Arquivos por mês: julho 2012

Polícia francesa revista casa e escritórios políticos do ex-presidente Sarkozy

Carlos Newton

Os sites dos jornais publicam que a polícia francesa revistou nesta terça-feira, a residência e dois escritórios políticos do ex-presidente Nicolas Sarkozy em busca de provas no processo movido contra ele sobre financiamento ilegal da campanha presidencial de 2007.

De acordo com a agência Associated Press, o juiz Jean-Michel Gentil e investigadores da unidade de crimes financeiros de Paris fizeram as buscas. A AP disse que a fonte deu as informações sob condição de manter-se em anonimato, por não estar autorizada a revelar informações sobre a investigação.

A reportagem mostra que o processo contra Sarkozy se concentra na alegação de que a herdeira da fábrica de cosméticos L’Oreal, Lilliane Bettencourt, teria fornecido dinheiro ilegalmente para a campanha do ex-presidente. Lilliane é a mulher mais rica da França.

Um contador da bilionária disse em 2010 que  ela deu 50 mil euros em dinheiro para o tesoureiro de campanha do ex-presidente em 2007, montante muito além do limite legal para doações individuais, que é de 4,6 mil euros.

Um livro lançado no ano passado sugere que o próprio Sarkozy recebeu dinheiro de campanha não declarado, afirmação também negada pelo ex-presidente.

Sarkozy, que deixou o cargo em maio após perder as eleições para Francois Hollande, nega as acusações. O ex-presidente se tornou alvo potencial de problemas legais desde que deixou a presidência. Ele perdeu a imunidade conferida pelo cargo em 15 de junho.

O caso também despertou o debate sobre a liberdade de imprensa. O jornal Le Monde abriu um processo acusando o escritório de Sarkozy de usar serviços de contrainteligência para identificar uma fonte que estava vazando informações sobre a investigação. O escritório de Sarkozy disse que nunca deu tais instruções a qualquer agência de inteligência.

Enquanto isso, no Brasil…

A sistêmica, velha e conhecida corrupção

Welinton Naveira e Silva

Os nossos impostos são os mais altos do mundo, com poucos resultados positivos para o Brasil e para o nosso povo. Tudo por conta da velha conhecida e crescente corrupção. Enquanto isso, a gigantesca voracidade do Fisco corre solta, mas de pouco adianta. Só serve para asfixiar nossas empresas e nossa economia, além da crueldade mensal no contracheque do trabalhador que não tem como sonegar.

Por baixo, 50% de toda a sideral fortuna arrecadada pelo Fisco vai para o ralo da conhecida, muito antiga e impune corrupção. Quem sabe, mais. O mais revoltante ainda é saber que já existem fartos recursos tecnológicos de informática, capazes de dificultar bastante essa evasão de recursos do Estado via corrupção.

Bastaria o governo implantar um desses sistemas de informática em conjunto com a Polícia Federal, Receita e Justiça, objetivando obtenção de total transparência de todas as movimentações bancárias, financeiras e cartoriais, públicas e privadas, de pessoas jurídicas e pessoas físicas, sem exceção alguma. Claro que antes dessa implantação seria necessário fazer a devida limpeza moral, no Fisco e na Justiça, além da exigida capacitação geral de todo o pessoal envolvido nesse delicado serviço.

Seria o fim da gigantesca sonegação e corrupção. Traria para os cofres públicos, impensáveis somas de recurso até agora sonegados e extraviados. Em contrapartida, os empresários e assalariados teriam seus impostos reduzidos por conta do aumento da arrecadação, junto com a drástica redução dos siderais desvios de recursos. O governo passaria a contar com súbito e farto recursos para combate à miséria e a pobreza, desenvolvimento tecnológicos e científicos. Seria a felicidade geral de todos. Possível, sim.

Sem dúvida alguma que o nosso crescimento econômico seria potencializado e em tempo reduzido. Além disso, em poucos anos o comportamento de nossos políticos, funcionários públicos e de estatais, modificaria para melhor, inclusive, o comportamento de nosso povo.

A desonestidade é um câncer social, econômico e moral, capaz de inviabilizar uma nação inteira. Coisa bem inerente ao sistema capitalista. Por isso mesmo quase impossível de ser combatida. Solução perfeita não existe. Mas já existem recursos tecnológicos capazes de reduzir muito a sideral e conhecida roubalheira das elites. Só está faltando patriotismo e muita coragem. Haja coragem.

Reflexões sobre a Voz do Brasil, a liberação da drogas e o dinheiro fácil

Antonio Oliveira

Leitor da Tribuna da Imprensa desde 1963, jamais, em qualquer tempo, na história deste País, vi, li e ouvi tamanha ignomínia, qual seja, a defesa de algo indefensável. Concordo sim, com a total flexibilização do horário de retransmissão da Voz do Brasil, ao livre arbítrio de cada emissora de rádio.

Quando a Rádio Jovem Pan (Rádio Panamericana) a transmitia às 4h da manhã, ouvia todos os dias, era o horário que me permitia. Cancelada a transmissão naquele horário, onde acompanhei a Voz do Brasil durante longo período de tempo, nunca mais ouvi a transmissão.

Durante a semana, de segunda à sexta-feira, entre 18h30 e 21h/22h, estou em audiências no Tribunal da OAB, onde atuo. Houve um tempo, muito distante, em que eu conhecia nominalmente quase todos os deputados federais e senadores da República (ouvindo a Voz do Brasil). Hoje, a maioria não atua ou tem atuação oculta (tratando de interesses que não são do povo e nem do Brasil, são privados).

No Brasil, há uma ignominiosa inversão dos valores (todos eles), daí a escalada da violência, alimentada pelo tráfico de drogas, sem excluir outras coisas. Ora, aqui no Brasil, quando estabeleceu-se que o usuário não mais seria preso, aumentou exponencialmente o número de usuários; os que não faziam uso (por medo de serem presos) perderam o temor.

O aumento do número de usuários elevou à décima potência o número de traficantes; o motivo: a Lei da Oferta e da Procura. Aqui em Brasília, por exemplo, houve uma explosão de jovens de classe média alta apanhados, em tese, envolvidos com o tráfico (inclusive internacional) de drogas. Era o advento do dinheiro fácil, desconheciam, como desconhecem, uma máxima: “Easy comes, easy goes”, tudo que vem fácil, facilmente se vai.

Mas não vai ficar assim, há de piorar, com o novo projeto de Código Penal, com a descriminalização do porte de drogas, que já vinham dele se utilizando os traficantes – ao invés de levar vinte, trinta pedidos ‘entregas’, faziam vinte trinta viagens e, se apanhados, declaravam-se usuários e tudo bem.

