Arquivos por mês: julho 2012

As últimas notícias vindas do Egito não são nada boas

Roberto Nascimento

Horas depois de a Suprema Corte Constitucional do Egito anunciar que o Parlamento continuará dissolvido e que o Poder Legislativo ainda está a cargo dos militares, a Irmandade Muçulmana convocou uma marcha de um milhão de pessoas para apoiar o decreto de domingo do presidente Mohamed Mursi, que restabeleceu a abertura da Câmara.

Há uma queda de braço declarada entre o recém-eleito presidente Mohamed Mursi, representante da Irmandade Muçulmana, e a cúpula militar apoiada pelos juízes da Suprema Corte. O cenário se tornou extremamenete explosivo, visto que a Síria está as portas da guerra civil e ainda há a ameaça da Turquia entrar no conflito para a derrubada do presidente sírio Assad. Uma faísca poderá desencadear uma guerra generalizada envolvendo, Síria, Líbano, Israel, Jordânia, Qatar, Arábia Saudita e até o distante Irã. Todo cuidado ainda deverá ser pouco.

Realmente, a decisão do presidente Mohamed Mursi de reabrir o Parlamento foi uma surpresa interessante. Na verdade trata-se de disputa pelo poder. Lembro que João Goulart em 1961 enfrentou a cúpula militar, que concordou com sua chegada ao poder após a renúncia de Jânio Quadros, desde que fosse no regime parlamentarista. Jango aceitou e seis meses depois lançou um Referendo para o povo decidir: Presidencialismo ou Parlamentarismo?
Venceu o Presidencialismo, lógico.

Então, a partir desse gesto, o presidente Goulart nunca mais teve trégua dos militares até sua queda em 31 de março de 1964. No Egito, penso que haverá repetição do drama brasileiro. Os militares e a Corte Suprema fecharam o Parlamento de maioria muçulmana exatamente para
reduzir o poder do atual presidente sabedores de que iria ganhar as eleições. O sistema tem seus próprios meios de pesquisa, que são infalíveis diferentemente dos Ibopes da vida, que de vez em quando falham.

O decreto presidencial terá consequências políticas, pois os militares são uma força importante no cenário explosivo do Egito. E afinal, depois de mais de 50 anos no poder, os militares não entregarão facilmente ao presidente civil as estruturas governamentais que geram mordomias e negócios interessantes.

Poucos estão se lixando para os interesses da nação egípcia, do seu povo e dos jovens que realmente lideraram a queda de Mubarack. As grandes potências  têm muitos interesses no Canal de Suez, e para a segurança de Israel o acordo de Campi David precisa de continuidade.
Todo cuidado ainda será pouco em relação aos atuais senhores do Egito. Um novo golpe militar será desastroso para a democracia no Oriente Médio e poderá levar aquela nação que foi o berço da civilização, juntamente com o Iraque, para uma guerra civil e o advento do terror para os 60 milhões de habitantes, a maior população entre os países do Oriente Médio.
De que adianta um Trono Manchado de Sangue, a propósito do filme de Akira Kurosawa?

Por que a reforma trabalhista está travada?

Roberto Monteiro Pinho

No Brasil, o empresário que assina a carteira, paga os impostos e garante proteção aos funcionários, também enfrenta concorrentes que trabalham informalmente e têm custos bem menores. Nos Estados Unidos, a porcentagem que o empregador paga de encargos sobre a folha de pagamentos é de 9,03%. Na Dinamarca, 11,6%; no vizinho Uruguai, 48,05% e na Alemanha, 60%. O Brasil é o campeão mundial absoluto em encargos trabalhistas: 102,76%, mais do que o próprio salário.

A invasão de produtos importados de outros países, a exemplo China, Japão e Indochina, desestimula a contratação de mão de obra brasileira, deixando a míngua milhares de pequenas indústrias, que poderiam gerar divisas e melhorar a vida de trabalhadores e seus familiares.

Um desses exemplos é o setor gráfico, já que as editoras que vencem as licitações de livros didáticos do governo geralmente imprimem o conteúdo no exterior por conta do baixo custo. O governo é o maior cliente de livros e deveria exigir que fossem feitos inteiramente aqui, o reflexo é que no ABCD (SP), o setor já teve 900 empresas e 13 mil empregados diretos no início da década de 1990, hoje são 680 empresas e seis mil trabalhadores.

Temos a reforma trabalhista estagnada no Congresso, onde estão reunidas cerca de 11 mil propostas de emendas, projetos, sugestões, pareceres, numa completa metamorfose legislativa sem precedente. Seu novo texto (embora travado) parte de uma proposta de enxugamento defendida pelos conservadores, para outra que amplia para 1,4 mil artigos, sustentados por políticos petistas e aliados aloprados, empresários atrelados ao Bird e ao Banco Mundial, e o sonso sindicalismo cutista, que usa a máquina deste judiciário para manter posições políticas nos estados.

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DILMA DIZ NÃO

Em março de 2012, durante reunião com representantes de seis centrais sindicais, a presidente Dilma Rousseff negou que o governo pretenda mudar a legislação trabalhista, dando como exemplo, permitir o trabalho por hora, proposto por empresários dos setores do comércio e de serviços. “No meu governo não vai ter reforma trabalhista. Nenhum ministro está autorizado a falar sobre isso ou propor qualquer coisa nesse sentido”.

