento o escravo alienou-se mais ainda. Com tanto trabalho, passam a vida a produzir aquilo que somente alguns terão direito de usufruir. Triste servidão! Obedecer, produzir e consumir, eis a regra. O escravo moderno obedece aos pais, obedece aos professores, obedece ao patrão. “De tanto obedecer, adquire reflexos de submissão”.

Da obediência surge o medo de aventurar-se, medo de arriscar-se. O escravo moderno não sabe viver sem o poder que o criou, por isso ele continua a obedecer. O poder que governa o mundo tem o consentimento do escravo moderno, ele está disposto a pagar o preço por todo esse consumismo.

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O DEUS DINHEIRO

O escravo moderno também precisa de um Deus, por isso entrega sua alma ao deus do dinheiro. Em nome desse novo deus, o escravo moderno estuda, trabalha, luta e serve fielmente. Em nenhum outro tempo alguém serviu tanto a um Deus como nos dias de hoje. O escravo moderno entende que o novo deus o libertará. Como se o dinheiro andasse de mãos dadas com a liberdade.

O novo deus ninguém ousa recriminar. E assim a forma de poder forma escravos para o novo deus desde a infância. Crianças aprendem pela televisão que é possível usar daquilo que é mais baixo para vender qualquer coisa. Vender é tudo o que importa ao sistema consumista. O consumismo está acabando com o planeta.

Como dizia Rubem Braga, a poesia é necessária

Hoje, vamos publicar mais uma poesia da prata da casa. Os emocionantes versos são de Batista Filho, um dos comentaristas mais assíduos do Blog da Tribuna.

LAÇOS

Batista Filho

quando, por vezes
esqueço do próprio nome
tomas minha mão delicadamente
e dizes de segredos que são meus, que são nossos

nessas horas nem sei se creio
mas há tanta ternura e solicitude na tua voz
que não quero te magoar com a minha descrença
e por esse querer-bem a nós, mesmo sem lembrar quem sou
ou quem és, deixo que me conduzas por caminhos, que dizes, um dia te conduzi

e assim, (re)descubro o êxtase de ver o claro/escuro do dia e da noite
(re)descubro nos recantos da tua/minha memória, pedaços d’uma história
que vem das brumas d’outro tempo/lugar, que determinar não sei, mas pressinto
e se não há total entendimento do que (não) vejo e sinto
antes e mais que qualquer coisa, percebo

te percebo, desde quando?!…

… não sei, mas sinto tanta
ternura e solicitude na tua voz
quando tomas minha mão, delicadamente
e dizes de segredos que são meus, que são nossos
que deixo que me conduzas por caminhos
segundo dizes
um dia te conduzi

Ditadura militar: corrupta e corruptora

Batista Filho

Maluf foi “gestado” e “criado” durante a ditadura militar. Corrupta e corruptora, a ditadura militar também “gestou” e “criou” uma série de outros monstrengos que até hoje assombram o país: além de Maluf, o clã Sarney, o clã Magalhães, o clã Eliezer/Eike Batista, Delfim Neto… bem como as famílias donas dos grandes meios de comunicação de Pindorama.

Para minha surpresa, muitas pessoas que se acham de “visão” se recusam a enxergar que nada nem ninguém corrompeu e atrasou este país como os milicos golpistas, que até hoje tem uma cacetada de lambe-botas!

A “zorra” é que quem sucedeu as antas golpistas, sequer procurou combater essas roubalheiras seculares, seja por serem filhotes da ditadura (Sarney, Delfim Neto, clã Eliezer/Eike Batista, organizações Marinho…), seja, no mínimo, por serem coniventes com as falcatruas que continuam a prosperar em Pindorama (Lula, Zé Dirceu…).

Agora, achar que a corrupção nasceu há pouco mais de dez anos, cá pra nós: é de uma clareza igual as águas do Tietê, no centro de São Paulo!

Volto a afirmar o que comentei d’outra vez: os milicos golpistas estupraram a incipiente democracia tupiniquim! Um estupro pode durar alguns minutos, “apenas”. Quanto as sequelas advindas dessa violência, permanecem indeléveis – e não somente para a vítima direta! – familiares, pessoas da convivência sofrerão todo o mal proveniente de tal violência.

