Arquivos por mês: setembro 2011

Movimento pela Anistia e o PDT perdem uma de suas mais históricas militantes: Alaíde Pereira Nunes.

Por sugestão do comentarista Sergio Caldieri, reproduzimos abaixo o texto da homenagem recebida pela companheira Alaíde Pereira Nunes, por ocasião da entrega da 22ª Medalha Chico Mendes de Resistência 2010, organizada pelo Grupo Tortura Nunca Mais/RJ e outras entidades.

Alaíde está sendo velada na capela do cemitério do Catumbi, no Rio de Janeiro, onde será sepultada amanhã, dia 2/9, às 10hs.

***
NA LUTA, DESDE OS ANOS 30

Ricardo Pinheiro

Alaíde Pereira Nunes começou sua vida política nos anos de 1930, aos 16 anos de idade, quando da primeira tentativa de imposição da ditadura de Getúlio Vargas. Iniciou seu engajamento na luta pelo petróleo nacional, contra o entreguismo e o integralismo. No percurso foi presidente do Movimento Feminino pela Aliança Nacional Libertadora, na seccional de Campos, norte fluminense.

Logo após, em 1935, foi para a ilegalidade junto com seu companheiro de vida e de luta, Adão Manoel Pereira Nunes. Ficou nessa situação até a anistia que veio no ano de 1946. Entretanto, mesmo ilegal, em nenhum momento esmoreceu em sua luta contra as injustiças sociais, bem como pela integridade pátria.

Em 1946, com a anistia concedida por Getúlio Vargas, começaram a florescer novos movimentos políticos de oposição, pois Vargas tornou-se, em verdade, um ditador popular. E, sua luta continuava no território da oposição a esse regime que apenas parecia democrático, mas que na verdade não passava de um engodo.

E o tempo passou… Veio, então, o golpe de 1964, começando aí uma nova fase, quando Alaíde Pereira Nunes foi para o exílio, que durou quatro anos. No exílio sua luta resultou em muitos amigos – alguns que duraram toda uma vida – que chegavam e eram recebidos em sua casa, a qual se tornou, por assim dizer, um reduto de resistência e uma referência para os muitos brasileiros desalojados de sua terra.

Ao retornar ao Brasil, em 1968, tempos difíceis. No auge da ditadura militar que assolava nosso Brasil, tudo tinha que ser feito “por baixo dos panos”. Eram muitas as reuniões e as ajudas a amigos que precisavam se esconder para fugir das caçadas militares, amparadas pelo AI-5. Alaíde participou ativamente de toda uma luta de resistência ao terrorismo de Estado que se implantou no Brasil. Seu espírito revolucionário a impelia, cada vez mais, a lutar por esse país.

Em 1977, o Brasil vivia uma pseudo-abertura política, mas, ainda havia milhares de brasileiros presos e exilados. Foi criado, então, o Movimento Feminino pela Anistia, no qual se engajou imediatamente, para ajudar na libertação dos companheiros presos e dos que longe permaneciam, perdidos pelo mundo, sem identidade, distante da pátria que amavam, da língua… dos seus. No Movimento Feminino pela Anistia conseguiram-se muitas vitórias e a liberação de muitos companheiros.

Com o retorno de Leonel Brizola, em 1979, Alaíde ajudou, junto com seu companheiro Adão e outros tantos a fundar o Partido Democrático Trabalhista – PDT, onde permaneceu até hoje, sempre lutando contra as injustiças sociais e em prol de um melhor país.

A você, Alaíde, um exemplo de luta e de vida, as nossas homenagens!

Nada como o tempo para diferenciar a planície do planalto, em matéria de política.

Roberto Nascimento

Em relação à suposta campanha midiática para apear o presidente Lula do poder, em 2006, alegada por José Dirceu para se declarar mártir da democracia, ressalte-se que o fato é recorrente na história da política brasileira, desde o nascimento da República em 1889. O primeiro presidente, marechal Deodoro da Fonseca, por exemplo, foi derrubado pelo também marechal Floriano Peixoto.

Terminada a Segunda Grande Guerra, Getúlio Vargas em 1945 foi obrigado a entregar o poder ao Marechal Eurico Gaspar Dutra e instado a voltar para sua instância no Rio Grande do Sul. Retornando em 1950 pelo voto direto, foi levado ao suicídio em agosto de 1954 depois de uma campanha ferrenha da UDN, partido de oposição ao PTB e PSD.

Seu sucessor Juscelino Kubitschek também sofreu duas rebeliões de militares da Aeronáutica e quase não tomou posse. O Marechal Henrique Teixeira Lott colocou os tanques da Vila Militar nas ruas e garantiu a posse do presidente.

