Arquivos por mês: julho 2012

Reflexões sobre como colocar freios no capitalismo

Martim Berto Fuchs

Capitalismo Social é mais uma fase antes de chegarmos às propostas enunciadas como Boas Novas pelo espírito angélico que conhecemos pelo nome de Jesus, quando por aqui esteve de passagem pela última vez.

Dois segmentos trabalham para colocar freios no capitalismo:

1. os tachados de ecochatos, mas que estão conseguindo seus objetivos, quais sejam, despertar na população a consciência de preservação do nosso meio ambiente, da nossa casa, o planetinha Terra – planetinha porque em relação ao Universo não passa de um grão de areia –,

2. os espiritualistas, que na difusão de que real é o mundo espiritual e o nosso aqui, terreno, passageiro, tentam fazer compreender que com a reencarnação a justiça não falha – independente de comprarmos o Supremo – e aí, produzir ao preço que o liberalismo cristão produz, ou, ao preço que o materialismo absolutista produzia na Alemanha Oiental e continua produzindo na China, onde se uniram, não trará recompensa para ninguém. Salvo, se considerarmos como recompensa a miséria ignorada e desconsiderada, e a mortandade em série seja pela fome ou pela morte dos contrários, que é o que se nos apresenta atualmente com os dois sistemas em vigor, capitalismo e comunismo.

As quatro principais religiões são cúmplices no processo. Pela ordem de chegada: judaísmo, materialismo, cristianismo e islamismo, sendo o materialismo ressuscitado pelos cristãos, em função da sua desastrosa atuação no campo social, até hoje.

Não há como separar política da religião, pois são faces da mesma moeda. Uns se permitem matar os viventes de outro país em nome de seu Deus e de suas concepções, e outros matam os viventes do próprio país se estes não aceitarem as concepções do materialismo como dogma de Estado, onde o ser humano não passa de matéria que anda e fala e tem 5 sentidos, mas pensar é proibido. Quais são mais intransigentes nas suas concepções ?

Capitalismo Social vê no processo de produção da livre iniciativa o sistema de melhores resultados materiais, e, no desmonte das Monarquias Absolutistas ainda em vigor, Monarquias Republicanas como as existentes nos países ditos democráticos, ou naqueles onde impera agora o Estado Absolutista em substituição às Monarquias citadas, o primeiro passo rumo a repartição equânime dos resultados obtidos da associação entre capital e trabalho.

Ninguém está proibido de ser rico, desde que não seja às custas da pobreza dos outros. Comprovadamente tem para todos, mas o principal entrave para uma melhor repartição da riqueza produzida reside no fato dela ser recolhida para posterior distribuição pelo Estado e este ser dominado por inúteis e/ou aproveitadores, sejam capitalistas ou comunistas, aristocratas, oligarcas, burgueses ou sindicalistas, cristãos ou não, pois legislam, executam e julgam em causa própria.

Tensão no Egito: novo presidente egípcio anula a dissolução do Parlamento a abre crise com as Forças Armadas e a Justiça

Carlos Newton

Um ato de grande coragem e determinação. O novo presidente egípcio, Mohamed Mursi, baixou decreto em pleno domingo e anulou a decisão da Alta Corte Constitucional que determinou a dissolução da Assembleia do Povo, informou a agência oficial Mena.

“O presidente Mursi emitiu um decreto presidencial anulando a decisão de 15 de junho de 2012 que dissolvia a Assembleia do Povo e convidou a Câmara a reunir-se novamente para exercer suas prerrogativas”, indicou a Mena.

Ninguém sabe as conseqüências do ato do presidente, que abre fortes tensões com o Conselho Supremo das Forças Armadas, que assumiu em junho o poder legislativo graças a uma decisão judicial denunciada como um “golpe institucional”.

Segundo a agência oficial Mena, o Conselho manteve uma “reunião urgente sob a presidência do marechal Husein Tantaui para examinar as medidas presidenciais de domingo”.

O decreto presidencial prevê “a organização de eleições antecipadas para a Câmara, 60 dias depois da aprovação por referendo da nova Constituição do país e a adoção de uma nova lei que regulamenta o Parlamento”, segundo a Mena.

As últimas eleições, realizadas em janeiro, resultaram na vitória dos islamitas, com cerca da metade das cadeiras para a Irmandade Muçulmana, e quase uma quarta parte para os fundamentalistas salafistas. Na falta do Parlamento, o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) assumira o poder legislativo.

O Parlamento egípcio foi dissolvido pela aplicação de uma decisão judicial que o declarou ilegal uma medida questionada pela Irmandade Muçulmana, primeira força política da Assembléia, acirrando a tensão religiosa.

Em sua sentença, a Alta Corte Constitucional invalidou as eleições legislativas que terminaram em janeiro, alegando irregularidade de um dispositivo jurídico na lei que regia as eleições. Neste domingo, o ex-presidente da Alta Corte Constitucional, Faruk Sultan, chamou de “ilegal” o decreto presidencial, aumentando ainda mais a crise. O opositor Ayman Nur pediu que Mursi respeitasse as decisões da Justiça e o deputado de esquerda Abu El Ezz al-Hariri disse que levaria o caso ante a corte administrativa.

