Arquivos por mês: junho 2012

Escravidão persiste na Amazônia

Paulo Peres

A grande imprensa brasileira não fala do assunto ou se fala o faz difarçadamente, sob o cabresto de certas autoridades, mas a exploração ilegal da mão de obra continua, impunemente, sob condições brutais ao longo dos 2,5 milhões de km² da região amazônica, longe do alcance do governo, diz o jornal americano Los Angeles Times, em reportagem sobre a escravidão “moderna” encontrada na região.

Com o velha estória da garantia de trabalho, as vítimas são geralmente levadas para áreas remotas e se deparam com condições cruéis e impossibilidade de fuga. “Alguns recebem pouco ou nenhum dinheiro”, destaca o jornal. Outros escutam que precisam trabalhar para pagar “despesas” de alojamento e alimentação, e são tratados com violência ou abusados.

“A Organização Mundial do Trabalho (OIT) estimou em 2003 que havia 25 mil brasileiros trabalhando em condições análogas à escravidão”. Mas o chefe da unidade da OIT que combate o trabalho forçado, Luis Machado, diz que o número é provavelmente maior agora. “Mais de 40 mil trabalhadores foram resgatados desde 1995″, afirmou ao Los Angeles Times. “Mas nenhuma pessoa na história do Brasil foi presa por esse crime. Esses homens se sentem intocáveis. Eles acham que não estão arriscando nada fazendo isso.”

Segundo o jornal, muito do trabalho que os explorados fazem reflete a “ilegalidade que reina na selva”. “Eles são colocados para trabalhar derrubando a floresta ou em fazendas ilegais de gado, em áreas protegidas da Amazônia. Outros colocam pedaços de madeira em poços quentes para fazer carvão, muitas vezes sem equipamento de proteção”.

A atual crise econômica nos faz perder a percepção do risco

Leonardo Boff

O vazio básico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa ausência de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperança de um “futuro que queremos”, lema do grande encontro. Assim como está, nega qualquer futuro promissor.

Para seus formuladores, o futuro depende da economia, pouco importa o adjetivo que se lhe agregue: sustentável ou verde. Especialmente, a economia verde opera o grande assalto ao último reduto da natureza: transformar em mercadoria e colocar preço àquilo que é comum, natural, vital e insubstituível para a vida, como a água, o solo, as florestas, os genes etc. O que pertence à vida é sagrado e não pode ir para o mercado. Mas está indo.

Eis aqui o supremo egocentrismo e arrogância dos seres humanos, chamado também de antropocentrismo. Eles veem a Terra como um armazém de recursos só para eles, sem se dar conta de que não somos os únicos a habitar a Terra nem somos seus proprietários. Não nos sentimos parte da natureza, mas fora e acima dela, como seus “mestres e donos”.

Esquecemos que existe a comunidade de vida visível (5% da biosfera) e os quintilhões de microrganismos invisíveis (95%) que garantem a vitalidade e fecundidade da Terra. Todos pertencem ao condomínio Terra e têm direito de viver e conviver conosco. Sem as relações de interdependência com eles, sequer existiríamos. O documento desconsidera tudo isso. Podemos então dizer: ele abre o caminho para o abismo. Urge evitá-lo.

Tal vazio deriva da velha narrativa ou cosmologia. Por narrativa ou cosmologia entendemos a visão do mundo que subjaz às ideias, às práticas, aos hábitos e aos sonhos de uma sociedade. Por ela se procura explicar a origem, a evolução e o propósito do universo, da história e o lugar do ser humano.

A atual narrativa ou cosmologia é a da conquista do mundo pelo progresso e crescimento ilimitado. Caracteriza-se por ser mecanicista, determinística, atomística e reducionista. Por força dessa narrativa, 20% da população mundial controla e consome 80% dos recursos naturais.

Metade das grandes florestas foram destruídas; 65% das terras agricultáveis, perdidas; cerca de cem mil espécies de seres vivos desaparecem por ano; e mais de mil agentes químicos sintéticos, a maioria tóxicos, são lançados na natureza. Construímos armas de destruição em massa, capazes de eliminar toda a vida humana. O efeito final é o desequilíbrio do sistema Terra, que se expressa pelo aquecimento global. Com os gases já acumulados, até 2035 fatalmente se chegará a 3 a 4 graus Celsius, o que tornará a vida, assim como a conhecemos, praticamente impossível.

