Arquivos por mês: maio 2012

Rede britânica de supermercados adere a boicote a produtos israelenses

A quinta maior rede de supermercados britânica, a Co-op, anunciou a suspensão de acordos com quatro empresas exportadoras de alimentos de Israel, devido à “cumplicidade na violação de direitos humanos dos palestinos”.

Com a decisão, a Co-op engrossa a lista de companhias europeias que boicotam produtos israelenses. Entre elas está a empresa ferroviária alemã Deutsche Bahn, que suspendeu sua participação na construção de uma linha de trens de Tel Aviv a Jerusalém, que passaria em um trecho dos territórios ocupados na Cisjordânia. Segundo a empresa, o projeto era problemático, “com um potencial de violar leis internacionais”.

Já o banco holandês ASN suspendeu seu investimento na empresa francesa Veolia, devido ao envolvimento da companhia na construção do bonde de Jerusalém, que passa pela parte oriental da cidade, ocupada em 1967. O banco alega que seus critérios de alocação de recursos respeitam as resoluções da ONU que mantêm a parte árabe de Jerusalém como território ocupado.

O banco e a Deutsche Bahn aderiram ao boicote após intensa campanha do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), um movimento criado em 2005 por ONGs palestinas com o objetivo de exercer pressão internacional sobre Israel.

O movimento obteve apoio de sindicatos de trabalhadores e de ONGs na maioria dos países europeus e também nos Estados Unidos, África do Sul e Austrália.

A campanha pelo boicote a produtos dos assentamentos também conta com o apoio de grupos israelenses de esquerda. No ano passado o parlamento de Israel aprovou uma lei criminalizando a campanha pelo boicote e, segundo a lei, os grupos que o apoiarem poderão ser processados e multados.

As quatro empresas que passaram a ser boicotadas pela rede britânica Co-op são Agrexco, Arava, Adafresh e Mehadrin, que exportam alimentos produzidos tanto em Israel como nos assentamentos israelenses ilegais existentes nos territórios palestinos na Cisjordânia ocupados por Israel.

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ISRAEL SE DEFENDE

Do ponto de vista do governo israelense não há diferença entre o boicote a produtos fabricados nos territórios ocupados e o boicote geral a Israel.
“A verdade é que eles boicotam Israel, os assentamentos são apenas um pretexto”, disse o porta-voz do ministério das Relações Exteriores, Yigal Palmor, à BBC Brasil.

Segundo o porta-voz, o movimento BDS está por trás disso. “O objetivo do BDS é boicotar Israel e os israelenses de maneira generalizada e quem boicota pessoas por causa de sua cidadania é racista”, disse Palmor, acrescentando: “Trata-se de um boicote geral, tanto econômico, como cultural e acadêmico”.

Desviar recursos da Saúde deveria ser considerado crime hediondo

Magdala Domingues Costa

Jornalista Gabeira, não sou política, não li seu artigo no “Estadão”, mas animo-me a lhe escrever concordando com suas colocações. Quem estudou um pouquinho de literatura – fazia parte dos programas antigos do ginásio e segundo “ciclo” – conhece Ernest Hemingway, sua obra e sua trajetória de vida aventureira, acidentada, findando com o suicídio.

A “Geração Perdida”, termo atribuído a Gertrude Stein e popularizado por Hemingway em seus romances, refere-se a um grupo de celebridades literárias americanas que se apaixonaram pela Cidade Luz e lá decidiram viver, entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o começo da Grande depressão americana.

Woody Allen reviveu essa época com suas principais personagens em seu magnífico “Meia noite em Paris” e eu, cá a sós com minha sombra, tracei um paralelo entre uma época dourada, culturalmente falando, e esta de trevas, que agora nos assola, apresentando casos patéticos como este do governador do Rio e sua “banda” cínica

Quanta vulgaridade!! Valha-nos Deus!! Até para ser irresponsável exige-se um requisito que muuuito antigamente denominava-se CLASSE. Não adiantam griffes famosas quando quem as ostenta não possui elegância interior, de atitudes também. São máscaras, nada mais, lambuzadas de pretensão, isentas de conteúdo, vazias, fantoches desorientados, vagando em seu mundinho irreal, pequeno, na medida exata de seus egos deformados.