Assim, para não me alongar mais, porquanto poderia ficar aqui dias a fio tecendo considerações, concordo em gênero, número e grau, com a luta contra a inadmissível inversão de valores, sempre favorecendo a criminalidade (que aproveita para expandir suas garras, como um polvo de tentáculos elasticíssimos, de alcance ilimitado).

Faz sucesso na internet a denúncia de Garotinho sobre Sadala, que seria laranja de Cabral e Cavendish

A briga da dupla Anthony Garotinho/Cesar Maia contra Sérgio Cabral/Eduardo Paes é proveitosa para a população do Rio de Janeiro, porque está trazendo à tona os podres da política fluminense, que certamente é uma das mais corruptas do país. Agora, faz sucesso na internet essa denúncia do blog de Anthony Garotinho contra o “empresário” Georges Sadala. 

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Georges Sadala: De empresário falido, da noite para o dia, virou milionário e “laranja” de Cabral e Cavendish

Anthony Garotinho

Georges Sadala Rihan é amigo íntimo de Fernando Cavendish e Sergio Cabral. Inclusive no casamento de Sadala, segundo a revista Caras, um dos pajens foi Tiago Cabral, filho do governador e de Adriana Ancelmo. Foi Sadala quem levou a Delta para Minas Gerais, sendo o testa-de-ferro de Cavendish em vários negócios.

Há alguns anos atrás, Georges Sadala era um mal sucedido empresário, com empresas inativas e até declarado falido pela justiça. Mas de repente tirou a sorte grande. Foi no governo de Sérgio Cabral que Sadala teve um crescimento patrimonial vertiginoso, através da constituição de oito empresas no período entre dezembro de 2007 e abril de 2011. De empresário falido devendo na praça, com as bênçãos de Cabral em pouco tempo virou um milionário e companheiro de farras do governador e de Fernando Cavendish pelo mundo afora, fazendo parte da “Gangue dos Guardanapos”.

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PROGRAMA RIO POUPA TEMPO

A união do Rei Arthur, Sadala e o Mensalão de Brasília

O Rio Poupa Tempo é uma iniciativa do governo estadual entregue ao CONSÓRCIO AGILIZA RIO, formado pelas empresas GELPAR EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, de cuja sociedade faz parte Georges Sadala; Vex Logística em Transportes Ltda (Novo nome do Facility, do Rei Arthur); B2BR e CEI Shopping Centers.

As outras empresas do CONSÓRCIO AGILIZA RIO estão nas mãos de outros amigos de Cabral. A Facility Tecnologia (CNPJ 04.704.424/0001-98) ficava na Rua Comandante Vergueiro da Cruz 315, Olaria.

Outra empresa participante do CONSÓRCIO AGILIZA RIO é a B2BR, do Grupo TBA Informática, cuja presidente é CRISTINA BONNER. Ela é acusada por Durval Barbosa, pivô das denúncias do Mensalão do DF, de abastecer o esquema de corrupção entre o ex-governador Arruda e deputados distritais com propinas em troca de contratos com o governo.

Para assistir o vídeo clique no link abaixo.

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,em-gravacao-inedita-delator-do-mensalao-do-dem-diz-que-autoridades-tem-copias-de-suas-fitas,692830,0.htm

O negócio de Sadala com o amigo Cabral através do Rio Poupa Tempo é bastante lucrativo e já rendeu mais de 57 milhões em menos de quatro anos.

E ainda mais, o quarto termo aditivo assinado em 29/11/11, que reajustou o valor do contrato para mais de R$ 2,3 milhões por mês.

Agora vejam vocês mais uma coincidência incrível. Sadala é vizinho de Cabral, Cavendish e Côrtes no Condomínio Portobelo, em Mangaratiba (um novo paraíso fiscal). Por ironia do destino, todos eles enriqueceram nos últimos 5 anos e 4 meses, tempo em que Cabral está no Palácio Guanabara…

Investigações estão perto de comprovar que Cabral tem um apartamento em Paris em nome de George Sadala, comprado por Fernando Cavendish. E mais grave: as mesmas investigações mostram que o luxuoso apartamento em que Sadala mora na Avenida Vieira Souto, em Ipanema foi comprado por Cavendish e doado a Sadala.

Avenida Vieira Souto, nº 582, Ipanema. O endereço de Fernando Cavendish e também de Georges Sadala

A estiagem no Sul do Brasil e o sistema Aquífero Guarani

Francisco Vieira

Este ano de 2012 se iniciou com a falta de água causando estragos na Região Sul. Mais de 500 municípios, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Paraná, tiveram que enfrentar situação de emergência e cerca de três milhões de pessoas foram afetadas, diretamente, pela falta de chuva desde o ano passado, comprometendo a produção agrícola e o abastecimento nos três Estados, com quebra na produção de feijão, milho, soja, arroz e leite. Só no Rio Grande do Sul já se contabilizaram perdas de mais de R$ 2,2 bilhões devido à estiagem dos últimos meses.

Mas, ao contrário do que tenta pregar os governos estaduais e federal, NÃO FALTA ÁGUA NO SUL DO PAÍS! Pelo contrário, ela é uma das regiões do mundo onde existe mais água, pois está localizada sobre o Sistema Aquífero Guarani.

Este Sistema é formado, principalmente, pelas areias endurecidas (chamadas de arenitos) de dois antigos desertos que existiam nessa região da América do Sul, há mais de 170 milhões de anos atrás (portanto, bem antes da revolução industrial, da invenção da motosserra e do desenvolvimento da agricultura!), parcialmente sobrepostos, formados por dunas de areia semelhantes as que vemos hoje no deserto do Saara.

Esse Sistema abrange parte dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, além de parte do Uruguai, Argentina e Paraguai, ocupando uma área total de 1.185.500 Km2, com espessura máxima de 800 metros nas regiões mais profundas e volume de água estocado na ordem de 37 mil km3, segundo alguns estudiosos, suficiente para abastecer de água a população brasileira durante 2.500 anos, já que existe a recarga natural de 160 km3, realizada pela infiltração da água na borda leste da Bacia do Paraná, onde o arenito é visível e tem uma espessura média de 200 metros!

As reservas explotáveis do sistema correspondem parte da recarga natural (média plurianual) e representa o potencial renovável de água que circula no Aquífero que pode ser usado sem que se corra o risco de vê-lo secar ou diminuir de nível. Estima-se esse valor de uso em 40 km3 por ano.