De fato a proposta não agradou, porque permitiria a dispensa dos trabalhadores que recebem salário mensal, para recontratá-los em regime temporário.

O articulista Percival Puggina e a verdade sobre a luta armada

Frederico Mendonça de Oliveira

O articulista Percival Puggina expõe fatos irrespondíveis, envolvendo a turma da luta armada e seu distanciamento da vida nacional, e fala de forma até gentil. Assisti de perto ao trabalho daqueles audazes resistentes, considerando serem eles pessoas tão valentes e tão preparadas que nos faziam sentir apequenados, até parecia que falavam outro idioma. A constatação da completa falta de apoio popular é lapidar: o povo não falava aquele idioma.

O Brasil nunca foi nem nunca será marxista. E muitos dos marxistas poderão ficar embaraçados se souberem o verdadeiro nome do papa/messias da teoria revolucionária que pretendeu – pretendeu mesmo?… – postergar o capitalismo com aquele papo canseira de mais valia (procedente como visão teórica e prática, mas empolada no seu “como”) e outras falas alienígenas. Os fatos comprovam por inteiro as palavras claras e simples do Percival.

Outro dia vi um ex-guerrilheiro falando sobre suas atividades revolucionárias num programa especial de TV. Curiosíssimo o depoimento, porque conheci o cara quando o meio artístico de Rio e São Paulo se mexia querendo alterar as regras ditatoriais que regiam ECAD, CNDA, sindicatos e Ordem dos Músicos. Em momento nenhum, no depoimento do ex-guerrilheiro, apareceu a palavra Brasil ou qualquer conteúdo aproximado de nacionalismo ou patriotismo.

Ele e sua organização lutavam por que objetivo ou ideal? Lutavam pelo País ou por uma ideologia que sonhavam implantar aproveitando a mão grande da ditadura? Qual era o “Brasil” desses caras? Seriam internacionalistas, já então estariam lutando pela globalização política e pela implantação do governo único no planeta?

Teriam, outrossim, Lênin, Trotsky e Stálin cacife para serem admitidos como líderes/ícones do povo brasileiro? Fica até grotesco pensarmos em nossos índios ou nordestinos comuns se referindo à trinca vermelha como sendo coisa saída mesmo de dentro de seus peitos…

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EXECUÇÃO SUMÁRIA

Mais admirável ainda é sabermos hoje de execuções sumárias praticadas dentro das organizações quando algum quadro entrava em suspeição. A que instância “divina” obedeciam os que eliminavam outros membros? Ao manifesto do Partido Comunista ou ao Livro Vermelho de Mao? Por que simplesmente não expulsavam o cara? Por medo de ele dar todo o serviço às forças repressivas? E esse temor os autorizava a eliminar um ser humano, não concedendo a ele qualquer direito de defesa?

Bem, o ex-guerrilheiro alegava tratar-se de uma guerra. Não era: era guerrilha, condenada em todos os sistemas legais e tratados internacionais como sendo atividade criminosa ou coisa que tal.

A partir do depoimento do ex-guerrilheiro, respeitante ao direito que os guerrilheiros se concediam de eliminar sumariamente qualquer quadro que caísse em suspeição, comprovada ou não, a valer essa “legislação”, imagine-se o que decorreria caso, mesmo que sendo algo impensável, essa turma se alçasse ao poder… Sobreviriam massacres exatamente como depois da ascensão dos comunistas na União Soviética e em todo o Leste, sem contar nos países do Oriente, que beleza!

Então, Percival Puggina falou e disse. A turma dessa Pindorama não reconhece aqueles opositores em armas: “Escassos serão os que lhes atribuem qualquer mérito na necessária redemocratização. Com razão dirão que a retardaram. Não os reconhecem como democratas.”

O brasileiro comum, fadado ao fracasso histórico, condenado às filosofices do louro josé e ao besteirol televisivo casado no civil e no religioso com a plutocracia e a corrupção, prossegue torcendo o nariz ao sentir a inhaca da fala marxista. Por sinal, extinta e de nada saudosa memória, graças ao nosso bom Deus.

A toga corporativa e medíocre impede transparência nos salários pagos pelo povo

Roberto Monteiro Pinho

A toga vetusta, corporativa e medíocre concedeu liminar para suspender a publicação dos vencimentos dos servidores.  Em suma, mandou a lei da Transparência para a “lata do lixo”. Este é o retrato do Poder que a sociedade brasileira utiliza para resolver suas pendengas judiciais.

Para eles, entre eles tudo vale, mas para o povo, e´esperar, decisões são medíocres, e ainda debocham dos advogados e das partes em audiências. Se isso não é um caso perdido, minha vovozinha andava de bicicleta. Confira a notícia, nua e crua:

A União está proibida de divulgar os rendimentos individualizados de todos os servidores Federais dos três Poderes. A decisão liminar foi proferida pelo juiz Federal Francisco Neves, da 22ª vara do DF, acolhendo pedido da CSPB – Confederação dos Servidores Públicos do Brasil.

A Confederação alegou que considera que a medida em foco desprestigia os princípios da preservação da privacidade e da segurança, que constituem exceção ao princípio da publicidade.

Para o magistrado, decreto 7.724/12 , que regulamentou a lei 12.527/11 (lei de acesso à informação), não encontra correspondência na norma. Segundo ele, o decreto, “em nenhum de seus comandos”, determinou fossem divulgados à sociedade, à guisa de transparência, dados referentes à remuneração dos agentes públicos.