O anúncio acontece antes da reunião do conselho da Shura da Irmandade Muçulmana, de onde vem Mursi, e após uma visita a El Cairo do secretário de Estado adjunto norte-americano, William Burns, para entregar uma mensagem do presidente Barack Obama ao novo chefe de Estado egípcio.

No próximo sábado, a secretária de Estado, Hillary Clinton, visitará o Cairo. Uma fonte oficial que pediu anonimato disse neste domingo que Obama se reunirá com Mursi durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York em setembro. Se até lá ele ainda estiver no poder, é claro. Os  EUA sustentam há décadas as Forças Armadas egípcias, e não é preciso dizer mais nada…

O voto do parlamentar: obrigatório e aberto

Cristovam Buarque

Não há democracia plena sem o voto secreto para o eleitor nem com voto secreto para o eleito. Aquele deve ter seu voto protegido, mas estes não devem tê-los escondidos. Ele foi eleito pela escolha do eleitor, que tem o direito de saber como vota quem o representa.

É um contrassenso que um cidadão confie seu voto a um candidato e, depois da eleição, fique sem saber como seu vereador, deputado ou senador vota no Parlamento em assuntos que interessam ao cidadão, à cidade e ao país. O voto secreto no Congresso Nacional é uma excrescência na democracia.

Alguns dizem que o sigilo do voto do parlamentar deve ser protegido de pressões do Poder Executivo. Isso podia se justificar durante o regime autoritário, em que a frágil oposição precisava evitar morte, prisão ou exílio por causa de um voto.

Outro argumento usado a favor do voto secreto é o de proteger o parlamentar quando vota na escolha de embaixador, juiz dos tribunais superiores e alguns outros diretores de agências.
Da mesma maneira que é preciso saber todo voto de cada parlamentar, é preciso fazer o voto do parlamentar também ser obrigatório em todas as votações, como é o voto do eleitor em todas as eleições. O voto escondido por trás do voto das lideranças é vergonhoso e humilhante para o parlamentar.

É preciso acabar com o voto secreto e explicitar a escolha de cada parlamentar, acabando com o voto com o corpo: “quem estiver de acordo, fique como está”, como é tão comum no dia a dia do Parlamento brasileiro.

Além de vergonhoso e humilhante, tem permitido a aprovação de atos e leis sem o conhecimento dos próprios parlamentares, com artigos e parágrafos contrabandeados, por distração ou omissão dos parlamentares presentes, às vezes desconhecendo a pauta de votação naquele dia.

A desculpa de que o voto nominal faria impossível aprovar qualquer coisa, porque os parlamentares nunca estão presentes, é ainda mais vergonhoso e injustificável. Se for preciso, que mudem as regras para obrigar a presença no plenário na hora da votação, como qualquer trabalhador: ou que apresente suas justificativas para a ausência, ou deixe o eleitor saber que estava ausente sem justificativa, mas jamais se escondendo debaixo do voto dito de liderança.

O voto do eleitor na urna é obrigatório e secreto. O voto do eleito deve ser obrigatório e transparente, em cada caso, para que seu eleitor saiba como ele vota e possa se lembrar, na eleição seguinte, se seu candidato votou como ele deseja ou não.

Nenhum eleito deve ficar preso à vontade de seu eleitor, até porque os eleitores têm posições variadas. Deve votar conforme seus compromissos de campanha e de sua consciência em cada caso, mas publicamente.

Ao eleitor, cabe se manifestar nas urnas, secretamente, para reeleger ou não o seu candidato.

Jefferson diz que, pelo que ouviu dos políticos, o julgamento do mensalão será ‘jurídico’

Gustavo Porto e Francisco Carlos de Assis (Ag. Estado)

O presidente nacional do PTB e pivô das denúncias do escândalo de compra de votos de parlamentares, conhecido como mensalão, o ex-deputado federal Roberto Jefferson afirmou à Agência Estado que “está na hora de se julgar o caso e de virar essa página da história”, numa referência ao início do julgamento do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), previsto para começar no dia 2 de agosto.

André Dusek/AE - O presidente do PTB Roberto Jefferson
Roberto Jefferson
(reprodução de foto da AE)

Fumando um charuto no bar de um hotel de luxo na capital paulista, o ex-deputado disse estar sereno com o processo e pediu que os ministros do STF “não se contaminem pelo sentimento político” criado pela aproximação do término do processo na justiça. O presidente do PTB disse que pelo que ouviu dos políticos, o julgamento será jurídico.

Jefferson estava no mesmo hotel onde o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reuniu-se com empresários na tarde de sexta-feira, na capital paulista, mas disse que não conversou com o ministro.

Sobre as eleições de São Paulo, Jefferson comemorou a aliança de seu partido com o PRB, do deputado Celso Russomanno, com a indicação de seu correligionário, o presidente licenciado da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D”Urso. “A aliança é boa, pois criou-se uma alternativa à dicotomia de ou PSDB ou ou PT”, disse. “Chega dessa polarização que afeta o Brasil”, concluiu o deputado, que diz seguir fazendo viagens políticas pelo Brasil.

Que droga é essa?

Jacques Gruman

“Bonnie and Clyde” mexeu com a imaginação antes de estrear, em 1967. Faye Dunaway e Warren Beatty estavam em grande forma, a trilha musical era de um cobra. Só tinha um probleminha: era “proibido para menores de 18 anos”. Angústia das angústias.

