Arquivos por mês: junho 2012

O que aconteceu com os professores serve de exemplo

Silvio Miguel Gomes

É um bom argumento: Educação melhor para todos. Todos devemos cobrar do Estado. Mas é apenas “um bom argumento”, usam exclusivamente como argumentação, na verdade não dão a mínima.

O que aconteceu com os professores é um bom exemplo: até os anos 80 “todos os jornalistas e toda a grande imprensa” apoiavam as greves dos professores (é claro, da rede pública). Usavam os professores ( da rede pública, é claro) como “bucha de canhão para ajudar a derrubar o que restava da ditadura”.

Posteriormente, e principalmente em Estados nos quais ganharam o poder governadores apoiados pela grande imprensa, passaram a atacar e humilhar os professores. O nome disso é traição. Salário maior aos professores já não faz parte do “discurso” para se ter “boa educação para todos”.

Faz sucesso na internet um artigo de Alexandre Garcia sobre a bolha da economia brasileira

Alexandre Garcia

Não sei se torço para que seja verdade ou para que seja engano…  O Rei Juan Carlos esteve com a presidente Dilma. Fico imaginando a chefe de estado do Brasil a dizer ao chefe de estado da Espanha: “Eu sou você, amanhã”, tal como na propaganda de vodka.

Não é difícil chegar a essa conclusão. A crise na Espanha começou quando se decidiu que a expansão imobiliária seria uma solução maravilhosa para o crescimento do país: criaria emprego na construção civil ao mesmo tempo em que resolveria do problema da habitação.

Empregou-se muita gente e estrangeiros começaram a chegar aos milhares para atender à demanda de mão-de-obra. Tijolo e concreto se tornaram sinônimos de riqueza. Áreas verdes foram cobertas por construções, assim como o cinturão verde de muitas cidades.

Em poucos anos, o preço do metro quadrado disparou e o boom da construção atraiu especuladores. O metro quadrado da habitação subiu, mas os salários não. Os bancos, para manter a roda circulando, baixaram exigências para financiamentos, não se importando com a renda do financiado nem com as garantias.

Imaginaram que se o imóvel estava se valorizando tanto, se o devedor não pudesse pagar, venderia o imóvel por mais preço e ainda sobraria dinheiro. E ofereceram crédito para comprar casa, carro, móveis, eletrodomésticos, viagens… A dívida se tornou fator de crescimento.

Mas aí, estourou a bolha dos Estados Unidos. Os espanhóis se retraíram, o consumo caiu, vieram as demissões e se descobriu que o país se sustentava tirando do futuro; nunca houve realmente riqueza nem subida na escala social.

Você que me lê, e percebe as semelhanças, bata na madeira para torcer que por aqui não aconteça o mesmo. Os sinais são alarmantes: o PIB brasileiro do primeiro trimestre deste ano, segundo o IBGE, aumentou apenas dois décimos por cento(0,2%). A inflação vai crescer o dobro do PIB neste ano.

Na Veja , a excelente Lya Luft chama de “ilusão” o que está acontecendo no Brasil. Ela mostra como também estamos sacando do futuro. “Palavras de ordem nos impelem a comprar, autoridades nos pedem para consumir, somos convocados a adquirir o supérfluo, até danoso, como botar mais carros em nossas ruas atravancadas ou em nossas péssimas estradas…Estamos enforcados em dívidas impagáveis, mas nos convidam a gastar ainda mais, de maneira impiedosa, até cruel.”- escreveu ela. Nossa bolha está inchada.

E é de sabão.

Basta! O Brasil não é saco de pancadas de ninguém.

Humberto Viana Guimarães

Quem bem estudou a matéria História do Brasil sabe que a penúltima vez que um país ousou tomar algum patrimônio do Brasil foi o Paraguai, que, por ordem do ditador Francisco Solano Lopez, em 12 de novembro de 1864, tomou à força – manu militari – o navio imperial Marquês de Olinda. A consequência por este ato insano foi imediata, com a declaração de guerra do Brasil ao Paraguai, pois o imperador dom Pedro II não permitiu que a nossa soberania fosse vilipendiada.