João Goulart foi derrubado em 1964 por uma ampla coalisão oposicionista no Congresso com apoio das classes conservadoras, tendo à retaguarda os Estados Unidos da América.

O general presidente Ernesto Geisel (1974 /1979) também sofreu tentativa de golpe de seu ministro do Exército, general Silvio Frota.

Desde que o Partido dos Trabalhadores foi criado, deputados e senadores da sigla eram considerados oposição raivosa. Todos os projetos dos governos constituídos recebiam voto contrário em bloco. Quem se insurgia era execrado e expulso da legenda.

Na anticandidatura (1979) de Ulisses Guimarães, tendo como vice, o ilustre jornalista, presidente da ABI, Barbosa Lima Sobrinho, eles só tiveram o apoio da sociedade e do MDB, porque ainda não havia o PT. Mas e depois?

Foi emblemática a orientação para não votar em Tancredo Neves na eleição indireta de 1985. Os deputados Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes votaram no político mineiro e foram expulsos do PT.

Fernando Collor foi levado a renunciar por uma campanha ampla de adversários, dentre os quais pontuava o PT como um dos partidos mais influentes na derrubada, que contou com o apoio das classes empresariais e da juventude “cara pintada”.

No caso de Lula, em 2006, creio que não interessava aos partidos de oposição, PSDB e DEM, a derrubada do presidente, pois inferiram que ele estava muito fraco devido ao escândalo do mensalão e apostavam que venceriam a eleição de 2006 até com certa facilidade. Entretanto, os fatos mostraram que a oposição cometeu um grave erro de estratégia.

***
SIMILARIDADE DAS PRÁTICAS DO PODER

O “mago” José Dirceu não percebeu ainda que o veneno que usavam contra os outros se volta agora contra o partido. O PT se posicionou contra o PLANO REAL, contra a CPMF, contra as DOAÇÕES E PRIVATIZAÇÕES DE EMPRESAS ESTATAIS, contra a REFORMA DA PREVIDÊNCIA, contra a supressão dos DIREITOS TRABALHISTAS, contra o PROER (ajuda aos bancos), e a favor das PRÉVIAS para escolha de candidatos a cargos majoritários.

Agora está no poder há 9 anos, o que fazer? Tudo ao contrário?

A oposição perdeu as condições de criticar tudo aquilo que os petistas implementaram, por isso o desespero de tucanos e demos. Raquíticos na representação das duas casas congressuais, sabem que dificilmente vencerão as próximas eleições, salvo ocorram reflexos na economia nacional fruto do agravamento da crise que assola Europa e EUA. Logo, desse mato não sairá nenhuma aventura golpista, Dirceu pode ficar descansado.

O poder realmente muda as pessoas e os partidos políticos. Assim foi e assim sempre será. É a sina, a maldição da humanidade nos atormentando ao longo da história.

 

Decodificando o discurso: a receita do nióbio e o apelo presidencial

Guilhermina Coimbra

Apelo presidencial, publicado no “O Globo”, 31/08/2011, informa a necessidade urgente de as lideranças ministeriais e legislativas trazerem receitas viáveis para a Caixa do Tesouro Nacional.

A reserva de receitas originárias, a ser auferida de um dos grandes patrimônios da Nação, que são os grandes depósitos (minas) de nióbio, mineral radioativo que jaz no subsolo brasileiro – de imensurável valor e múltiplas utilidades nas indústrias de base, é uma das raras fontes de receita originária que ainda restam no Brasil. (A receita originária é aquela não derivada da cobrança de tributos: impostos, taxas, contribuições). Assim, a receita originária é a que o Estado aufere sem onerar o contribuinte, através de suas atividades industriais.

É das receitas originárias asseguradas, que dependerão, o atendimento aos setores carentes, a segurança dos Poderes e a própria segurança do país – haja vista que face à reforma tributária pleiteada, a Caixa do Tesouro Nacional (a que faz a distribuição de rendas entre os setores carentes do Estado: infraestrutura, saúde, educação, habitação, transportes e outros) ao fazer a distribuição de rendas, não mais poderá contar com o mesmo percentual advindo das receitas derivadas (aquelas originadas dos tributos que tanto oneram o setor produtivo e o bolso do contribuinte brasileiro).

Apesar da receita originária do nióbio estar monopolizada constitucionalmente, porque, é minério nuclear de extrema importância –- na prática, e sem uma fiscalização eficaz, os que detêm o poder de gerir tais recursos podem ignorar o monopólio constitucional, como vêm ocorrendo de tempos em tempos.

E ao ignorarem o monopólio, realizam grandes negócios privados com bens públicos brasileiros esgotáveis, apoiados, justamente, pela ausência de fiscalização da receita originária da qual se trata e pela ausência de informação-divulgação desta receita – originada da exploração do minério nuclear nióbio (tão importante quanto o urânio, que, devidamente, enriquecido, é o Combustível do Século).