O que fazer ? Segui o figurino da época: falsifiquei a caderneta escolar, vesti a melhor calça boca de sino do armário franciscano, não raspei por umas três semanas as penugens ralas que brotavam na pele espinhenta e fui à luta. Na porta do cine Comodoro, na Tijuca, veio a pergunta implacável: “Cadê a carteira de identidade ?”. Quantos da minha geração não tiveram pesadelos com essas palavras … Não tinha o documento, fui barrado. O filme só assisti décadas depois.

Minha carreira de falsificador acabava ali e talvez tenha sido a maior transgressão de um careta assumido. Passei pela geração paz & amor sem fumar um baseado, sem cair de boca na marvada da cachaça. Nunca senti necessidade. Cresci cercado pela ditadura militar, sob censura e medo. Muitos jovens se envolveram na luta contra o arbítrio, tínhamos um objetivo político que nos preenchia, entusiasmava, dava sentido à vida. Não tenho a menor saudade dos milicos, mas tenho me perguntado onde andam e o que fazem os jovens de hoje. Ao menos os de classe média, com os quais tenho mais familiaridade.

Num feriado recente, uma briga entre adolescentes num clube em Campos do Jordão resultou em pelo menos uma internação hospitalar. No local da festa, a polícia encontrou jovens na faixa de 15 anos bebendo em quantidades industriais uísque, cerveja e pinga. O número de bêbados era assustador. Em nosso país, as bebidas alcoólicas são baratas e os menores de 18 anos as conseguem com grande facilidade, muitas vezes com a cumplicidade dos pais.

Nos Estados Unidos, onde o acesso de menores às bebidas alcoólicas é mais difícil, cresce um fenômeno: o consumo de géis para limpar as mãos, que, em muitos casos, chegam a ter mais de 60% de teor alcoólico. Só em Los Angeles 16 adolescentes foram parar em hospitais nesse ano, envenenados pela ingestão desse tipo de produto.

Festinhas, baladas e raves são grande mercado para drogas ilícitas (o álcool é, cinicamente, tolerado). Da insegurança típica da adolescência à absoluta falta de perspectivas na vida amorosa e no mercado de trabalho e ao desencanto com o espaço político, dizimam-se os sonhos e germina o entorpecimento.

###
SUICÍDIOS

A revista norte-americana Lancet revelou um dado assustador: o suicídio já é a primeira causa mundial de morte entre meninas de 15 a 19 anos. No Brasil, o suicídio é a terceira causa de morte entre jovens, ficando atrás de acidentes e homicídios. Pior: esses números estão crescendo. Não simplifico a questão, chutando uma causa única, mas os pesquisadores apontam o abuso de drogas como uma das causas principais. Um psiquiatra da USP disse que o suicídio é uma epidemia silenciosa.

Lembro da chuva de críticas de determinados setores ao filme Tropa de Elite, quase todos rotulando-o como fascista. Polemizei com alguns, discordando. Quando o personagem do BOPE acusa estudantes da PUC, consumidores de maconha, de jogarem os pobres nos braços do tráfico, pensei: bingo! Não há mercado sem oferta … e demanda. O ex-secretário de segurança Hélio Luz dizia que, à noite, Ipanema brilha. Alguém discorda ? Com que dinheiro se compra o armamento pesado que abastece as quadrilhas de traficantes ?

Há novas peças nesse tabuleiro. Problemas mentais ligados à tecnologia são cada vez mais estudados. O psicólogo Larry Rosen listou uma dezena de males psiquiátricos ligados ao uso extensivo de Smartphones. “Narcisismo, depressão e obsessão são os que parecem mais frequentes”, disse. “Mais gente está se tornando mais narcisista, ou está se apresentando para o mundo como se só se importasse consigo própria. Mais gente está ficando obcecada e compelida a checar constantemente o telefone. E há uma pesquisa que mostra que mais pessoas estão ficando mais deprimidas quando não têm coisas maravilhosas para mostrar aos outros no Facebook”.

O maior número de casos é de jovens que sofrem crises de ansiedade por estarem sem sinal na internet, estudantes que perdem a capacidade de concentração e até um programador que começou a desenvolver esquizofrenia por viver isolado, interagindo só via web. Virou quase praxe ver pessoas em bares, restaurantes ou mesmo em bate-papos com celulares na mão, sem força para abandonar a engenhoca por umas poucas horas.

Recentemente, eu estava num evento que começou com a projeção de um filme. Uma jovem mulher, na minha frente, ficou mais de duas horas abrindo e fechando a bolsa, ligando o celular e mandando mensagens de texto. Não estava nem aí para o filme, pelo qual havia comprado ingresso ! Atrás, um homem não parava de receber chamadas. Simplesmente se recusava a desligar o troço. Em tempo: nenhuma delas parecia urgente. Se isso não é doença, eu é que estou doente.

