Arquivos por mês: maio 2012

Mutirão do Mensalão Já será realizado em 17 cidades

Mário Assis

Um mutirão nacional pedindo agilidade no julgamento do Mensalão será realizado neste domingo, 20 de maio. A manifestação está sendo organizada pela rede de movimentos contra a corrupção e a impunidade. A meta principal é coletar mais assinaturas para a petição ao Supremo Tribunal Federal (STF) por celeridade no processo. Já foram computadas 28 mil assinaturas, sendo 18 mil na Internet e 10 mil no papel, em diversos estados do país.

O processo do Mensalão no STF acaba de completar 4 anos e 6 meses e as denúncias ocorreram há mais de 7 anos.

Movimentos de 17 cidades confirmaram a participação no mutirão e os organizadores aguardam novas adesões. Estão programadas manifestações no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Campo Grande, Cuiabá, Goiânia, Belém, Vitória, Florianópolis, João Pessoa, Cascavel (PR), Botucatu (SP), Jaú (SP), Dracena (SP), Panorama (SP), Mariporã e São Bernardo do Campo (SP).

PCdoB, mas pode me chamar de centralismo eleitoreiro

Paulo Schueler (membro do Comitê Central do PCB)

A votação do Código Florestal na Câmara dos Deputados apresentou ao público brasileiro uma surpresa, daquelas ingratas a quem se reivindica comunista: na bancada parlamentar do PcdoB, que ainda carrega o símbolo da Foice e Martelo, cada um votou como quis. Com o benefício da dúvida, era respeitoso esperar antes de sair vociferando qualquer juízo de valor a respeito. Mas a emenda saiu pior que o soneto.

Não se trata aqui de avaliar a trajetória e atual linha política do Partido Comunista (sic) do Brasil (PcdoB). Sua aliança com a Unita de Jonas Savimbi em Angola, sua tentativa de criar um partido comunista em Portugal em confronto aberto com o Partido Comunista Português (PCP), seus editoriais em A Classe Operária ultrajando Cuba e sua revolução como “satélites do social-imperialismo soviético” fazem parte de uma história errática e oportunista.

O desenrolar do movimento histórico dos comunistas também cobrará deste partido sua atuação entreguista frente à Agência Nacional do Petróleo (ANP), suas alianças eleitorais espúrias, sua política de transformar uma das mais combativas entidades de massa do país (UNE) numa pálida sombra de seu passado, que agora corre de ministério em ministério atrás de verbas e futuras boquinhas para a pelegada de calças curtas.

Essas linhas também não reafirmarão a verdadeira história dos comunistas brasileiros – parabéns, companheiros, pelo cinquentenário recém completado em 18 de fevereiro. E pelo que soubemos, a festa de arromba que vocês organizaram no “Vivo Rico”, no dia em que simularam comemorar 90 anos, fez muito aristocrata quatrocentão se rasgar de inveja e dor de cotovelo!

São para afirmar, como próprio o PcdoB tem registrado em seu estatuto, que partido que se diz comunista tem pelo menos que respeitar o centralismo democrático.

E o que diz o estatuto do PcdoB sobre a questão? Em seu artigo 11, que o “Partido age como um todo uno, sob o primado de uma disciplina livre e conscientemente assumida. A unidade é a força do Partido”. No 38, que o “Partido assegura sua unidade de ação política por meio da disciplina consciente, livremente aceita, igual e obrigatória para todos os seus membros e todas as suas organizações, baseada no Programa e Estatuto do Partido”.

Belas palavras que se tornaram letra morta quando da votação do Código Florestal. Afinal de contas, a orientação deste partido, antes do escrutínio no plenário da câmara, era de que o PcdoB apoiava o texto aprovado no Senado – em si um projeto conservador e baseado no relatório de Aldo Rebelo, parlamentar que se diz comunista mas que nos últimos anos tem sido o mais resoluto e funcional serviçal da grande burguesia.

E o que ocorreu na votação? Confira abaixo, na posição dos parlamentares desse partido que se diz “comunistas”:

Alice Portugal (BA) Sim
Assis Melo (RS) Não
Chico Lopes (CE) Não
Daniel Almeida (BA) Sim
Delegado Protógenes (SP) Sim
Evandro Milhomen (AP) Não
Jandira Feghali (RJ) Sim
Jô Moraes (MG) Sim
João Ananias (CE) Não
Luciana Santos (PE) Não
Manuela D’Ávila (RS) Sim
Osmar Júnior (PI) Não

Os deputados que votaram “Sim” pediram a manutenção do texto aprovado pelo Senado, apoiado pelo governo e que era o “menos pior” em debate. Já os deputados que votaram “não” votaram pelo relatório do deputado Paulo Piau (PMDB-MG), que anulou qualquer obrigação ambiental e estabelece a farra do boi e/ou da moto-serra para os ruralistas.