Quase 142 anos depois, no dia 1º de maio de 2006, Evo Morales, ex-presidente do sindicato de produtores de coca, agora alçado a presidente da República da Bolívia, mandou as tropas do Exército ocupar e confiscar os campos de gás e instalações da Petrobras naquele país. Recordemos que a estatal brasileira já havia investido mais de US$ 1,5 bilhão na Bolívia e, como resultado do seu esforço, viabilizou não só a extração do gás natural naquele país como a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil.

Não obstante a Petrobras sempre ter trabalhado dentro das mais rigorosas normas internacionais, o ex-cocaleiro teve a tremenda cara de pau de acusar nossa empresa petrolífera de fazer contrabando, de sonegar impostos e de operar ilegalmente. Tamanhas ofensas atingiram não só a Petrobras mas, também, o povo brasileiro, já que a empresa tem como sócio majoritário o governo brasileiro e milhões de acionistas minoritários, no número dos quais me incluo.

O governo boliviano, ao usurpar o patrimônio dos brasileiros, humilhou o nosso país. E qual foi a reação das autoridades brasileiras? Uma pífia e vergonhosa nota do Itamaraty, que naquela época era comandado por Celso Amorim, através da qual reconhecia que a decisão boliviana era um “ato inerente à sua soberania”.

Passados seis anos, precisando o presidente cocaleiro criar mais um factoide para reverter o seu baixo prestígio, voltou a atacar o Brasil. Como já não tinha a Petrobras para servir de bode expiatório, partiu com tudo para cima da construtora brasileira OAS, que, no dia 10 de abril, teve anulado um contrato — estimado em US$ 415 milhões (sendo US$ 332 milhões financiados pelo BNDES) — para a construção de uma estrada de 325 quilômetros naquele país.

Segundo a matéria “Presidente da Bolívia cancela contrato com a construtora brasileira OAS”, publicada pelo Jornal do Brasil (10/04), o presidente boliviano, ao valer-se da mesma lenga-lenga para cometer as suas arbitrariedades, como fez com a Petrobras em 2006 (procedimento típico dos tiranetes), alegou “que há uma fraude ou algo suspeito” e que a construtora havia descumprido várias obrigações contratuais.

E qual foi a reação do governo? De acordo com o jornal Valor (27/04), a senhora presidente Dilma Rousseff declarou que o governo brasileiro “não é advogado da OAS” e que “não podemos dar a impressão de que somos porta-vozes da empresa. Mas achamos que o governo boliviano foi além nesse caso”.

Segundo o citado jornal, uma fonte ligada ao governo declarou que “medidas como essa são muito mais marketing político do que intenção de dar uma pancada no Brasil. Não nos interessa ter um conflito com o vizinho”.

É triste dizer, mas, uma vez mais, o Brasil se dobrou aos caprichos da Bolívia. Não foi por acaso que Evo declarou em seguida que “Dilma era uma mãe para a Bolívia”.

Como o governo, eu não sou advogado (nem consultor) da OAS, mas, acima de tudo, temos que defender os interesses dos nossos cidadãos e de nossas empresas que trabalham no exterior. Para um bom entendedor, o recado da presidente Dilma foi claro: a OAS e outras empresas que se virem, pois, se depender do governo brasileiro, vão ficar “a ver navios” na Bolívia e em outros países.

Talvez, por saber como seria a reação do governo brasileiro, no dia 3 de abril, a província argentina de Neuquén cancelou de forma arbitrária a concessão da Petrobras no campo de Veta Escondida, obviamente sob as ordens da contumaz rompedora de contratos, a presidente Cristina Kirchner.

Até quando o governo vai permitir que o Brasil continue sendo saco de pancadas dos seus vizinhos? A nossa dignidade e soberania não são moedas de troca por alguns milhões de metros cúbicos de gás e outros produtos.