Haja vista, em passado recente, uma das maiores reservas de nióbio haver sido oferecida para licitação (felizmente, abortada) a um preço infinitamente vil, à revelia do conhecimento da população brasileira (os nacionais e estrangeiros residentes no país).

Marcos Valério (um dos principais investigados e interrogados, na Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios) declarou na CPI: … “O grosso do dinheiro vem do nióbio” (A informação está registrada nos Anais da CPI). No Brasil, todo mundo sabe o que todo mundo sabe. Não há como aceitar que a exploração do nióbio continue em “segredo” quando o apelo presidencial é para que tragam receitas para o desenvolvimento do Brasil.

Assim, em atendimento ao apelo presidencial, a receita advinda da exploração do nióbio (constitucionalmente assegurada) deve ser de direito e de fato, diretamente canalizada para o Caixa do Tesouro Nacional.
A maior aplicação do nióbio está no por vir, razão pela qual, a pressão tem sido para transferir para o exterior, a maior quantidade possível do metal, a preço vil.

O jornal Folha de São Paulo, já, em 28/06/05, publicava que Delegação da Comissão Européia visitaria o Brasil em breve para estudar alternativas de inclusão no projeto (ITER). O Brasil pode se envolver com o Projeto ITER – Reator Experimental Termonuclear Internacional. E a participação brasileira seria graças à reserva de nióbio localizada em Minas Gerais. A maior do mundo.

O nióbio, metal condutor poderoso, será usado para construir molas (bobinas) gigantes e gerar um campo magnético para conduzir o processo de fusão nuclear dentro do reator.

Assim, as usinas termonucleares limpas e muito mais seguras que as atuais nucleares – geradoras de energia farta e barata – se multiplicarão sem restrições pelo planeta exigindo milhares de toneladas de nióbio puro para mantê-las acesas.

Daí o entendimento, corretíssimo, de não haver argumento justificador da entrega in natura, de nenhum tipo de mineral nuclear: eles serão imprescindíveis ao desenvolvimento do país, tecnológica e industrialmente.

“Com este magnífico feito o homem passará a dominar também o fogo termonuclear, aquele que ocorre no interior das estrelas pela fusão de átomos de hidrogênio a uma temperatura de 15 milhões de graus centígrados, gerando hélio e uma brutal quantidade de energia limpa, barata e inesgotável, pois, o trítio isótopo pesado do hidrogênio usado como combustível é abundante na face da Terra na forma de água pesada”. (in “Serão Mesmo Nossos, os Nossos Minérios?”, de Roberto Gama e Silva). Com esse entendimento, os Ministérios da Fazenda, de Minas e Energia, do Desenvolvimento, Industria e Comércio Exterior e o Poder Legislativo Federal terão, por dever de oficio, que cuidar das nossa reservas de nióbio a ferro e fogo por diversas razões inquestionáveis, entre elas:

1) o preço do metal nióbio, num futuro próximo, deverá subir ao espaço na Bolsa de Metais de Londres e isto significará cada vez mais receitas para a Caixa do Tesouro Nacional;

2) porque entender o contrário seria o caso de se instalar Comissão Parlamentar de Inquérito, imputando aos diretamente envolvidos, vale dizer, imputando aqueles que insistem no conluio do silêncio sobre o nióbio, com o devido processo legal penal, pelo crime de conivência com o desvio de minerais nucleares energéticos constitucionalmente assegurados.

Receita do NIÓBIO diretamente para atendimento do apelo presidencial, já!  O apelo presidencial – de uma ex-ministra das Minas e Energia do Brasil – não pode ser ignorado, porque, o apelo presidencial não ignora que é das minas de nióbio que advirá o grosso das receitas objeto do apelo.

(Guilhermina Coimbra é profa. adjunao de Direito Público e Privado, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e membro do Conselho da Federação Interamericana de Advogados/FIA, Washington, D.C.)

Cunhado não é parente, desabafa Ackmin, sobre o novo caso de corrupção em São Paulo.

Carlos Newton

Como todos sabem, a corrupção é fenômeno político que grassa nos mais diversos partidos brasileiros, independentemente de ideologia. Agora vem à tona mais um caso, desta vez no ninho dos tucanos. Uma empresa que tem como sócios parentes de Lu Alckmin, mulher do governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), é investigada sob suspeita de ter se beneficiado de uma fraude de R$ 4 milhões contra a Prefeitura de São Paulo.

Reportagem de Evandro Spinelli e Giba Bergamim Jr., publicada pela Folha de S. Paulo, mostra que o esquema, que também envolve outras empresas, foi alvo de operação em conjunto da Corregedoria Geral do Município, Polícia Civil e Ministério Público e resultou na prisão de quatro pessoas na última sexta-feira.