Quem nunca comeu mel, quando come se lambuza, reza um provérbio antiquíssimo. Imagino os espectadores do triste espetáculo que a tchiurma do Cabralzinho apresentou.

O que pensaram daquela corriola terceiro-mundista de noveaux riches se esbaldando à tripa forra, supinamente deselegantes e… “financiados” com dinheiro público.

Jornalista, não sei se já visitou uma enfermaria com doentes de câncer, em estado terminal, em hospital da rede pública. Eu tive essa experiência e jamais, enquanto viva, a cena me sairá da memória. Como o senhor afirma: “corrupção na saúde mata”.

É crime de lesa humanidade desviar recursos da Saúde e deveria ser considerado CRIME HEDIONDO, com as penas previstas na lei, bastante rigorosas.

Pergunto-me se algum dos frequentadores conhece ao menos os rudimentos do idioma de Voltaire. Não me admiraria, se no auge de sua pompa, ao consultar o “menu”, hajam pedido “crevette” de camarão….

Há muito me exilei em minha própria cidade temendo emburrecer, além de viver enfurecida. Mas não resisto a um comentário de vez em quando, esperando que nos espaços anônimos, onde se expressam tantas pessoas de bem, os brasileiros decentes ofendidos, aviltados, se processe o milagre da conscientização e toda essa corja retorne às profundezas abissais de sua insignificância moral, de onde jamais deveria haver emergido.

Rompe-se a fronteira entre o público e o privado

Roberto Nascimento

O escândalo Cachoeira-Delta, a empresa que venceu a maioria das licitações públicas do Rio de Janeiro nos últimos tempos está sendo muito importante para o esclarecimento da população. O povo do Rio de Janeiro começa a perceber que vota muito mal em seus governantes.

Morando há três anos aqui em São Paulo por contingências do trabalho em Guarulhos, tenho que aturar docemente constrangido, as gracinhas dos paulistas acerca dos políticos nos quais nós votamos. Num ponto eles têm razão, apesar dos Ademar de Barros, Malufs, Pittas e outros menos votados.

Os cariocas não tem tido muita sorte. O próprio Garotinho, que muito justamente ataca sem piedade o Cabral, fez um péssimo governo e ainda conviveu com um secretário de Segurança aliado de bandidos, desmascarado, cassado da Assembléia Legislativa quando era deputado e preso. Lamentável.

O PMDB, que sempre foi o fiel da balança de todos os governos, agora arma uma blindagem para impedir o governador Sergio Cabral de depor na CPI do Cachoeira sobre suas relações com o dono da Delta.

A política empreende uma lógica perversa:  se os acusados de ilícitos são do partido adversário merecem ser massacrados; entretanto, quando as investigações apontam para seus próprios quadros, epa! “esse é nosso aliado”. E aí todos da base aliada correm para impedir que prestem depoimentos.

Por mais que blindem, o estrago já foi feito. O que fazem é piorar a situação deles e daqueles que olham apenas para o traseiro do vizinho. A população começa, então a perceber que todos têm algum podre a esconder. Isso repercute muito mal no inconsciente do povo, que passa a entender que todos são iguais na gatunagem do dinheiro público.

Várias pessoas comentam comigo que quando ouvem algum político falar em interesse público associam a palavra a interesses particulares e de seus grupos no centro do poder.

Agora, como dizia o saudoso Ulysses Guimarães na época da CPI do PC Farias (tesoureiro do presidente Collor), na qual ele inicialmente era contra e depois ficou a favor: “CPI a gente sabe como começa, mas não sabe como termina”.

E essa CPI do Cachoeira promete ser mais avassaladora do que aquela que derrubou Collor do poder. Naquela, o alvo foi o presidente da República, nessa vários governadores estão na berlinda, intimamente encalacrados no jogo do poder que envolve nepotismo, apadrinhamento político, amizades coloridas, nomeações e fraudes em licitações de obras públicas.

Se não houver uma blindagem muito bem feita, o mundo político virá abaixo com todas as consequências trágicas e imprevisíveis.

Eleições de procuradores é um avanço, mas ficou faltando o principal.

Carlos Newton

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou quinta-feira a mudança das regras para a nomeação de procuradores-gerais de Justiça nos Estados e no Distrito Federal.

É uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição), determinando que o nome do novo procurador-geral seja eleito nos Ministérios Públicos e depois analisado pelas Assembleias Legislativas.