Quem é do ramo conhece um texto intitulado “Geisel avisava”, no qual se lê: “E quando aqueles bolivianos fecharem a válvula, o que é que eu faço? Mando o Exército lá abrir?” Respeitosamente, pergunto à presidente Dilma: se um dia Evo Morales resolver fechar as válvulas que abastecem o gasoduto Bolívia-Brasil, qual será a reação de Vossa Excelência.

(Matéria transcrita do JB Online,
enviada pelo comentarista Paulo Peres)

A diva Bibi Ferreira, aos 90 anos, ensina a viver

Sandra Starling (O Tempo, de Belo Horizonte)

O título que dou a este artigo nos evoca a adorável comédia teatral de Colin Higgins. Tive a feliz oportunidade de assistir a essa peça em um palco carioca, com a inesquecível e talentosa Henriette Morineau no papel de “Maude”. Essa peça mudou a minha vida. Valho-me dessa lembrança para relatar outra lição de vida que tive, há poucos dias, também em um teatro do Rio de Janeiro. Dessa vez, pela maestria de outra atriz igualmente maravilhosa: Bibi Ferreira.

Bibi completou 90 anos na semana que passou. Ainda totalmente lúcida, firme e genial. Capaz de magnetizar o público por mais de uma hora, cantando músicas que marcaram a sua longa carreira. Indizível.

O ponto alto do espetáculo se dá quando Bibi canta as músicas que Chico Buarque fez para “Gota d’’Água”, que ele escreveu em parceria com o então companheiro de Bibi, o dramaturgo autodidata Paulo Pontes. Para quem não sabe, foi Paulo Pontes quem, juntamente com Oduvaldo Viana Filho, nos idos dos anos 1970, criou “A Grande Família”, que até hoje nos entretém com as peripécias de Lineu, Nenê e agregados.

Bibi viveu com ele o mesmo romance de Maude e Harold. Porém, diferentemente do que ocorre na peça de Higgins, quem morre, na vida real, é o Harold de Bibi. Paulo Pontes faleceu acometido de um câncer devastador, aos 37 anos, no auge do sucesso de “Gota d’’Água”, a maior peça jamais feita na dramaturgia brasileira.

Por uma dádiva do destino, pude ver Bibi cantar “Basta um Dia”, como protagonista daquela peça. Não sabíamos se ela chorava por causa de sua própria dor ou a de Joana, a magnífica Medeia dos miseráveis brasileiros. Inesquecível.

Assistir ao espetáculo me fez voltar à minha juventude em Diamantina. Em uma visita à sua cidade natal, JK foi acompanhado por Procópio Ferreira, pai de Bibi, para uma encenação da qual não me recordo, mas que provocou em mim uma comichão incontrolável: ser atriz. Não sei como, mas fui apresentada ao diretor Vitor Berbara, que havia sido o primeiro a conduzir Bibi em cena. Após ensaio de algum “sketch”, Berbara quis que eu fosse estudar artes cênicas. Ecoam ainda dentro de mim as suas palavras: “Você deveria estar em Nova York”. Isso aconteceu mesmo!

Meu pai, juiz de direito da comarca, abortou essa “sandice”, conforme suas palavras. Como em uma canção de Chico Buarque, “segui a minha jornada”, que me levou para bem longe do teatro…

Nesses tempos em que o tsunami da crise econômica mundial vai se avolumando, e a política continua marcada pela hipocrisia e o total rebaixamento ético, assistir a uma apresentação de Bibi Ferreira é um verdadeiro bálsamo para a alma.

Ela se encontra e se reencontra no palco. Altiva, serena, brinca com a plateia e brinca consigo mesma. Os espectadores, em plena senectude, saem do espetáculo, certamente, com a mesma sensação de arrebatamento que eu tive. Todos, naquele pequeno intervalo de tempo, totalmente mágico, apesar da idade, ainda aprendem a viver. Viva a eterna diva do teatro brasileiro!

