Arquivos por mês: junho 2012

O capitalismo é mesmo o sistema mais justo?

Almério Nunes

Nenhuma filosofia propôs o Socialismo como salvação. Sócrates, o Paladino da Filosofia, propôs que examinássemos as nossas vidas, para que ela fosse digna para ser vivida. Platão, seu discípulo maior, exaltava o Demiurgo (o artesão, o desenhista, o Criador Supremo do Universo).

Aristóteles criou a Ética, para vivermos em harmonia, o mais completo código jamais escrito por um ser humano. Baruch Spinoza, quase 2 mil anos depois, escreveu sua obra máxima “A Ética”, avançando ainda mais nesta matéria. A Filosofia serve para que façamos reflexões e nos indica caminhos.

Para ficarmos aqui mesmo, nos nossos tempos, empurraram para nós, goela abaixo, que o capitalismo é o sistema mais justo, mais humano, sistema este que dá oportunidades iguais a todos. A propaganda que divulga isso é fortíssima, uma autêntica lavagem cerebral de fazer inveja a Joseph Goebbels, o chefe da Propaganda nazista (“Uma mentira, repetida mil vezes, vira verdade”, era sua marca registrada).

E o que vemos hoje? O capitalismo trouxe, com sua ganância desmedida, as maiores desigualdades entre os povos, assemelhando-se em muito com o Feudalismo. Os “escolhidos” pelos reis da ocasião, recebem recursos e mais recursos, enquanto os “não escolhidos” … que passem muito bem obrigado.

Já li na Tribuna da Imprensa e no O Globo que o Sr Sílvio Santos salvou seu banco – PanAmericano – com 4 bilhões de reais da Caixa. Agora, a Míriam Leitão escreve que os recursos destinados (pela Caixa, novamente) para evitar a quebra do banco, já ultrapassam os 9 bilhões de reais.

E isto está acontecendo em todo o mundo: bancos oficiais salvando bancos particulares … com o dinheiro dos contribuintes!!! Karl Marx insurgiu-se tremendamente contra isso, contra o Feudalismo e … foi amaldiçoado pelos capitalistas. Faz todo o sentido.

No Rio de Janeiro, a esperança na vida pública com Marcelo Freixo

Sandra Starling (O Tempo, de BH)

Acompanhei pelos jornais, incrédula, o lançamento da candidatura de Marcelo Freixo, do PSOL, à Prefeitura do Rio de Janeiro. Diante de uma plateia composta de alguns dos melhores artistas do Brasil e de personalidades como Frei Betto e Leonardo Boff, esse jovem voltou a me dar esperança na vida pública. Ele promete fazer uma campanha como as que o PT fazia em sua origem, recusando-se a receber doações de empresas e buscando contato o mais direto possível com o eleitorado, mesmo que através de redes sociais.

Posso vir, outra vez, a quebrar a cara, como quebrei com Barack Obama. Esse agiu em sua primeira campanha de tal maneira que acabei me convencendo de que, afinal, nos Estados Unidos, um negro redimiria o espaço da política, engajando os cidadãos e não apenas querendo os votos deles. Comitês espontâneos brotaram país afora, e o então candidato ainda fazia gestos inesquecíveis para quem convive com a manipulação rasteira, eufemisticamente denominada entre nós de “realismo pragmático”.

Tenho escrito e repetido que, no Brasil, as palavras já não correspondem a seus conteúdos efetivos. Crime é tratado como malfeito, caixa 2, como recursos não-contabilizados e daí por diante.

Mas voltando à campanha de Obama: este não recebeu doações de empresas, só de contribuintes individuais, e chegava a telefonar para integrantes dos tais comitês espontâneos apenas para conversar com eles e agradecer o empenho que tinham em elegê-lo. Fiquei à época tão entusiasmada que até mandei comprar uma camisa de sua campanha, que eu ostentava orgulhosa por onde ia aqui, no Brasil.

Agora, quem quiser conhecer, de fato, o que se passou depois que ele chegou à Presidência dos EUA, tem de assistir ao documentário “Inside Job”, (em português, “Trabalho Interno”), de autoria de Charles Ferguson: protagonistas de escândalos financeiros, de corrupção e de chantagens no mundo dos negócios passaram a fazer parte de seu governo em postos-chave.
Aliás, para ser mais direta, alguns também pertenceram, em pessoa ou por interposto representante, aos governos anteriores, inclusive o de George W. Bush.