Se a indicação passar por maioria absoluta no Poder Legislativo, seguirá para nomeação pelo governador.

A proposta ainda precisa ser analisada por comissão especial antes de seguir para o plenário.

Atualmente, os Ministérios Públicos elegem três nomes e um deles é escolhido pelo chefe do Executivo estadual, não atendendo obrigatoriamente ao critério de maior votação.

No mês passado, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), indicou o segundo lugar da eleição realizada na Procuradoria paulista, Márcio Elias Rosa, para chefiar o Ministério Público do Estado.

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FALTA O PROCURADOR-GERAL

O texto, contudo, não trata da indicação para o procurador-geral da República, chefe do Ministério Público Federal, que é escolhido dentro de uma lista tríplice pelo presidente da República.

Só pode ter sido de propósito, para deixar mais “protegido” o presidente (ou presidenta) da República. Os parlamentares deveriam trabalhar com maior seriedade e severidade. Mas quem se interessa?

 

Mensagem a Werneck sobre uma maravilhosa Brasília que não existe mais

Francisco Bendl

Caro José Carlos Werneck, em 1960, janeiro, quando eu, a minha mãe e meu irmão, descemos na grandiosa Rodoviária de Brasília (Plano Piloto) ainda em construção, levávamos nas nossas sacolas a esperança, a possibilidade de se obter realizações pessoais e profissionais através da oferta de trabalho em profusão que a nova capital do Brasil oferecia.

Para quem vinha do sul, o cerrado do Planalto Central descortinava uma realidade jamais sonhada, de trabalho árduo, sem água e luz (moramos assim durante um ano em Taguatinga), mas compensado por uma cidade que abraçava cada pessoa que lá chegava com o intuito de crescer junto àquelas magníficas construções, esplanadas, blocos de ministérios, Eixo Rodoviário, a Barragem do Lago Paranoá, os pequenos viadutos que evitariam os cruzamentos, e a inacabada Asa Norte, que cedia seus largos espaços às sedes de construtoras e uma que outra oficina, mais nada.

As cidades satélites recebiam este povo corajoso, determinado a provisoriamente deixar suas cidades de origem em busca de melhores condições de vida e riqueza ou até mesmo formarem famílias em Taguatinga, Gama, Sobradinho e Núcleo Bandeirante, as quatro que existiam na minha época, além do Setor de Indústria e Abastecimento, entre Taguatinga e o Plano Piloto.

Não havia crimes, drogas, assaltos, todos se davam bem. Gaúchos, mineiros, baianos, cearenses, cariocas, paulistas, e gente de muitos outros países. A vida era uma confraternização. Um parque de diversões que chegava, por mais humilde, chegava era uma festa aos fins de semanas! O circo era um encantamento.

Lembro-me com tristeza quando o Gran Circo Norte-Americano esteve em Brasília antes da sua tragédia em Niterói, matando perto de 500 pessoas, no maior incêndio da América Latina até hoje, se não me engano.

Enfim, Werneck, eu sou do tempo que Brasília não era abandonada deste jeito; que não era maltratada como está sendo; que tinha o carinho de todos nós, e ela por aqueles que a erigiam imponente e incomparável na majestosa paisagem do Planalto. Os sonhos acabam.

Mas o avanço da pobreza neste país tem um plano sub-reptício, que aos poucos passa a se mostrar e não será nada agradável quando se mostrar por completo, a comprovar o que afirmo, a inoperância e incapacidade com áreas fundamentais para um país que quer se desenvolver e progredir: Educação e Segurança, atualmente os que carecem de mais recursos e importância que todas as demais.

Era só o que faltava: Juízes do Amapá tentam elevar ganhos de férias

Felipe Recondo (Agência Estado)

Juízes do Amapá estão prestes a ganhar mais benefícios salariais. Projeto em tramitação na Assembleia Legislativa eleva o adicional de férias dos magistrados de um terço para dois terços do salário, com retroatividade a janeiro. Como têm férias anuais de dois meses, os juízes receberiam, ao fim do ano, um salário e mais um terço como adicional. O projeto foi encaminhado à Assembleia pelo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Mário Gurtyev de Queiroz. Se aprovado e sancionado, pode abrir precedente para que os demais tribunais do País sigam o mesmo caminho.