A prefeitura afirma que a empresa dos parentes de Lu Alckmin – Wall Street Empreendimentos e Participações – falsificou documentos para pagar um valor menor de taxas cobradas para autorizar a construção de prédios. A taxa em questão é a outorga onerosa, dispositivo que permite a construção de imóveis acima do limite previsto, mediante pagamento à prefeitura.

Por conta das fraudes, a Prefeitura de São Paulo promete interditar a partir desta terça-feira as obras de 21 prédios, alguns deles de alto luxo, nas zonas leste e oeste da cidade.

A construção de edifícios é livre até o limite definido para cada região da cidade, chamado de gabarito.Em São Paulo, permite-se que a edificação ultrapasse o gabarito, mas para tanto o proprietário do imóvel precisa requerer à prefeitura a concessão da “outorga onerosa”, pagando um tributo adicional.  

Estão sendo investigadas 23 empresas, entre elas a de Geraldo Cesar Ribeiro Filho, irmão da primeira dama e, portanto, cunhado do governador Geraldo Alckmin, Sua empresa é suspeita de ter fraudado um boleto de IPTU, que teria possibilitado economia ilegal de 4 milhões com a outorga onerosa.

Alckmin não é atingido diretamente pelo escãndalo, mas fica na antiga condição de Leonel Brizola, a proclamar que cunhado não é parente.

Enfim, acabou a escravidão dos taxistas que trabalham em carros de empresas ou de particulares.

Carlos Newton

A partir de hoje, os milhares de motoristas que trabalham para empresas ou para proprietários de taxis passam a ter direito à carteira assinada, desconto de INSS, no regime da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) com férias, décimo terceiro salário e  FGTS,

É o que estabelece a Lei 12.468, publicada no Diário Oficial de 29 de agosto. Enfim, os motoristas profissionais têm sua profissão reconhecida no país. Mas ainda faltam detalhes complementares. Por exemplo: qual o piso salarial da categoria? Qual a jornada de trabalho? Quais os dispositivos da CLT que se aplicam à categoria? A presidente Dilma terá que fixar tudo isso em decreto.

Mulher do ministro Negromonte, que é prefeita na Bahia, faz “ação entre amigos” em licitações.

Carlos Newton

Complica-se a situação do ministro das Cidades, Mario Negromonte, agora por conta de irregularidades cometidas pela mulher dele, Ena Vilma Negromonte, que é prefeita de Glória, na Bahia, e eleita também pelo PP. Uma empresa contratada pela prefeitura é administrada pelo irmão da melhor amiga e assessora da prefeita. É a Jair Serviços e Construções Ltda., que  já recebeu quase R$ 1 milhão para tocar obras no município, depois da eleição de Ena.

Como o jornal Correio Braziliense revelou na edição de domingo, a empresa é desconhecida na região e funciona em uma casa de classe média no Loteamento Panorama, em Paulo Afonso, a 13 km de Glória. O contrato mais recente da prefeitura de Glória com a Jair Serviços foi publicado em 18 de agosto no Diário Oficial da União. É para a construção de um posto de saúde com recursos do Fundo Nacional de Saúde. Por coincidência, é claro, o ministro Negromonte — quando era deputado federal — destinou R$ 2 milhões em emendas para a construção de unidades médicas por meio do fundo.

Criada em 1999 como uma empresa de locação de mão de obra, a Jair Serviços foi registrada em nome dos irmãos Jair e Tânia Amorim. Em 2 de abril de 2009, José Gomes da Silva Filho, conhecido como “Nanau”, ingressou na sociedade como administrador. O capital social da empresa também aumentou: passou de R$ 70 mil para R$ 280 mil.

Ena Negromonte já tinha sido eleita e a amiga — Fátima Gomes, irmã de “Nanau” — colhia os louros da bem-sucedida campanha eleitoral com um cargo na prefeitura de Glória. Depois de coordenadora de campanha, ela tornou-se secretária particular da prefeita.

Fátima e Ena Vilma se conheceram há mais de quatro décadas. São amigas desde a época de colégio em Paulo Afonso (BA). Assim como a prefeita de Glória, a secretária não mora no pequeno município de pouco mais de 10 mil habitantes em que trabalha. As duas também têm um discurso pronto — e repetido — para o aumento no volume de recursos para a cidade baiana. “Aqui o que prevalece é a decência. Glória trabalha com decência. Se Glória está conseguindo as coisas é com muito trabalho.”

Em entrevista por telefone, Fátima defende o irmão. “Ele não faz nada de errado porque tivemos uma educação muito boa quando criança.” Em seguida, disse que não vê ilegalidade na contratação da empresa. “Não tem conflito. É uma coisa sem pé e nem cabeça. Se a empresa participa da licitação é porque apresenta as qualidades”, diz. E, completa: “Ele (Nanau) é administrador e não o dono. Já até trabalhou em outros lugares. Ele mexe com reciclagem e com sucata”.