A situação, na área política, é desanimadora. Sinto que minha geração, embora tenha sido ferozmente perseguida por uma ditadura, fracassou ao não conseguir passar adiante o tesão por transformações radicais. Sei que o homem não faz o que quer, limitado que é pelas circunstâncias históricas. A grande crise que está em curso no mundo capitalista traz condições objetivas para mudanças importantes, que, no entanto, não virão sem que se preencham as condições subjetivas, ou seja, a organização política, as referências teóricas, a mobilização de todos os explorados. Onde, nesse momento futuro, estará a juventude ? Revoltada ? Submissa nas filas de desempregados ? Desbundada e afogada em álcool e ecstasy ? Não sei.

Cada qual no seu quadrado

Carla Kreefft (Jornal O Tempo, de BH)

A campanha eleitoral em Belo Horizonte, certamente, será bem movimentada. A reviravolta que aconteceu nos últimos dias, de certa forma, reposicionou os partidos do ponto de vista eleitoral e programático. Não há como negar que PT e PMDB já começam a criar uma identidade, que é resultante da aliança que foi selada durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assim como também não é possível desconhecer que PSDB e PV, em Minas Gerais, são muito próximos.

Na verdade, o que parecia estar acontecendo antes desse novo arranjo era a implementação de um conjunto de iniciativas mais pessoais do que partidárias. O que o deputado estadual Délio Malheiros afirmou quando era pré-candidato, criticando fortemente o prefeito Marcio Lacerda, era muito mais a expressão de uma opinião dele do que do PV. Assim como a proximidade que Leonardo Quintão (deputado federal pelo PMDB) dizia ter com Aécio Neves se referia mais a uma relação interpessoal do que partidária.

Assim, o eleitor de Belo Horizonte terá mais condições de fazer uma leitura do quadro eleitoral com a nova distribuição do que com a anterior. Além disso, o pleito será mais disputado, o que é muito bom para a democracia. Patrus Ananias e Marcio Lacerda são candidatos de densidade política e eleitoral. A capital mineira sai ganhando com a recente distribuição de forças políticas.

Mas ainda há outros fatores que chamam a atenção nessa reviravolta. Um deles é o poder que o ex-governador e senador Aécio Neves exerce sobre os partidos da sua base em Minas Gerais. Ele realmente comanda essas siglas. Por mais que as legendas aliadas neguem, essa influência é notória. E da mesma maneira, é visível a força que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff têm diante de seus aliados.

Os últimos episódios ainda mostram que o vice-presidente Michel Temer está cumprindo o papel que Dilma esperava. Ele pode não ser um braço administrativo, mas é um apoio político importante. Quando foi escolhido para a vaga de vice, o PT dizia que ele era o único capaz de segurar as bases peemedebistas unidas. Isso ele conseguiu em Minas Gerais, esta semana.

Mas para além da análise da situação eleitoral, há um quadro que não pode deixar de ser
mencionado. Quando a campanha começar, a troca de lados que ocorreu na última hora vai alimentar ataques, no mínimo, curiosos. Já dá para imaginar a campanha de Patrus mostrando Délio Malheiros (do PV) criticando Marcio Lacerda e a do socialista evidenciando as falas da presidente Dilma, afirmando que o prefeito é um dos melhores do Brasil. Em resumo, será uma eleição com todos os elementos de uma disputa acirrada.

Obra reúne 47 finais imaginados por Hemingway para o romance ‘Adeus às Armas’

Ernest Hemingway escreveu 47 finais diferentes para aquele que é hoje considerado um dos melhores romances sobre a Primeira Guerra Mundial, “Adeus às Armas” (1929).  A obra de Hemingway vai ser relançada esta semana pela Scribner nos Estados Unidos,  incluindo as versões alternativas do escritor.

Segundo o The New York Times, o novo livro, que chega às livrarias dentro de dias, vai não só incluir todos os finais imaginados por Hemingway, como também rascunhos e anotações de outras passagens do livro. Esta publicação inédita só é possível graças a um acordo entre a editora Scribner (do grupo Simon & Schuster) e os herdeiros do Nobel da Literatura.

Numa entrevista de 1958 ao The Paris Review – apenas dois anos antes de se ter suicidado –, Hemingway contou que até encontrar um final que lhe agradasse, foi escrevendo outras versões alternativas. Até que finalmente encontrou “as palavras certas”, como o próprio escritor explicou, revelando que a história de Frederic Henry, um condutor de ambulâncias que presta serviço na frente italiana durante a guerra, e da sua paixão por uma enfermeira inglesa, é também um pouco a sua história. “Uma semi-autobiografia”, pois Hemingway se alistou no Exército italiano e lutou na guerra.

Para o neto do escritor, Sean Hemingway, a reedição do “Adeus às armas” não é tanto sobre a história mas sim sobre como foi escrita.

“Acho que as pessoas interessadas em escrever vão gostar de ver um grande trabalho e de ter uma ideia de como ele foi feito”, disse ao New York Times Séan, para quem o seu avô foi “ um autor que captou a imaginação do público americano”. “Esta nova edição é interessante porque está realmente focada no seu trabalho”, acrescentou o neto do escritor, que descobriu estas histórias quando estudava a obra do avô em colaboração com a Biblioteca e o Museu Presidencial John F. Kennedy, em Boston, onde está a colecção de Ernest Hemingway, desde 1979.

Meu Fla-Flu inesquecível foi no Maracanã, em 1963. Empate em 0 a 0.