Neves irá analisar o que será feito em relação aos dados já divulgados somente depois de ouvir a União.

Cabral está deprimido, porque voltou a ser alvo da CPI, junto com a Delta de seu ex-concunhado Cavendish

Carlos Newton

O governador Sergio Cabral pensou (?) que havia se livrado da CPI do Cachoeira, ao ser dispensado de prestar depoimento, façanha que conquistou pedindo desesperadamente o apoio do PT de Candido Vaccarezza (“nós é teu”), do PMDB de Michel Temer, do PSDB de Aécio Neves e do PP de FranciscoDornelles (no caso, a ajuda desses dois senadores foram movidos por laços de família, pois são parentes próximos da primeira mulher de Cabral, Luciana Neves).

Mas de repente, o jogo virou e Cabral voltou ao centro das atenções da CPI do Cachoeira, devido às suas relações intimas e promíscuas com o empreiteiro Fernando Cavendish, de quem foi concunhado durante algum tempo, antes do acidente de helicóptero na Bahia, quando morreu a então namorada de Cabral, Fernanda Kfouri.

A reviravolta na CPI foi confirmada pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), em entrevista ao programa “Poder e Política – Entrevista”, conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues, da Folha. O parlamentar revelou que os dados do sigilo fiscal da empreiteira Delta de 2009 e 2012 comprovam a relevância do Rio de Janeiro no “esquema” de Carlos Cachoeira. Disse, ainda,  que já era conhecida a proeminência do Rio na relação com a empresa, mas há agora um detalhamento maior na declaração de Imposto de Renda.

Em 2009 e 2010, a empreiteira Delta declarou um faturamento total de R$ 3,2 bilhões. O governo federal é o maior pagador, com R$ 1,6 bilhão. Em seguida vêm os pagamentos do governo do Estado do Rio e de prefeituras fluminenses: R$ 715 milhões.

Em entrevista à Folha e ao UOL, Randolfe Rodrigues disse que os dados reforçam a necessidade de a CPI do Cachoeira ampliar o foco de suas investigações. Por causa disso, Cabral não consegue dormir há vários dias. Tem motivos para estar tão apreensivo e deprimido. Desta vez, Aécio e Dornelles lhe negarão apoio.

USA: Um recorde raro e cruel (segundo Jimmy Carter)

Jimmy Carter (Prêmio Nobel, 39º presidente dos EUA)

Revelações de que altos funcionários do governo dos EUA decidem quem será assassinado em países distantes, inclusive cidadãos norte-americanos, são a prova apenas mais recente, e muito perturbadora, de como se ampliou a lista das violações de direitos humanos cometidas pelos EUA.

Esse desenvolvimento começou depois dos ataques terroristas de 11/9/2001; e tem sido autorizado, em escala crescente, por atos do executivo e do legislativo norte-americanos, dos dois partidos, sem que se ouça protesto popular. Resultado disso, os EUA já não podem falar, com autoridade moral, sobre esses temas cruciais.

Por mais que os EUA tenham cometido erros no passado, o crescente abuso contra direitos humanos na última década é dramaticamente diferente de tudo que algum dia se viu nos EUA. Sob liderança dos EUA, a Declaração Universal dos Direitos do Homem foi adotada em 1948, como “fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo”.

Foi compromisso claro e firme, com a ideia de que o poder não mais serviria para acobertar a opressão ou a agressão a seres humanos. Aquele compromisso fixava direitos iguais para todos, à vida, à liberdade, à segurança pessoal, igual proteção legal e liberdade para todos, com o fim da tortura, da detenção arbitrária e do exílio forçado.

Aquela Declaração tem sido invocada por ativistas dos direitos humanos e da comunidade internacional, para trocar, em todo o mundo, ditaduras por governos democráticos, e para promover o império da lei nos assuntos domésticos e globais. É gravemente preocupante que, em vez de fortalecer esses princípios, as políticas de contraterrorismo dos EUA vivam hoje de claramente violar, pelo menos, 10 dos 30 artigos daquela Declaração, inclusive a proibição de qualquer prática de “castigo cruel, desumano ou tratamento degradante.”

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PODER MAL DELIMITADO

Legislação recente legalizou o direito do presidente dos EUA, para manter pessoas sob detenção sem fim, no caso de haver suspeita de ligação com organizações terroristas ou “forças associadas” fora do território dos EUA – um poder mal delimitado que pode facilmente ser usado para finalidades autoritárias, sem qualquer possibilidade de fiscalização pelas cortes de justiça ou pelo Congresso (a aplicação da lei está hoje bloqueada, suspensa por sentença de um(a) juiz(a) federal).

Essa lei agride o direito à livre manifestação e o direito à presunção de inocência, sempre que não houver crime e criminoso determinados por sentença judicial – mais dois direitos protegidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, aí pisoteados pelos EUA.

Além de cidadãos dos EUA assassinados em terra estrangeira ou tornados alvos de detenção sem prazo e sem acusação clara, leis mais recentes suspenderam as restrições da Foreign Intelligence Surveillance Act, de 1978, para admitir violação sem precedentes de direitos de privacidade, legalizando a prática de gravações clandestinas e de invasão das comunicações eletrônicas dos cidadãos, sem mandato. Outras leis autorizam a prender indivíduos pela aparência, modo de trajar, locais de culto e grupos de convivência social.