Em verdade ocorreu um jogo de interesses eleitorais, o mesmo que faz a jovial Manuela D’Avila operar a rasteira politicagem de tempos medievais quando se alia ao PP em Porto Alegre; e leva a mesma Luciana Santos e Renildo Calheiros a se deslocarem até a sede do PSDB em Pernambuco para serem recebidos por Sergio Guerra, presidente do tucanato, para definir alianças em Olinda. Cada um votou de acordo com seus interesses e alianças regionais.

Passados mais de 10 dias da votação, ocorre a tal “emenda” citada no início deste artigo: em matéria divulgada no blog Vermelho (vermelho.org.br), o presidente do PcdoB, Renato Rabelo, afirmou – sem corar! – que “não ficou muito clara a forma como foi feita a votação na Câmara. O relator mal apresentou o projeto e ele já estava sendo votado. Por isso, não tivemos tempo hábil para avaliar na íntegra”.

Pôncio Pilatos na defesa de princípios partidários, Pôncio Pilatos quanto às manifestações que solicitam da presidente Dilma o veto ao projeto: “Agora, cabe à presidente Dilma avaliar e ponderar o que prejudica o desenvolvimento e a sustentabilidade. Se algo criará problemas de degradação ao meio ambiente, é claro que a presidente tem toda a autoridade para interferência”.

Sai de cima do muro (se possível com uma única posição), PCdoB!

(Artigo enviado pelo comentarista Mário Assis)

Mais censura! Secretário de Cabral entra na Justiça para tentar esconder as denúncias de Garotinho

Carlos Newton

Em seu blog, o deputado Anthony Garotinho ridiculariza o desespero do governador Sérgio Cabral e de seus auxiliares diante da comprovação pública de farras no exterior, enriquecimento, recebimento de propinas, tráfico de influência no governo, favorecimento de secretários e parentes, além de outras irregularidades os tem levado a optar pela censura ao invés da negação dos fatos.

“Nenhum dos fatos que revelei foi contestado ou desmentido, apenas eles não querem que mais pessoas tomem conhecimento dos seus atos injustificáveis”, diz Garotinho, que está sendo processado pelo chefe da Casa Civil, Regis Fichtner.

“Depois da arbitrariedade de ontem, onde oficiais de Justiça, agindo de forma ilegal, apreenderam os jornais do PR mostrando as farras de Cabral e da Gangue dos Guardanapos na Europa, avizinha-se outra. Vários repórteres estão ligando para perguntar qual é a minha posição a respeito da decisão da Justiça mandando retirar do nosso blog as imagens e notícias que envolvam o secretário da Casa Civil do governo Cabral, Régis Fichtner e sua esposa Inês Helena Fernandes”, diz Garotinho, acrescentando:

“Não conheço a decisão porque ainda não fui citado, inclusive acho curioso que toda a imprensa já tenha sido informada, mas os fatos divulgados no blog são todos públicos e verdadeiros, porque como vocês poderão rever na matéria que está reproduzida logo abaixo, os documentos foram extraídos de órgão oficiais”.

Segundo o deputado, o mais impressionante é que, na decisão, a juíza dá apenas duas horas, a partir da citação, para que sejam retiradas as fotos, reportagens, opiniões, documentos oficiais que se refiram ao casal Fichtner.

“Com todo o respeito à magistrada que ainda nem sei qual é, alguém precisa alertá-la que sou deputado federal e o que diz o artigo 53 da Constituição do Brasil: ”Os deputados federais e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”. Não entendo que a ilustre magistrada queira com a sua decisão mudar a Constituição do Brasil. Acho que ela pode estar equivocada. A matéria é baseada em fatos públicos, verdadeiros, comprovados por documentos oficiais e expressa a minha opinião; e a Constituição, ao que eu sei, deve ser respeitada por todos, inclusive pelos magistrados”, assinala Garotinho.

Todas as possibilidades estão abertas, desde que a ‘renovolução’ não seja usurpada.