Quanto à qualidade, as águas possuem potabilidade bastante adequada e valores variáveis de salinidade em quase toda a sua extensão. São classificadas como bicarbonatadas sódicas e cálcio-magnesianas próximo das áreas de recarga e bicarbonatadas sódicas a cloro-sulfatadas sódicas nas porções mais interiores do sistema, com a ocorrência de valores atípicos (tóxicos) de fluoreto em alguns pontos dos Estados de São Paulo e Paraná. A temperatura da água também varia, com o aumento da temperatura em direção à região mais profunda, chegando a 50oC e 65oC.

O curioso é que essa reserva de água fica quase toda protegida da contaminação da superfície por uma dura camada de lava vulcânica que foi derramada na sua parte superior lá pelos tempos em que esta parte do continente estava rachando para se separar da África. Essa lava virou uma pedra escura chamada basalto, muito comum na região sul e sudeste.

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DESENVOLVIMENTO

Um importante salto social e econômico poderia ser alcançado com o uso dessas águas, principalmente pelo fato de estas poderem ser consumidas, em geral, sem necessidade de serem previamente tratadas, tendo em vista os mecanismos naturais de filtração e que ocorrem no subsolo.

Mas, graças ao imobilismo dos nossos governantes e à ideia que a população atual deve passar sede hoje para que a geração que virá daqui a 2.600 anos possa beber água, os aspectos relativos ao desenvolvimento e ao uso das funções do aquífero são ainda insignificantes, mantendo populações na MISÉRIA. Dentre estes recursos, destacam-se o seu uso na pecuária, na agricultura, com a irrigação das áreas em desertificação, e das águas aquecidas em balneários e fazendas turísticas.

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E NOS ESTADOS UNIDOS?

Mas, e nos Estados Unidos? Lá 20% de toda a água usada pela população são de origem subterrânea e um dos mais importantes aquíferos do país é o High Plains/Ogallala, que cobre 450 mil km2 dos estados de Nebraska, Colorado, Kansas, Dakota do Sul, Wyoming e Novo Mexico e, também as regiões do Pandhandle de Oklahoma e Texas e é responsável, sozinho, por aproximadamente 30% da água subterrânea usada na irrigação dos Estados Unidos, iniciada em 1800, quando os pioneiros perfuraram os primeiros poços nesse aquífero, e é feita hoje através de 170 mil poços.

A irrigação com a água do aquífero High Plains/Ogallala é hoje responsável, em grande parte, pela RIQUEZA e alta produtividade das fazendas e granjas daquela região dos Estados Unidos, que inclui uma percentagem bem significativa da produção nacional de milho, sorgo, algodão e trigo, e metade do gado de corte do país! Atualmente, 18 milhões de acres são irrigados com a água bombeada do aquífero, já que o rendimento das terras irrigadas é o triplo do rendimento das terras sem irrigação. Parece que por lá a indústria da seca não prosperou!

Ou não precisamos de água ou os governantes querem manter o país na miséria e os brasileiros no cabresto das cestas básicas, carros-pipas e dos empréstimos bancários. De que adianta termos as maiores jazidas de minerais caros do mundo se não podemos explorá-las? Para a maioria absoluta dos moradores do sul do país tanto faz que o Sistema Aquífero Guarani seja formado por água, por lama ou por pedra, já que permanece intocado e esperando que apareça algum governante de boa vontade.

Fonte: Diversos livros de geologia. Podem ocorrer pequenas variações nos números, dependendo do pesquisador ou da época em que os estudos foram efetuados.

Maiores devedores da Justiça Trabalhista são estatais e empresas falidas

Roberto Monteiro Pinho

Recentemente, o Tribunal Superior do Trabalho divulgou dados sobre os maiores devedores no Judiciário trabalhista: empresas falidas (ou pessoas ligadas a elas) e estatais. A fonte de informação é a Certidão Negativa de Débitos Trabalhistas – CNDT, criada como forma de pressionar empresas devedoras.

Todavia já se avalia que a CNDT pouco contribuirá para redução dos problemas de pagamento de execuções. De acordo com o instrumento, este abrange apenas 0,01% do total de 1,110 milhão de devedores condenados pela justiça trabalhista. São ao todo 1,7 milhão de processos, num valor estimado em R$ 24 bilhões.

Fonte oficiosa indica que existem na JT cerca de R$ 800 bilhões em ativos trabalhistas. O Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal aparecem no topo do ranking de empresas com maior número de processos trabalhistas. Elas figuram com destaque na lista inédita divulgada pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) com cem empresas já condenadas pela Justiça a pagar indenização por violar direitos dos empregados.

O BB ficou em segundo lugar, com 2.472 processos, e a Caixa em quarto, com 2.117. Na 13ª posição, com 1.476 causas, está a Petrobras. A primeira desse ranking é a falida Vasp, com 4.913 processos. Outras companhias aéreas que não funcionam mais, como Transbrasil e Varig, também estão na lista e, nesses casos, a chance de os trabalhadores receberem é quase nenhuma.

Então se não existem ativos, de que forma os trabalhadores receberão seus direitos? Como responder para a sociedade, se a CNDT resolve apenas a ínfima taxa de 0,01% do total das dívidas trabalhistas?

A vida privada de Assange é usada para tentar ocultar o grande triunfo de WikiLeaks

Patrick Cockburn (The Independent)

A partir do momento em que Julian Assange conseguiu evitar a prisão, buscando refúgio na embaixada do Equador em Knightsbridge, escapando assim de ser extraditado para a Suécia, e provavelmente, em seguida, para os EUA, os jornalistas, colunistas e comentaristas britânicos tornaram-no alvo da mais escandalosa agressão. Parecem babar de ódio, enquanto repetem os mais mesquinhos ‘exemplos’ de uma pressuposta grosseria, pressuposto egoísmo e aparência pressuposta ‘péssima’, como se o que dizem fosse verdade e, por ser escrito pelos que escrevem, se tratasse de crimes imperdoáveis.

O que se lê na imprensa britânica fala, uma vez mais, muito mais do convencionalismo e do instinto de manada dos formadores britânicos de opinião, do que de Assange. O que passa sem ser noticiado, em toda a cobertura, é o quase inacreditável sucesso do fundador de WikiLeaks, que conseguiu publicar documentos do governo dos EUA, os quais, publicados, permitiram que muitos, em todo o mundo, começassem a saber como realmente agem seus governos. Que os eleitores conheçam, precisamente, esse tipo de fato é a alma da democracia, porque os eleitores têm de ser bem informados, para que consigam eleger representantes que de dediquem a fazer “governo do povo, pelo povo e para o povo”.