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REGRA CRIMINOSA

Além da regra arbitrária e criminosa, segundo a qual qualquer pessoa assassinada por aviões-robôs comandados à distância (drones) por pilotos do exército dos EUA é automaticamente declarada inimigo terrorista, os EUA já consideram normais e inevitáveis também as mortes que ocorram ‘em torno’ do ‘alvo’, mulheres e crianças inocentes, em muitos casos.

Depois de mais de 30 ataques aéreos contra residências de civis, esse ano, no Afeganistão, o presidente Hamid Karzai exigiu o fim desse tipo de ataque. Mas os ataques prosseguem em áreas do Paquistão, da Somália e do Iêmen, que sequer são zonas oficiais de guerra. Os EUA nem sabem dizer quantas centenas de civis inocentes foram assassinados nesses ataques – todos eles aprovados e autorizados pelas mais altas autoridades do governo federal em Washington. Todos esses crimes seriam impensáveis há apenas alguns anos.

Essas políticas têm efeito evidente e grave sobre a política exterior dos EUA. Altos funcionários da inteligência e oficiais militares, além de defensores dos direitos das vítimas nas áreas alvos, afirmam que a violenta escalada no uso dos drones como armas de guerra está empurrando famílias inteiras na direção das organizações terroristas; enfurece a população civil contra os EUA e os norte-americanos; e autoriza governos antidemocráticos, em todo o mundo, a usar os EUA como exemplo de nação violenta e agressora.

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GUANTANAMO

Simultaneamente, vivem hoje 169 prisioneiros na prisão norte-americana de Guantánamo, em Cuba. Metade desses prisioneiros já foram considerados livres de qualquer suspeita e poderiam deixar a prisão. Mas nada autoriza a esperar que consigam sair vivos de lá. Autoridades do governo dos EUA revelaram que, para arrancar confissões de suspeitos, vários prisioneiros foram torturados por torturadores a serviço do governo dos EUA, submetidos a simulação de afogamento mais de 100 vezes; ou intimidados sob a mira de armas semiautomáticas, furadeiras elétricas e ameaças (quando não muito mais do que apenas ameaças) de violação sexual de esposas, mães e filhas.

Espantosamente, nenhuma dessas violências podem ser usadas pela defesa dos acusados, porque o governo dos EUA alega que são práticas autorizadas por alguma espécie de ‘lei secreta’ indispensável para preservar alguma “segurança nacional”. Muitos desses prisioneiros – mantidos em Guantánamo como, noutros tempos, outros inocentes também foram mantidos em campos de concentração de prisioneiros na Europa – não têm qualquer esperança de algum dia receberem julgamento justo nem, sequer, de virem a saber de que crimes são acusados.

Em tempos nos quais o mundo é varrido por revoluções e levantes populares, os EUA deveriam estar lutando para fortalecer, não para enfraquecer cada dia mais, os direitos que a lei existe para garantir a homens e mulheres e todos os princípios da justiça listados na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Em vez de garantir um mundo mais seguro, a repetida violação de direitos humanos, pelo governo dos EUA e seus agentes em todo o mundo, só faz afastar dos EUA seus aliados tradicionais; e une, contra os EUA, inimigos históricos.

Como cidadãos norte-americanos preocupados, temos de convencer Washington a mudar de curso, para recuperar a liderança moral que nos orgulhamos de ter, no campo dos direitos humanos. Os EUA não foram o que foram por terem ajudado a apagar as leis que preservam direitos humanos essenciais. Fomos o que fomos, porque, então, andávamos na direção exatamente oposta à que hoje trilhamos.

(Artigo enviado por Sergio Caldieri * Tradução: Vila Vudu)

Uma homenagem a Vinicius, porque a poesia é necessária

A poesia é necessária, dizia Rubem Braga. O grande poetinha Vinícius de Moraes faleceu no dia 9 de julho de 1980 e, ao ouvir a notícia de seu falecimento, através da extinta Rádio Jornal do Brasil 940 Am, o também poeta Paulo Peres (blog Poemas e Canções) misturou o presente (primeiras estrofes) e o futuro (última estrofe) para escrever o poema abaixo.

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SUA BÊNÇÃO

Paulo Peres

Acima da hipocrisia
A poesia
Acima da guerra e da fome
A canção
Acima do desencontro
O perdão
Unidade ativa: homem-mulher

Místico e erótico
Intelecto e “vagabundo”
Um copo, um cigarro,
A poesia chega ao céu
Chega carregando espaços
Da Lapa, de Ipanema, de Ihéus
Mas chega levando festa,
Levando uma saudade
“Moraesmente” carioca

Sentimos teus versos
Em cada “chopinho”,
Tua presença
Em cada noite vadia,
Pois estás acima da morte;
Posto que acima do acima
Estás Eterno
Não mais acima,
Mas ao lado de Deus
Sua Bênção,
Vinicius de Moraes!

Para tentar diminuir as saudades de Helio Fernandes, um artigo maravilhoso

O comentarista Carlos Cazé nos mandou um artigo de Helio Fernandes, publicado há alguns anos na Tribuna da Imprensa quando ainda circulava como jornal. A também comentarista Viviane Ramos logo se ofereceu para digitar o importante texto, cuja primeira parte postamos agora, concluindo a segunda parte amanhã.