Conforme o tribunal, a Constituição não estabeleceu limite para o valor do adicional e define apenas que seria garantido o “gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal”.

Antes mesmo de aprovado o projeto de lei, o Conselho Nacional de Justiça pediu informações ao governador do Estado, Camilo Capiberibe (PSB). E o órgão deve sugerir ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que conteste a constitucionalidade da lei no Supremo Tribunal Federal, se aprovada.

O Paraná foi o primeiro Estado a ampliar o valor do adicional de férias de juízes. Mas a medida estabeleceu que, em vez de um terço, o adicional equivaleria à metade do salário. Ao fim do ano e em razão dos dois meses de férias, o juiz receberia um salário a mais por ano, como adicional. Além do benefício de dois meses de férias, os magistrados podem vender parte dos 60 dias a que têm direito. Nesses casos, os juízes do Amapá que não tirarem as férias poderão vender os dias trabalhados nas férias e receber também, em vez de um terço, dois terços do salário integral.

Por que não um AeroDilma made in Embraer?

Flávio José Bortolotto

A respeito da insistência do governo em comprar um avião para conduzir a presidente Dilma Rousseff, com maior autonomia de vôo do que o AeroLula, não seria relativamente fácil a Embraer adaptar num lindo ERJ-195, instalando tanques extras no corpo da aeronave, para ter uma autonomia de 24 horas ou 20.000 km?

Acabei de ler “A volta por cima” de Margi e Gérard Moss, que deram a volta ao mundo num monomotor Sertanejo de seis lugares da Embraer, e no Oceano Pacífico fizeram uma perna de 3.680 km até com ventos de proa, com tanques extras adaptados por eles mesmos.

Seria muito prestigioso para nossa indústria a presidente Dilma Rousseff chegar em qualquer país, num avião fabricado por empresa genuinamente brasileira. Isso sim seria honrar Santos-Dumont, o maior dos pais da Aviação.

Deus é brasileiro: nacionalizações na Argentina e Bolívia devem alavancar investimentos estrangeiros no país

Carlos Newton

De repente, não mais que de repente, como dizia Vinicius de Moraes, o Brasil passou a ser uma espécie de país da moda. Apesar de suas enormes carências, seu prestígio internacional está em alta e por isso vai sediar, seguidamente, os dois mais importantes eventos mundiais – a Copa do Mundo e a Olimpíada.

O crescimento econômico é seguro e gradativo. Tem mão de obra e tecnologia para expandir as atividades industriais. A agricultura está destinada a ser a maior do mundo, sem concorrentes à altura, devido às condições climáticas. Dispõe de reservas minerais incalculáveis, inclusive de minerais estratégicos, como nióbio e terras raras. Tem o quinto maior território e a sexta maior população, que garante um gigantesco mercado interno em expansão.

Além de tudo isso, a sexta maior economia está em condições estáveis, a inflação segue sob controle, o país tem volumosa reserva de divisas. Ou seja, tem tudo para dar certo como potência emergente. E, ainda por cima, como todos sabem por aqui, Deus é brasileiro e está abrindo nossos caminhos, porque as recentes nacionalizações de empresas espanholas na Argentina e na Bolívia com certeza incentivarão novos investimentos de corporações transnacionais aqui no chamado Patropi, com diz Jorge Benjor.

Além de um quadro econômico e político mais estável, se comparado ao de outros países latino-americanos, o Brasil vai se beneficiar por garantir maior segurança jurídica. “De maneira geral, o Brasil tem um marco regulatório consolidado e assegura maior respeito aos contratos, dando guarida aos investimentos”, disse à agência BBC Brasil o analista Ernesto Lozardo, professor de economia da FGV de São Paulo.

Na verdade, o país já está na rota dos investidores externos que, sem perspectivas de ganhos futuros nas economias dos Estados Unidos e da Europa, buscam mercados mais atraentes para aplicar seu capital.

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BRASIL NA FRENTE

Segundo dados recentes da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Brasil foi o país latino-americano que mais recebeu investimentos do exterior no ano passado, respondendo por US$ 66,7 bilhões ou 43,7% do total de US$ 153,4 bilhões investidos na região, seguido do México, Chile, Colômbia, Peru, Argentina, Venezuela e Uruguai.