Graças a WikiLeaks, a opinião pública teve acesso a mais informação sobre o que fazem pelo mundo os EUA e seus aliados do que nunca antes, em toda a história da imprensa ocidental. O único momento semelhante a esse que me vem à mente foi a publicação, pelos bolcheviques vitoriosos em 1917, de tratados secretos, incluindo planos da Grã-Bretanha e da França, para ocupar o Oriente Médio[1].

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PAPÉIS DO PENTÁGONO

Paralelo mais fácil foi a publicação dos Papéis do Pentágono, graças a Daniel Ellsberg em 1971, que revelaram as sistemáticas mentiras do governo Johnson sobre o Vietnã. Como se fez contra Assange, Ellsberg foi massacrado pela imprensa e pelo governo dos EUA, que o ameaçou com as mais severas penas.

Aspecto extraordinário da campanha contra Assange é que jornalistas, colunistas e ‘especialistas’ sentem-se perfeitamente livres para publicar milhares de palavras sobre alegadas faltas de Assange, sem que se leia qualquer indignação contra os crimes de Estado, infinitamente mais graves, que WikiLeaks revelou ao mundo.

Os críticos e os leitores que concordam com eles deveriam, antes de falar, assistir a 17 minutos de um filme divulgado por WikiLeaks, filmado pela tripulação de um helicóptero Apache, sobre um bairro na parte leste de Bagdá, dia 12/7/2007. Mostra a tripulação do helicóptero matando, a rajadas de metralhadora, pessoas que se veem no solo, e que os soldados norte-americanos dizem supor que fossem guerrilheiros armados.

Examinando o filme, não consigo ver arma alguma. O que teria sido tomado por arma, em mãos de um dos mortos, foi depois identificado como uma câmera de filmagem que estava sendo usada por Namir Noor-Eldeen, jovem fotógrafo da agência Reuters, morto, com o motorista também a serviço da Reuters, Saeed Chmagh.

O vídeo mostra o helicóptero voltando para um segundo ataque, dessa vez contra uma caminhonete que parou para recolher os cadáveres e os feridos. O motorista dessa caminhonete também foi morto, e duas crianças foram feridas. “Há-há-há! Acertei eles!” – grita, em triunfo, um dos soldados norte-americanos. “Olhem só os filhos da puta mortos!”

Eu estava em Bagdá quando a matança aconteceu e lembro que, no momento, nem eu nem outros jornalistas que lá estavam acreditamos no que o Pentágono informou, que todos eram guerrilheiros armados. Mas não havia como provar que o Pentágono mentira. Rebeldes armados não estariam conversando na esquina, com helicópteros dos EUA à vista.

Logo se soube que havia um vídeo da matança, mas o Departamento de Defesa recusou-se terminantemente a divulgá-lo, nem quando se invocou a Lei da Liberdade de Informar. A versão oficial nunca pôde ser desmentida, até que o vídeo chegasse a WikiLeaks, enviado, parece, por um soldado dos EUA, Bradley Manning. WikiLeaks publicou o vídeo em 2010.

Os telegramas diplomáticos que chegaram a WikiLeaks foram publicados adiante, no mesmo ano, em cinco jornais – The New York Times, The Guardian, Le Monde, Der Spiegel e El País – mas a resposta ao trabalho de Assange foi surpreendentemente mesquinha. Os jornalistas pareceram ter ficado furiosos por seu campo de caça privativo ter sido invadido por um nerd australiano, que fizera o trabalho que os jornalistas não haviam feito. Na Grã-Bretanha, o colunariato das empresas jornalísticas é clube notoriamente fechado, conservador e hostil a quem chegue de outros contextos culturais, com diferentes normas políticas.

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TEMPORADA DE CAÇA

Mas nem isso bastaria para explicar que toda a mídia planetária declarasse aberta a temporada de caça a Assange. Para que isso acontecesse, foi preciso que aparecessem acusações de que Assange seria autor de estupro na Suécia. Acusações de estupro destroem qualquer reputação, por mais frágeis que sejam as provas e mesmo que não haja prova alguma. Assange nunca conseguiu recuperar-se completamente daquelas acusações.

Quanto à sugestão de que ele estaria exagerando o risco de ser extraditado da Suécia para os EUA, é parte da caçada: quem, em sã consciência se exporia a algum acaso, mesmo que com 5% de probabilidades de deixar-se meter-se num voo para a Suécia que poderia levá-lo a sentença de 40 anos de cadeia nos EUA?

Muitos jornalistas e comentarista agarraram-se ao argumento oficial de que os vazamentos teriam “posto vidas em risco”. Esse lobby começou a fracassar e a calar em 2011, quando funcionários do Pentágono tiveram de reconhecer, extraoficialmente, que não havia qualquer prova de que alguém tivesse sido ferido ou morto por causa dos vazamentos.

Resposta melhor seria que WikiLeaks nada revelou de realmente secreto; e que os documentos aos quais o cabo Manning teve acesso não eram classificados como secretos. Outro bom argumento de defesa ouvi de um diplomata dos EUA em Cabul, onde eu estava na época da publicação. Disse ele: “Não há segredo algum a ser divulgado por WikiLeaks, porque os ‘segredos’ já foram vazados pela Casa Branca, Pentágono ou Departamento de Estado, que não souberam proteger os próprios documentos sigilosos, se fossem sigilosos”.

Na prática, os documentos publicados por WikiLeaks são exclusivamente e vastamente informativos sobre o que os EUA fazem e sobre o que os EUA pensam sobre o mundo no qual vivemos. Por exemplo, há um telegrama enviado da embaixada dos EUA em Cabul, em 2009, no qual o primeiro-ministro é descrito como “indivíduo paranóico e fraco, sem qualquer familiaridade com o básico da construção nacional”.

(Texto enviado por Valter Xeu, do site Pátria Latina)

 

Os adolescentes, na visão de Pedro Homem de Mello

Aprendemos com Rubem Braga que a poesia é necessária. E hoje vamos visitar um poeta português pouco conhecido no Brasil: Pedro Homem de Mello, professor e folclorista, que viveu de 1904 a 1984.

Pedro Homem de Mello

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ADOLESCENTES

Exaustos, mudos, sempre que os vejo,
Nos bancos tristes que há na cidade,
Sobe em mim próprio como um desejo
Ou um remorso da mocidade…

E até a brisa, perfidamente
Lhes roça os lábios pelos cabelos
Quando a cidade, na sua frente
Rindo e correndo, finge esquecê-los!