Agora mesmo, estava quebrando a cara outra vez: com Luiza Erundina, que sucumbia a quem, antes, a perseguiu no PT. Ia de vice de Fernando Haddad e de braços dados com Paulo Maluf, mas teve o bom sendo de desistir.

Marcelo Freixo está tendo o apoio daqueles que Lula qualificou como inúteis em nossa modernidade: os chamados “formadores de opinião”, isto é, pessoas que, por suas contribuições culturais, fazem a cabeça (no bom sentido) das multidões. Ou os elos imprescindíveis, no dizer de Hannah Arendt, entre os cidadãos e os que se colocam como seus representantes (porque eleitos para tal) na arena pública.

É claro que não vai ser nada fácil a campanha desse moço. Basta lembrar que, contra ele, estarão as milícias e os tentáculos já capturados pelos Cachoeiras da vida. E não faltarão canetas poderosas para ser acionadas em seu desfavor.

Mas vai valer a pena acompanhar sua trajetória.

O ilimitado poder das telecomunicações ameaçando a soberania das nações

Welinton Naveira e Silva

As páginas impressas em papel estão chegando ao fim. Estão sendo substituídas pelas páginas digitais, via telecomunicações, instantaneamente enviadas aos mais remotos lugares do Planeta, a exemplo de diversos jornais já disponíveis na internet, inclusive, revistas, livros, TVs, etc. Em breve todo e qualquer documentação e artigos serão do tipo digital, via internet. Para ter acesso, basta possuir um receptor portátil adequado (senha, quando exigida), dentre tantos já conhecidos, e outros mais a caminho do mercado consumidor.

Já se escuta dizer que em futuro próximo, todos os arquivos e programas de computador, passarão a ser digitais, via internet. Os arquivos de hoje, particulares, públicos e privados, inclusive os das forças armadas, contendo sigilos militares, científicos, tecnológicos, bancários, mercadológicos, financeiros e outros mais, serão arquivados na forma virtual, inteiramente aos cuidados de empresas estrangeiras.

Será o fim dos programas e arquivos pessoais, armazenados no disco rígido do nosso computador (HD), em pen drive, cd, dvd, etc. Tudo passará a ser virtual, via telecomunicações, sob a guarda privada e estrangeira, de segurança bastante suspeita. Isso, para não falar dos valores a serem cobrados, inclusive, os que atualmente ainda são gratuitos. Será a dependência total de todo o povo, de toda sua economia e meios de produção, de toda a nação que impensadamente entregou sua telecomunicação à iniciativa privada e estrangeira.

Imaginem um jornal que venha questionar escusos interesses estrangeiros em detrimento de maiores interesses estratégicos de seu país. Por certo que estará sujeito a não ter o artigo publicado. Ainda nesse sentido, de há muito que já tomamos conhecimentos práticos da existência de censuras nas correspondências eletrônicas, via email. Dependendo do servidor, do emitente e do artigo, fazem exigências adicionais e/ou, não efetuam a entrega. Isso já existe. Não é fantasia.

O poder que essas empresas de telecomunicações estão reunindo se tornou gigantesco e perigoso, coisa jamais pensada, sequer imaginada. Constituem sérios riscos para a soberania do Brasil e de qualquer nação dependente da telecomunicação estrangeira e privada. Possuem meios de tomar conhecimento de tudo que se conversa, de tudo que é escrito, noticiado, planejado, pesquisado e arquivado. Possuem acesso às invenções, arquivos públicos, militares, bancários e privados, etc. Sem limites. Sabe-se que há telefone celular que, apesar de desligado, pode estar transmitindo toda a conversa do entorno.

Dizem que na Líbia e na Síria, os EUA já estariam fazendo largo uso da tecnologia da desinformação com interferência direta nas redes de rádio e de TVs, transmitindo notícias falsas de fantasiosas cenas de vitórias dos invasores, de aberta colaboração e adesão popular com as tropas invasoras, objetivando quebrar o moral das forças nacionalistas de resistência. Aterrador.