A atual crise econômico-financeira nos faz perder a percepção do risco e conspira contra qualquer mudança de rumo.

Em contraposição, surge a narrativa ou a cosmologia do cuidado e da responsabilidade universal, potencialmente salvadora. Ela ganhou sua melhor expressão na Carta da Terra. Situa nossa realidade dentro da cosmogênese, aquele imenso processo de evolução que se iniciou há 13,7 bilhões de anos.

O universo está continuamente se expandindo, se auto-organizando e se autocriando. Nele tudo é relação em redes e nada existe fora dessa relação. Por isso, todos os seres são interdependentes e colaboram entre si para garantir o equilíbrio de todos os fatores. A missão do homem reside em cuidar e manter essa harmonia sinfônica. Precisamos produzir, não para a acumulação e o enriquecimento privado, mas para a suficiência de todos, respeitando os limites e ciclos da natureza.

Essa nova narrativa garante “o futuro que queremos”. Se o documento da Rio+20 a adotasse, criar-se-ia a oportunidade de uma civilização planetária.

Depois do julgamento do mensalão

Humberto Braga

Afinal foi marcada a data do julgamento do mensalão. Em torno dessa decisão, choveram, de lados opostos, protestos contra as pressões. Para mim, uma questão ociosa. Aqui e fora daqui, o Judiciário, como os outros poderes, sempre esteve sujeito a pressões de indivíduos ou de grupos. Lula pleiteou que o julgamento se fizesse após as eleições de outubro. Isso foi uma pressão? Sem dúvida.

O Globo, de 6 de junho passado, reiterando numerosas manifestações no mesmo sentido, exigiu em editorial: “o julgamento tem de começar logo”. Isso foi uma pressão? Sem dúvida. Em entrevista à Folha de São Paulo, o ministro Marco Aurélio, do STF (nomeado por Collor), salientou que a pressão de Lula era legítima assim como o da imprensa antilulista. Ele disse o óbvio, mas com oportunidade.

Abandonemos esse assunto que já não atrai atenção. Observo que muitos oposicionistas estão menos interessados na aplicação da Justiça, isto é, punição dos culpados, do que nas consequências políticas do julgamento. Eles alimentam a expectativa de que a decisão do Supremo acarrete em dano irreparável ao PT, faça despencar a popularidade de Lula e, em decorrência disso, Dilma se afaste de uma desconfortável vizinhança.

A meu ver, essas suposições se inspiram naquilo a que os anglo-saxões chamam de wishful thinking (pensamento desejoso). Com ele, o indivíduo faz previsões com base não nos dados da realidade e sim no que gostaria que acontecesse. Isso não é pecado, mas toda a objetividade.

Evidentemente a ruptura de Dilma com Lula só é concebível se ele sofrer um colapso político. Não é preciso apelar para a História e sim para o simples bom senso para saber que a criatura só se rebela contra o criador quando acha que tem algo a ganhar com isso. Mas se a popularidade de Lula se mantiver num alto patamar, que ganharia de Dilma se rompesse com ele? Isso facilitaria a sua reeleição? Na presente situação, todos os interesses e conveniências confluem para a continuidade da aliança Dilma-Lula. Às vezes, é preciso acentuar o óbvio.

Vamos aguardar as consequências do momentoso julgamento. Elas serão avaliadas, não apenas pelas eleições municipais, mas também pelas pesquisas de opinião que virão depois.

Humberto Braga é conselheiro aposentado do TCE-RJ

Movimento dos Sem Terra apóia a greve das universidades federais. Você sabia?

Carlos Newton

Foi distribuída à imprensa uma interessante nota da Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a favor da greve das universidades federais, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. O inusitado fato apenas demonstra o surrealismo que comanda a realidade do Brasil de hoje.

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NOTA OFICIAL DO MST

Nós do MST expressamos para toda a sociedade nosso apoio e solidariedade aos trabalhadores e trabalhadoras da educação em luta.

Desde o seu nascimento, o MST tem lutado pela educação. Temos a convicção de que a luta por escola, se faz, fazendo escola.

Como fruto da mobilização e luta permanente, conquistamos mais de 1500 escolas do campo.