Jornais de Madri revelam que mercenários espanhóis estão lutando para derrubar governo da Síria

Carlos Newton

A mídia internacional continua falseando as notícias sobre Síria, para demonizar o governo do país e esconder as atrocidades cometidas pelos rebeldes e pelos mercenários que os apóiam. Mas desta vez dois jornais de Madri noticiaram que mercenários espanhóis estão participando de ações armadas terroristas na Síria.

A agência de notícias síria Sana citou notícias dos diários espanhóis El País e El Mundo, que dão conta da morte do primeiro terrorista da Espanha no país árabe. Ambas as publicações indicaram que o cidadão espanhol Rachid Hussain Mohamed ou Rachid Wahbi, nascido em Ceuta há 32 anos, e que trabalhava como taxista, morreu em lugar indeterminado da Síria.

Desconhece-se em quais circunstâncias de combate morreu este mercenário espanhol. Sabe que outros espanhóis, como Mustafá Mohamed Abselam, apelidado de “Tafo”, e Mustafá Mohamed Layachi, conhecido por “Piti”, também viajaram à Síria através da Turquia para se incorporarem às fileiras da Irmandade Muçulmanos, segundo o jornal El Mundo.

Por sua vez, o jornal El País assegurou que as autoridades investigam como foram recrutados, quem custeou sua viagem, que itinerário seguiram e se encontrara, com jovens marroquinos de Castillejos e Tetuán, de onde partiram também pelo menos outros mercenários espanhóis..

O jornal também informa que todos eles passaram aparentemente por território turco, pelas províncias orientais onde estão baseadas as milícias do autodenominado Exército Sírio Livre.

Enquanto isso, na imprensa internacional…

Mercenários na Síria escondem os rostos

Um fato e suas versões

Percival Puggina

Se eu compreendi direito, temos duas versões totalmente divergentes sobre a trombada ocorrida na esquina da vida onde recentemente se cruzaram Lula, Nelson Jobim e Gilmar Mendes. Numa das versões, o ministro do Supremo foi insistentemente pressionado e, por fim, ouviu uma insinuação que entendeu e contestou como se chantagem fosse. Noutra, foi um encontro cordial, em que o trio abordou “questões genéricas, institucionais”. Quase como se estivessem jogando conversa fora.

Existem coisas inverossímeis. Claro que verossimilhança e seu antônimo não servem para firmar convicções absolutas, mas ajudam a gente a não fazer papel de bobo. Perante afirmações de difícil comprovação, podemos apelar para esse critério. Assim, por exemplo, se alguém disser que São Francisco de Assis acumulou uma fortuna em esmolas e a enterrou em algum ponto da Úmbria, a gente pode rejeitar a afirmação como falsa.

Ela não seria coerente com a história de vida de uma pessoa que levou seu desapego aos bens materiais ao ponto de retirar-se da abonada casa paterna sem ter sequer um bolso para colocar as mãos. Não, não. O Poverello morreu poverello como uma andorinha.

Todavia, se nos disserem que Mark Zuckerberg, o mal falado criador do Facebook, atropelou alguém no mundo dos negócios, podemos admitir o fato como provável porque há vários relatos nesse sentido. Assim também, se for atribuída a Carlinhos Cachoeira alguma operação empresarial irregular, a coerência entre a acusação e a imagem pública do cidadão será útil para formar opinião a respeito do episódio em si.

Pelo viés oposto, quando lemos que Demóstenes Torres tinha “liaisons dangereuses” com o mundo do crime, foi necessário que se exibissem muitas evidências para criar um convencimento a respeito porque se tratava de algo incompatível com quanto dele até então se sabia.

A notícia do encontro entre Lula e o ministro Gilmar Mendes, no escritório do ex-presidente do STF, nos coloca perante uma dessas situações. É inverossímil que os três ali estivessem apenas para tratar de generalidades. Vale lembrar, adicionalmente, que Lula, ao deixar a presidência, informou que dedicaria parte de seu tempo a provar que o mensalão não existiu.