Pedro Ricardo Maximino

Há, na história humana, inúmeros registros de revoluções, como a Revolução Francesa e os movimentos de libertação do jugo colonial ou imperial nos séculos XIX e XX, que partiram de um ideal jovem e inovador, mas que foram apropriadas por grupos que perseguiam somente os seus próprios interesses e privilégios de dominação.

Assim, a alta burguesia, a seleta burocracia e o distinto clero, nas diversas dominações, sejam elas predominantemente econômicas, racionais legais, tradicionais ou carismáticas (como bem exemplificava Max Weber) assumiram o controle de sistemas que, apesar de apresentarem avanços pontuais, continuaram flagrantemente distantes dos ideais de justiça distributiva que alimentavam a chama da mudança.

A “juventude de pensamento” caracteriza-se pela contínua expansão das redes neurais, pelo desejo de inovação e de aprimoramentodas estruturas que nos são apresentadas como definitivas. Os conceitos de renovação e de progresso ininterrupto mesclam-se e compõem a humanidade “renovolucionária” (expressão criada pelo mestre Helio Fernandes), que dispõe de melhores e mais interativas ferramentas de comunicação e, consequentemente, de mais profundo conhecimento histórico e crítico.

A expansão e a simples revolução já não são os principais inspiradores, mas a gestão contínua, aprimorada e democraticamente deliberada (respeitando sempre o núcleo fundamental de direitos comuns a todos os seres humanos e os valores fundamentalmente agregadores para a coesão social) semeia a revolução contínua no século que se abre com crises financeiras e renascimentos ideológicos de liberdade e de igualdade material.

Os espaços e a linguagem não serão mais barreiras para a humanidade, se ela não desistir de clamar por liberdade, participação e inteligência renovadora e resistir à estúpida dominação que petrifica e mata até a mais promissora das revoluções.

Todas as possibilidades estão abertas para a humanidade, bastando apenas que a “renovolução” não seja usurpada.

Código de ética de Sergio Cabral não serve mesmo para nada.

Carlos Newton

O tal Código de Conduta Ética do governador Sergio Cabral é realmente uma peça de ficção. Não serve para nada. Basta dizer que uma empresa administrada pelo irmão do secretário de Saúde do Rio de Janeiro, Sérgio Côrtes, obteve R$ 5 milhões de financiamento do governo do Estado.

A informação é da reportagem de Marco Antônio Martins,  publicada pela Folha de S. Paulo. O órgão responsável do governo, é claro, diz que parentesco não pesou no negócio e afirmou que os critérios foram “técnicos”.

A assessoria do secretário Sérgio Côrtes não respondeu aos pedido de explicações. O empresário Nelson Cortês da Silveira não foi encontrado. Deve ter saído pelos fundos, como é hábito de Sergio Cabral.

Já ia equecendo: Sergio Côrtes é aquele servidor público que começou a ficar rico quando dirigia o Hospital de Traumortopedia. Na secretária de Saúde, tornou-se um dos principais agentes das negociatas do governo, E foi ele que comprou o apartamento de luxo na Lagoa, com vagas para cinco carros, e pagou à vista, vejam só que certeza da impunidade.

Premiação de PMs: a dispensa meritória e a austeridade do comandante

Milton Corrêa da Costa

O comando do Batalhão de Choque da PM do Rio de Janeiro decidiu conceder, a seus integrantes, conforme noticiado, quinze dias de folga e o direito a um final de semana na Ilha Grande, um aprazível recanto da Costa Verde. A recompensa tem por objetivo premiar quem efetuar a prisão –o prêmio não é como no Velho Oeste para caçar vivo ou morto- um dos dois perigosos traficantes que, após a prisão do bandido Nem, disputam a ‘chefia’ do comércio de drogas na favela da Rocinha, na Zona sul do Rio, até então considerado o quartel general das finanças do tráfico na cidade, o ponto mais importante de venda da cocaína no Rio, hoje ocupado por contingente da Polícia Militar.
Nenhuma novidade na anunciada premiação. Premiações, inclusive em pecúnia (dinheiro, moeda) provêm da Antiguidade, quando Nabucodonosor, Rei da Babilônia (622a.C.- 562 a. C.), já recompensava, em suas conquistas, seus soldados mais guerreiros e destemidos nas ações de combate durante as guerras.