A amiga de Ena Vilma sustenta que a Jair Serviços não é de fachada, mas quem manda na empresa é Valmir Alves Bezerra, representante nos processos licitatórios. “Ele (o Nanau) não vive infiltrado. É mais o outro (Valmir).” A empresa funciona na casa de Nanau, no Loteamento Panorama. O ministro e a prefeita têm cinco lotes no bairro, incluindo o escritório político da família. E “la nave va”, fellinianamente.

Aposentadoria de servidores não é déficit: eles pagaram a vida toda por ela

Pedro do Coutto

Um absurdo completo, uma colocação sinuosa e inverídica afirmar que as despesas da União com aposentadorias e pensões dos servidores civis e militares representa um déficit financeiro no orçamento. Tal declaração foi feita à repórter Ana Carolina Oliveira, Folha de São Paulo de terça- feira, 30, pelo Secretário de Seguridade Pública da Previdência, Jaime Mariz. Sustentou ele que, tal prejuízo, este ano, está previsto na escala de 57  bilhões de reais.

Em que se baseou ele? – perguntam os leitores. Na lei de meios em vigor, Diário Oficial de 29 de Julho, das pags. 63 às 65, relatório da Secretaria do tesouro nacional por Gilven da Silva Dantas.O orçamento deste exercício alcança 1 trilhão e 994 bilhões de reais em números redondos. Deste total (está lá assinalado) os encargos com o pessoal civil e militar, ao todo 1 milhão e 100 mil servidores, elevam-se a 183,5 bilhões. Não chegam a 10% da despesa geral. Menos, inclusive do que a despesa do governo federal com o pagamento dos juros anuais à rede bancária pela rolagem da dívida interna que atinge maias de 2 trilhões.

Muito bem. Da parcela e 183,5 bilhões de reais, um terço refere-se ao pagamento dos aposentados civis, dos reformados militares, dos pensionistas de ambas as categoria. É por isso que, desinformando a repórter Ana Carolina e aos leitores, Jaime Mariz aponta o falso déficit de 57 bilhões. Não há déficit algum. Qual a proposta? Acabar com a aposentadoria no país? Isso de um lado. De outro, omite que funcionários públicos contribuíram a vida toda para a Seguridade Social pagando 11% sobre seus vencimentos sem limite. Os descontos foram praticados. Para onde foi o dinheiro? Como foi aplicado? Qual seu destino?Aposentadorias, reformas e pensões são benefícios. Não são favores ou concessões. Nada disso. São seguros sociais que os estipulantes, no caso os funcionários, conquistaram pagando por eles. Como se fossem, vale frisar, apólices da previdência privada, seja ela aberta, como a que os bancos oferecem, seja fechada caso dos fundos complementares de aposentadoria do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás, Furnas, Eletrobrás, Eletronuclear e Empresa dos Correios.

Quaisquer apólices vencem com o término do prazo de contribuição. Cabe às seguradoras e aos fundos de pensão aplicarem correta e eficientemente o dinheiro recolhido, inclusive com valores atualizados, uma vez que a cada reajuste de salário corresponde um pagamento maior em números absolutos. Afirmar o contrário é uma desleal tentativa de iludir os que não conhecem bem o tema. Jornalistas, em vários casos, se deixam levar por colocações fantasiosas sempre buscando pesar contrariamente aos direitos que vêm do trabalho humano.

O secretário Jaime Mariz chegou ao ponto de dizer à repórter da FSP que, enquanto o déficit da Seguridade é de 57 bilhões, o do INSS, que reune 26 milhões de trabalhadores regidos pela CLT, pesa 43 bilhões de reais. Incrível. Neste caso, como o orçamento federal é unificado, o déficit não seria nem de 57 nem de 43, mas sim de 100 bilhões de reais. Nunca jamais em tempo algum, para citar Lula, houve uma informação assim. Os leitores já sentiram que o custo das aposentadorias do funcionalismo civil e militar está senado contabilizado. Pesa contra de um lado e igualmente de outro.Para chegar a isso, é necessário apenas mudar a matemática de Einstein e sua teoria de 1905. Cria-se um novo sistema: somam-se as despesas, mas não se somam as receitas. O resultado final? Uma farsa completa. Extremamente negativa para o governo Dilma Roussef.

Dirceu, a Esfinge de cabelo implantado, desafia Lula e Dilma Rousseff: “Decifra-me ou te devoro”, diz ele.