Com o passar do tempo, com terapia e Amor, muito Amor e paciência, o trauma pode ser atenuado. N’alguns casos é realmente superado: a(s) vítima(s) consegue(m) tocar sua(s) vida(s), mesmo carregando em si as marcas da brutalidade impingida. Isso em condições ideais… Mas, tem sempre um “mas”, não é mesmo? – quantas pessoas têm condições de pagar terapia por anos a fio? Quantas pessoas, em situações análogas, têm familiares e amigos que permaneçam ali, à disposição para ajudar, amparar, com Amor e paciência?

Esses 21 anos de Ditadura têm a mesma significação de estupros, múltiplos e continuados. A cultura que nos foi legada: autoritarismo, deseducação, desinformação, corrupção… infelizmente ainda continuará, quase onipresente, por várias gerações. Os (sobre)viventes, nós, que de uma forma ou outra convivemos com esse período de “apenas” 21 anos, não passamos incólumes por essa política de Estado de autoritarismo, deseducação, desinformação, corrupção… por mais que nos julguemos com consciência plena do nosso livre arbítrio.

Desde o período da “redemocratização”, com Sarney, fiel vassalo da Ditadura, tragicômico, não? – passando por Collor, Itamar, FHC, Lula e agora Dilma – todos os governos, sem nenhuma exceção! – ficaram muito aquém do desejável, do necessário a se fazer, não só em prol da Educação, como também da Saúde, da infraestrutura básica, do combate a corrupção… necessárias para o desenvolvimento harmônico de nosso país.

Em tempo: Maluf não foi preso ainda, dentre outros motivos, porque a cultura que continua imperando em Pindorama é a que foi “cevada” pelos milicos golpistas.

Governo do Brasil desperta e decide pôr fim ao sonho da ONU, que pretendia transformar as áreas indígenas em nações independentes

Carlos Newton

Merece aplausos entusiásticos a portaria baixada pela Advocacia-Geral da União (AGU) sobre áreas indígenas, três anos depois do julgamento do Supremo Tribunal Federal que homologou a demarcação em área contínua da reserva Raposa Serra do Sol. A nova portaria reafirma e coloca em vigor as 19 normas definidas pelo Supremo na época do julgamento, para demarcação e direito de uso de terras indígenas.

Além disso, a portaria confirma o entendimento do Supremo de que os direitos dos índios sobre as terras não podem ser sobrepostos aos interesses da política de defesa nacional. Portanto, fica garantido o livre acesso dos militares às reservas e a instalação de bases, unidades e postos militares nessas áreas indígenas.

A expansão de malha viária, a exploração de alternativas de geração de energia e de “riquezas de cunho estratégico para o País” também não dependerão de consentimento dos índios que vivem nas reservas, de acordo com as regras publicadas.

Estão proibidos o arrendamento e a comercialização de qualquer parte de território indígena que possa limitar o pleno exercício do usufruto e da posse direta pelas comunidades às quais se destina, assim como estão proibidos também o garimpo, a mineração e o aproveitamento hídrico das terras por parte dos próprios índios.

As tribos também não podem cobrar qualquer taxa extra ou fazer exigências para utilização de estradas, linhas de transmissão e outros equipamentos de serviço público que estejam dentro das áreas demarcadas.

Além disso, está mantida a proibição de ampliar de terras indígenas já demarcadas e fica também garantida a participação de Estados e municípios em todas as etapas do processo de demarcação.
Todos esses pontos são considerados polêmicos e vêm sendo criticados por organizações socioambientalistas e de defesa dos direitos dos índios, que temem o acirramento de conflitos agrários.

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APENAS REGULAMENTAÇÃO

Segundo o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, não se trata da criação de novas regras, somente a regulamentação para orientar órgãos da AGU a atuarem conforme o que foi estabelecido pelo Supremo em 2009.

“A portaria é necessária para que exista segurança jurídica desses processos. Estou acatando e não criando normas, apenas apropriando uma jurisprudência que o Supremo entendeu ser geral, para todas as terras indígenas. Não é uma súmula vinculante, mas estabeleceu uma jurisprudência geral”, explicou Adams.

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TRIBOS PERDEM AUTONOMIA

A portaria da Advocacia Geral da União restringe a autonomia dos povos indígenas em seus territórios, um direito que lhes é garantido pela Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas, aprovada pela ONU em 2007 com apoio do Brasil.

Mas o tratado internacional nunca entrou em vigor no Brasil, porque os governos Lula e Dilma até agora não encaminharam o acordo das Nações Unidas para ser referendado pelo Congresso, circunstância obrigatória para que entre em vigor no Brasil. Se o Congresso aprovasse a Declaração da ONU, imediatamente as 206 nações indígenas brasileiras poderiam se declarar independentes, fechando suas fronteiras, instituindo a forma de governo que bem entendessem e até criando sua própria moeda, nos termos do tratado internacional.