Somos contra a política do Estado brasileiro de fechamento das escolas do campo. Para nós: Fechar Escola é Crime!

Defendemos a expansão e a interiorização da educação. No entanto, isso não pode representar a precarização educacional.

Manifestamos nossa solidariedade de classe aos trabalhadores e às trabalhadoras das universidades federais em greve.

Nos somamos na defesa de sua justa pauta de reivindicação:

- Contra o produtivismo: Educação não é mercadoria. Pelo aumento de salários. Pela garantia do plano de carreira. Pela qualidade da educação; Pela destinação de 10% do PIB para a educação; Contra a apropriação do público pelo privado através da privatização indireta em curso.

A universidade pública não pode estar a serviço do capital e do mercado. A universidade deve ser um espaço de pesquisa, produção e divulgação do conhecimento.

Nos colocamos nas ruas e nas lutas ao lado dos trabalhadores e das trabalhadoras da educação. Empunhando as bandeiras da Reforma Agrária e da Educação Pública de qualidade e gratuita, seguimos na construção de um país soberano.

“A educação não é a única alavanca para transformação da sociedade, mas sem a educação, a transformação não ocorre.” Paulo Freire

Direção Nacional do MST

Iminente golpe de Estado na Síria: a OTAN prepara uma vasta operação

Thierry Meyssan

Os estados membros na OTAN e do CCG preparam um golpe de Estado e um genocídio sectário na Síria. Caso pretendam opor-se a estes crimes, ajam o quanto antes; façam circular estes artigos na Net e alertem os vossos conhecidos.

Dentro de poucos dias, talvez a partir de sexta-feira 15 de junho, ao meio-dia, os sírios que pretenderem ver as cadeias de televisão nacionais terão estas substituídas nos écrans por televisões criadas pela CIA. Imagens realizadas em estúdio mostrarão cadáveres imputados ao governo, manifestações populares, ministros e generais apresentarão a sua demissão, o presidente el-Assad tratando de fugir, os rebeldes reunindo-se no coração das grandes cidades e um novo governo instalando-se no palácio presidencial.

Esta operação, diretamente monitorizada a partir de Washington por Ben Rhodes, conselheiro adjunto da segurança nacional dos Estados Unidos, visa desmoralizar os sírios e preparar um golpe de Estado. A OTAN, que esbarrou no duplo veto da Rússia e da China, conseguiria assim conquistar a Síria sem ter de a atacar ilegalmente. Qualquer que seja o julgamento sobre os atuais acontecimentos na Síria, um golpe de Estado poria fim a toda a esperança de democratização.

De maneira absolutamente formal, a Liga Árabe pediu aos operadores de satélite Arabsat e Nilesat para cortarem a transmissão dos media sírios, públicos e privados (Syria TV, Al-Ekbariya, Ad-Dounia, Cham TV, etc.). Existe um precedente, dado que a Liga Árabe tinha já procedido à censura de televisão líbia de forma a impedir os dirigentes da Jamahiriya de comunicarem com o seu povo.

Não existe rede hertziana na Síria, onde as televisões são exclusivamente captadas por satélite. Mas este corte não deixaria os écrans apagados. De facto, esta decisão é apenas a parte emersa do iceberg. Segundo informações de que dispomos, diversas reuniões internacionais foram levadas a cabo na semana passada para coordenar a operação de intoxicação. As duas primeiras, de natureza técnica, tiveram lugar em Doha (Qatar), a terceira, política ocorreu em Riade (Arábia Saudita).

Uma primeira reunião juntou os oficiais de guerra psicológica “embedded” em certas cadeias de satélite, entre as quais Al-Arabiya, Al-Jazeera, BBC, CNN, Fox, France 24, Future TV, MTV. Sabe-se que desde 1998 os oficiais da United States Army’s Psychological Operations Unit (PSYOP) foram incorporados na redação da CNN; a partir daí, esta prática foi estendida pela OTAN a outras estações estratégicas.

Redigiram antecipadamente falsas informações, segundo um “storytelling” elaborado pela equipa de Ben Rhodes na Casa Branca. Um procedimento de validação recíproca foi posto em marcha, cada media devendo citar os outros de forma a contribuir para torná-los credíveis aos ouvidos dos telespectadores.