Indiscutivelmente, o poder que a tecnologia outorga às empresas de telecomunicações vai tornando-se cada dia maior, gigantescos, perigosos e sem limites algum. As telecomunicações, jamais poderiam pertencer à iniciativa privada. Foram indevidamente privatizadas por FHC/PSDB. Agora ficou evidente tratar-se de uma questão crucial para a segurança do Brasil e de qualquer nação soberana. Ainda há tempo para reverter tamanho absurdo e traição. Basta muita coragem e nacionalismo. Acorda Brasil.

Substituto de Erundina também rejeita ser vice de Haddad. Por que não indicar Maluf?

Carlos Newton

O repórter Bernardo Mello Franco, da Folha, revela que o advogado Pedro Dallari, filiado ao PSB, recusou convite para substituir a deputada Luiza Erundina (PSB) como candidato a vice-prefeito na chapa do petista Fernando Haddad em São Paulo.

Professor da Universidade de São Paulo, Pedro é filho do jurista Dalmo Dallari, que sempre apoiou o PT. Pedro era o preferido de Haddad para assumir o posto após a desistência de Erundina.

Ao recusar o convite, Dallari alegou ser próximo a Erundina, que anunciou ontem sua saída da chapa em protesto à aliança do PT com o PP de Paulo Maluf.

Segundo a Folha, agora quem está cotada para ser vice é a deputada federal Keiko Ota (PSB). E o PCdoB, que deve anunciar adesão a Haddad no próximos dias, está indicando Nádia Campeão, que é da Executiva do partido.

Mas por que Haddad não escolhe logo Paulo Maluf, que é muito mais conhecido do que as duas outras pretendentes?

 

Demóstenes e Cachoeira viajaram juntos aos EUA, mas foi só coincidência

Carlos Newton

A Folha de S. Paulo revela que a CPI descobriu que o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) viajou para os Estados Unidos no mesmo voo que o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

A informação sobre as viagens consta de documento enviado à CPI do Cachoeira pelo Ministério da Justiça. A comissão solicitou todos os voos internacionais de 2001 a 2012 feitos por Cachoeira, Demóstenes e a mulher do senador, Flávia Torres. Em 26 de janeiro do ano passado, os três embarcaram no voo JJ 8042 com destino aos Estados Unidos.

O documento revela que o senador passou a viajar para o exterior com mais frequência em 2011, quando se casou com Flávia. De casamento, o senador ganhou de presente de Cachoeira um fogão e uma geladeira.

Segundo a Folha, entre 2004 e 2007, o senador fez apenas um voo em cada ano para o exterior. Em 2008, foram 8 viagens; em 2009, 7 viagens; em 2010, 6 viagens; e em 2011, foram 14 viagens. Os destinos, na maioria das vezes, eram a Europa e os Estados Unidos.

O advogado de Demóstenes, Antonio Carlos de Almeida Castro, não foi localizado pela Folha. Se tivesse sido entrevistado, diria que tudo é mera coincidência. O advogado de Cachoeira, Marcio Thomaz Bastos, diria a mesmíssima coisa.

E assim caminha a humanidade, na versão política brasileira.

Desafios à Rio+20

Frei Betto

Iniciada há poucos dias, Rio+20 abriga chefes de Estado, e ambientalistas e movimentos sociais na Cúpula dos Povos. O evento corre o risco de frustrar expectativas caso não tenha, como ponto de partida, compromissos assumidos na Agenda 21 e acordos firmados na Eco-92 e reiterados na Conferência de Johanesburgo, em 2010.

Há verdadeira conspiração de bastidores para, na Rio+20, escantear os princípios do desenvolvimento sustentável e os Objetivos do Milênio, e impor as novas teses da “economia verde”, sofisma para encobrir a privatização dos recursos naturais, como a água, e a mercantilização da natureza.

O enfoque dos trabalhos deverá estar centrado não nos direitos do capital, e sim na urgência de definir instrumentos normativos internacionais que assegurem a defesa dos direitos universais de 7 bilhões de habitantes do planeta e a preservação ambiental.