Ora, o referido processo, depois de longa jornada através dos anos e das linhas e entrelinhas dos códigos, está em vias de desabar muito peso pesado da política nacional sobre o colo dos onze do STF. Para quem queria provar que o mensalão não existiu, uma absolvição no Supremo (ou um adiamento para as calendas da impunidade geral) seria tudo de bom. Por outro lado, ninguém pode acusar o ex-presidente de excesso de escrúpulos no jogo do poder. Que o diga a ciranda de ministros a que restou constrangida a presidente Dilma.

Tampouco se atribuirá a Lula qualquer devoção à sacralidade das instituições ou reverência às melhores regras do jogo político. Eis porque, quando a notícia da reunião se tornou pública, ouvi negativas à versão de Gilmar Mendes, mas não vi uma única boca aberta em forma de “o” expressando incredulidade:

“Quem? O Lula? Não! Ele jamais seria capaz de uma coisa dessas!”. É aí que entra, novamente, a questão da verossimilhança. Ela não faz prova. Ela não condena. Sobre ela incide, sempre, poderosa dúvida razoável a serviço dos advogados de defesa. Mas o passado conta. E nem toda história ou biografia ganha o privilégio de uma comissão encarregada de a reescrever ao gosto da freguesia. Pelo menos é o que se espera.

(Transcrito do blog do Puggina)

Uma análise poética sobre a fama e sobre a vida real

Como dizia Rubem Braga, a poesia é necessária. E vejam a grandeza do genial poeta e escritor americano Walt Whitman.

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QUANDO ANALISO A CONQUISTADA FAMA

Walt Whitman

Quando analiso
a conquistada fama dos heróis
e as vitórias dos grandes generais,
não sinto inveja desses generais
nem do presidente na presidência
nem do rico na sua vistosa mansão;
mas quando eu ouço falar
do entendimento fraterno entre dois amantes,
de como tudo se passou com eles,
de como juntos passaram a vida
através do perigo, do ódio, sem mudança
por longo e longo tempo atravessando
a juventude e a meia-idade e a velhice
sem titubeios, de como leais
e afeiçoados se mantiveram
— aí então é que eu me ponho pensativo
e saio de perto à pressa
com a mais amarga inveja.

Walt Whitman, in “Leaves of Grass”

Rio+20: o futuro que queremos é um prolongamento do presente

Leonardo Boff

O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho paradigma da dominação da natureza para extrair dela os maiores benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. O ser humano deve buscar os meios de sua subsistência.

A economia verde radicaliza essa tendência; como escreveu o diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón, “ela busca não apenas mercantilizar a madeira das florestas, mas também sua capacidade de absorção de dióxido de carbono”. Tudo pode se transformar em bônus negociáveis pelo mercado e pelos bancos.

Destarte, o texto se revela definitivamente antropocêntrico, como se tudo se destinasse ao uso exclusivo dos humanos e a Terra tivesse sido criada somente para eles e não para os outros seres vivos que também exigem sustentabilidade das condições ecológicas para a sua permanência neste planeta.

Resumidamente, “o futuro que queremos”, lema do documento da ONU, não é outra coisa que o prolongamento do presente. Este se apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto desses, não avançar é retroceder.

Há, outrossim, um agravante: todo o texto gira ao redor da economia. Por mais que a pintemos de marrom ou de verde, ela guarda sua lógica interna. Quanto posso ganhar no tempo mais curto, com o investimento menor possível? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza, sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade. Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia Michel Serres.

Nessa guerra, não possuímos nenhuma chance de vitória. A natureza ignora nossos intentos. Segue seu curso mesmo sem a nossa presença. A tarefa da inteligência é decifrar o que ela nos quer dizer (pelos eventos extremos), defender-nos de efeitos maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece informações, mas não nos dita comportamentos. Estes devem ser inventados por nós mesmos. Eles somente serão bons caso estiverem em conformidade com seus ritmos e ciclos.