Os participantes decidiram igualmente requisitar não apenas as cadeias da CIA para a Síria e o Líbano (Barada, Future TV, MTV, Orient News, Syria Chaab, Syria Alghad), mas também outras quarenta cadeias religiosas wahhabitas, as quais apelarão ao massacre confessional aos gritos de “Os cristãos para Beirute, os alauitas para o túmulo!”

A segunda reunião juntou engenheiros e realizadores, visando planear a fabricação de imagens de ficção, misturando uma parte em estúdio a céu aberto e uma parte de imagens de síntese. Os estúdios foram arranjados durante as últimas semanas na Arábia Saudita, de modo a reconstituir aos dois palácios presidenciais sírios e os principais lugares de Damasco, Alepo e Homs. Já havia estúdios deste tipo em Doha, mas eram insuficientes.

A terceira reunião agrupou o general James B. Smith, embaixador do EUA, um representante do Reino Unido e o príncipe Bandar Bin Sultan (a quem o presidente George Bush pai designou como seu filho adotivo, ao ponto de a imprensa norte-americana o ter designado como “Bandar Bush”). Tratava-se de coordenar a ação dos media e a do “Exército Sírio Livre”, do qual os mercenários do príncipe Bandar formam o grosso dos efetivos.

A operação, em gestação desde há meses, foi precipitada pelo conselho de segurança nacional dos EUA, depois de o presidente Putin ter notificado a Casa Branca de que a Rússia se oporia pela força a toda a intervenção militar ilegal da NATO na Síria.

Essa operação compreende dois vetores simultâneos: por um lado, diversificar as falsas contra-informações; por outro lado, censurar toda e qualquer a possibilidade de lhes responder.

A interdição das TVs por satélite como forma de conduzir uma guerra não é uma novidade. De facto, sob pressão de Israel, os EUA e a União Europeia impuseram sucessivas interdições a cadeias libanesas, palestinianas, iraquianas e líbias. Nenhuma censura foi imposta a cadeias de satélite provenientes de outras partes do mundo.

Tampouco a difusão de notícias falsas constitui uma estreia. Entretanto, quatro novos passos significativos foram dados na arte da propaganda durante o decurso das últimas décadas:

- Em 1994 uma estação de música Pop, a “Radio Libre des Mille Collines” (RTML) deu o sinal para o genocídio no Ruanda apelando a “Matar as baratas!”.

- Em 2001 a OTAN utilizou a midia para impor uma interpretação dos atentados de 11 de Setembro e justificar os ataques ao Afeganistão e ao Iraque. Nesta altura, já Ben Rhodes tinha sido encarregado pela administração Bush de redigir o relatório da Comissão Kean/Hamilton sobre os atentados.

- Em 2002 a CIA utilizou cinco cadeias, Televen, Globovision, Meridiano, ValeTV et CMT, para fazer crer que manifestações monstruosas tinham forçado o presidente eleito da Venezuela, Hugo Chávez, a demitir-se, dado que tinha sido vítima de um golpe de Estado.

- Em 2011, aquando da batalha de Trípoli, a OTAN fez realizar em estúdio e difundir pela Al-Jazeera e pela Al-Arabiya imagens de rebeldes líbios entrando na praça central da capital enquanto eles realmente ainda se encontravam longe da cidade, de forma que os habitantes, persuadidos de que a guerra estava perdida, cessaram toda a resistência.

Doravante, a midia já não se contenta em apoiar a guerra, ela a pratica diretamente. Este dispositivo viola os princípios básicos do direito internacional, a começar pelo artigo 19 de Declaração Universal dos Direitos do Homem relativo ao facto de “receber e difundir, sem consideração de fronteiras, as informações e as ideias por qualquer meio de informação”.

Sobretudo, ele viola também as resoluções da Assembleia-Geral da ONU, adotadas no final da Segunda Guerra Mundial, para evitar as guerras. As resoluções 110, 381 e 819 interdizem “os obstáculos à livre troca de informações e de ideias” (no caso vertente, o corte das cadeias sírias) e “a propaganda de natureza a provocar ou encorajar toda a ameaça à paz, rotura da paz ou outro ato de agressão”.