Eles, no entanto, sentem-na bela.
(Deram-lhe sangue, pranto e suor).
Quantos, mais tarde se vingam dela
Por tudo o que hoje sabem de cor!

E essas paragens nos bancos tristes
(Aquela estranha meditação!)
Traz-lhes, meu Deus, só porque existes,
A garantia do teu perdão!

Pedro Homem de Mello, in “Eu Hei-de Voltar um Dia”

Na mesa com Getúlio Vargas

Lira Neto, que acaba de lançar o primeiro livro de sua trilogia sobre Getúlio Vargas, conta, em texto escrito a pedido da Folha, sobre a predileção do ex-presidente pelo churrasco e como eram os jantares no antigo palácio e na residência oficial. Para o político gaúcho, só se conhecia bem um interlocutor diante de um bom prato de comida. O texto de Lira Neto nos foi enviado pelo comentarista Mário Assis.

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Lira Neto

No início de 1931, após apenas dois meses da chegada ao poder, Getúlio Vargas recebeu o ministro da aviação italiana, o fascista Italo Balbo, com um banquete no antigo Palácio Itamarati, na rua Marechal Floriano, próximo à estação Central do Brasil, Rio de Janeiro.

O menu primava por apresentar ao visitante estrangeiro os sabores exóticos da cozinha brasileira: caldo de tartaruga, filé de robalo, carneiro ao forno e assado de macuco (ave de grande porte da Mata Atlântica).

À hora do brinde, o ministro Balbo levantou a taça de champanhe e disse que o Duce, Benito Mussolini, pretendia cultivar com o máximo empenho as relações de amizade entre italianos e brasileiros.

Depois dos discursos de praxe e da comilança pantagruélica, a sobremesa ficou por conta das articulações políticas, das compotas de frutas tropicais e do sorvete de bacuri, seguidos do licor de jenipapo, café e charutos na biblioteca do prédio.

Ao longo dos cerca de 18 anos que permaneceria à frente do poder, Getúlio repetiria a dose, recepcionando os muitos representantes estrangeiros com cardápios de marcado acento nativo.

Mas quando estava reunido entre amigos ou com políticos brasileiros, não hesitava. O prato principal servido aos correligionários era sempre um só: o típico churrasco gaúcho.

Dizem os que conheceram o ex-presidente na intimidade que ele tinha um apetite voraz por carne vermelha, ao ponto de impressionar os convidados à mesa pela enorme quantidade de proteína animal que conseguia ingerir, de uma vez só, em ocasiões do gênero.

Isso, sem dúvida, era herança da infância e da juventude vividas nos pampas, onde, desde menino, Getúlio foi iniciado no ritual de abater e carnear o boi, para depois sentar em volta do fogo com os companheiros de estância e observar o lento crepitar das brasas e das chamas conferindo cor, aroma e sabor às fibras sangrentas, sorvidas na forma de nacos fumegantes.

De acordo com o escritor riograndense Pedro Vergara, os antigos e bravos gaúchos faziam desse ato uma cerimônia quase sagrada, em que a necessidade, a morte e a festa andariam juntas. “Não se pode comer sem matar; isso foi autorizado aos homens por uma divindade que se comprazia do cheiro da carne assada.”

Em família, à hora do almoço, Getúlio cultivava deleites mais frugais. O frango cozido ou assado era quase uma instituição no Palácio Guanabara, então residência oficial da Presidência da República. Darcy, a primeira-dama, reservava para o marido o osso em forma de forquilha do peito da galinha. Os filhos já sabiam que saborear a carne branca que envolvia o ossinho era um dos prazeres prediletos do pai à mesa.

Fosse em prosaicos jantares domésticos ou em solenes ágapes oficiais, uma coisa Getúlio jamais dispensava: o robusto havana após a xícara de café quente.

Todas as noites, para fazer o “quilo”,  gostava de sair caminhando a pé pela praia do Flamengo, com seu característico paletó de linho branco e o par de sapatos bicolores, deixando atrás de si um rastro de baforadas no ar.

O hábito de fumar charutos – os de sua predileção eram os da marca Soberano e Mil e Uma Noites – também provinha da mocidade. Nas prateleiras da pequena biblioteca particular do jovem acadêmico de direito Getúlio Vargas, as páginas dos livros de Nietzsche, Darwin, Saint-Simon, Zola, Euclides da Cunha e Aluísio Azevedo, então seus autores favoritos, recendiam a tabaco e, também, a erva-mate moída.

O chimarrão, como não poderia deixar de ser, era outra das paixões do gauchíssimo Getúlio. Por vezes, despachava com ministros e auxiliares de cuia na mão, a bombilha de prata nos lábios.

Exímio observador, dono de invulgar faro político, Getúlio afirmava que só se conhece bem um interlocutor diante de um bom prato de comida. Desconfiava dos que o cercavam cheios de salamaleques e rapapés, mas que em público se diziam desinteressados por cargos, benesses e sinecuras. Considerava que esses eram os mais gulosos de poder.

“Conheço bem esses que se sentam à nossa mesa e fazem de conta que não querem comer. São justamente os de maior apetite.”

Entenda como se deu o vexame da anulação da multa da CVM, no desprezível valor de R$ 504 milhões.

Carlos Newton

Uma autoridade pública precisa preservar sempre sua imagem, em termos de competência e honradez. No caso da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), cuja missão é zelar pelo mercado de capitais, a imagem da autarquia federal veio por água abaixo, em função de recente acórdão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

Conforme noticiamos aqui no Blog da Tribuna, com absoluta exclusividade, na última quarta-feira a 7ª Turma do TRF2, por unanimidade, confirmou a anulação do julgamento da CVM que impusera uma multa de R$ 504 milhões a nove instituições e investidores do mercado financeiro, que adquiriram a carteira imobiliária do RioPrevidência, vendida em leilão público em 2005.

Dois anos depois, em 2007, foi aberto inquérito pela CVM. E cinco anos depois do leilão, em setembro de 2010, foi aplicada a espantosa multa pelo então diretor Marcos Barbosa Pinto. “Embora a cadeia de negócios realizados pareça complexa, as provas deixam clara a real natureza da operação. Entendê-la se torna bastante simples, uma vez dissipada a cortina de fumaça criada pelos acusados para encobertar o ilícito”, alegou na época. Pior, além de levar cinco anos para denunciar a tal fraude, o diretor da CVM não soube quantificar o prejuízo.