É o incentivo natural a quem desempenhe, além da normalidade, suas atividades profissionais.Tais premiações são muito comuns, com forma de incentivo e disputa sadia, nas empresas, principalmente na área de vendas.

Na segurança pública não é diferente, existindo hoje uma recompensa periódica a profissionais das Unidades Operacionais da PM e Delegacias Policiais, com premiações em pecúnia pelo alcance de metas pré-estabelecidas, na redução de tipos de delitos considerados estratégicos para a melhoria de níveis de segurança.

Louve-se, portanto, a importante iniciativa do Comandante do Batalhão de Choque da PM do Rio, Coronel Fábio Souza, destacando-se inclusive a austeridade de sua iniciativa em custear, do próprio bolso, a prometida recompensa com a estada de policias e um acompanhante, em pousada, para o gozo de um final de semana na localidade de Angra dos Reis.

Fica, no entanto, o lembrete de que na ânsia da obtenção do merecido prêmio não se pode exceder dos estritos limites da lei e que técnica e equilíbrio são comportamentos indispensáveis ao desempenho da complexa e difícil missão policial militar. O ‘olho por olho, dente por dente’ não se aplica ao estado democrático de direito. A cabeça dos inimigos da sociedade, como no Velho Oeste, não está neste caso a prêmio.

Como dizia Rubem Braga, a poesia é necessária

###
HUMILDADE

Cora Coralina

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.

E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.

Deputado do PT é flagrado ‘blindando’ Sergio Cabral na CPI

A Folha revela que o deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi flagrado  quinta-feira, durante sessão da CPI do Cachoeira, garantindo blindagem do PT ao governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que corria risco de ser convocado a depor na comissão.

As imagens da troca de mensagens de celular entre Vaccarezza, um dos principais articuladores da base governista na CPI, e Cabral foram registradas por um cinegrafista e exibidas na edição desta quinta-feira do jornal “SBT Brasil”.

“A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu [sic]“, escreveu Vaccarezza a Cabral.

Vaccarezza não foi localizado pela Folha para comentar o caso. Procurada, a assessoria do governo do Rio não se manifestou até a publicação desta notícia.

A convocação do governador fluminense era defendida por parte dos parlamentares integrantes da CPI. O governador é amigo de Fernando Cavendish, presidente licenciado do Conselho de Administração da Delta Construções, empreiteira pivô do caso Carlinhos Cachoeira.

Fotos e vídeos divulgados nas últimas semanas pelo deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ) em seu blog mostram Cabral e Cavendish juntos em Paris, em momentos de descontração em um restaurante de luxo.

Desde o início da gestão de Sérgio Cabral, em 2007, a Delta firmou contratos de mais de R$ 1,4 bilhão com o governo fluminense, a maior parte sem licitação.

Em pronunciamento durante a sessão da CPI, na manhã desta quinta-feira, Vaccarezza chegou a dizer que eventuais superfaturamentos não são exclusividade da Delta e defendeu a restrição do alcance das investigações.

“Se tiver superfaturamento em uma obra ou outra, não é competência dessa CPI investigar. É de outra. Como tem [superfaturamento] de outras empreiteiras”, disse.

Um requerimento pedindo a convocação de Cabral foi redigido, mas, depois de acordo entre a base governista e a oposição, não chegou a ser votado.

O acordo resultou, também, na desistência de convocação dos governadores de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT).

Também ficou de fora da CPI, ao menos por ora, a atuação nacional da Delta, que poderia atingir Cavendish. A investigação sobre a empreiteira ficará restrita ao Centro-Oeste.

Os jornais anunciam que o Planalto enfim resolveu exigir ficha limpa para cargos federais.

Carlos Newton

O Brasil é realmente um país surrealista. Continua valendo aquela frase atribuída a De Gaulle e que ele jamais pronunciou (foi o embaixador brasileiro Carlos Alves de Souza Filho foi quem disse que o Brasil não era um país sério). Agora mesmo os jornais estão anunciando que a presidente Dilma Rousseff enviou para análise da Advocacia-Geral da União um decreto instituindo a validade dos mesmos critérios da Lei da Ficha Limpa para o preenchimento de cargos de confiança no governo federal.

Como se sabe, a lei determina a inelegibilidade, por oito anos, de políticos condenados em segunda instância, cassados ou que tenham renunciado para evitar a cassação, entre outros.  E 0 Planalto quer seguir o exemplo, prometendo que o rigor na seleção de nomeados valerá para a administração direta e indireta e dele não escaparão nem ministros de Estados e presidentes de estatais e autarquias.