No direito, a propaganda da guerra é um crime contra a paz, o mais grave dos crimes, dado que ele torna possíveis os crimes de guerra e os genocídios.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Nada como uma carta do Drummond

Rubem Braga dizia que a poesia é necessária. Nossos amigos Carlos Cazé e Paulo Peres nos mostram que Drummond é ainda mais necessário. E publicamos também um poema de Elvandro Burity em homenagem à Marinha.

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CARTA

Carlos Drummond de Andrade

Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

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HOMENS DO MAR

Elvandro Burity

Avante marujo!
Com orgulho e altivez
A Esquadra vos espera
Para o bem servir à Pátria.

Pelos mares da vida
Não importa a tormenta
Naveguem…
Com honra, força, coragem e empenho.

Brasil! Teu povo é forte
Como é grande a tua terra!
Glórias aos homens que elevam a Pátria!
Glórias aos homens do Mar.

 

Pedro Bó está na moda

Tostão (O Tempo, de Belo Horizonte)

Nos quatro amistosos, apesar de avançar a marcação e deixar muitos espaços na defesa, a seleção evoluiu mais na parte tática, coletiva, que na individual.

Do badalado quarteto ofensivo, formado por Neymar, Ganso, Lucas e Damião, escalado pela maioria, antes dos amistosos, para a Olimpíada, e até para a Copa, apenas Neymar, obviamente, mesmo jogando muito menos do que pode, tem lugar garantido. Ganso, sem atuar, perdeu pontos. Damião e Lucas não foram bem. Oscar é, agora, o preferido.

Na Eurocopa, predominam o jogo coletivo, as trocas de passes e o futebol compacto. Os dribles são poucos. A maioria das equipes tem um jogador ofensivo de cada lado. Vários times brasileiros e a seleção atuam desta forma.

Contra a Argentina, Mano Menezes deixou Neymar mais livre, como um segundo atacante, como no Santos. Hulk e Oscar não tinham também posições fixas. O time deixou de ter a rigidez tática dos outros jogos, um problema nas seleções da Eurocopa.

Espanha e França dominaram as partidas, mas tiveram muitas dificuldades para vencer a marcação de oito jogadores em frente à área de Itália e Inglaterra.

A Espanha jogou com dois volantes e quatro meias, sem centroavante. Quando entrou Fernando Torres, ele, confuso como sempre, perdeu dois gols.

O ideal para qualquer equipe não é ter um típico centroavante nem jogar sem centroavante. É ter um atacante mais à frente, que faça gols e que saia da área para trocar passes e abrir espaços para os meias entrarem. O Brasil não tem esse grande centroavante, para o nível de uma seleção. O melhor, com essas características, é Vágner Love.

A dificuldade de a Espanha fazer gols já existia na Copa de 2010, atenuada por David Villa, que jogava mais pelo lado, mas fazia gols. Além disso, o time atual e o da Copa de 2010 jogam com dois volantes (Busquets e Xabi Alonso), mais o volante-meia Xavi. Na Eurocopa de 2008, o melhor momento da Espanha nos últimos anos, o time atuava com Xavi e mais um volante (Marcos Senna), como o Barcelona. Assim, a equipe tem mais um jogador perto do gol.

Neste meio de semana, teremos vários jogos decisivos pela Copa do Brasil e pela Libertadores. Os motivadores, com suas óbvias e valorizadas palestras de autoajuda, gostam de dizer que não vão ganhar os melhores, e sim os que vão jogar melhor. Sábias palavras. Pedro Bó, personagem de Chico Anysio, que só perguntava e falava coisas óbvias, continua na moda.

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BOM INÍCIO

Atlético e Cruzeiro começaram bem o Brasileirão. Réver e Fábio são os dois grandes destaques. Os dois têm condições de atuar na seleção brasileira. Ronaldinho atuou bem contra o Palmeiras, como fez no Flamengo e no Milan. A imprensa e o torcedor do Galo gostaram de sua estreia. Mas, se ele jogar da mesma forma, e o Atlético perder, ainda mais se não estiver bem na tabela, vão dizer que ele jogou muito mal. É o que acontecia no Flamengo.

O Cruzeiro, mesmo sem jogar bem, ganhou mais uma. Celso Roth já organizou o time, principalmente a defesa. Apesar de ser rápido, de atacar e de defender pela direita, achei fraca a atuação de Fabinho. Ainda é cedo. No Guarani, fez um bom Campeonato Paulista.