Recapitulando: a autoridade controladora do mercado de capitais demorou cinco anos para descobrir que teria havido fraude num leilão inteiramente organizado pelo CONAD – Conselho de Administração do RioPrevidência, onde tinham assento procuradores do Estado, secretários de estado e promotores de justiça, sob os auspícios e sob a orientação jurídica da Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro. Foram essas autoridades que criaram todas as regras, estabeleceram o preço mínimo e submeteram o negócio a todo o mercado financeiro, em hasta pública, como se diz no jargão jurídico.

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DEFESA CERCEADA

As instituições e investidores atingidos pela multa (a segunda maior da história da CVM), tentaram se defender, no âmbito da própria autarquia. Pediram que fosse permitida a produção de provas para demonstrar que não houve prejuízo, solicitando também que fossem analisados outros leilões semelhantes, para ver se havia alguma diferença, pois operações idênticas realizadas pelo Bradesco, GP Investimentos e pelo UBS Pactual não foram sequer investigadas pela CVM.

Mas a CVM não permitiu, alegando que tais provas “não eram pertinentes”. Houve então a apresentação de um recurso contra o indeferimento das provas, mas quem o julgou foi o mesmo diretor que indeferiu as provas.

Diante dessa ilegalidade (a autoridade que tem contestada sua decisão não pode julgar o recurso), um dos acusados, Olimpio Uchoa Viana, condenado a pagar R$ 56,1 milhões em multa, decidiu recorrer à Justiça e contratou o jurista Fernando Orotavo Neto, um dos maiores especialistas em Direito Financeiro, que imediatamente apresentou um pedido de liminar. E na mesma semana o juiz Wilney Magno de Azevedo Silva, da 16ª Vara Federal, suspendeu os efeitos do julgamento realizado pela CVM.

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UM VEXAME

O mandato do diretor Marcio Barbosa Pinto expirou e não foi renovado. A CVM e a Procuradoria do Estado recorreram ao Tribunal Regional Federal. Quase dois anos depois, o caso foi a julgamento na última quarta-feira, pela 7ª Turma. Os desembargadores federais José Antonio Neiva (presidente e relator), Luis Paulo Araújo e Reis Friede mantiveram a anulação da multa. Por unanimidade, entenderam que não havia qualquer prova da existência de prejuízo à RioPrevidência, e ordenaram à autarquia que seja feita uma perícia para comprovar se houve ou não o alegado prejuízo.

Esta era a segunda maior já aplicada na história da CVM, que só perde para a determinada ao Banco Santos, da ordem de 600 milhões. E trata-se de julgamento inédito, uma vez que, nos 36 anos de existência da CVM, jamais qualquer decisão da autarquia foi anulada pelo Judiciário. Um vexame.

Será isso o que o telespectador deseja?

Carlos Chagas

Eis um tema a necessitar análise mais profunda: por que nossos telejornais, sem exceção, transformaram-se em verdadeiras delegacias de polícia, predominando nos noticiários as reportagens sobre crimes, violência e desgraças a dar com o pé?

De início, é bom ressaltar a permanente disputa por audiência entre as principais redes, ou seja, se cada vez mais abrem espaço para informações policiais, é por conta da preferência do público. Audiência significa faturamento, quer dizer, sobrevivência e, se possível, crescimento. Mas é preciso indagar: que tipo de público dá preferência a esse tipo de noticiário?

A ascensão das classes C e D à classe média é coisa recente, mas muito antes disso as categorias menos favorecidas da sociedade conquistaram acesso à televisão. Mesmo no casebre mais miserável das favelas, periferias e do interior, as famílias podem comer mal ou até não comer, mas faz muito que permanecem diante das telinhas. O baixo nível de muitas novelas flui pelo mesmo caudal dos telejornais.

Raciocinam os exegetas da mídia eletrônica que em São Paulo, por exemplo, o cidadão leva duas horas para chegar ao trabalho e depois mais duas para retornar. Esgota-se em atividades que não o satisfazem. Assim, quando se vê combalido, em casa, se não fica feliz ao menos sente-se compensado ao verificar que há gente mais infeliz do que ele. Que tragédias muito mais densas atingem pessoas como ele, ou até de classe mais privilegiada.

Num raciocínio primário, o que vale mesmo é o Ibope, e se os telejornais cada vez mais privilegiam crimes e violência, será pela conquista de audiência e de publicidade. Fecha-se o círculo de giz, logicamente embasado pela defesa da liberdade de informação, porque parece afastada em definitivo a possibilidade de intervenção do poder público no conteúdo do noticiário.

Fazer o quê, diante desse nó impossível de desatar pela espada de Alexandre? Anos atrás foi à falência a Rede Manchete, por remar contra a maré. Apresentava concertos da Orquestra Sinfônica de Berlim, regida por Von Karajan, enquanto as concorrentes mostravam crimes, violência e desgraça. Dava traço.

Trata-se de um enigma saber o que fazer. Mas alguma coisa precisa ser feita, mesmo sabendo-se ser inviável tentar trocar de público telespectador…

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VANTAGENS INEQUÍVOCAS

Mesmo inexplicavelmente trabalhando em silêncio, sem abrir suas sessões aos meios de comunicação, a Comissão da Verdade começa a gerar resultados. Multiplicam-se as denúncias sobre horrores praticados durante os anos de chumbo. Casas da Morte aparecem, ex-agentes do poder público são denunciados por crimes de tortura e assassinato, quando não tomam a iniciativa de apresentar-se, da mesma forma como antigos terroristas assumem ações de justiçamento de seus próprios companheiros.

Punições estão fora de cogitação, dada a Lei da Anistia, mas haverá castigo maior do que a exposição da prática de crimes e criminosos? Seria uma beleza se pelo menos depois de cada reunião a Comissão da Verdade liberasse para a imprensa um relato de suas investigações e dos depoimentos tomados, mas, ainda assim, prevalece a natureza das coisas.

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VIROU VIDRAÇA?

Não deixa de ser significativo o episódio dos dois Mirage da Força Aérea que, sobrevoando a Praça dos Três Poderes em dia de festa, arriscaram baixar além do recomendável, causando a quebra das vidraças do Supremo Tribunal Federal. Para quem imaginava que a mais alta corte nacional de justiça era pedra, pela rigidez de seus julgamentos, ficou a surpresa: virou vidraça. Será um presságio ligado ao mensalão?