Cabe aos governos reunidos no Rio priorizar os direitos de sustentabilidade, bem-estar e progresso da sociedade, entendidos como dever de garantir a todos os cidadãos serviços essenciais à melhor qualidade de vida. Faz-se necessário modificar os indicadores de desenvolvimento, de modo a levarem em conta os custos ambientais, a equidade social e o desenvolvimento humano (IDH).

A humanidade não terá futuro sem que se mudem os padrões de produção, consumo e distribuição de renda. O atual paradigma capitalista, de acumulação crescente da riqueza e produção em função do mercado, e não das necessidades sociais, jamais haverá de erradicar a miséria, a desigualdade, a destruição do meio ambiente. Migrar para tecnologias não poluentes e fontes energéticas alternativas à fóssil e à nuclear é imperativo prioritário.

Nada mais cínico que as propostas “limpas” dos países ricos do hemisfério Norte. Empenham-se em culpar os países do hemisfério Sul quanto à degradação ambiental, no esforço de ocultar sua responsabilidade histórica nas atividades de suas transnacionais em países emergentes e pobres. Há que desconfiar de todas as patentes e marcas qualificadas de “verdes”. Eis aí um novo mecanismo de reafirmar a dominação globocolonialista.

O momento requer uma convenção mundial para controle das novas tecnologias, baseada nos princípios da precaução e da avaliação participativa. Urge denunciar a obsolescência programada, de modo a dispormos de tecnologias que assegurem o máximo de vida útil aos produtos e beneficiem a reciclagem, tendo em vista a satisfação das necessidades humanas com o menor custo ambiental.

À Rio+20 se impõe também o desafio de condenar o controle do comércio mundial pelas empresas transnacionais e o papel da OMC (Organização Mundial do Comércio) na imposição de acordos que legitimam a desigualdade e a exclusão sociais, impedindo o exercício de políticas soberanas. Temos direito a um comércio internacional mais justo e em consonância com a preservação ambiental.

Sem medidas concretas para frear a volatilidade dos preços dos alimentos e a especulação nos mercados de produtos básicos, não haverá erradicação da fome e da pobreza, como preveem, até 2015, os Objetivos do Milênio.

Devido à crise financeira, parcela considerável do capital especulativo se dirige, agora, à compra de terras em países do Sul, fomentando projetos de exploração de recursos naturais prejudiciais ao meio ambiente e ao equilíbrio dos ecossistemas.

A Rio+20 terá dado um passo importante se admitir que, hoje, as maiores ameaças à preservação da espécie humana e da natureza são as guerras, a corrida armamentista, as políticas neocolonialistas. O uso da energia nuclear para fins pacíficos ou bélicos deveria ser considerado crime de lesa-humanidade.

Participarei da Cúpula dos Povos para reforçar a proposta de maior controle da publicidade comercial, da incitação ao consumismo desmedido, da criação de falsas necessidades, em especial quando dirigidas a crianças e jovens.

Educação e ciência precisam estar a serviço do desenvolvimento humano e não do mercado. Uma nova ética do consumo deve rejeitar produtos decorrentes de práticas ecologicamente agressivas, trabalho escravo e outras formas de exploração.

Enfim, que se faça uma reavaliação completa do sistema atual de governança ambiental, hoje incapaz de frear a catástrofe ecológica. Um novo sistema, democrático e participativo, deve atacar as causas profundas da crise e ser capaz de apresentar soluções reais que façam da Terra um lar promissor para as futuras gerações.

(Artigo enviado pelo jornalista Sergio Caldieri)

A guerra civil na Síria e o drama do Egito

Roberto Nascimento

É uma vergonha a participação das potências européias na insurgência dos países árabes. A Inglaterra dividiu e enfraqueceu os povos muçulmanos impedindo a unidade árabe. Depois os americanos, a nova potência que emergiu após a segunda guerra, também trilharam esse caminho da divisão.

Para impedir o retorno da unidade viabilizada pelo presidente Nasser do Egito, foram estimulados golpes de Estado em série nos países árabes. E agora, depois de décadas de controle dos militares golpistas (Mubarack, Kadafi, Assad e Hussein) no Egito, Líbia, Síria e Iraque, chegou a hora de mudar para que tudo fique na mesma.

O enredo está traçado: cria-se um vácuo de poder, que desestabiliza a sociedade através da guerra civil e depois advém novo golpe de Estado para a continuidade do colonialismo.