Mas agora, com a portaria da Advocacia Geral da ONU, o sonho da ONU fica momentaneamente afastado. Até quando? Ninguém sabe.

Os novos investidores

Carlos Chagas

De quando em quando somos assolados por certos modismos, mesmo milenares, se for possível a contradição. O atual resume-se à obrigatoriedade de mais investimentos, quer dizer, à necessidade que tem a economia de mais recursos para crescer. Dizem, o governo e as elites, que o país precisa de novos investidores. Erra quem supuser estarem se referindo a gente que tem dinheiro sobrando para aplicar em atividades capazes de criar desenvolvimento. Nada a opor à teoria, que vem da Antiguidade, passou pela Idade Média, chegou à Revolução Industrial e anda por aí nesses tempos de crise. Só que não é nada disso aquilo que tramam elites e governos, no fundo a mesma coisa.

Porque existem investimentos e investimentos. Uns, fruto do trabalho, da inteligência e da vontade de criar e de distribuir riqueza para, com ela, enriquecerem os investidores, mas também gerarem mais trabalho, melhores condições de vida e avanço social. Outros investimentos, porém, nascem da ganância e da concentração de renda na mão de falsos investidores que, na realidade, são apenas exploradores, empenhados apenas em aumentar seu patrimônio sem fazer caso de seus efeitos.

Tome-se a crise que deteriora a Europa e começa a chegar até nós. Lá, como cá, têm sido os bancos e os grandes conglomerados financeiros os determinantes da débâcle mundial. Aprimoraram um sistema perverso de investir exclusivamente para aumentar seus próprios lucros e multiplicar seus ganhos, sem se importar com as conseqüências da concentração sempre maior dos resultados em seu próprio bolso. Quase nada distribuíram, claro que manipulando e até gerindo os Estados Nacionais conforme seus interesses. Mas quebraram a cara.

Agora, chegados ao impasse, exigem que, para superá-lo, só com um novo tipo de investimento, no caso retirado daqueles que deveriam ter sido beneficiados mas foram penalizados. É assim que impõem a supressão de direitos sociais, reduções salariais, desemprego e aumento de impostos. Será, para eles, o investimento salvador, às custas da massa de investidores forçados, na realidade assalariados sacrificados. Deverão vir em socorro das elites e dos governos, sob o rótulo de modernidade, livre competição, globalização, neoliberalismo e sucedâneos.

Entre nós chama-se reforma trabalhista, nada mais do que o esbulho de direitos um dia conquistados e agora postos fora em nome dos novos investimentos, através da revisão de prerrogativas que dizem ser anacrônicas. É o que vem por aí. Se não tomarmos cuidado, a massa assalariada será chamada a “investir”. No caso, a sacrificar nossas já precárias condições de vida. Somos os novos investidores…

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GREVE NELES!

Quando a gente erra, ou exagera, custa muito reconhecer o exagero e o erro. Tornam-se necessárias doses monumentais de humildade, geralmente muito longe de nossa capacidade de abandonar a presunção e a empáfia. De vez em quando, porém, um raio de bom-senso e de lucidez consegue atingir-nos.

Nas últimas semanas temos criticado com veemência o surto de greves no serviço público, não porque os servidores mereçam os vencimentos de fome que recebem, mas pelas conseqüências de paralisações capazes de prejudicar ainda mais a combalida economia nacional. Sem falar nas exceções que beneficiam certas categorias ditas de Estado, favorecendo marajás que certamente jamais viram um elefante. Não há que retirar nada do que foi escrito.

No entanto… No entanto, estava oculta nestes escritos a outra face da moeda, que agora é necessário desvendar. Tanto faz se as greves são estimuladas pela CUT e o PT, interessados em criar problemas para a presidente Dilma Rousseff, que até agora não conseguiram enquadrar. Pode ser isso mesmo o que acontece.

O mais importante, porém, no movimento grevista, transcende das seqüelas entre os companheiros e sua suposta líder. Vem das necessidades de cada funcionário público hoje de braços cruzados, a começar pelos professores, categoria das mais humilhadas e ofendidas nessa farsa chamada Brasil.

À exceção de certas e raras camadas privilegiadas do magistério universitário, como aceitar que um professor encarregado de distribuir conhecimento e sabedoria passe fome e sofra necessidades iguais ou piores daquelas que atingem um trabalhador braçal? Como admitir que lhe sejam negados recursos para viver, quanto mais atualizar-se, porque recebe, em média, 50 reais por hora-aula ministrada?