Carlos Newton

Pedro do Coutto escreveu aqui no Blog sobre o comportamento do ex-ministro José Dirceu, que no quesito “desencarnar do poder” rivaliza com o ex-presidente Lula. Mas existe uma diferença entre os dois, Lula não desencarna, mas está no gozo de seus direitos políticos,  não foi cassado nem está respondendo a processo no Supremo Tribunal Federal, como é justamente o caso de Dirceu, principal réu do Mensalão.

O artigo de Coutto recebeu muitos comentários de apoio e também de críticas, pois não falta quem apoie as intervenções de José Dirceu na política, no PT e no próprio governo. Mas não há dúvida de que isso somente ocorre porque Dirceu está convicto de que o Supremo não vai julgar o caso do Mensalão e os crimes vão prescrever. Esta é uma certeza que o PT tem, tanto assim se insiste em prestigiar outros réus, como o deputado João Paulo Cunha, por exemplo, que hoje preside a Comissão de Justiça da Câmara, e isso mais parece uma provocação.

No último dia 19, comentamos aqui no Blog o fato de Dirceu ter ficado milionário com as “consultorias” que deu a alguns dos maiores empresários que atuam no país, nacionais ou estrangeiros, entre eles o próprio Eike Batista, através de evidente tráfico de influência. Portanto, ao abrir a “consultoria”, Antonio Palocci apenas seguiu o exemplo de seu precursor na Casa Civil, fazendo o mesmo que ele e usando o prestígio de que desfrutava no governo.

Por ora, Dirceu não tem o que fazer e se diverte se tornando uma eminência parda no PT, cujo presidente atual, Rui Falcão, é inexpressivo, e deve ser substituído por José Genoíno, outro réu do mensalão, vejam a que ponto o partido chegou. Dirceu está fora da política eleitoral, devido à sua cassação, mas não deixa de lado a política partidária. “Até 2015 farei o que sempre faço: política. Sou dirigente do PT, militante e, como todo mundo, também tenho que trabalhar, sou advogado”, anuncia, e segue intervindo em todas as questões de importância dentro do partido.

Ninguém sabe o que se passa na cabeça de Dirceu nem os sentimentos que o movem. Se não tivesse havido o caso do  Mensalão, Dirceu sabe que estaria hoje na Presidência da República. Era o candidato natural à sucessão de Lula, não há a menor dúvida. Foi abatido em pleno vôo, Dilma Rousseff ocupou seu lugar, em todos os sentidos.  O que será que ele pensa disso? Ninguém sabe.

O que se sabe, com toda certeza, e a reportagem da revista Veja o demonstra claramente, é que Dirceu não desencarnou do poder e continua funcionando como uma espécie de eminência parda no governo, um Rasputin imberbe e de cabelo implantado.

É claro que seu comportamento incomoda a presidente Dilma Rousseff, ninguém vá pensar que Dirceu exerce esse poder paralelo em benefício dela. Deve incomodar também a Lula, que não aceita ter concorrentes no controle do PT. Isso significa que Dirceu não está do lado de Lula nem de Dilma. Do jeito como está atuando, uma coisa é certa: Dirceu não está ajudando nem Dilma  nem Lula. Só está complicando as coisas, mas sua infinita vaidade não permite que faça por menos.

“Até as pedras sabem que eu sou governista. Pode ter alguém que apoie tanto quanto eu [o governo Dilma], mas é difícil’, afirmou, referindo-se à matéria da revista Veja como “a piada do ano”.

“Isso é natural, eu tenho todo o direito de fazer política. Que eu encontro com parlamentares, com políticos, com governadores, isso é sabido. Eu viajo pelo Brasil, sou recebido, faço debates, faço palestras”, afirmou Dirceu, minimizando o fato de ter se reunido com autoridades em dois quartos reservados no hotel Naoum, em Brasília.

O ex-ministro disse não ver nada de estranho em ter recebido ele mesmo a visita das autoridades, e não o contrário. “Por que eu não vou ao Congresso? Porque eu fui cassado. Eu só vou ao Congresso no dia em que ele me dar anistia. É o mínimo de dignidade que eu tenho que ter, já que fui vítima de uma violência jurídica. Depois que o Supremo me absolver, que eu espero que ocorra o mais rápido possível, vou pedir anistia ao Congresso”.

Mas será que isso significa que ele se julga uma terceira via? Estará jogando desde agora para a sucessão de 2118, quando terá 72 anos e enfim poderá ser candidato à Presidência? Se isso passa pela cabeça dele, ninguém sabe, mas seu comportamento atual é estranho e suspeito.