Esse roteiro começa a dar sinais claros com a tomada do parlamento pelos militares egípcios, com apoio da Suprema Corte do país. Primeiro, o Parlamento cai nas mãos dos autoritários do antigo regime, que não o entregarão à Irmandade Muçulmana tão facilmente. Logo depois tomam conta de tudo em nome da estabilidade e da ordem interna.

Só não vê quem não quer ou quem acredita em milagres na política. Nações não têm amigos; somente – e tão somente – interesses. Desde os tempos imemoriais.

Erros meus a que chamarei virtude

Como dizia Rubem Braga, a poesia é necessária. Vamos hoje a dois sonetos do poeta português Afonso Duarte (1884-1958).

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ERROS MEUS A QUE CHAMAREI VIRTUDE

Erros meus a que chamarei virtude,
Por bem vos quero, e morro despedido
Sem amor, sem saúde, o chão perdido,
Erros meus a que chamarei virtude.

A terra cultivei, amargo e rude,
No sonho de melhor a ter servido;
Para ilusão de um palmo de comprido,
A terra cultivei, amargo e rude.

E o amor? A saúde? Eis os dois Lagos
Onde os olhos me ficam debruçados
— Azul e roxo, rasos de água os Lagos.

Mas direis, erros meus, ainda amores?
— São bonitos os dias acabados
Quando ao poente o Sol desfolha flores.

Afonso Duarte, in “Sibila”

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CABELOS BRANCOS

Cobrem-me as fontes já cabelos brancos,
Não vou a festas. E não vou, não vou.
Vou para a aldeia, com os meus tamancos,
Cuidar das hortas. E não vou, não vou.

Cabelos brancos, vá, sejamos francos,
Minha inocência quando os encontrou
Era um mistério vê-los: Tive espantos
Quando os achei, menino, em meu avô.

Nem caiu neve, nem vieram gelos:
Com a estranheza ingênua da mudança,
Castanhos remirava os meus cabelos;

E, atento à cor, sem ter outra lembrança,
Ruços cabelos me doía vê-los …
E fiquei sempre triste de criança.

Afonso Duarte, in “Ossadas”

Justiça do Amazonas extingue processo contra prefeito que ficou parado 16 anos

Roberto Monteiro Pinho

A Justiça Eleitoral do Amazonas decidiu pela extinção de um processo contra o deputado cassado Wilson Lisboa (PCdoB), que prescreveu após ficar parado durante 16 anos. A ação judicial foi movida na época em que Lisboa era prefeito de Fonte Boa (a 678 quilômetros a oeste de Manaus).

Lisboa era acusado pelo Ministério Público do Estado de desvio de recursos públicos, ordenação de despesas sem autorização e aquisição de bens ou realização de obras sem licitação. O ex-vice-prefeito de Lisboa, José Ferreira, também era acusado de desvio de recursos, mas o processo foi arquivado na “poeira do tempo”.

Essa leniência fustiga a credibilidade do Poder Judiciário e desestimula a procura do direito pelo cidadão, favorecendo a impunidade dos criminosos. E isso ocorre porque, de fato, a participação da sociedade civil na administração da justiça inexiste. A sociedade é mero coadjuvante da atividade jurisdicional do Estado.

Na concepção de Tom B. Bottomore, a participação da sociedade na administração da justiça “é proposta como uma solução do problema da alienação, da perda de controle do homem sobre o planejamento de sua vida”, e que na lição de J. J. Calmon de Passos busca “superar o exacerbamento do Estado em detrimento da liberdade, recuperando-se, para a sociedade, um poder de controle que a democracia liberal e a social democracia não previram nem efetivaram”.

Erundina aproveita para faturar a súbita notoriedade

Carlos Newton

A política brasileira está cada vez mais rasteira, vive-se um tempo de permissividade, em que as convicções vão por água abaixo, num festival de
ilusionismo ideológico. Cada um quer levar mais vantagem do que o outro. A política se resume a isso.

Na coalizão de São Paulo, por exemplo, o Partido dos Trabalhadores de Lula, por exemplo, já não faz jus ao nome, o Partido Socialista Brasileiro de Eduardo Campos não tem mais nada de socialista, assim como Partido Progressista de Paulo Maluf deveria ser denominado Partido Reacionário.