No caso da Espanha, por exemplo, desde 1993 o Brasil recebeu mais de 30% do volume de investimentos estrangeiros diretos espanhóis na América Latina. No ano passado, esse fluxo cresceu, totalizando 4 bilhões de euros (R$ 10,1 bilhões) ou 64% do montante total de 6,3 bilhões de euros investidos pela Espanha no continente.

Descontados os “desinvestimentos” (ou seja, investimentos que foram desfeitos, como venda de ativos, por exemplo), a taxa líquida das aplicações espanholas no Brasil em 2011 ficou em 3,9 bilhões de euros, volume muito superior ao segundo colocado, o México, com cerca de 1 bilhão de euros investidos.

Segundo o relatório “Panorama de Investimento Espanhol na América Latina 2012″, 30 das companhias de maior faturamento da Espanha enxergam com pessimismo a evolução de seus negócios em países como Argentina, Bolívia e Venezuela.

Das empresas com filiais nesses três países, somente 15% planejam aumentar sua presença na Argentina em 2012, contra 4% na Bolívia e na Venezuela. No Brasil, entretanto, o índice é de 62%.

Nada mal, é verdadeiramente um indício de que Deus é mesmo brasileiro.

Desgaste óbvio

Carlos Chagas

Por maior que seja a maquiagem, outra conclusão não há: a presidente Dilma Rousseff mexeu na poupança. Reduziu o ganho das cadernetas.

A explicação oficial é de ser a alteração inevitável para manter a queda dos juros. Há quem suponha ter sido, também, para dar aos bancos a compensação que vinham exigindo por conta da diminuição dos juros. O sistema financeiro vai lucrar um pouco mais nos financiamentos imobiliários.

Em termos políticos, indaga-se porque a presidente decidiu-se por esse passo arriscado, capaz de gerar óbvio desgaste na imagem de seu governo.

No passado, não deu certo. Fernando Collor começou a cair quando congelou as cadernetas de poupança. Não que elas significassem grandes lucros para os aplicadores, mas, em especial, porque eram seguras. Deixaram de ser naquele interregno, sem que a bala única disparada para matar o tigre da inflação acertasse no bicho. Agora, haverá que aguardar a queda dos juros.

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DIREITOS PERMANECEM

No pronunciamento que fez quando da posse do novo ministro do Trabalho, a presidente Dilma deixou claro que não cederá à pressão do empresariado para reduzir prerrogativas trabalhistas. De forma clara, acentuou que ao invés de tirar direitos do trabalho, prefere educar e capacitar o trabalhador. Faz tempo que as elites invocam o tal “custo Brasil” para acabar de desmontar o legado de Getúlio Vargas.

Muito já conseguiram, a começar pela estabilidade de emprego, suprimida pelo então presidente Castello Branco, por influência de Roberto Campos. Fernando Henrique Cardoso avançou mais com a chamada “flexibilização” da Constituição. Agora, querem acabar com a multa por demissões imotivadas e desejam fatiar o décimo-terceiro salário e as férias remuneradas em doze parcelas anuais.

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ESBULHO

Abominável, mesmo, está sendo saber que no Tribunal de Justiça de São Paulo pratica-se a “liberação antecipada” para funcionários e desembargadores. Quer dizer, o cidadão envia ofício à direção do tribunal alegando despesas variadas e pedindo para receber antecipadamente os vencimentos dos próximos meses, quem sabe anos. Deferida a pretensão, embolsa a quantia pretendida, sem juros e sem a garantia de que, se demitir-se ou morrer, os cofres públicos nada receberão de volta. Já imaginaram se a moda pega?

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SOBRE BIGODES

Gratuitamente, Aloísio Mercadante ofendeu José Sarney. Desafiado para tirar o bigode em troca de 200 mil reais, o ministro da Educação negou-se, mas completou: “ofereçam ao Sarney, que ele aceita…”

Ora, o bigode do ex-presidente da República vem sendo sua marca fundamental, desde antes de eleger-se deputado. Brincadeira tem hora…

Quem não acredita em pesquisas, deve conferir as de domingo na França

Pedro do Coutto

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Acompanho pesquisas eleitorais do Ibope desde a sucessão de 55, quando JK foi eleito presidente e, no antigo Correio da Manhã, sempre escrevi sobre elas, acreditando no que antecipam. Depois, na estrada do tempo, vieram o Gallup, Datafolha, Vox Populi, Sensus. Os acertos passam de 97%, mas há os que se mantêm incrédulos diante dos Institutos.