A notícia até que é boa, mas parece anacrônica, anunciada com séculos de atraso. Como diz o macaco que participa do programa humorístico do Jô Soares que vem sendo reprisado, “mas por que não era assim”.

Esquenta o clima no setor militar

Carlos Chagas

Não há como tapar o sol com a peneira: é tenso o clima nas forças armadas, depois do discurso da presidente Dilma Rousseff na solenidade de instalação da Comissão da Verdade. A turma da reserva faz espuma, mas são os contingentes da ativa, com oficiais-generais à frente, que mais se ressentem dos conceitos exarados pela chefe do governo. Em especial quando ela afirmou não haver perdão para os autores de crimes como tortura, sequestro, assassinato e ocultação de cadáveres.

O sentimento castrense é de que se não há perdão de um lado, não poderá haver de outro. Assim, aguardam que a Comissão da Verdade venha a investigar também os excessos praticados pelo “lado de lá”, ou seja, os crimes dos subversivos e terroristas nos anos de chumbo.

Discordam da valorização acentuada pela presidente, “dos que enfrentaram bravamente a truculência da ditadura”. Porque para eles, truculentos também foram os que assassinaram, sequestraram e assaltaram, naquele idos, em nome da resistência ao regime.

É claro que os abomináveis atos dos agentes do Estado devem ser investigados e denunciados, dispondo-se os atuais chefes militares a engolir a exposição de antigos companheiros implicados naqueles crimes. Por isso os comandantes das três forças compareceram à cerimônia no palácio do Planalto. O problema está no reverso da medalha, ou seja, a exaltação da violência igualmente praticada por parte dos que se opuseram aos governos militares.

De forma alguma a democracia será abalada por esse confronto de concepções, mas fica difícil apagar a impressão, mesmo falsa, de que o governo cultiva a revanche, tantos anos depois. Em vez de incorporar as forças armadas à tarefa de construir o futuro, os atuais detentores do poder contribuem para discriminá-las, sabendo que seus atuais responsáveis também repudiam os crimes do passado e nada tiveram a ver com eles.

###
AGORA VAI

Surgem sinais de que ainda este mês o Supremo Tribunal Federal iniciará a fase final do julgamento dos 38 réus do mensalão. O ministro Ricardo Lewandowski, como revisor, estaria ultimando seu relatório, na verdade seu voto a respeito dos mensaleiros. Como o ministro-relator já apresentou o dele, os demais ministros preparam suas conclusões, assim como o Procurador-Geral da República busca sintetizar numa intervenção de cinco horas o pedido de condenação para os denunciados por corrupção. Cada advogado dos 38 réus acaba de redigir seus memoriais e as defesas respectivas.

Essas previsões devem-se à atitude do novo presidente do Supremo, Ayres Britto, empenhado em concluir o julgamento ainda este ano.

###
UM TESTE FUNDAMENTAL

A realização da Rio+20, mês que vem, servirá de teste para saber se o Brasil está, de fato, livre da violência que atinge e divide boa parte do mundo por razões variadas, ideológicas, históricas e geográficas. Todo cuidado será pouco na proteção dos mais de cem chefes de estado e de governo que comparecerão, inclusive o presidente do Irã.

As forças armadas serão mobilizadas para afastar a sombra de atos terroristas, daqueles que não acontecem por aqui. A Polícia Federal e a Abin, junto com as estruturas policiais do Rio de Janeiro, formarão com Exército, Marinha e Aeronáutica um núcleo que se imagina eficaz para garantir a realização das múltiplas sessões da conferência. A presidente Dilma deverá transferir seu governo para a antiga capital.

Dilma, os royalties do petróleo e a foto de Gustavo Miranda

Pedro do Coutto

Foi uma foto fantástica, tanto pela qualidade quanto pela oportunidade, a de Gustavo Miranda, primeira página de O Globo de quarta-feira, focalizando em primeiro plano aberto a forte irritação da presidente Dilma Rousseff contra o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Jiulkoski. A chefe do Executivo teve razões de sobra para se contrariar. Em primeiro lugar porque foi vaiada por boa parte dos prefeitos que integravam a Marcha A Brasília quando levaram reivindicações à presidente e foram recebidos por ela em solenidade pública. A ocasião não se ajustava a vaias. Só funcionam em campanhas eleitorais. A sucessão de 2014 está longe. Não era momento para manifestação como a que ocorreu. O texto foi de Luiza Damé.