Indicada a vice de Fernando Haddad (PT), a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) só aceitou porque ganharia visibilidade política e cobertura  garantida na mídia, para facilitar sua próxima candidatura a deputada federal em 2014.

Recorde-se que ela tinha tudo para virar as costas ao PT, que em 2003 a suspendeu por um ano, quando  foi convidada, pelo então presidente Itamar Franco, para se tornar ministra-chefe da Secretaria da Administração Federal. Desde então, ficou marginalizada no PT, até que, em 1997, depois de 17 anos de militância, deixou o partido.

Agora, 15 anos depois, foi convidada para ser vice do petista Haddad e aceitou, repita-se, exclusivamente para ganhar espaço na mídia. Mas não aguentou a hipocrisia da aliança do PT com Paulo Maluf, criticou publicamente a insólita coalizão. Com isso, ganhou ainda mais divulgação. E depois resolveu abandonar a candidatura a vice-prefeita, abrindo uma cratera na campanha de Haddad.

O desconforto de Erundina foi evidenciado segunda-feira, após ela conceder entrevistas aos sites da revista “Veja” e do jornal “O Globo”, afirmando que pretendia rever sua permanência na chapa de Haddad. E na terça-feira desistiu, ganhando uma notoriedade que há tempos não tinha. E daqui para a frente continuará tendo, porque seu partido se mantém ligado à campanha de Haddad e ela, a maior estrela, fica de fora, mas sempre no foco da mídia. Genial.

 

Sob o signo de Groucho Marx

Carlos Chagas

A repetição vai por conta do vexame: aonde foi parar o PT de trinta anos atrás, aquele partido que se pretendia diferente, puro, pleno da esperança de mudar o país? Mais do que acabar no Irajá, parece ter ido atrás da vaca, quer dizer, para o brejo. Despencou na vala comum, já faz tempo, ainda que agora tenha acabado de bater todos os recordes m termos de profundezas. Numa palavra, o PT malufou. E de forma desonrada, bastando atentar para a fotografia estampada nos jornais de ontem. O primeiro-companheiro confraternizando com Paulo Maluf.

Humilhado, o Lula entrou na toca da onça. Ou da hiena, ainda que sorrindo estivessem todos no jardim não propriamente do Éden, mas do Capeta. Escapou da fotografia, não da lambança, o presidente do partido, Rui Falcão, por haver fugido do registro das imagens. Apesar disso também estava lá, sem falar no Fernando Haddad.

Não há frustração por parte das gerações que fundaram o Partido dos Trabalhadores, porque a maioria delas já escapuliu há muito. No máximo, um lamento a mais pelo engodo.

Paulo Maluf tripudiou ao exigir a presença dos dirigentes petistas em sua mansão. Só não teve coragem para convidar o presidente nacional do PP, Francisco Dornelles, que se não fosse calvo teria arrancado os cabelos. Afinal, os Progressistas apóiam o governo, mas dentro de certos limites. Jamais na demonstração de ocupar lugar de destaque no balcão de negócios.

Foi uma pantomima, em especial quando o Lula calou-se diante da afirmação do ex-governador e ex-prefeito de São Paulo de não haver mais ideologias, nem esquerda nem direita. Grande balela, essa, que leva o PT a reafirmar suas atuais tendências conservadoras. Depois de engajar-se no modelo neoliberal dos tucanos, nos últimos nove anos e meio, a agremiação antes operária rende-se ao que há de pior no reino das ideologias.

Quando de sua fundação o PT quase se definiu como marxista. Depois, passou de Karl para Groucho, porque tem Groucho Marx como patrono, aquele que subia ao palco para elogiar a América como o país das oportunidades, já que ao lá desembarcar não tinha um dólar. E diante da platéia curiosa tirava uma moeda do bolso do colete e dizia: “agora, eu tenho um dólar”…