Pouco a pouco, surgem as provas contra os governadores Perillo, Queiroz e Cabral

Carlos Newton

O tempo conspira contra eles. A cada dia vão surgindo novas provas.  O governador de Goiás, Marconi Perillo, está envolvido com o surpreendente negocista e corruptor Carlinhos Cachoeira (chamá-lo apenas de bicheiro chega a ser ridículo). O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, segue na mesma balada.

Mas o governador Sérgio Cabral, o mais corrupto deles,  ainda não foi conectado diretamente com Cachoeira e continua fora da agenda da CPI, protegido pelos laços familiares com Aécio Neves (PSDB) e Francisco Dornelles (PP), que mandaram os correligionários da CPI protegerem o contra-parente. Este é o quadro. A imprensa até parece ter esquecido de Sergio Cabral e sua quadrilha, muito mais vulnerável do que os grupos de Perillo e Queiroz, que permanecem na linha de fogo diariamente.

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A CASA DE PERILLO

Perillo depôs ontem na CPI e defendeu-se como pôde. O problema é a venda da casa. Diálogos interceptados pela Polícia Federal indicam que, além do valor registrado, o então assessor especial de Perillo, Lúcio Fiuza, recebeu R$ 600 mil em dinheiro no dia 12 de julho de 2011, véspera do registro do imóvel em cartório. Desse valor, R$ 100 mil seriam referentes a uma comissão. Fiuza negou, em nota, que tenha recebido o dinheiro.

Wladimir Garcez, apontado pela PF como braço direito de Cachoeira, ficou com outro R$ 1,4 milhão, segundo indicam as gravações telefônicas – dinheiro usado para quitar empréstimo obtido junto a Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta Construções.

Na data desses pagamentos, realizados em dinheiro vivo pelo empresário Walter Paulo Santiago, comprador da casa, Perillo já tinha compensado em sua conta dois meses antes cheques no valor total de R$ 1,4 milhão. Esses cheques lhe foram entregues por Wladimir Garcez, emitidos por uma empresa ligada a Cachoeira e abastecida pela empreiteira Delta Construções.

Perillo afirma que a negociação foi feita originalmente com Wladimir Garcez, que, posteriormente, desistiu de comprar o imóvel por não ter como quitar os empréstimos com Cláudio Abreu. Só depois disso, segundo Garcez e Perillo, é que o empresário Walter Paulo Santiago foi procurado, para assumir a compra da casa.

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A CASA DE AGNELO

Agnelo Queiroz também depôs na CPI e até se ofereceu para quebrar seus sigilos. Perillo então seguiu o exemplo. Mesmo assim, os dois estão  sob suspeita. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, já requisitou ao Superior Tribunal de Justiça)a abertura de dois inquéritos para investigar Queiroz  e um outro que terá como alvo Perillo.

A Polícia Federal apurou indícios de envolvimento de assessores de Agnelo com um grupo farmacêutico acusado de fraudes, formação de cartel e sonegação fiscal. Como se sabe, na época, Agnelo era diretor da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O empresário Renato Alves da Silva, sócio da Hipolabor, tentou agilizar processos de interesse da empresa junto ao diretor-adjunto de Agnelo na Anvisa, Rafael de Aguiar Barbosa, hoje secretário de Saúde do governo brasiliense.

Reportagem de Lúcio Vaz e Breno Costa, no Estadão, mostra que escutas telefônicas feitas pela polícia revelam que Silva pediu a interferência do lobista Francisco Borges, ex-assessor de Agnelo na Câmara dos Deputados, para pressionar Barbosa. O deputado federal Fábio Ramalho (PV-MG) também foi acionado pelo grupo para marcar audiências na Anvisa.

Gurgel já está analisando os documentos e poderá pedir abertura de inquérito ao Superior Tribunal de Justiça, se avaliar que as provas são contundentes.
O procurador solicitou em 24 de abril o compartilhamento das provas obtidas pela Polícia Civil, o Ministério Público e a Receita Estadual de Minas. Isso porque o governador tem foto privilegiado e não poderia ser investigado em Minas.