Algumas pessoas citadas já passaram desta para melhor, mas isso nao diminui a importância do artigo, que ajuda também a gente a matar um pouco as saudades de Helio Fernandes, enquanto continua torcendo para ele se animar e voltar logo a escrever.

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ELITES PODRES VENDEM O BRASIL

Helio Fernandes

O Brasil é um dos países mais ricos do mundo, em termos de recursos minerais, terras férteis e clima favorável para a agricultura. No entanto, nosso imenso e generoso país abriga a maior concentração de pobres do Ocidente. Como explicar este enigma?

Será que os brasileiros são inferiores a outros povos, menos favorecidos pela natureza, porém muito mais ricos? Ou será que a explicação reside nas chamadas “elites empresariais” brasileiras, estas sim inferiores, por serem preguiçosas, corruptas e traidoras? Como funciona a transferência de nossas riquezas para povos que já são ricos, num processo que só faz empobrecer contínua e progressivamente o povo brasileiro?

Será que as “elites empresariais e políticas”, que detêm o poder, têm legitimidade para decidir coisas importantes, em nome da massa de miseráveis que forma a esmagadora maioria da população? Será que essas “elites empresariais e políticas” não seriam melhor chamadas de elites podres (Roberto Marinho, Olavo Setúbal, Adolf Bloch, José Eduardo Andrade Vieira, Carlos Eduardo não-sei-de-que e Mário Amato da CNI e da FIESP)?

Além de gente como Langoni; Galvêas; Citsimonsen; Delfim Neto; Calmon de Sá (o ex-presidente do Banco do Brasil que passou um cheque sem fundos, e foi “promovido” a ministro da Indústria), e outros pigmeus, que no exercício de altas funções públicas, traem os interesses da coletividade, em benefício das “elites podres”, que lhes pagam propinas diretas e indiretas.

Ou em benefício próprio, para acumular patrimônios que nunca acumulariam como empresários privados, como Pratini de Morais, ACM, Eliezer Batista, Roberto Matogrosso Campos, Marcílio Marques Moreira da Silva, Maílson Simbrega da Nóbrega, etc. Para não falar nos eternos “advogados-hienas”.

Nem nos “empresários-abutres” (como Márcio Fortes, Ronaldo César Coelho, Rubem Medina, Ivan “Capone” Botelho, Roberto “BNDES” Lima Neto, Sérgio Quintella e muitos outros), que estão sempre arquitetando “jogadas geniais” para transferir patrimônio público para ”investidores” corruptos, que nunca investem seu próprio dinheiro em nenhuma atividade produtiva e útil para a sociedade.

As respostas para o enigma da miséria brasileira são conhecidas. Foram minuciosamente estudadas há muitos anos, por intelectuais que honram a inteligência brasileira. E que, na verdade, constituem nossas verdadeiras elites. São homens como Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Júnior, Antônio Cândido, Carlos Guilherme Motta, Bóris Fausto, Celso Furtado etc. E mais recentemente, Alfredo Bosi, Jurandir Freire Costa e tantos outros. São as elites boas.

É claro que sempre há os oportunistas e aproveitadores, que cortejam e penetram nas elites esclarecidas, movidos pela vaidade e ambição do poder. Uma vez atingido o poder e as honrarias do cerimonial, os aproveitadores transferem-se de bom grado para as “elites podres”, pois é aí que está sua vocação.

E passam a trair covardemente os ideais de justiça social que fingiam professar, como artifício para chegar ao poder. Transformam-se da noite para o dia em serviçais do patronato e dos testas-de-ferro locais. E o que é pior: dos grandes grupos e bancos estrangeiros, que há décadas espoliam as riquezas do Brasil, deixando o povo cada vez mais miserável.

Amanhã:
EXEMPLO DE TRAIDOR DA PÁTRIA: FHC

Memórias de Mário Garnero sobre a proteção que o general Golbery dava a Lula na ditadura militar

Carlos Newton

O comentarista Sergio Oliveira nos envia trecho do livro “Jogo Duro”, do empresário Mario Garnero, que é frequentemente citado aqui no Blog da Tribuna por Antonio Santos Aquino. Nessa parte de seu livro de memórias, Garnero cita a proteção que no governo Geisel o poderoso general Golbery do Coutto e Silva dava ao então líder sindical Lula , na intenção de criar uma alternativa de esquerda para enfraquecer Leonel Brizola, que na época seria imbatível em eleição presidencial direta.

Golbery, como se sabe, era a eminência parda (ou melhor, verde oliva) da ditadura militar, uma espécie de Rasputin fardado.

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JOGO DURO

Mario Garnero

Eu me vi obrigado, no final do ano passado, a enviar um bilhetinho pessoal a um velho conhecido, dos tempos das jornadas sindicais do ABC…..

…Sentei e escrevi: Lula….achei que tinha suficiente intimidade para chamá-lo assim, embora, no envelope, dirigido ao Congresso Nacional, em Brasília, eu tenha endereçado, solenemente: A Sua Excelência, Luiz Ignácio Lula da Silva. Espero que o portador o tenha reconhecido por trás daquelas barbas.

No bilhete, tentei recordar ao constituinte mais votado de São Paulo duas ou três coisas do passado, que dizem respeito ao mais ativo líder metalúrgico de São Bernardo: ele próprio, o Lula. Não sei como o nobre parlamentar, investido de novas preocupações, anda de memória. Não custa, portanto, lembrar-lhe.