Vale o mesmo para os professores das entidades privadas, impossibilitados de apelar para a greve diante da ameaça de demissão sumária. Os sucessivos governos empenham-se em campanhas educacionais mirabolantes, mas não cuidam do essencial. Que tipo de sociedade estará sendo formada com a miséria dos que devem conduzi-la?

Em certas situações, infelizmente, só a greve. Sendo assim, greve neles!

Jânio de Freitas surpreende ao duvidar da ação de José Dirceu

Pedro do Coutto

Foi sem dúvida surpreendente o artigo de Jânio de Freitas, Folha de São Paulo de domingo, 22, sobre o julgamento do Mensalão no STF, ao levantar dúvida sobre a atuação do ex-ministro José Dirceu no escândalo que explodiu em 2005 e culminou com sua demissão da Casa Civil por decreto do presidente Lula. Dirceu teve também seu mandato parlamentar cassado pela Câmara dos Deputados. Surpreendem o teor e o tema, principalmente em face de os argumentos usados não se encontrarem à altura da importância do articulista no jornalismo brasileiro.

Num dos trechos, o jornalista sustenta faltar comprovação de que o ex-ministro comandava as operações financeiras efetuadas por Delúbio Soares e outros. Afirma não haver evidência de que chefiasse a quadrilha. Jânio de Freitas voltou-se contra o ex-Procurador Geral da República, Antonio Fernando de Souza, que encaminhou a denúncia contra Dirceu e 37 outros acusados ao Supremo Tribunal. Agiu – disse – com virulência emocional. E indaga: po que não teria sido Antonio Palocci o braço do governo?

Não faz sentido a colocação. Simplesmente porque Palocci sequer é citado no Mensalão. Além do mais, a denúncia do ex-Procurador, mantida pelo atual, Roberto Gurgel, foi aceita pelo ministro Joaquim Barbosa, relator do processo. Não é possível que Jânio tenha maior conhecimento da matéria do que o próprio Joaquim Barbosa. Isso de um lado. De outro, o julgamento vai se iniciar na próxima semana e os debates vão elucidas as dúvidas e iluminar as sombras focalizadas pelo jornalista.

A surpresa em torno do artigo inclusive cresce diante da presença de Jânio de Freitas no combate a casos de corrupção, como aqueles que há alguns anos denunciou , na mesma Folha de São Paulo, apontando fraudes enormes em concorrências públicas decididas antes mesmo da abertura das propostas e de seu julgamento. Conquistou dois Prêmios Esso de Reportagem pelas matérias. Um profissional íntegro, penso eu a seu respeito.

Seus trabalhos sempre foram marcados por uma independência e lucidez. No texto de domingo, não contesto sua independência e probidade, mas lamento sua falta de lucidez. Se não foi José Dirceu quem comandou os repasses de recursos, quem foi? Delúbio Soares e Marcos Valério são personagens secundários, integrantes do elenco de apoio. Podem ter executado ordens e até extrapolado como acontece muito na política. Mas não tinha voz de comando, poder original de decisão, não possuia a chave do cofre. Mesma coisa que PC Farias no governo Fernando Collor. Só podia operar por ordem do presidente. Caso contrário seria expulso das salas dos empresários com os quais dialogou.

Ao defender indiretamente José Dirceu, Jânio de Freitas está sendo ingênuo. Termina prejudicando a própria imagem no espelho da opinião pública. O posicionamento que adotou não foi bom para o jornalista. Os fatos que vão emergir do julgamento da Corte Suprema no final da ópera vão deixar Jânio de Freitas mal pela atitude que assumiu. Inclusive o que são provas concretas? Recibos de ilegalidade? Se assim fosse, criminoso financeiro algum poderia ser condenado.

Veja-se, por exemplo, o processo contra o deputado Paulo Maluf na Ilha Jersey. A condenação do mesmo personagem pela Justiça de Nova Iorque. A ponte entre a realidade e as circunstâncias é mais concreta do que se imagina. Há os depoimentos, entre eles o de Roberto Jeferson que, para acusar Dirceu, de forma shaksperiana, acusou a si mesmo. Tornou-se o único réu na história a acusar a si mesmo. Há o caso do publicitário Duda Mendonça que confessou remessa ilegal de divisas e sonegação fiscal. Como o dinheiro foi parar em sua conta num paraíso fiscal? Alguém autorizou. Quem?