Detalhe: esses fatos aconteceram justamente na época em que Agnelo Queiroz comprou uma mansão em Brasília – por coincidência, adquirida do irmão do dono de um laboratório beneficiado pela Anvisa;

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A CASA DE CABRAL

Em matéria de mansões e de corrupção, Perillo e Queiroz são aprendizes diante de Sergio Cabral, que está no ramo desde sua presidência na Assembleia Legislativa, segundo o dossiê do então governador Marcello Alencar, que à época era seu amigo e correligionário.

Mas, pelo visto, Cabral vai escapar incólume, sem jamais explicar como comprou o luxuoso apartamento no Leblon, a mansão em Mangaratiba e a poderosa lancha, que dizem ter vendido.

O pior de tudo isso é a certeza da impunidade. Os três governadores já perderam a honra, se é que algum dia a tiveram… Como são ainda jovens, seus futuros na política são nebulosos. A única certeza é a impunidade. Sequer serão cassados, porque os três usaram o dinheiro e poder para garantir sólidas maiorias nas respectivas Assembléias. E quem se importa com isso?

Perguntas que não foram feitas

Carlos Chagas

Claro que não era o foco da CPI do Cachoeira, muito menos o palco para análise da performance administrativa do depoente, mas melhor ficariam deputados e senadores se ao invés de indagar sobre as relações de Agnelo Queiroz com Carlinhos Cachoeira, tivessem perguntado porque a capital do país virou um completo caos.

Ninguém duvidou da negativa do governador sobre qualquer relacionamento com o bicheiro, que também jamais viu, tratando-se todas as acusações contra ele de simples tertúlias políticas. Ele ficaria em dificuldades, porém, caso perguntado sobre a falência do sistema público de saúde, a falta de médicos e de vagas nos hospitais, a insegurança do cidadão que fica na rua depois do pôr do sol, os sucessivos seqüestros relâmpago, a balbúrdia verificada no trânsito, as ruas e avenidas esburacadas, as escolas onde chove dentro e o abandono das cidades satélites. E muita coisa a mais, demonstrando o desgoverno atual, não obstante o auto-elogio feito de corpo presente pelo governador.

Desafortunadamente, o objeto da CPI referia-se às atividades de Carlinhos Cachoeira, desta vez no Distrito Federal. Quem sabe no futuro venha a ser constituído outro grupo investigativo capaz de dar à sociedade as respostas que não recebe faz muito…

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O PARAÍSO DA BANDIDAGEM

Decisões da Justiça não se discutem. Cumprem-se. Carlinhos Cachoeira será posto em liberdade caso o pleno do Tribunal Regional Federal da Primeira Região confirme o voto do desembargador Fernando Tourinho Neto, anulando as escutas telefônicas da Operação Montecarlo, da Polícia Federal. O argumento do meretíssimo é de que o juiz federal encarregado do processo não justificou suficientemente o uso da escuta telefônica. Assim, concedeu habeas-corpus para a anulação das provas contra o bicheiro, suspendendo a ação penal.

Haverá que aguardar o pronunciamento da corte, mas, convenhamos, a libertação de Cachoeira vai contra tudo o que ainda resta de crédito das instituições democráticas. A anulação, se concedida por inteiro, colocará em risco o funcionamento da própria CPI e do inquérito contra o senador Demóstenes Torres no Conselho de Ética do Senado. Será o paraíso da bandidagem.

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SEM EXPLICAÇÃO

Do depoimento do governador de Goiás, Marconi Perilo, ficaram duas dúvidas: por que negou-se abrir mão de seu sigilo bancário, fiscal e telefônico? Tem algo a esconder?

Da mesma forma, se a operação de venda de sua mansão em Goiânia transcorreu sem participação de Carlinhos Cachoeira, por que o bicheiro morava no local, onde inclusive foi preso? Mera coincidência?

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EXAGEROS

Getúlio Vargas matou-se na manhã de 24 de agosto de 1954. Naquela mesma tarde um de seus algozes, Carlos Lacerda, deu entrevista às emissoras de rádio sugerindo a mudança do nome da tradicional Avenida Presidente Vargas para Avenida Castro Alves, no Rio. Uma infeliz proposta que não pegou. Até hoje prevalece a natureza das coisas, ou seja, a Avenida Presidente Vargas continua lá, porque só se apaga o passado nas ditaduras, mesmo quando da inversão de situações e partidos políticos no poder.