É uma preocupação justificável, pois o grande líder da esquerda brasileira costuma se esquecer, por exemplo, de que esteve recebendo lições de sindicalismo da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, ali por 1972, 1973, como vim a saber lá, um dia. Na universidade americana, até hoje, todos se lembram de um certo Lula com enorme carinho.

Além dos fatos que passarei a narrar, sinto-me no direito de externar minha estranheza quanto à facilidade com que se procedeu a ascensão irresistível de Lula, nos anos 70, época em que outros adversários do governo, às vezes muito mais inofensivos, foram tratados com impiedade. Lula, não – foi em frente, progrediu.

Longe de mim querer acusá-lo de ser o cabo Anselmo do ABC, mesmo porque, ao contrário do que ocorre com o próprio Lula, eu só acuso com as devidas provas. Só me reservo o direito de achar estranho.

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O PRIMEIRO LULA

Lembro-me do primeiro Lula, lá por 1976, sendo apresentado por seu patrão, Paulo Villares, ao Werner Jessen, da Mercedes-Benz, e, de repente, eis que aparece o tal Lula á frente da primeira greve que houve na indústria automobilística durante o regime militar, ele que até então era apenas o amigo do Paulo Villares, seu patrão. Recordo-me de a imprensa cobrir o Lula de elogio, estimulando-o, no momento em que a distensão apenas começava, e de um episódio que é capaz de deixar qualquer um, mesmo os desatentos, com o pé atrás.

Foi em 1978, início do mês de maio. Os metalúrgicos tinham cruzado os braços, a indústria automobilística estava parada e nós, em Brasília, em nome da Anfavea (N. R. – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automores), conversando com o governo sobre o que fazer. Era manhã de domingo e estive com o ministro Mário Henrique Simonsen. Ele estivera com o presidente Geisel, que recomendou moderação: tentar negociar com os grevistas, sem alarido. Imagine: era um passo que nenhum governo militar jamais dera, o da negociação com operários em greve. Geisel devia ter alguma coisa a mais na cabeça. Ele e, tenho certeza, o ministro Golbery.

Simonsen apenas comentou, de passagem, que Geisel tinha recomendado que Lula não falasse naquela noite na televisão, como estava programado. Ele era o convidado do programa “Vox Populi” (N.R. – Era uma espécie de “Roda Viva” da época), que ia ao ar na TV Cultura – o canal semi-oficial do Governo de São Paulo. Seria uma situação melindrosa. “Nem ele, nem ninguém mais que fale em greve”, ordenou Geisel.

Saí de Brasília naquela manhã mesmo, reconfortado pela notícia de que ao governo interessava negociar. Desci no Rio com as malas e me preparei para embarcar naquela noite para uma longa viagem de negócios que começava nos Estados Unidos e terminava no Japão. Saí de Brasília também com a informação de que Lula não ia ar naquela noite.

Mas foi, e, no auge da conflagração grevista, disse o que queria dizer, numa televisão sustentada pelo governo estadual. Fiquei sabendo da surpreendente reviravolta da história num telefonema que dei dos Estados Unidos, no dia seguinte. Senti, ali, o dedo do general Golbery.

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PEÇA SINDICAL

Mais tarde, tive condições de reconstituir melhor o episódio e apurei que Lula só foi ao ar naquele domingo porque no vai-não-vai que precedeu o programa, até uma hora e meia antes do horário, prevaleceu a opinião do Golbery, que achava importante, por alguma razão, que Lula aparecesse no vídeo. O general Dilermando Monteiro, comandante do II Exército, aceitou a argumentação, e o governador Paulo Egydio Martins, instrumentado pelo Planalto, deu o nihil obstat final ao “Vox Populi”.

Lula foi a peça sindical na estratégia de distensão tramada pelo Golbery – o que não sei dizer é se Lula sabia ou não sabia que estava desempenhando esse papel. Só isso pode explicar que, naquele mesmo ano, o governo Geisel tenha cassado o deputado Alencar Furtado, que falou uma ou outra besteira, e uns políticos inofensivos de Santos, e tenha poupado o Lula, que levantava a massa em São Bernardo. É provável que, no ABC, o governo quisesse experimentar, de fato, a distensão. Lula fez a sua parte.

Mais tarde, ele chegou a ser preso, julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enfrentou ameaça de helicópteros do Exército voando rasantes sobre o Estádio de Vila Euclides, mas tenho um outro testemunho pessoal que demonstra tratamento respeitoso, eu diria quase especial, conferido pelo governo Geisel ao Lula – e por governo Geisel eu entendo, particularmente, o general Golbery.

Demóstenes não vai sozinho

Carlos Chagas

A degola do senador Demóstenes Torres, marcada para quarta-feira, traz embutida uma pergunta genérica ao Congresso: “E os outros?”

Os outros, no caso, evitando-se o constrangimento de citações nominais, são deputados e senadores reconhecidamente integrantes de esquemas vinculados a empreiteiras, bancos e grupos econômicos. Podem ser identificados em cada votação na Câmara e no Senado, nos plenários e nas comissões, sempre que se encontram em jogo interesses de corporações diversas. Porque muitos deputados e senadores identificam-se ou fazem parte de grupos empenhados em tirar proveito de ações legislativas e de facilidades na administração pública.