Como alternativa a essa economia de destruição, precisamos, se queremos ter futuro, opor-lhe o paradigma da economia de preservação. Precisamos produzir sim, mas respeitando os direitos das gerações futuras e dos demais seres da comunidade de vida.

A Rio 92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de desenvolvimento sustentável, elaborado pelo relatório Brundland de 1987 da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica séria. Sequestrou a sustentabilidade só para o seu campo. Os desastres que causava eram vistos como externalidades. Ocorre que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera.

Isso não é superado pela economia verde. Ela configura uma armadilha dos países ricos, especialmente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que produziu o texto teórico “Iniciativa da Economia Verde”. Com isso, astutamente descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido e mudança do olhar sobre o planeta que possa projetar um futuro real para a humanidade e para a Terra.

A Rio+20 poderia resgatar a Estocolmo+40. Nesta primeira conferência mundial, o foco central era o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca. Essa perspectiva se perdeu com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e, agora, da economia verde.

Vai ser difícil Marta Suplicy apoiar Haddad em São Paulo

Carlos Newton

A senadora Marta Suplicy (PT-SP) continua afastada da campanha de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo. Questionada pelos jornalistas, ao chegar a um debate sobre a questão de gênero no evento Humanidade, paralelo à Rio+20, que ocorre no Forte de Copacabana, na zona sul do Rio, a senadora elogiou a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), que foi escolhida como vice de Fernando Haddad (PT) na disputa pela Prefeitura de São Paulo. E ficou por aí.
Apesar da insistência dos jornalistas, Marta Suplicy não respondeu se irá participar da campanha. A senadora apenas repetiu o elogio à Erundina, sem responder à pergunta.
“Acho muito boa pessoa, com grande experiência, que vai poder ajudar”, disse Marta, encerrando o assunto.

Rio mais 20 e Brasília menos 513

Carlos Chagas

A reunião do Rio+20 poderá gerar uma série de iniciativas fundamentais para a sustentabilidade do planeta, mas serve de desculpa para tirar a sustentação do Congresso. A próxima semana será, também, de Brasília-513, porque a Câmara dos Deputados não vai funcionar. Suas Excelências estão liberados para freqüentar a conferência ambiental, ainda que boa parte não deva sequer passar pela antiga capital, tomando a maioria o rumo de seus estados para as festas de São João. No Senado, há dúvidas sobre se pelo menos os integrantes do Conselho de Ética permanecerão no Distrito Federal para decidir sobre o futuro do mandato do senador Demóstenes Torres. Mas sessões deliberativas na Câmara Alta, de jeito nenhum, conforme decisão do presidente José Sarney, à maneira da mesma iniciativa tomada por Marco Maia, presidente da Câmara.

A CPI do Cachoeira não tem marcada qualquer reunião, nem mesmo as administrativas. Melhor para seus integrantes, que terão uma semana para ver assentada a poeira do vexame de quinta-feira passada, quando por maioria decidiram não convocar para depor Luís Pagot e Fernando Cavendish. Erra quem disser que não dá para entender a negativa, porque entende-se muito bem: PT e PMDB uniram-se e continuarão unidos para preservar o governo federal.

O governo federal? Claro, porque tanto o ex-diretor geral do Denit quanto o ex-presidente da Delta Construções poderiam revelar a participação de altos funcionários do Executivo, até ministros e ex-ministros, envolvidos no superfaturamento de obras, no recebimento de propinas e na formação de quadrilhas. Para não falar no envolvimento de partidos políticos.

Claro que a presidente Dilma Rousseff nada tem a ver com a lambança praticada em torno das obras do PAC, a cargo das empreiteiras e com o beneplácito de alguns ministérios. Mas o barro que seria jogado no ventilador respingaria no governo dela. Sendo assim, companheiros e peemedebistas uniram-se para blindar o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios. Como para blindar-se, também.