Filinto Muller foi figura malvista por ter chefiado a Polícia Federal nos tempos da ditadura do Estado Novo. Não escaparia de uma Comissão da Verdade caso criada naqueles idos. Depois virou senador, tendo apoiado o regime militar de 1964 com rara diligência. Morreu num desastre de avião, em Paris. Para homenageá-lo, bem ou mal, colegas senadores deram seu nome a uma das novas alas do Senado.

Agora querem trocar a designação da ala. Trata-se de outra bobagem. Se a moda pega, quem garante que o que for mudado hoje não será restabelecido amanhã?

Freixo parte em busca do segundo turno com Eduardo Paes

Pedro do Coutto

Os repórteres Bruno Góes, O Globo e Ítalo Nogueira, Folha de São Paulo, edições de terça-feira, transmitiram com nitidez o clima de inconformismo que marcou, na véspera, Palácio Pedro Ernesto, a convenção do PSOL que lançou Marcelo Freixo à Prefeitura do Rio. Houve calor e entusiasmo, realçados pelo apoio que recebeu do ator Wagner Moura e de artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso. O entusiasmo é um fator irradiante, bom sinal para Freixo. No Globo a foto foi de Gustavo Stephan. Na FSP de Cesar Loureiro.

O quadro municipal das eleições deste ano, 7 de outubro, primeiro turno, começou a se consolidar. A luta está entre o atual prefeito Eduardo Paes, Marcelo Freixo, Otávio Leite, apoiado por Marcello Alencar, Rodrigo Maia, este com apoio de seu pai, Cesar Maia e do ex-governador Garotinho, cuja filha, Clarissa, é candidata a vice.

Eduardo Paes tem a máquina administrativa a seu lado, como é natural, e a presença, na campanha, do governador Sérgio Cabral. Isso implica também o peso do sistema estadual de poder. Ainda por cima, Lula já anunciou que vai pedir votos para ele. Sua força, acentuada, está aí.

Entretanto, a disputa é em dois turnos. Paes não vai alcançar a maioria absoluta a 7 de outubro, o que remeterá o desfecho decisivo para o dia 28. O atual alcaide carimbou seu passaporte. Mas quem será o segundo colocado?

Freixo joga sua chance de vencer exatamente nesse dilema. Assumiu uma posição de combate, destacando que deseja ser o candidato do inconformismo, uma vez que a população carioca está indignada com o que vem se passando.

Wagner Moura, ao discursar, acrescentou que se integrou na campanha do candidato do PSOL de Heloisa Helena exatamente por este motivo. E afirmou: não estou aqui para ganhar licitação. A frase é emblemática, uma síntese do que ocorre em muitos casos no país.

A conjugação de propósitos entre o poder público e os interesses particulares. A população paga o preço, não tendo a seu dispor um sistema de saúde eficiente, um transporte melhor e mais econômico, uma educação mais abrangente, enfim o saneamento indispensável e adequado ao século XXI.
Atrás de tudo isso, nos bastidores, o terrível problema de, na política brasileira, o gesto quase nunca confirmar a palavra. Afirma-se uma coisa na campanha eleitoral, pratica-se outra, muito diferente, no governo.

Veja-se o exemplo dos aposentados e pensionistas do INSS. A fração cujos vencimentos, média de 871 reais, que se encontram acima do mínimo, recebe vencimentos percentualmente inferiores aos que estão no piso. Quer dizer: descontaram mais e, na hora da reposição inflacionária, recebem menos. Em 92, PT e PDT foram ao Supremo contra Fernando Collor exatamente contra tal tratamento. Ganharam por 8 votos a 3. Agora assumem a mesma posição que condenaram. Mas esta é outra questão.

O fato essencial é que, no fundo, o destino da candidatura Freixo vai depender do comportamento a ser adotado pela corrente de Lindberg Farias no PT. Candidato à sucessão estadual de 2014 contra Luiz Fernando Pezão. Apoiado por Sérgio Cabral, não pode interessar ao Partido dos Trabalhadores uma vitória do governador, este ano. Será o enfraquecimento da legenda e do próprio Lindberg. As candidaturas Otávio Leite e Rodrigo Maia dividem mais a oposição do que o bloco governista. Mas também somam para bloquear uma vitória de Paes no primeiro embate. As urnas do segundo turno, a meu ver, é que vão decidir.