Demóstenes não fez mais do que muitos de seus colegas fazem. Arrebentou-se por haver servido a um contraventor notoriamente conhecido num universo onde os comandantes espertos ficam abrigados, longe dos holofotes da mídia. Como o representante de Goiás, quantos mais dedicam-se às mesmas práticas, muitos até com maior capacidade de influenciar os desvãos do poder?

A cassação do senador será capaz de desencadear um processo de purificação da atividade parlamentar que as urnas, reconhecidamente, não conseguem. A experiência tem demonstrado que nunca vem isolados esses surtos de moralidade. Em especial no tempo em que se alargaram os limites da Polícia Federal e do Ministério Público. Resta aguardar.

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OPORTUNIDADE EM ABERTO

Perdida, propriamente, não está a oportunidade de o Brasil realizar a obra do século, mas que ela anda devagar, quase parando, não se duvida. Fala-se do desvio das águas do rio São Francisco para o extremo Nordeste, empreitada capaz de atrair as atenções do mundo mas hoje meio abandonada.

No tempo dos faraós, o Egito abriu um canal ligando o rio Nilo ao Mar Vermelho, rasgando o deserto. Infelizmente, a areia retomou sua propriedade.

A China da dinastia Ming levou as águas do Yang-Tsé a Pequim em mais de um canal. Os franceses puderam sair de Paris e chegar ao Mediterrâneo pelo mesmo processo. O Panamá e Suez são dois exemplos que deram certo. Por que não conseguiríamos façanha parecida? Não se trata de jogar a responsabilidade inteira nos ombros da presidente Dilma, ainda que a ela caiba mobilizar outra vez o entusiasmo nacional.

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A SEGUNDA METADE

Iniciadas as campanhas eleitorais em julho, em agosto chega a propaganda eleitoral gratuita pelo rádio e a televisão, ocupando setembro. As eleições de outubro, mesmo municipais, fornecerão novas cores partidárias, ainda que se ignore quais. Novembro e dezembro, assim, será tempo de meditação a respeito da segunda metade do governo Dilma. Apesar das sucessivas mudanças no ministério, verificadas nos primeiros dois anos, imagina-se que a presidente promova a reforma ampla que não conseguiu realizar. Os partidos devem esforçar-se agora, se querem colher depois.

As vaias das ruas são o clamor por esperanças perdidas

Pedro do Coutto

Leio na Folha de São Paulo matéria da sucursal de Salvador, revelando que, na véspera do dois de julho, data da Bahia, durante as comemorações, o governador Jacques Wagner foi vaiado pela população, especialmente pelos professores que se encontram em greve. Claro que em função de reajuste salarial negado. Mas não é esta a questão dominante que marca manifestações populares contrárias aos governantes.

O salário é fundamental, sem dúvida, porém não constitui o único fator que motiva o povo nas ruas, levando-o a ponto de vaiar. Para que a vaia ocorra, sobretudo com intensidade, é necessário que, antes dela, tenham surgido fatos que acumulam insatisfações. Não acontecem por acaso, tampouco em face de reações setoriais e isoladas de um contexto. Os apupos – palavra antiga, quase em desuso – exigem atmosfera própria que os impulsione. Como tudo na vida. Sem atmosfera própria não se faz política. A rigor, não se realiza nada.

Política é esperança, definiu o presidente Juscelino a mim, numa entrevista para o Correio da Manhã. Guardei a frase forte e sintética na cabeça e, volta e meia, ela me vem ao pensamento. Política só, não. Na existência humana, tudo sempre começa e acaba na esperança. Seja ela qual for. Se ela desaparecer do horizonte, a pulsação diminui. A emoção também. Os presidentes, governadores, prefeitos, enfim os que possuem a caneta do poder devem levar em conta a quase profecia de JK.

Na política brasileira, infelizmente, sobretudo de pouco tempo para cá, o gesto não corresponde à palavra. Nas campanhas, os candidatos prometem muito. Na maioria dos casos realizam pouco. Alguns, então, não fazem nada. Só administram interesses pessoais. Daí a existência de empresários como Fernando Cavendish e Carlos Cachoeira, para citar dois exemplos emblemáticos de como não se deve agir em matéria de parceria público privada.

Mas esta é outra questão. O fato é que o poder necessita ir ao encontro de sua fonte, que está no voto livre do eleitor. O sistema partidário, claro, divide-se em correntes de pensamento e comportamento. Mas tem que existir, para nós, espectadores desse teatro, um mínimo de coerência. Inclusive não adianta querer que o conservadorismo se alie ao reformismo, porque são as forças antípodas de qualquer sociedade. Excetuando momentos de altíssimo risco, como na segunda guerra mundial, a opinião pública reage como lhe é possível à aproximações que interpreta serem forçadas de mais e necessárias de menos.

Outro dia, o intelectual Humberto Braga escreveu ótimo artigo sobre alianças surpreendentes através da história. Citou a firmada entre Roosevelt, Churchill e Stalin contra o nazismo de Hitler. No mesmo período e dentro das mesmas circunstâncias, na Inglaterra, o governo Winston Churchill, primeiro ministro, investiu Clement Atlee, seu adversário do Labour Party, no cargo de ministro do Trabalho. Era um governo de coalizão.

Em outros momentos menores, aproximações causam surpresa, como a que marcou o encontro do ex-presidente Lula com o deputado Paulo Maluf, que deu motivo a um texto satírico excelente de Luis Fernando Veríssimo no Globo. Veríssimo lembrou que Maluf é procurado pela Interpol e, no encontro, reapareceu das sombras.