 

 

Ratos e ratazanas em Brasília

Carlos Chagas                                                       

Anos atrás, quando alguns ingênuos e muitos malandros sem assunto escreviam e discursavam contra Brasília, chamando-nos  de paraíso dos corruptos e ninho de ratos,  ficava fácil  devolver a grosseria, respondendo  que os ratos e os corruptos vinham de fora. Chegavam às terças e iam embora às quintas-feiras. Até que essa réplica deu certo, porque pararam de denegrir a capital federal.                                                        

Recrudesceram. Voltaram a jogar lama em Brasília,  e o diabo é que perdemos nossos argumentos. Desde o escândalo que resultou na cassação do senador Luís Estevão até a renúncia do senador Joaquim Roriz, para não ser cassado, e entrando pela lambança do governo José Roberto Arruda, a conclusão é outra. Corruptos e  ratos  vicejam por aqui. Ratazanas, também. Não se afastam da cidade nos fins de semana, porque foram eleitos pelo povo de Brasília.                                                        

Uma lástima.  A cidade viu-se  nivelada por baixo. Apesar de figuras exemplares ainda sejam  encontradas na representação eleita pelos brasilienses, aumenta a olhos vistos o número de lambões.  Integraram-se na quadrilha que vem de fora, a ponto de não haver diferença entre os diversos tipos de  roedores.                                                        

Evidência disso foi a absolvição de  Jacqueline Roriz, que saiu aos seus. Flagrada recebendo dinheiro podre de um podre assessor do pai,  acaba de ter seu mandato de deputada federal confirmado  por 265 colegas. Apenas 166 votaram pela sua cassação, sendo que 20 se abtiveram. Não houve distinção partidária. Ela recebeu a  solidariedade da maioria das bancadas do PMDB, do PT, do PTB e outras legendas que apoiam o governo federal e o governo local, mas, também, do PSDB, do DEM e do PPS, da oposição. Espera-se que ratoeiras venham a ser  artigo muito bem vendido nas próximas eleições.

***
MANDA OU NÃO MANDA                                                        

Esta semana a presidente Dilma Rousseff  falou diversas vezes na necessidade de redução da taxa de juros, a maior do planeta. Fica no ar a pergunta: não é ela que manda? Que nomeia e que demite o presidente e os diretores do  Banco Central?                                                        

A indagação acopla-se às dúvidas que Voltaire derramava sobre a França, a propósito da existência de Deus e das desgraças que assolavam a Humanidade: ou Ele pode e não quer, ou quer e não  pode evitá-las.                                                        

Há quase  unanimidade no país a respeito dos juros: empresários e trabalhadores insurgem-se contra a decisão  imposta por tecnocratas e aplaudida por banqueiros.  A dívida pública transformou-se na caverna do Ali Babá, para os especuladores, corroendo esforços nacionais pelo desenvolvimento econômico. Por que, então, a presidente simplesmente não ordena que o BC reduza as taxas? Não faltarão economistas para respaldar a iniciativa. 

***
CARTAS MARCADAS                                                        

No Congresso,  pouquíssimos parlamentares gostariam de ver a reforma política aprovada antes de outubro, para que pudesse valer para as eleições de 2012. A maioria discute, debate e apresenta sugestões, mas é tudo de mentirinha. Deputados e senadores empurram com a barriga mudanças capazes de aprimorar o processo eleitoral e institucional.

Dão a impressão de estar a favor, mas, na realidade, pretendem deixar tudo como está. Sonho de noite de verão será esperar que votem alguma coisa para valer nas eleições de 2014. Nelas, mais estarão  em jogo o futuro e as carreiras de Suas Excelências. Melhor deixar tudo como está. 

***
O FUTURO NAS PROFUNDEZAS

Não se tem informações claras a respeito da exploração do petróleo descoberto no pré-sal, a não ser que parcela ínfima daquela riqueza está sendo explorada. As despesas são imensuráveis e apesar da  contribuição de algumas empresas privadas, a Petrobrás defronta-se com missão quase impossível.   Talvez por isso o governo venha adiando a renovação do equipamento da Marinha e da Aeronáutica.  Se é para defender e garantir riqueza ainda imobilizada, para quê novos submarinos e aviões de caça? Até os americanos, os  maiores interessados em nossas  reservas de petróleo,  vem dedicando pouco interesse à recém-criada IV Frota de sua Marinha de Guerra, composta mais no papel do que na realidade.

Herói assassino

Sebastião Nery

SALVADOR – Em 1979, o deputado Frederico Trota, do MDB da Guanabara, foi convidado a ir à Líbia do coronel Kadafi. Chamou o companheiro de partido Edson Khair para irem juntos. Nas vésperas da viagem, Kadafi mandou todos os estrangeiros abandonarem o país. O velho Trota desistiu e indicou o deputado Mário Saladini para ir em seu lugar.

Lá se foram Saladini e Khair, Rio, Paris, Trípoli. Mal desceram no aeroporto de Trípoli, enquanto esperavam a bagagem, Saladini, garganta seca ante o deserto ali perto, pediu um uísque no bar. O garçon, solicito:

- Na Líbia é proibido servir bebida alcoólica.Somos um país islamita.