Tostão (Jornal OTempo, de BH)

Hoje, temos Fla-Flu. Ontem, o grande clássico completou 100 anos. Nesta noite, sonhei com o tricolor Nelson Rodrigues, o mais exagerado e genial cronista esportivo brasileiro. Fiz a ele a tradicional pergunta: Quem vai ganhar hoje? Ele respondeu: “Desde ontem, o Fluminense. Só um cego, hereditário e póstumo, não enxerga o óbvio ululante. Faço um apelo aos tricolores, vivos ou mortos, para irem ao Engenhão”.

Assisti a um grande número de Fla-Flus pela TV. No estádio, meu Fla-Flu inesquecível, primeiro e único, foi em 1963. Empate em 0 a 0, na decisão do título carioca. O Flamengo foi campeão. Eu tinha 16 anos e acabado de assinar meu primeiro contrato profissional com o Cruzeiro.

Na sexta-feira à noite, eu e três amigos do bairro, todos menores de idade, pegamos um ônibus na rodoviária de BH para o Rio. Um tio do meu amigo, que morava no Rio, comprou nossos ingressos. Chegamos pela manhã. Ficamos hospedados em uma pensão, uma casa antiga e toda branca, em Copacabana, na avenida Atlântica. Atravessávamos a rua e estávamos na praia. Havia só uma pista para carros. Passamos o dia brincando com a bola na praia. Mais tarde, cansados e famintos, fomos para o restaurante Spaghettilândia, onde comemos uma mega macarronada.

No domingo, jogamos mais futebol, pela manhã, na praia, e pegamos um ônibus lotado para o Maracanã. O tio de meu amigo levaria as malas para a rodoviária.

Lembro mais da festa que do jogo. Ficamos na arquibancada, espremidos, no meio da torcida do Fluminense. Ninguém me conhecia. Éramos todos tricolores, não tão fanáticos para ficar tristes com a perda do título. Marcial, goleiro do Flamengo, médico, mineiro, que, anos depois, encontrei em um hospital de Belo Horizonte, agarrou até pensamento. Foi o maior público pagante da história do Fla-Flu e o segundo maior do Maracanã, com 177.656 pessoas.

Não imaginava que, seis anos depois, jogaria no Maracanã, para o maior público pagante da história do estádio (183.341), pela seleção brasileira, contra o Paraguai, na decisão da vaga para a Copa de 1970.

Do Maracanã, fomos para a rodoviária, ainda a tempo de comer um sanduíche, tomar uma cerveja e pegar o ônibus para Belo Horizonte. Chegamos felizes.

Não foi uma aventura irresponsável de quatro adolescentes. Na época, isso era mais comum. O mundo mudou. Ficou pior e melhor, mais criativo e mais medíocre, mais desenvolvido e mais atrasado, mais triste e mais alegre.

###
CONTRATAÇÕES

Borges, Ceará e Martinuccio são bons reforços para melhorar o elenco do Cruzeiro, mas não acho que vão melhorar o time. Borges tem jogado mal no Santos e está no nível dos outros dois centroavantes (Wellington Paulista e Anselmo Ramon). Ceará é um lateral comum, já veterano, que ficou famoso por marcar bem Ronaldinho na final do Mundial de Clubes entre Inter e Barcelona. É melhor que Diego Renan. Martinuccio era reserva do Fluminense. Foi para o Villarreal, rebaixado para a Segunda Divisão. Jogou bem no Peñarol. Atua como Fabinho e Wallyson.

Já o Atlético, após as contratações de Ronaldinho, do lateral Junior Cesar e do goleiro Victor, ficou muito mais forte. Victor era o goleiro da seleção, caiu de produção e tem voltado a jogar bem.

Imagens de horror e de luta em fotos da ditadura liberadas ao público

Reportagem de Carolina Brígido em O Globo de hoje mostra que o Arquivo Nacional liberou o acesso ao público a cerca de cinco mil fotografias tiradas por agentes da ditadura militar. O acervo era do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) e estava na Agência Brasileira de Informação (Abin) até 2005, quando foi transferido para o Arquivo Nacional.

As imagens só foram divulgadas agora devido à edição da Lei de Acesso à Informação. No acervo, há seis fotos, algumas inéditas, da militante Maria Lúcia Petit da Silva morta, envolta em um paraquedas na mata. Ela atuava na Guerrilha do Araguaia.

Há ainda outras imagens da guerrilha, como a de Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, quando foi preso pelos militares. Ele foi um dos primeiros a chegar ao local, com o intuito de organizar o movimento no Araguaia. Os agentes da ditadura também fotografaram acampamentos militares e tinham um mapa detalhado da região.

A reportagem de Carolina Brígido revela que há fotos de centenas de presos acusados de subversão ao sistema. Muitos deles foram obrigados a posar para as lentes da ditadura em roupas íntimas ou até mesmo totalmente nus. Desses presos, 67 foram fotografados em fevereiro de 1971, momentos antes de serem transferidos para outros países, na condição de exilados. Eles foram trocados pela liberdade do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, que havia sido sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) em dezembro do ano anterior.