Por tudo isso, uma semana de folga parlamentar surge providencial. Ficam faltando os últimos sete dias do mês, que serão devidamente enrolados até chegar o recesso de julho . Aí, pernas para o ar, que ninguém é de ferro…

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SIGA O DINHEIRO

Na novela de horror que foi Watergate, nos Estados Unidos, um capítulo essencial serviu para apontar o final feliz que foi a renúncia do presidente Richard Nixon. Coube ao Garganta Profunda, aliás recentemente falecido, aconselhar um dos jornalistas do Washington Post para que “seguisse o dinheiro”.

Na CPI do Cachoeira bem que esse conselho poderia dar certo. Acompanhar os bilhões destinados a obras concedidas à empresa Delta serviria para identificar corruptos e corruptores, mesmo se em muitos casos as propinas tiverem sido pagas em espécie. Começar pelos contratos aditivos que duplicaram preços acertados nas concorrências também seria um bom começo.

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QUEM FOI COMPRADO?

O senador Álvaro Dias ocupou ontem a tribuna do Senado para cobrar de seus colegas da CPI, algum dia, uma pergunta principal ao ex-presidente da Delta: “qual o senador, ou quais os senadores, que o senhor comprou por 6 milhões de reais?”

Como representante do PSDB, ele acusou superfaturamento na maioria das obras do PAC, apesar de quase todas paralisadas. Denunciou um conluio entre o PT e o PMDB.

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ANTECIPANDO O TRABALHO

Ouve-se nos corredores do Supremo Tribunal Federal que, à exceção dos ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, já tendo completaram seu julgamento, ou quase, os demais integrantes da corte debruçam-se frente aos computadores para examinar em detalhes os autos do processo do mensalão.

A maioria já vai avançada na leitura e, em paralelo, formando opinião a respeito da participação dos 38 réus. Como os Meretíssimos terão o mês de julho para adiantar as tarefas, a impressão é de que o calendário será mesmo cumprido à risca. Iniciado em agosto, na primeira quinzena de setembro o julgamento estará concluído. Claro que pesarão nas decisões as peças do Procurador-Geral da República e dos respectivos advogados de defesa, mas ganha uma passagem de graça para Uganda, com baldeação em Paris, quem supuser os 11 ministros sem tendências já cristalizadas.

Sinfonia em Paris: CPI colide a rota de Dilma Rousseff

Pedro do Coutto

O deputado Miro Teixeira, que vem desenvolvendo uma atuação política excelente, apontou com nitidez a contradição total da maioria governista na CPI do Congresso instalada para identificar até onde se estende (ou estendia) a rede de influência de Carlos Ramos Cachoeira.

De um lado, o Palácio do Planalto, através do ministro chefe da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, declara a Delta inidônea. Mas de outro, a base parlamentar do próprio governo bloqueia a convocação do empresário Fernando Cavendish. Este, na sinfonia em Paris que compôs, reuniu-se com vários parlamentares, entre estes o senador Ciro Nogueira e o deputado Maurício Quintela Lessa. Os dois integram a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. O bloco majoritário colocou-se acima da vontade da presidente Dilma Rousseff. Não pode haver outra interpretação. Das duas, uma.

O Globo de sexta-feira editou magnífica reportagem sobre a reunião da véspera da CPI, assinada por Chico de Góis e Demétrio Weber. Fotos de Ailton de Freitas e André Coelho. Na Folha de São Paulo a reportagem foi de Andreza Matais e Erich Decat.

O título do meu artigo – claro – é inspirado no grande musical de Vicente Minelli, com Gene Kelly e Leslie Caron nos papeis principais. Filme de grande sucesso do início da década de 50. Obra inesquecível pelo uso da cor e estética dos números dançados.