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FRUSTRAÇÃO TUCANA

Nessa lambança não faltou o capítulo que o PSDB tentou encenar, porque também disputou o apoio do PP para o seu candidato. Felizmente, José Serra não precisou comparecer ao jardim dos Maluf, pois o PT prometeu mais e ganhou o minuto e meio de tempo de televisão na campanha. Mas os tucanos teriam voado para a residência do ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, se tivessem oferecido mais e sido escolhidos. Porque ninguém sabe quanto custou o apoio do PR de Valdemar da Costa Netto e de Alfredo Nascimento

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TORPEZA

Torpe também é a barganha que cerca as campanhas eleitorais. Discute-se tempo de televisão, jamais programas de ação. Fisiologismo puro. Vale tudo na disputa pelo poder, de promessas de nomeações ao fatiamento dos governos. Jamais, na crônica dos processos eleitorais, assistiu-se tamanha falta de convicções políticas. O triste episódio da prefeitura de São Paulo é apenas um, em meio a tantas barganhas. Nas capitais estaduais, quase sem exceção, as negociações para a escolha de candidatos imitam a maior cidade do país.

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E O ELEITORADO?

Apesar de o voto ser obrigatório, bem que o eleitorado poderia tomar-se de asco e nojo, não comparecendo às urnas. Se mais da metade dos eleitores ficasse em casa, no próximo 7 de outubro, as eleições seriam anuladas. E os candidatos, repudiados, junto com os partidos. A Constituição manda que, nesse caso, novas eleições sejam convocadas, mas nada impede os mesmos candidatos se apresentando…

Lula com Maluf: um desastre que a TV Globo não percebeu na hora

Pedro do Coutto

O acordo firmado entre Lula e Paulo Maluf, nos jardins suspensos da mansão  do deputado, marcado por efusivos apertos de mãos e abraços entre o ex-presidente e aquele que nega ser titular de uma conta de 342 milhões de dólares no Citibank da Ilha Jersey, foi um rematado desastre político para o grande eleitor de Dilma Roussef e fundador do Partido dos Trabalhadores.

Irremediável sob todos os aspectos. O olhar jovem e um sorriso forçado de Fernando Haddad, o homem objeto do apoio impossível, magnificamente captados por Eliária Andrade (O Globo) e Moacir Lopes (Folha de São Paulo) não deixam dúvida quanto a impropriedade da cena.

Manchete principal dos dois jornais, terça-feira, e também de O Estado de São Paulo. No Globo, o texto é de Sérgio Roxo. Na FSP, de Fernando Melo Franco e Diógenes Campanha. Vão ser remetidos para a enciclopédia brasileira das contradições.

Pena que Antonio Houaiss não esteja mais entre nós. Com toda essa importância, aliás negativa para Luiz Inácio, surpreende que a TV Globo não tenha programado exibido a matéria no Jornal Nacional de segunda-feira. Escrevo este artigo na tarde de terça. Pode ser que à noite ela tenha entrado no JN. Até incluindo a repercussão.

Mas nem por isso a falha deixa de existir. O editor do telejornal não pesou devidamente o assunto. Deixou o teor e o tema, na verdade o teorema, para os jornais do dia seguinte. Tecnicamente nada explica a lacuna. A começar pelo fato de a Globo News, no jornal das seis, ter divulgado e comentado o surpreendente acontecimento. Inclusive foi chamada a sucursal de Brasília para ouvir Cristiana Lobo, comentarista da rede.

Isso prova, mais uma vez, que nem sempre o meio é a mensagem. Muitas vezes é, porém nem sempre. A meu ver, nada substitui o conteúdo da matéria. Um conteúdo fraco não conduz mensagem alguma. O que sustenta o meio, no caso o transporte da notícia e da opinião, é a força de que se reveste. E tenho a certeza, como digo sempre, que não existe no mundo veículo de comunicação, por mais forte que seja, que se torne mais forte do que a verdade. Do que a verdade e da oportunidade. Os fatos comprovam. Poderia citar vários exemplos, mas não vale a pena.

O essencial é o absurdo completo da atitude de Lula. O ex-presidente foi ao encontro de alguém cuja prisão foi decretada pela Justiça de Nova Iorque, procurado pela Interpol por iniciativa do FBI, e que, por isso mesmo, não pode sair do Brasil. Se sair e for parar num país que possua tratado com os EUA, acontecerá com ele o que ocorreu com Salvatore Cacciola quando cruzou a fronteira italiana e chegou a Mônaco.