Isso em primeiro lugar. Em segundo, Dilma Rousseff já havia se manifestado três vezes diretamente a respeito da questão dos royalties do petróleo e sua distribuição. Nos dias 15 e 21 de outubro de 2011, as duas primeiras. A terceira a 17 de novembro, quando rebateu a manifestação no centro do Rio, organizada pelo governador Sérgio Cabral. Nessa última vez, as repórteres Vivien Oswald, Cristiane Jungblut e Isabel Braga publicaram reportagem a respeito. O Globo de 17.

Ela voltou a afirmar que o parágrafo primeiro do artigo 20 da Constituição Federal assegura o repasse dos royalties aos Estados produtores, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Não em partes iguais como querem os prefeitos presentes à Marcha. Além disso, há os contratos firmados em vigor. Como alterá-los? Para tanto, nem lei complementar pode resolver o problema. Somente emenda constitucional. Os prefeitos que vaiaram a presidente da República não entenderam nada. Ao contrário. Confundiram tudo.

Deixaram-se levar por dois projetos de lei inconstitucionais. O primeiro de autoria conjunta do senador Pedro Simon e do deputado Ibsen Pinheiro. No final do governo Lula, portanto em 2010. O segundo assinado pelo senador Vital do Rego. Que, aliás, preside agora a CPI de Carlos Cachoeira.

Vamos por etapas, a engrenagem é complicada. O projeto Simon-Pinheiro foi aprovado pelo Congresso, mas vetado pelo então presidente Lula. O veto – incrível – passados dezesseis meses, ainda não foi apreciado. A decisão, portanto, encontra-se em aberto.

Apesar de não decidida a questão, no segundo semestre de 2011, o Senado aprovou idêntica iniciativa, mas esta de Vital do Rego, redistribuindo os royalties do petróleo. Inconstitucional também, é claro. Dilma reagiu contrariamente. Porém a matéria seguiu para a Câmara Federal. Sofrendo duas pressões, a dos prefeitos e a do Palácio do Planalto, os deputados paralisaram a tramitação, o que acontece seguida e frequentemente.

Não só nos dias de hoje, vale frisar. Mas desde muito tempo. O projeto da Eletrobrás, por exemplo. Vargas encaminhou ao Congresso em 53, uma de suas últimas mensagens. Sabem quando a proposição foi transformada em lei? Dez anos depois, em 63, sancionada pelo presidente João Goulart. Mas esta é outra questão.

O essencial no caso da distribuição dos royalties do petróleo, é, em primeiro lugar, o Parlamento resolver em definitivo se rejeita ou acolhe o veto de Lula. Em segundo lugar, a Câmara votar o projeto Vital do Rego que, se aprovado, receberá o veto da presidente Dilma, como ela própria antecipou no tumultuado encontro com os prefeitos.

Ela, inclusive, admitiu novo sistema, mas para o futuro, para o pré-sal. Não para as concessões e explorações atuais. Foi a quarta vez, como acentuo aqui, que ela exprime seu pensamento e disposição. A foto de Gustavo Miranda, texto de Luiza Damé, O Globo de quarta-feira, dizem tudo.

Um herói

Sebastião Nery

O deputado cassado Neiva Moreira, editor dos “Cadernos do Terceiro Mundo” (excelente revista em português, inglês e espanhol), foi a Beirute entrevistar os dirigentes dos partidos libaneses: Partido Progressista, Partido Murabitum, Partido Baath e Partido Comunista.

Depois de vencer rigoroso esquema de segurança, Neiva chegou à rua Afif At-Tibl, perto da Universidade Árabe, e entrou num pequeno escritório para conversar com o secretário do Partido Comunista do Líbano:

- Bonjour.

- Bonjour, não. Bom-dia. Falo português. Sou brasileiro.

- Brasileiro e dirigente do Partido Comunista libanês?

- Nasci no Acre.Minha mãe era acreana, casada com um libanês.Com 7 anos veio e me trouxe. Tenho uma irmã em Paris e um irmão no Brasil, o ministro da Comunicação Said Farhat. Somos amigos. Politicamente, menos.

E Albert Farhat, alto, forte, 40 e poucos anos, cabelos pretos, simpático, falou duas horas a Neiva. Quando terminou, desculpou-se:

- Estou muito preocupado hoje, porque meu filho está na frente de luta. Tínhamos até planejado que outro companheiro, o segundo secretário, também conversasse com você. Mas o Abi-Akel teve de sair.