É natural. A emoção impele aqueles que torcem por um resultado a acreditar na vitória de seu candidato, e, por isso, rejeitam os levantamentos que apontam no sentido oposto ao de sua vontade. Compreende-se. Mas agora domingo, na França, mais uma vez teremos oportunidade de cotejar as pesquisas com a revelação das urnas. Escrevo este artigo na tarde de quinta-feira.

Deve-se levar em conta um aspecto importante: a pesquisa eleitoral é a única que se pode conferir, pois os prognósticos são publicados na imprensa, na televisão e nas emissoras de rádio. No dia seguinte a apuração emerge diante de todos, sem exceção. Pode-se até afirmar que a pesquisa eleitoral, de todas é a única que pode ser comprovada na prática.

Leio na quinta-feira dia 3, Folha de São Paulo, reportagem de Clovis Rossi, que assistiu ao último debate da campanha na televisão, audiência de 20 milhões de franceses, metade do eleitorado. Rossi também teve acesso ao levantamento do Ifop.

Este instituto vem acompanhando passo a passo a disputa pelo Eliseu e realizou investigações em série sobre as tendências do eleitorado. Apontou 53 para o socialista François Hollande e 47 para Sarkozy, que luta pela reeleição. A página escrita – muito bem – por Rossi inclui no espaço uma bela foto do debatem feita por Patrick Kovarik, da France Press. A sorte está lançada.

Vamos comparar os números da amostragem com os sufrágios populares. Cotejar uma coisa e outra é um bom exercício tanto político quanto numerológico. Verificaremos se os conservadores permanecem no poder por mais um mandato ou se essa linha de pensamento econômico social é substituída pela rosa vermelha às margens do Sena, símbolo que François Mitterrand, presidente leito e reeleito, legou como símbolo de justiça e esperança.

A atual política não vem dando certo, como não deu a do mesmo Mitterrand, na segunda etapa. O desemprego agora está batendo 10%, índice muito alto, sendo maior inclusive entre os jovens de 20 a 35 anos, a maioria relativa da população.

O debate se desenrolou em torno do trinômio trabalho, emprego, salário, como explicou Rossi.  A diferença de fuso horário é de 5 horas a mais para a França. Naquele país, tão belo e fascinante, a votação encerra-se às 18 horas. Treze horas no Rio. À noite teremos os números concretos e exatos.

Na minha opinião, vence Hollande, socialista. Seis pontos é uma diferença muito grande e as disputas francesas são geralmente decididas por margem pequena. Às vezes mínimas, como em 75, quando Giscard D’Estain derrotou Mitterrand por apenas 0,7%.

Rossi lembra este desfecho na reportagem. Sete anos depois, antes da redução dos mandatos, Mitterrand venceu o mesmo Giscard por 3 pontos. Em 88, nessa ocasião foi mais fácil: bateu Chirac pela margem de 7 pontos. Morreu no poder, final de mandato.

Jacques Chirac, centro mais para conservador, elegeu-se e reelegeu-se superando Lionel Jospin. Sarkozy veio em seguida superando Segolene Royale, ex-esposa de Hollande. A diferença foi 5 pontos. Agora vamos para mais uma viagem às urnas. A esperança se renova. E política, como disse JK, numa entrevista para o Correio da Manhã, é esperança.

O alto clero e o baixo clero

Sebastião Nery

Não se falava em outra coisa, em Brasilia, naquele junho de 1964, dois meses e meio depois do golpe e dois meses depois da posse do general Castello Branco na Presidência da Republica: a prorrogação de seu mandato.

Castello tinha jurado diante do Congresso, no dia 15 de abril: “Entregarei o governo no dia 31 de janeiro de 1966, a quem for eleito no dia 3 de outubro de 1965”. Mas no dia 8 de junho cassou logo Juscelino, candidato já lançado. Sobrou Lacerda.

Consultado pelos generais Cordeiro de Farias e Ernesto Geisel, “Castello chegou a ameaçar com sua renúncia, se o Congresso aprovasse a prorrogação à sua revelia”. Tudo farsa. A pedido de Daniel Krieger (UDN do Rio Grande do Sul), líder do governo no Senado, na biblioteca particular de Afonso Arinos, em Botafogo, no Rio, na maior moita, foi redigida, escondido, a emenda da prorrogação, que na hora oportuna seria assinada pelo senador João Agripino (UDN da Paraíba).