No grupo que seria libertado estavam o frei Tito de Alencar e Nancy Mangabeira Unger, irmã do ex-ministro do governo Lula. O frade dominicano foi encontrado morto no exílio na França em 1974, aos 28 anos. Nancy recebeu indenização do governo federal recentemente pelas torturas e perseguições sofridas.

A repórter de O Globo diz que chamam atenção no meio das fotos as imagens de três mulheres acompanhadas de crianças. Segundo o Arquivo Nacional, os filhos foram entregues às mães no momento da partida. Uma das mulheres posa com três filhas — que, segundo a legenda da foto dada pela ditadura militar, tinham 8, 4 e 3 anos. Há também outras imagens com duas mulheres acompanhadas de dois bebês com idades não informadas.

No Arquivo Nacional, também há nove fotos do jornalista Vladimir Herzog morto. Ele foi fotografado nu, de frente e de costas, antes e depois da necrópsia. O pescoço apresenta uma nódoa escura. O jornalista foi achado morto em 1975, pendurado pelo pescoço, em uma cela do DOI-Codi em São Paulo, após uma sessão de tortura. A ditadura alegou suicídio, versão rejeitada por familiares e amigos.

O Arquivo Nacional também pôs à disposição para consulta pública imagens da campanha pela “anistia ampla, geral e irrestrita”, em 1979. À distância, em evento no Rio de Janeiro, foram fotografados o cantor Milton Nascimento, os atores Sérgio Britto, Osmar Prado e Carlos Vereza, e as atrizes Renata Sorrah, Lucélia Santos e Bete Mendes. Existem, ainda, fotos de eventos religiosos com o bispo dom Helder Câmara.

<br />
O jornalista Vladimir Herzog, encontrado morto nas dependências do Exército, em São Paulo<br />
Foto: Divulgação / Agência O Globo

Vladimir Herzog, morto na cadeia (Reprodução de foto da Agência Globo)

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Nenhuma novidade nessas fotos. Tudo isso era mais do que sabido, conforme já destacamos aqui no Blog. Os documentos realmente importantes, que talvez pudessem desvendar o que houve com determinados presos políticos, foram todos destruídos, inviabilizando a Comissão da Verdade.

O grande benefício trazido pela criação desta Comissão da Verdade é reviver os horrores praticados pela ditadura e também pelos militantes da luta armada, como a morte de civis inocentes em atentados e a execução sumária de guerrilheiros suspeitos (?) de colaborarem com os militares.

É sempre importante reviver esses horrores, para que não se repitam mais.

Acorda, Dilma! Eles enlouqueceram!

Carlos Chagas

Em 1968, quando os tanques russos invadiram Praga, pondo fim a um movimento libertário que tomou conta do povo tcheco, a última resistência foi na universidade local. Atacados, antes de render-se, os estudantes escreveram no muro: “Acorda, Lênin! Eles enlouqueceram!”

Recorda-se o episódio porque uns por presunção, outros por cautela, os principais auxiliares econômicos da presidente Dilma evoluem sobre o conteúdo da segunda metade de seu governo. O que fazer, o que mudar, o que conservar?

Aqui mora o perigo, porque dando como certas algumas mudanças, ministros e dirigentes do PT demonstram arrogância e já tentam enquadrar o futuro conforme suas novas tendências e seus atuais compromissos. Começam a ameaçar com mais ajuste fiscal, mais sacrifícios, talvez mais neoliberalismo, depois da temporada de benesses e benefícios promovida no governo Lula.

Chega a ser agressiva a postura adotada pela equipe econômica, esperançosa de continuar e incapaz de perceber chegada a hora de mudar de vez o modelo que nos assola desde os tempos do sociólogo. Pregam tudo o que faz a alegria dos potentados, dos banqueiros e dos especuladores, esquecendo-se da classe média e até se preparando para retirar das massas o alpiste oferecido há pouco como embuste eleitoral. Senão vejamos:

Prevêem, os áulicos de Dilma, que desta vez virá a reforma da Previdência Social. Traduzindo: vão restringir direitos dos aposentados, desvinculando de uma vez por todas do salário mínimo os vencimentos de quem parou de trabalhar. Pensionistas, aposentados do INSS e inativos do serviço público que se virem, porque receberão sempre menos do que os funcionários e trabalhadores em atividade. Quem mandou envelhecer? Ao mesmo tempo, serão descontados como se disputassem novas aposentadorias, sabe-se lá se no céu ou no inferno.

Em paralelo, evidencia-se que os reajustes do salário mínimo vão minguar. Jamais acontecerão nos níveis de anos de eleições presidenciais. No máximo, encostarão na inflação, mas, mesmo assim, na dependência de os juros baixarem. Quer dizer, os responsáveis pelos juros ainda altíssimos são os assalariados e os aposentados, não os especuladores e os banqueiros cujos lucros, em todas essas previsões, só farão crescer.

No capítulo das reformas diabólicas, asseguram que desta vez virá a reforma trabalhista. Para restabelecer direitos surripiados nos oito anos de Fernando Henrique? Nem pensar. Virão para extinguir as poucas prerrogativas sociais que sobraram. Por exemplo: vão acabar com a multa por demissões imotivadas e vão autorizar o parcelamento em doze vezes ao ano do décimo-terceiro salário e das férias remuneradas. Como a cada ano os salários e vencimentos perdem parte de seu poder aquisitivo, em poucos anos as parcelas estarão incorporadas à perda, ou seja, desaparecerão.