Lula buscava apoio adicional para Fernando Haddad, quando, creio eu, o seu próprio apoio é mais que suficiente. Pois se Haddad perder, mesmo assim, a culpa não cabe a Lula, é claro. E sim à própria fraqueza do ex-ministro da Educação. O que, em decorrência do equívoco, aconteceu na convenção do PT, no sábado? Vaias surgiram. Lula estava ausente. O episódio se afirma por si.

Os padres e os santos

Sebastião Nery

Em Viana, no Maranhão, o padre era do PSD. A UDN nem podia entrar na Igreja. Na campanha eleitoral, os céus e os santos eram mobilizados para a vitória pessedista. Quando saiu do PSD e entrou para a UDN, em 1958, José Sarney, candidato a deputado federal, veio ao Rio tentar resolver o problema. O secretário do senador Ruy Carneiro, do PSD da Paraiba, era “bispo” da Igreja Brasileira, mandou um “padre” para Viana.

O padre-dois chegou lá, começou a disputar o céu. À falta dos outros, que eram monopólio do PSD, criou dois santos: Nossa Senhora Menina e São Benedito da Barreirinha. E as cerimônias da Igreja Brasileira eram anunciadas com tambor de macumba. Foi um sucesso.

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O MARANHÃO

Nossa Senhora Menina, em sua jovem e colorida imagem, começou a ganhar de Nossa Senhora mãe. E as procissões do mulato São Benedito da Barreirinha batiam longe o fervor das procissões de São Benedito preto.

Apavorado, o PSD conseguiu que a igreja Católica entrasse na justiça contra o “padre” da Igreja Brasileira. Não adiantou. Perdeu em Viana e perdeu no Tribunal, em São Luis. E pela primeira vez a UDN venceu as eleições. Oito anos depois, Sarney governador, fez-se a paz em Viana. Os dois padres foram tirados de lá e chegou um católico meio PSD meio UDN.

Mas até hoje o povo de Viana tem saudade de sua jovem e irisada Nossa Senhora Menina e de seu mulato São Benedito da Barreirinha.

Especialista em arranjar padre falso e falsos santos, Sarney agora arranjou um metade santo metade satanás : “São” Lula. E só para ele reza.

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CURURUPU

Francisca era de Cururupu, terra dos irmãos Frejat e dos irmãos Murilo e Antenor, lá no norte do Maranhão, então um fim de mundo sem estrada e sem luz elétrica, que só conhecia Vitorino e Sarney pelo rádio.

Francisca veio para o Rio, era empregada doméstica na casa de José Edson Sampaio, diretor financeiro da Unimed (previdência privada), de Niterói. José Edson convidou os amigos Aguiar de Paula, Murilo Barbosa Lima e Sérgio Barbosa para assistirem a um jogo Brasil x União Soviética. Uisque, tira-gosto e a alma gelada. Eles torcendo, sofrendo, bebendo, e Francisca, entre a cozinha e a sala, trazendo o gelo e os salgadinhos. Daí a pouco, a União Soviética faz um gol. Na sala, um silêncio de tocaia.

Francisca larga os pratos em cima da mesa, dá um pulo. E volta para a cozinha, comemorando o gol dos russos. José Edson não entendeu:

- Você está maluca, Francisca? Quem fez o gol foi a Rússia contra nós, contra o Brasil. E você ai comemorando? Você é comunista?

- Não sei o que é isso não, dr. José. Mas lá em Cururupu me disseram que a Rússia é um lugar onde não tem fome.

Tantos anos e o Maranhão continua um lugar onde tem fome. Só não há fome para o guloso Sarney. Ele come os governos, os Estados, a Nação.

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SARNEY

A “Folha” de sexta-feira, em matéria de pagina inteira, contou:

1- “A Polícia Federal prendeu José Francisco Neves, ex-presidente da Valec Engenharia, estatal responsável por ferrovias federais e um dos alvos da “faxina” que derrubou ministros do governo no ano passado”.

2.“José Francisco das Neves, o Juquinha, chegou à presidência da Valec (estatal responsável pela construção de ferrovias) indicado pelo comando do PR com a aprovação do presidente do Senado, José Sarney (!), (PMDB-AP).Conversas de Juquinha foram interceptadas pela Operação Faktor, da Polícia Federal, que investigou Fernando Sarney(!), filho do presidente do Senado, mas não chegou a indiciar o ex-presidente da Valec”.

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JUQUINHA

3.“O inquérito apontou que Ulisses Assad, então diretor de engenharia da Valec, foi indicado para o cargo pelo senador José Sarney (!) e atuava na estatal para direcionar (!) licitações na ferrovia Norte-Sul (!). Esse inquérito já mostrava que a empresa Lupama, de dois amigos de Fernando Sarney (!), recebeu subempreitada da Constran no valor de R$ 46,2 milhões no trecho entre Santa Isabel e Uruaçu, em Goias”.

4. –“É neste lote que o Ministério Público encontrou a mão do gato: o superfaturamento de R$ 46,7 milhões. Na sequência dessa investigação, o Ministério Público e a PF apuraram enriquecimento ilícito de Juquinha, fato que levou à sua prisão, da mulher e do filho”. Sarney saiu de banda.