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ESFORÇO FINAL

Márcio Thomas Bastos tentava ontem, como tentará hoje e amanhã, salvar o pescoço de Demóstenes Torres, seu cliente, cuja degola está marcada para quinta-feira, no plenário do Senado. Até adiar a sessão de julgamento entrou em cogitação, assim como a hipótese de o representante de Goiás apresentar sua renúncia e, dessa forma, preservar seus direitos políticos. A cassação, porém, surge como inevitável, mas é bom aguardar…

Decisão do TSE não abrange casos de improbidade administrativa

Pedro do Coutto

Claro que, sob o ângulo da ética, foi lamentável a decisão do Tribunal Superior Eleitoral habilitando eleitoralmente, para este ano, os candidatos que não prestaram contas devidas das receitas obtidas e despesas realizadas na última campanha de que participaram. Porém esse julgamento – aí é que está a questão essencial – não se estende aos administradores públicos, incluindo governadores, prefeitos, ministros, secretários estaduais e municipais cujas contas de gestão tiveram sido rejeitadas pelos respectivos Tribunais.

Reportagem de Carolina Brígido, O Globo de sexta-feira, focalizou o assunto com foto de Gustavo Miranda. A matéria apreciada na tarde de quinta-feira não se vincula à questão que estou colocando. A diferença está na letra C do artigo primeiro da lei complementar 135, de 4 de junho de 2010. Uma coisa é prestar contas de forma incompleta. Outra, a improbidade. São, portanto, duas situações distintas. Não se confundem numa só. Este segundo caso não se encontrava em pauta e assim não se inclui na decisão infelizmente tomada. Nem poderia o TSE decidir contra o texto expresso da lei. Configurado o caso de improbidade (e não apenas improbidade) o culpado torna-se inelegível por oito anos.

A lei 135, aqui citada, atualiza a lei de inelegibilidade, lei complementar 64, de 18 de maio de 90. Mantém em vigor a maioria dos dispositivos da anterior, mas modifica outros. As alterações, entretanto, não diminuem, pelo contrário, ampliam as restrições fixadas.

Os temas jurídicos são geralmente complexos e dão margem a interpretações diversas. O Tribunal Superior Eleitoral, pela diferença de apenas um voto, decidiu separar as contas de campanha, responsabilidade dos candidatos, das contas administrativas referentes à gestão pública. O TSE falou, está falado, como dizia o árbitro de futebol Mário Vianna. No entanto, talvez caiba recurso do Procurador Geral da República ao Supremo. Vamos ver.

Mas para encerrar o assunto, vale a pena transcrever o que diz a letra G: São inelegíveis os que tiveram suas contas rejeitadas por irregularidade insanável que configure ato doloso de improbidade administrativa julgado por decisão irrecorrível.

O ato doloso – acentuo eu – só pode se voltar, no caso em tela, contra o patrimônio público.

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No RJ, aumento para o Legislativo e Judiciário; Executivo fora

Vamos passar a outro tema. Na quinta-feira, a Assembleia Legislativa aprovou dois projetos de Lei concedendo reajustes salariais. O primeiro foi de autoria da Mesa Diretora da Alerj. O segundo encaminhamento pelo desembargador Manoel Rebelo dos Santos, presidente do Tribunal de Justiça. A proposição da Mesa Diretora destina aumento nominal de 6%, a partir de primeiro de maio, aos servidores do Poder Legislativo, incluindo portanto o Tribunal de Contas. Os cargos em comissão foram excluídos do texto final.

O projeto do desembargador Manoel Rebelo dos Santos aplica 4% aos servidores do Poder Judiciário dividido em duas etapas: 2% a partir de maio e 1,96% a partir de primeiro de outubro. As duas iniciativas na verdade, são reajustadas praticamente ao nível da inflação calculada pelo IBGE para os últimos doze meses. O do Judiciário é menor, justificou o presidente do TJ, para cumprir o limite da despesa fixado na Lei de Responsabilidade Fiscal.

Observe-se, entretanto, uma lacuna incompreensível: os funcionários ativos do Poder Executivo ficaram de fora. São cerca de 250 mil pessoas. Os aposentados e pensionistas, em maio, foram reajustados em 5% retroativos a janeiro. O governador Sérgio Cabral pensou neles. Mas esqueceu dos outros. É possível que se sensibilize agora e preencha a injusta lacuna.

Delúbio assumir a culpa por Dirceu? O STF pode acreditar nisso?

Pedro do Coutto

Em reportagem publicada na edição de 2 de julho, segunda-feira, O Estado de São Paulo, João Domingos e Cristiane Sanmarco, revelam que, agindo de acordo com outros acusados pelo Mensalão, Delúbio Soares aceitou assumir integralmente a culpa pelo escândalo de 2005, visando a inocentar José Dirceu. Ambos, é claro, estão tentando iludir o Supremo Tribunal federal. Tal manobra, assim, só pode piorar a situação de todos no julgamento de agosto.

Sou levado a pensar que José Dirceu é um personagem raro, um delirante da cena política. Pois como Delúbio Soares, que era apenas tesoureiro do PT, poderia exercer qualquer poder de mando? Nem ele, tampouco Genoino, ex presidente do partido que, segundo João Domingos e Cristiane Sanmarco, estaria inclinado também a ir para o sacrifício no lugar de Dirceu. Genoino disputou o governo de São Paulo, em 2002, contra Geraldo Alckmim.

Mas tal orientação (absurda) não foi tomada por unanimidade. O advogado Arnaldo Malheiros Filho, que defende Delúbio Soares, disse a O Estado de São Paulo não concordar com a estratégia. Delúbio, acentuou, não fez nada sozinho. Nem poderia. Posição semelhante à de PC Farias no governo Fernando Collor. Sem cobertura do poder, os agentes financeiros, por mais sinuosos que sejam ou fossem, não dão um passo. Tem que contar com uma cobertura pesada. Supor o contrário é desprezar a capacidade humana de pensar e chegar ao óbvio, palavra consagrada por Nelson Rodrigues.

A pergunta é muito simples: se José Dirceu não tinha nada com o Mensalão, por qual motivo o presidente Lulas o demitiu? Se nada tinha com nada, porque a Câmara dos Deputados cassou seu mandato parlamentar? O advogado de Dirceu, Oliveira Lima, sustenta o contrário: Dirceu, disse ele, não tinha a mínima ideia do que se passava.

Neste ponto, Oliveira Lima apenas transfere a confissão para outros. Pois se José Dirceu não tinha a mínima ideia do que se passava, é porque o Mensalão existia. Claro. Só se pode dizer que alguém não sabia de nada, a partir do reconhecimento da existência do fato. Caso contrário, o advogado partiria da negativa plena e total. Não assumiu tal posicionamento. Portanto, de forma tácita, reconheceu a existência de uma conjuntura ilegal. Uma coisa leva à outra. Não pode existir uma terceira interpretação.