Outra iniciativa a assolar o país na segunda parte do mandato de Dilma será a contenção dos gastos públicos, atendendo a exigências do poder econômico. Não apenas demissões e não reposição de vagas no serviço público, mas a retomada do processo de privatizações. Como também cortes em investimentos de infraestrutura, saúde, educação, habitação e congêneres.

Ninguém se iluda se, a prevalecer a cartilha dos neoliberais incrustados no governo, logo voltar a deletéria proposta da privatização da parte da Petrobrás que continuou pública, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e até dos presídios. Nada melhor do que, para atender as exigências do PCC, do CV e congêneres, vender as cadeias à iniciativa privada. Algumas vão virar hotéis de cinco estrelas, para os bandidos que puderem pagar. O resto que se vire…

Numa palavra, ainda que verbalmente, os auxiliares econômicos da presidente Dilma estão tramando. Trata-se da repetição de que desenvolvimento e crescimento econômico acontecerão às custas dos mesmos de sempre, porque está guardada para o fim a maior de suas pérolas: reconhecendo que a carga fiscal anda insuportável para quem produz e para quem vive de salário, voltam a prometer que na reforma tributária em gestação farão com que “mais cidadãos paguem impostos, para que todos os cidadãos possam pagar menos”.

Trata-se do maior embuste produzido por esses embusteiros. Significa que o pobrezinho, até hoje livre de impostos por não ter o que comer, começará a pagar com um único objetivo oculto: aliviar a carga fiscal daquele que pode pagar e que ficará profundamente agradecido por pagar menos.

Diante dessas previsões, só resta mesmo gritar aos sete ventos: “Acorda, Dilma! Eles enlouqueceram!”

Arte e política: Nelson Rodrigues, Chaplin, Ezra Pound

Pedro do Coutto

O jornalista Ruy Castro, o grande biógrafo de Nelson Rodrigues e cujo nome brilha entre os colunistas da Folha de São Paulo, com o apoio do Sesi-SP e da Fiesp, organizou e coordena um ciclo de palestras e debates sobre as obras do maior dramaturgo brasileiro, na passagem de seu centenário de nascimento.

Participei do primeiro painel junto com o próprio Ruy Castro e as atrizes Maria Della Costa e Léa Garcia focalizando suas dezenove peças e, através do tempo, as mil e 147 incursões da censura contra elas. Um verdadeiro drama o autor vivia nos bastidores. Superou e se consagrou, depois da odisséia em capítulos. A pesquisa sobre Nelson e a censura foi da USP, publicada na revista Anagrama, levantamento realizado em 2008 e 2009. Rodrigues nasceu em 1912, morreu em 1980.

Ruy Castro me convidou para participar de dois painéis. O primeiro já se realizou, como eu disse. Participaria também do tema Nelson e a política, inicialmente marcado para primeiro de agosto, igualmente no palco da Fiesp. Ao lado de Otávio Frias Filho, diretor editorial da Folha de São Paulo, de Ruy e de Nelson Rodrigues Filho. Mas a pedido de Nelsinho, a apresentação foi transferida para 8 de agosto. Não poderei ir, por motivo de viagem marcada há tempo. Uma pena, lastimo muito.

Entretanto deixei este texto com Ruy Castro que me fará a gentileza de divulgá-lo na noite de 8. Tema dos mais importantes, ainda, a meu ver, não bem dimensionado. O texto está no site da Tribuna Internet, editado por Carlos Newton, na realidade um blog aberto a todos.

###
ARTE E POLÍTICA

No título busco uma síntese das convergências e divergências entre arte e política. Ao contrário do que vários intelectuais julgam, nem sempre se distanciam. Às vezes convergem.

Exemplo de convergência, O Grande Ditador, de Charles Chaplin, maior filme político de todos os tempos. O artista projetou a liberdade contra a opressão, a existência humana contra a tirania, a esperança contra a volúpia destruidora.

Esta mensagem, inclusive, está no final da fita quando ele e Paulete Godard caminham por uma estrada em direção ao futuro. Chaplin figura entre os grandes nomes do século vinte. Ezra Pound também, poeta, autor de Os Cantos, traduzido no Brasil por José Lino Grunewald, e teve sua arte reconhecida como entre as maiores do século que passou, aparecendo próximo a James Joyce, Marcel Proust, T.S. Elliot, de quem foi amigo próximo. No entanto, por causa da política encontra-se no lado extremamente oposto ao de Chaplin. Americano de Idaho, apoiou o nazismo de Hitler e, quando da invasão da Normandia, em 44, através de uma rádio italiana, mentiu transformando –se num fanático banal. Afirmou que os aliados estavam sendo dizimados por Rommel. Entrou em conflito com os fatos. Um desastre.

Antes de chegar a Nelson Rodrigues, que foi meu amigo, mas que se engajou errado ao apoiar inteiramente a ditadura militar que se instalou em 64 e acabou em 85, desejo colocar em discussão o silêncio de importantes artistas e intelectuais franceses durante a ocupação de Hitler, de 40 a 44. Não foram molestados pela sombra da suástica, tampouco considerados colaboracionistas após a libertação de Paris.