- Quem? Abi-Akel? Irmão também do nosso ministro?

- Não. Primo.

Neiva saiu sem saber se tinha entrado no Palácio do Planalto.

###
BAGDÁ

Neiva estava numa recepção no palácio de Saddam Hussein, em Bagdá, Iraque, e conversava com o coronel Melo Antunes, presidente do Conselho da Revolução de Portugal. Vai chegando um homem de óculos:

- Os senhores ai falando português?

- Sou o Melo Antunes, de Portugal. Ele, o Neiva Moreira, do Brasil.

- E eu o Camilo Pena, ministro da Indústria e Comércio do Brasil.

Aproxima-se o general Samuel Correia, embaixador do Brasil em Bagdá. Camilo Pena apresenta-os, o general surpreende-se:

- Do Maranhão? Os maranhenses são poetas, escritores. Também é?

- Infelizmente não, embaixador. Os senhores não me deram tempo.

###
LIBIA

Uma delegação de onze deputados foi a Trípoli, na Líbia, conhecer a terra de Kadafi. Com eles, o deputado Neiva Moreira, o brasileiro de maiores ligações e maior prestígio em todo o Terceiro Mundo.

Da delegação fazia parte o deputado Iranildo Pereira, do PMDB do Ceará, sertanejo duro e seco lá do Cariri. Ficou escandalizado com o hábito árabe de os homens andarem na rua de mãos dadas e se beijarem no rosto:

- Seu Neiva, essa história de homens de mãos dadas nas ruas se beijando na cara, essa não. No Ceará não tem disso não.

Os líbios ofereceram um banquete à delegação brasileira. Neiva chamou o delegado da OLP (Organização pela Libertação da Palestina):

- Abu, preciso de um favor seu. Vou lhe apresentar um deputado brasileiro que está intrigado com o hábito árabe do beijo no rosto entre homens. Quando você falar com ele, dê-lhe dois beijos seguros.

Iranildo chegou, Neiva apresentou o Abu, que lhe sapecou duas beijocas estaladas nas bochechas. Iranildo quase esmurrou o árabe.

###
NEIVA

Na semana passada, em Paris, a chuva despejava bolas de granizo na janela do hotel e de repente a internet informou a morte de Neiva Moreira, aos 95 anos. Logo me lembrei do saudoso Paschoal Carlos Magno :

- A partir de certa idade nossa vida é uma alameda de amigos mortos.

Neiva Moreira foi um dos meus mais fascinantes amigos no jornalismo e na política. Deputado estadual em 1950, em 1953 o levamos ao Diretório Academico da Faculdade de Filosofia de Belo Horizonte para uma conferencia sobre a campanha do Petróleo é Nosso e da Petrobrás.

No Réveillon de 2007, 55 anos depois, ele quase cego, estávamos os dois, emocionados, na posse de Jakson Lago no governo do Maranhão. Foi uma vida bonita, valente, universal, generosa, venturosa e aventurosa.

###
JORNALISTA

Nascido em 1917, em Nova Iorque, no Maranhão, aos 15 anos já dirigia o jornal “A Luz”, em Floriano, no Piauí. Em Terezina, com Carlos Castelo Branco, fundou “A Mocidade”. Em 1942 já estava no Rio em “O Jornal” e “O Cruzeiro”. Em 1950, funda em São Luis o “Jornal do Povo”, elege-se deputado estadual. Em 1954, 58, 62, federal. Presidente da Comissão da Camara para Transferencia da Capital para Brasilia, Juscelino me disse que sem ele dificilmente teria inaugurado Brasília em 1960.

Um dos fundadores da Frente Parlamentar Nacionalista, o golpe militar de 1964 o cassou na primeira lista. Preso meses, asilou-se no mundo. Nenhum exilado brasileiro viveu em tantos países, fugindo de golpes. Foi para a Bolívia, golpe. Para o Uruguai, golpe. Para a Argentina, golpe. Para o Peru, golpe. Para o Chile, golpe. Afinal, México e Europa, sempre jornalista, com seus imbatíveis “Cadernos do Terceiro Mundo”.

Anistiados, ajudamos Brizola a criar o PDT. Fez varios mandatos de deputado federal pelo seu Maranhão. Um herói nacional: 80 anos de lutas.