- Pois eu nunca passei 24 horas sem tomar um uísque.

Saladini não saiu sequer do aeroporto. Deixou Khair lá, pegou um avião e voltou para Paris. Um pais sem álcool é um pais inviavel.

***
TRIPOLI  

Em agosto de 1989, meus amigos Eliana e Brasil Helou, presidente da Fearab (Federação das Entidades Árabes no Brasil), me convidaram para o “Congresso do Mundo Árabe” em Trípoli, na Líbia.

Brasileiros de vários Estados. De São Paulo, os deputados Aldo Rebelo, Samir Achoa, Ricardo Izar e Maluly Neto. Do Rio Grande do Sul, o deputado Amaury Muller e sua islamita Samira. Do Amazonas, a deputada Bete Azize. De Alagoas, o deputado Alberico Cordeiro. De Brasília, os jornalistas Jorge Jardim e Celina, Silvestre Gorgulho e Regina, e eu.

***                                         
LIBIA

A Líbia é um misterioso pedaço do outro mundo. Numerosas tribos andarilhas de beduinos negros caminhando no deserto escaldado, com seus camelos tortos e vivendoem acampamentos. Tinham apenas o deserto amarelo e abrasado, os camelos de lombo duplo e o horizonte sem fim.       

Nos romances e filmes sobre os tempos de Cristo, como “Ben Hur”, “Barrabás”, havia sempre soldados líbios prisioneiros, grandes e luzidios negros fortes, gladiadores que lutavam até o ultimo instante, valentes e enormes, que acabavam sangrados, nas farras oficiais dos Césares.

Os gregos ocuparam. Depois, egípcios, romanos, turcos,  otomanos. Há ruínas e restos surpreendentes de civilizações, como a cidade romana de Lepsis, bem preservada. E chegaram alemães, italianos. Em 1936 Mussolini pôs 400 mil soldados para dominarem 800 mil habitantes. Não conseguiu.

***
EUA

Depois da 2ª Guerra, em 1951, ingleses e americanos puseram lá um rei de mentira, Idris I, para explorarem o país. Em61, aEsso descobriu petróleo. Um povo miserável sentado em cima de uma riqueza fantastica.

Não podia dar certo. Os jovens tenentes da Academia Militar de Bengazi criaram o grupo “Oficiais Unionistas Livres” para tomarem conta de sua terra e seu povo, depois de três mil anos de ocupação e escravidão. Eram quase meninos liderados por um jovem tenente de 27 anos, Kadafi, que estudou 2 anos em Londres.O projeto era expulsar os invasores que mandavam no rei e tinham forças militares poderosas, com aviões ultra-modernos e a maior base norte-americana fora dos Estados Unidos.

***                      
KADAFI

Em 1º de setembro de 1969, os tenentes de Alá desencadearam a “Operação Jerusalém”, derrubaram o rei, expulsaram os americanos, ingleses, italianos, fecharam a base americana, nacionalizaram os bancos e empresas estrangeiras, sob a liderança de um “Conselho do Comando Revolucionário”, dirigido por Kadafi e mais onze, todos mais jovens que ele.

Era a “Revolução do Al Fatah”, sob a inspiração do herói nacional Omar Al-Moukhtar, que em 1936 foi fuzilado por resistir à invasão de Mussolini, lutando “pela Libia, pelo Arabismo e pelo Islã”. Em 1969, ninguém foi fuzilado ou enforcado. Todos os estrangeiros expulsos do país.  

***
O “BUNKER”

Fui ver a casa de Kadafi, no centro de Trípoli. Disseram que era uma casa comum, em um bairro popular. Mentira. De fato, uma fortaleza, em um bairro popular. Um enorme quarteirão, cercado de muros altos, sistema de defesa completo, TV e foguetes para defesa. Dentro, casas onde vive a guarda com suas famílias, roupas nas varandas. E o “bunker” de Kadafi no centro. Três andares ligados por escadarias e elevador, varios quartos, a suite dele, imensa, escritórios. Vivia lá com a mulher e oito filhos.

Uma noite, dezenas de aviões americanos mergulharam sobre a casa e bombardearam. Se estivesse em casa teria morrido. Os tiros atingiram sobretudo os quartos, as salas, arrasando tudo. Um caça americano foi derrubado no quintal, outros perto do mar. Kadafi não estava. Ou estava no subsolo, com a família. A menina Ana, de dois anos, morreu, no quarto. A mãe, na cozinha, salvou-se. Hoje Kadafi vive em um “bunker” no deserto.

Agora, 42 anos depois, o herói da libertação da Líbia em 69 tornara-se um ditador corrupto, histérico,  genocida, assassino de seu povo.