Foi com esse homem, adversário amargo e eterno do PT, que Lula foi se encontrar no palacete dos Jardins paulista. Para Maluf foi ótimo, como disse minha mulher, comentando o fato. O ex-presidente esqueceu o passado recente e endossou politicamente o ex-prefeito e ex-governador.

Inclusive, um dos motivos que levaram à criação do PT, em 1980, foi exatamente a oposição e o combate a Paulo Maluf e a tudo que ele representava. E representa, sem dúvida. Lula omitiu tudo que houve.

Assim, a contradição é total. E para quê? Para nada. Porque Erundina desistiu e a reação de quadros do próprio Partido dos Trabalhadores a tão estranha adesão, que já era grande, passou a ser maior. Lula com Maluf não vai conseguir fazer Haddad decolar, tampouco evitar sua derrota nas urnas de São Paulo. É só esperar o dia 7 de outubro.

O cabo Ricardo e os pacotes de Ademar

Sebastião Nery

Ele era cabo do Palácio Bandeirantes, quando Ademar de Barros era governador de São Paulo. Todo fim de mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado, muito bem fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho, nos subúrbios da capital. E trazia de volta, mandado pelo senhor gordo um pacote grosso, fechado, muito bem fechado.

Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã bem cedo, o cabo levando o envelope fino e trazendo o pacote grosso. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Estava ali cumprindo seu dever. E o segredo era o primeiro preço do dever.

Um dia, o cabo não se conteve. Cheio de cuidados, abriu, pela ponta, discretamente, o pacote grosso. Era dinheiro. Muito dinheiro. Tudo nota de mil. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30, quando lhe deram de novo o pacote fino, abriu. Era um cartão:

“50 contos no bicho que der”.

O cabo pegou uma caneta em um botequim, emendou:

“50 contos no bicho que der. Aliás, 55”.

Nunca mais lhe deram o envelope fino nem o pacote grosso. Foi demitido.

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O CABO DE SERRA

Ricardo Sérgio, o cabo de José Serra, passou anos pegando grossos pacotes de dinheiro para Fernando Henrique e para Serra, para as campanhas de Fernando Henrique e de Serra. Pegava e entregava. Na doação da Vale do Rio Doce, não se conteve. Abriu o pacote grosso. Era muito dinheiro. Tudo nota de dólar. Bilhões de dólares. Pediu dez milhões “para os tucanos”. Aliás, 15 milhões, 5 para ele. Ele também era filho de Deus e tucano.

Na época, todo mundo pensando na copa de futebol e o governo começava a copa do cinismo. Fernando Henrique dizia que não se lembra mais de ter conversado com seu ministro Mendonça de Barros, que lhe contou a história. Serra dizia que só recebeu R$ 95 mil de Carlos Jereissati para a campanha de senador em 94, que declarou ao Tribunal. Jeireissati desmentiu. Disse que deu US$ 700 mil (na época, um real valia um dólar) para a campanha de Serra: 95 mil em dinheiro e 600 mil pagando o avião dele.

Para pagar os pacotes grossos do cabo Ricardo Sérgio, Fernando Henrique, mal tomou posse na presidência, em 95, a pedido de Serra, nomeou o cabo Ricardo diretor internacional do Banco do Brasil e lhe entregaram o comando da Previ, o rechonchudo fundo de pensão de R$ 36 bilhões do Banco do Brasil. Deram ao cabo os envelopes finos e os grossos.

Na maracutaia das Telecomunicações, o cabo Ricardo, promovido a um dos generais da telegangue, continuou tucanando. Segundo o ex-senador Antônio Carlos contou no programa de Boris Casoy, na Record, e a “Veja” publicou na época, o cabo Ricardo exigiu US$ 90 milhões para a Previ comprar a Telemar para o grupo de Carlos Jereissati. Deram US$ 60 milhões e, segundo Daniel Daniel Dantas, do Opportunity, o cabo ainda cobra US$ 30 milhões.

Por mais que o cabo Ricardo tenha sido promovido a general tucano, por ser perito em envelopes finos e pacotes grossos, é evidente que esses US$ 90 milhões não eram e não foram só para ele. Só uma CPI poderia ter apurado.