Miro Teixeira referiu-ser em seu pronunciamento a um almoço ou jantar promovido por Cavendish em Paris, num restaurante do Triângulo de Ouro. Pena que os fotógrafos Ailton de Freitas e André Coelho não tenham estado lá nesse encontro de encantamento. Teriam produzido material visual de alto nível porque Paris é sempre uma festa. Cidade que fascina por sua beleza, arte e atmosfera. Mas este é outro ângulo da questão: o cenário.

Do cenário passamos para a trama. Mais um apontamento inadequado de Fernando Cavendish com autoridades públicas. Não pega bem. Surge sempre a sombra da suspeita, fundada ou não, mas sempre uma dúvida em torno do comportamento humano e dos assuntos tratados. A dúvida emerge reforçada no palco dos acontecimentos sobretudo diante do temor e do fervor com que o deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo, combateu a convocação e a acusação de Miro Teixeira, aliás ex-ministro do primeiro governo de Lula.

Qual a razão do medo? Não se atina qual seja. Principalmente porque a CPI não se encontra, a rigor, investigando Carlos Cachoeira ou Fernando Cavendish. As investigações já foram feitas pela Polícia Federal.

Assim, a CPI do Congresso está, na verdade, confirmando os levantamentos da PF, órgão subordinado ao ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, portanto integrante da equipe de Dilma Rousseff. Na sequência, segundo plano, tentando iluminar a profundidade das ações desenvolvidas em conjunto pelos personagens, estendendo-se às obras da Delta. Contratos muito confusos. Tão confusos que o ministro Jorge Hage, com base neles, declarou a inidoneidade da empresa hoje aparentemente sem proprietários.

Ia ser vendida à JF Friboi, de cujo capital o BNDES participa. Porém a operação foi cancelada depois de articulada. Cancelada, provavelmente, por determinação da própria presidente da República.

A sinfonia em Paris da Delta ainda vai produzir alguns capítulos em série. Possui todos os ingredientes para isso. Principalmente a partir de agora, quando a liderança de Dilma Rousseff no Parlamento desafina e sai fora do tom do Palácio do Planalto. Não é provável que o ministro Jorge Hage venha a recuar do ato que excluiu a Delta pelo menos de novos contratos públicos. Confirmada a hipótese, como ficará Vaccarezza?

A briga de Itamar e FHC

Sebastião Nery

Em 63, um grupo de militares esquerdistas preparou uma armadilha para seqüestrar Carlos Lacerda, governador da Guanabara, quando fosse visitar um hospital no Rio. Um coronel do Exército (paraquedista) soube, foi lá sozinho, enfrentou, impediu.

Em 68, ele disse a um grupo de deputados, inclusive seu amigo Djalma Marinho, que não deviam intimidar-se, mas resistir e não aprovar a licença para processar o deputado Márcio Moreira Alves por agressão aos militares. Veio o AI-5 e ele foi cassado, humilhado e expulso do Exército.

Em 2002, quando morreu no Rio, em silêncio, o pianista, coronel e exemplar brasileiro Francisco Boaventura Cavalcanti, a grande imprensa não disse nada. A imprensa não sabia mais nada. Já tinha se transformado e só sabia puxar saco de governo.

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A PRIMEIRA BRIGA

Senadores e deputados perguntavam sempre quando e por que houve a primeira briga de Fernando Henrique com Itamar, antes da briga final, com a traição de FHC, que foi candidato em 94 jurando apoiar Itamar em 2002 e, mal assumiu o governo, começou a comprar a reeleição.

Antes disso, logo no começo do governo, em 93, mal Itamar assumiu e Fernando Henrique ainda era ministro do Exterior, ele quis que Sérgio Motta fosse nomeado presidente da Eletrobrás, para continuar a “operar” a caixinha do grupo dele e de José Serra, como fez antes na Eletropaulo.

Itamar, avisado por amigos paulistas, inclusive Mário Covas e Fernando Gasparian, não nomeou Serjão. Fernando Henrique e Serra não perdoaram Itamar, que era um político honesto, exemplar.

(Amanhã a gente fala do início do Caixa 2 do tucanato)