Os donos do crime

Sebastião Nery

André, rapagão espadaúdo, gaúcho valente, queria ser piloto. Inscreveu-se no Aeroclube de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Um dia, o instrutor Vaz Vargas reclamou que ele estava atrasado demais. Geralmente, com 10 a 15 horas de vôo, o aluno já “sola”, voa sozinho. André já tinha 40 e nada. Tinha medo de “solar”. Comunicou ao instrutor:

- Amanhã venho “solar”.

Foi. Domingo de manhã, sol morno, minuano soprando. André chegou ao Aeroclube com um blusão de couro americano, todo incrementado, escrito na frente em letras vermelhas: “Ás da Morte”. Levou o pai, a mãe, a noiva. O instrutor deu todos os conselhos e autorizou:

- Decola, sobrevoa e pousa.

André subiu, sobrevoou, veio descendo, mas, na hora de tocar no chão, arremeteu. Uma vez. Duas vezes, três vezes. E nada de descer. O pai, a mãe, a noiva não sabiam o que estava acontecendo, batiam palmas:

- Que beleza! Muito bem!

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O VÔO

André se desesperou. Rodava, vinha lá de cima enfiado, gritava:

- Adeus, meu pai!

E subia. Rodava de novo, metia a cara na pista:

- Adeus, minha mãe!

E arremetia. Entrou em pânico total, passou a fazer o testamento:

- Adeus, minha noiva querida! Os arreios de prata dêem pro mano! A bota de pelica, pro Bráulio!

E abanou o lenço para o instrutor:

- Me lace, professor! Me lace! Não precisou. Desceu.

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MEIRELLES

A economia brasileira está como o gaucho André, de Santa Maria. Descendo cada vez mais e sem nem conseguir aterrissar. Precisa ser laçada, senão vai espatifar-se lá embaixo. Na vida dos povos e dos países, não há crime sem nome do dono. No Brasil, houve um crime com dois donos : Lula e Meirelles. Lula presidente da Republica; Meirelles, do Banco Central.

Quando os bancos americanos chegaram ao extremo da especulação e da roubalheira, e começaram a explodir, o Brasil crescia todo ano a mais de 5%. Meirelles, especulador disfarçado de banqueiro, viu que estava na hora de fazer sua grande jogada : começou a pôr os juros da taxa Selic lá em cima, inviabilizar a industria nacional e derrubar a economia. E os especuladores internacionais desembarcaram no Brasil para faturar.

Criaram uma tese canalha:  o Brasil não pode crescer mais de 3%. Como o avião do gaúcho, a economia ficou desgovernada, passou a descer alem do tolerável e agora chegou a 2%. Onde estão Lula e Meirelles?

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BRASIL

No século 20, o Brasil foi o 2º, ficando o Japão em 1º, entre os países que mais cresceram no mundo. A média do crescimento brasileiro foi de 4,2% ao longo de 100 anos, atestado pelo economista Chico Oliveira, da Universidade de São Paulo. Nas últimas décadas, o Brasil vem tendo redução no seu crescimento, refletindo diretamente na sua participação no PIB (Produto Interno Bruto) mundial.

Em 1980, no governo Figueiredo, 3,9% do PIB mundial era do Brasil. Em 2012, no governo Dilma Rousseff, o nosso PIB fica em 2,9%. A constatação é de estudo do Fundo Monetário Internacional, demonstrando os desafios que rondam a economia brasileira.

André Oppenheimer, especialista em América Latina, diz que “o Brasil é um gigante desorientado”, mostrando que dependemos demais dos preços mundiais das commodities agrícolas e minerais.

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EMERGENTES

No século XX, o café dominou o cenário econômico brasileiro. Na década de 60, quando partiu para a sua industrialização, foi impedido por pressões internacionais que motivaram o brilhante economista baiano-paranaense Helio Duque a escrever o livro “A Guerra do Café Solúvel”. Hoje centenas de fábricas de solúvel estão implantadas nos EUA, Europa e Ásia. O Brasil perdeu a parada, sendo exportador inexpressivo.

Os países emergentes (e nem falamos da India, China, Coréia, África do Sul) projetam taxas altas para 2012. Em 2011, o Brasil cresceu 2,7% e em 2012 não deverá atingir 2%. Argentina, Chile, Peru, Colômbia, México, crescerão entre 4% e 5%. O Brasil disputa a rabeira com Paraguai e Bolivia.