Este é o ângulo em que Dirceu tenta colocar Delúbio, que não ocupava cargo de relevância na administração federal. E se Delúbio não pode caber no figurino surrealista, muito menos Marcos Valério, publicitário. Como, sem o poder do Palácio do Planalto, poderia ter feito os pagamentos que praticou? Como conseguiu o dinheiro para pagar 10 milhões de dólares a Duda Mendonça num paraíso fiscal fora do país?

Quem afirmou este fato ao deputado Osmar Serraglio, relator da CPI dos Correios e do Mensalão, foi o próprio Duda Mendonça. Valério e Delúbio são personagens do elenco de apoio da trama urdida que fracassou. E só poderia fracassar. O baixo nível dos atores talvez seja o instrumento principal da corrupção ganhar a imprensa e as ruas.Revoltante.

A dupla de reportagem ouviu Arnaldo Malheiros, amigo de Márcio Thomaz Bastos e defensor do ex-tesoureiro: Que Delúbio distribuiu dinheiro, distribuiu. Mas foi para pagar os gastos de partidos aliados. Tudo com o conhecimento da cúpula do PT. No mundo todo, compram-se aliados de forma diferente, oferecendo-lhes cargos e não dinheiro. Francamente, na minha opinião, basta este texto para o Supremo basear o julgamento que se aproxima. Nem mais, nem menos. É suficiente.

A segunda novela alemã e portuguesa

Sebastião Nery

Chamava-se Markus, com “k”. Podia chamar-se Tony. Jovem pianista e mestre-escola, veio da aldeia alemã de Schweich, junto à fronteira com Luxemburgo, em meados do século XIX, contratado pelos Malburg, donos da navegação do Rio Itajaí, para ser professor dos filhos e das filhas das famílias européias.

Mas também de algumas não européias. Foi ensinar piano à filha do major Henrique Flores, chefe do Partido Conservador na província, e ensinou o piano e o amor a Adelaide. Casaram-se e ele acabou se metendo na política, no Partido Republicano Catarinense.

Esse Markus, com “k”, era bom de filhos. O mais velho, Adolfo, foi deputado federal de 1921 a 25 e presidente (até 30, os governadores eram presidentes) do Estado de 26 a 30. O segundo, Viktor, ministro da Viação e Obras Públicas, de 26 a 30. O terceiro, Arno, embaixador nos Estados Unidos. O quarto, Marcos com “c”, prefeito de Itajaí.

E Marieta, a filha, que se casou com Irineu Bornhausen, descendente de suiços-alemães da primeira imigração, também ele vereador, prefeito, deputado, governador, senador e dono de banco.

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COMUNISTAS E NAZISTAS

Como o pai, esse Marcos, com “c”, prefeito de Itajaí, também foi muito bom de filhos, todos subversivos. Valério, médico, intelectual, dirigiu o setor cultural do Partido Comunista e da Aliança Nacional Libertadora, passou um ano e meio preso com Graciliano Ramos, que lhe dedicou páginas inesquecíveis nas “Memórias do Cárcere”, como caçador de percevejos. Em 50, já cassado Luís Carlos Prestes em 48, os comunistas lançaram Valério para o Senado, pelo Rio, na legenda do nanico PRT. Perdeu para Napoleão Alencastro, do PTB de Getúlio e Mozart Lago, do PSP de Ademar.

Vitor, sem “k”, o segundo filho, jornalista, também foi dirigente do Partido Comunista. Alexandre, também jornalista, fascista, nazista, processado por espionagem na Segunda Guerra, dirigiu em Belo Horizonte a “Tribuna de Minas”, com seu texto talentoso, devastador, escrevendo artigos magnificamente loucos, inclusive contra mim, jovem jornalista comunista.

Maria Luiza, a filha, casou-se com o socialista Evandro Lins e Silva, patriarca da advocacia brasileira. E ainda dois netos exemplares, jornalistas, intelectuais, professor e filósofo, Leandro e Rodolfo.

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30 DE UNS, 64 DE OUTROS

Todos eles Konder. Desde Markus, o pianista com “k”, casados e aliados aos Bornhausen, comandaram Santa Catarina muitos anos, até serem derrubados, na Revolução de 30, pelos Ramos, portugueses açorianos.

O primeiro, Vicente Ramos, deputado do Império, duas vezes presidente do Estado e senador, também foi bom de filhos: Nereu Ramos, que foi tudo, deputado, governador, interventor, senador, ministro da Justiça e presidente da República. Joaquim Ramos, deputado federal, testemunha ocular da história, e Celso Ramos, governador e senador.

Em 64, veio o golpe, que derrubou os Ramos do PSD e pôs no poder a UDN dos Konder e Bornhausen e Reis, como Antônio Carlos Konder Reis, filho de uma filha do velho Markus com “k”, Elisabeth, e primo dos outros.

Diretor da UNE, conservador de museus no Rio, várias vezes deputado, senador, relator da Constituição de mentira de Castelo, governador nomeado de 75 a 79, depois deputado federal.

É o eterno sangue do poder.

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UMA EPOPÉIA GENEROSA

Em Roma, adido cultural lá, eu irritava os italianos dizendo-lhes que a maior cidade italiana não é Roma nem Milão, é o Estado de São Paulo, com mais de quatro milhões de imigrantes ao longo de um século, de 1850 a 1950.

Sobre isso, a Fundação Agnelli, da Fiat e da Ferrari, tem um trabalho exaustivo, monumental, com o levantamento, ano a no, sobretudo o meio século entre 1870 a 1920, da entrada de italianos no Brasil, principalmente pelo Porto de Santos, uma saga que o talento de Benedito Ruy Barbosa foi buscar para as novelas “Terra Nostra” e “Esperança”.

Santa Catarina, em números menores, porém mais antigos, foi a mesma coisa. Em 1851, alemães, suíços, austríacos e noruegueses, vindos da Europa na Barca Colon, depois de 78 dias de viagem, morrendo sete no mar, desceram à beira do Rio Cachoeira, na província de Santa Catarina, para formar a Colônia Dona Francisca, hoje esta bela, simpática e rica Joinville de 500 mil habitantes.

Eles eram apenas 200. Em 1881, 30 anos depois, mais 754 novos imigrantes chegavam à Colônia Dona Francisca, já com 19.445 europeus.

A imigração brasileira é uma epopéia da generosidade nacional.