Em 1942, Marcel Carné dirigiu Les Enfants Du Paradis, maior filme francês de todos os tempos. Em 43, Sartre escreveu O Ser E O Nada, sua maior obra. Em 44, Merleau Ponty concluiu A Fenomenologia Da Percepção, obra importantíssima. Ele e Jean Paul Sartre editaram a revista Tempos Modernos. Sacha Guitry, levou ao palco a comédia Se Versalles Falasse, anos mais tarde transporta para o cinema. Nada sofreram. Sobreviveram com sua arte e o seu talento. Um mistério.

Nelson Rodrigues não teve o mesmo destino. Passou anos no indez dos pensadores reformistas e dos jovens artistas. Nas Confissões de O Globo procurou nublar a visão social do arbítrio e da tortura. Foi seu erro. Sem dúvida. Mas redimido hoje, e para sempre, pela força e presença de sua obra eterna. Não chegou a concluir a que seria sua última peça: O Reacionário. Seria ela uma confissão? Seja como for, foi salvo pelo próprio silêncio e pela voz das gerações, como disse Brecht, que vêm e virão depois de nós.

Nelson Rodrigues será moderno para sempre. Enquanto existir o ser humano. Ele viverá. Assim como Shakespeare.

Lula e Mário, duas histórias de operário

Sebastião Nery

Fez 30 anos. O dia 16 de abril de 82 (ainda na ditadura, mas já na anistia), uma sexta-feira, foi um belo dia para os trabalhadores brasileiros. O STM (Superior Tribunal Militar), à tarde, em Brasília, absolveu Lula e seus companheiros do sindicato dos metalúrgicos do ABC, acusados de crime contra a segurança nacional, por liderarem a histórica greve de 80.

Na mesma tarde da mesma sexta-feira do mesmo 16 de abril de 82, também em Brasília, o Tribunal Federal de Recursos (hoje STJ, Superior Tribunal de Justiça) mandou que fosse readmitido, reintegrado e indenizado pela Petrobras o fundador e três vezes presidente do primeiro Sindicato de Trabalhadores do Petróleo do País, o Sindipetro da Bahia, Mário Lima.

No dia seguinte, escrevi uma coluna: – “Lula e Mário, a vitória do operário”, contando a história dos dois.

Vinte anos depois, em 2002, Lula foi candidato a presidente da República e Mário Lima mais uma vez a deputado federal pela Bahia. A história de Lula vocês sabem. A de Mário, a Bahia e o movimento sindical brasileiro também sabem.

###
GERAÇÃO GLAUBER

Os livros que contam a história do novo cinema, da nova música e da nova literatura brasileira falam da “Geração Mapa” de Salvador, nos anos 50 e 60, nascida no Grêmio Estudantil do centenário Colégio Central da Bahia.

Um grupo de inquietos e talentosos jovens que estiveram ou estão por aí até hoje brilhando e fazendo sucesso: Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, Calazans Neto, João Ubaldo Ribeiro, Joca Teixeira Gomes, José Carlos Capinan.

O líder escolar deles todos, o presidente do grêmio estudantil, era um jovem saído do mais profundo e pobre sertão da Bahia, da cidade de Glória, e que logo revelou uma surpreendente capacidade de liderança: Mário Lima.

Em 58, fez concurso para operador da Refinaria de Mataripe, tirou o primeiro lugar. Em 60, fundou com outros o sindicato. Em 62, aos 27 anos, elegeu-se deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (eu, estadual).

###
CASSADOS E PRESOS

Em 64, logos nos primeiros dias do golpe, nos encontramos cassados, presos, apanhados, jogados nus no chão molhado, sem luz e sem sol, ele numa solitária eu em outra, agUentando, resistindo, nos porões do soturno Forte do Barbalho, das coloniais guerras holandesas na Bahia, o forte que nos coube.

Na hora da prisão, no 1o de abril, dentro do palácio do governo baiano, embora deputado federal, mas por ser líder sindical e haver falado no comício da Central do Brasil de 13 de março no Rio, foi agredido, maltratado, ferido, mas não fraquejou, não denunciou, não se desesperou, não fez concessão.

(A tese do ex-ministro Jarbas Passarinho, de que a violência da ditadura só começou depois de as esquerdas fazerem a luta armada, é uma afrontosa fraude histórica. A violência deles começou no dia 31 de março).

###
DUAS VIDAS-SÍMBOLO

Um dia, Mário desapareceu do Forte. Tinha sido desterrado para Fernando de Noronha, com Miguel Arraes, Seixas Dória, Djalma Maranhão, tantos outros (mais tarde, Hélio Fernandes). Voltou, clandestino em São Paulo, sobrevivendo no Paraná e no Rio, mais dois anos de cadeia em Salvador.

Em 82, anistiado, retornou à Petrobras, foi reeleito presidente do seu sindicato e a Bahia lhe devolveu o mandato de deputado federal, pelo PMDB, renovado na Constituinte, onde foi o relator do capítulo social. Morreu em 2009,  ainda na ativa, trabalhando como assessor da presidência da Petrobras, função que desempenhava desade 1992.

Lula e Mário Lima, duas vidas-símbolo do País, são duas belas provas de que a injustiça e a violência não derrotam a História.