O jornalista Hélio Fernandes, amigo íntimo de Lacerda, várias vezes advertiu o governador da Guanabara de que a prorrogação significaria a liquidação de sua candidatura. Lacerda veio a Brasília com o vice Raphael Magalhães e Hélio Beltrão, secretário de Planejamento, conversar a UDN: “Deputados e senadores mostraram-se reticentes”. Na volta, no avião, Hélio Beltrão disse a Lacerda:

- Carlos, o presidente Castelo Branco fala que é contra a prorrogação. A bancada da UDN diz que não tem nenhuma responsabilidade na iniciativa. Mas assim mesmo a emenda vai passar. É um crime sem autoria, cujo alvo é a sua candidatura. Um crime perfeito, enfim.

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VACA FARDADA

Uma tarde, o general Olímpio Mourão Filho saía do gabinete de Castello, no Palácio do Planalto. O veterano repórter Ronan Soares o viu:

- General, o senhor veio tratar da prorrogação do mandato do presidente?

- Meu filho, em matéria de lei sou uma vaca fardada.

Um contínuo acompanhava o general Mourão. Ronan perguntou:

- Você ouviu o que o general disse?

- Não ouvi nada. Sou um boi à paisana.

Castello articulava a seu feitio: embuçado e disfarçado. No dia 18 de junho, almoçou com os cardeais da UDN: Bilac Pinto, presidente, Pedro Aleixo (MG), Paulo Sarazate (CE). À tarde, recebeu no Planalto “a parte da bancada do PSD que não rompera com o governo no expurgo de JK”. A assessoria de imprensa logo informou que, nos dois encontros, Castello “não permitiu que a conversa enveredasse para a prorrogação”.

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LIRA NETO

Em sua excelente biografia de Castello Branco, a mais isenta de todas (“Castello, a Marcha Para a Ditadura”), o jornalista cearense Lira Neto levantou e documentou o dia-a-dia da operação-prorrogação.

No dia 14 de julho, em Belo Horizonte, o governador Magalhães Pinto (que sabia não ter condições de disputar com Lacerda), diante do general Costa e Silva, ministro da Guerra, disse que “não havia clima para o país ir às urnas”. Lacerda respondeu no dia 15, na TV Itacolomi, de Belo Horizonte:

- Em vez das reformas de base, exige-se que o povo não vote, como condição da democracia. Uma parte do Congresso, que votou no presidente Castello Branco por medo dos tanques, agora pretende prorrogar-lhe o mandato por medo do povo.

Lacerda escreveu a Bilac Pinto, presidente da UDN:

“A prorrogação constitui um ato de covardia com o povo e somente beneficia os oportunistas e sinistros aventureiros que novamente se conluiam”.

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O VOTO BÊBADO

“Um dia após a entrevista de Lacerda em Belo Horizonte, o Congresso se reuniu em sessão noturna para votar a emenda. O Senado, com os expurgos, prometia uma votação tranqüila (43 a 6). Na Câmara, seriam necessários 205 votos para a maioria absoluta. A votação era protelada em busca dos deputados faltosos. Já passava de uma hora da madrugada, quando a votação finalmente teve inicio.

“Quanto faltavam vinte minutos para as 5 da manhã, votou o último deputado: 204 a favor, 96 contra. Derrotada por um único voto. A oposição comemorou com palmas e gritos. O senador Daniel Krieger, inconformado, argumentou que, com os expurgos, a Câmara estava desfalcada de 4 deputados e portanto 204 eram maioria”.

Tinham ido buscar o deputado Luiz Bronzeado, da UDN da Paraíba, que estava bebendo em um botequim do Plano Piloto. Chegou aos tombos, votou “não”. Depois consertou, dizendo que tinha votado “sim” e foi registrado “não”.

O alto clero do Congresso, comandado pelos cardeais da UDN, tinha prorrogado o mandato de Castello com um voto bêbado.

Essa é a diferença entre o alto clero e o baixo clero. O alto clero, segundo Lacerda, é um punhado de “oportunistas e sinistros aventureiros que se conluiam” em silêncio. O baixo clero se conluia escancaradamente.